A velocidade sempre fascinou a humanidade, desde a época das cavernas os humanos tentam descobrir métodos de se locomover mais rápido, naquele tempo era compreensível pois, não raro, tinham que fugir de algum predador muito mais veloz que eles. Escapar de um predador produzia um prazer indizível, equivalia a nascer de novo, por isso a corrida foi se incorporando ao fazer humano como fonte de adrenalina e consequentemente de prazer. Isso explica porque naquele 19 de maio de 1948 os irmãos Achiles e Abel disputavam uma carreira. As carreiras eram comparáveis aos atuais rachas feitos entre jovens atualmente. Como naquele tempo só existiam cavalos por lá é natural que as corridas fossem nesta modalidade. Uma das diversões preferidas da gurizada, quando tinha apenas um cavalo a corrida era feita da seguinte forma: dividia-se a cancha em duas metades e o corredor a pé começava na metade enquanto o cavaleiro percorria o trecho todo. Diversas modalidades eram usadas para este tipo de competição, a mais comum era a cancha reta, que em geral apresentava alguns problemas porque não tinha grandes retas nas estradas e caminhos. Por isso a carreira terminava na reta, mas o espaço para desaceleração ficava numa curva.
Os Piovesans: Thereza, Odila, Clementina, Lino, Pio, Inacio, Maria e Abel cantando. note-se que o Abel ao movimentar-se evidencia a perna quebrada.
Como nos rachas, as curvas em alta velocidade sempre representaram perigo, mesmo nas corridas de cavalos, e por isso sempre foram propícias para acidentes.
– Lá vêm os dois irmãos cavaleiros em alta velocidade, passo a passo, paleta a paleta, numa corrida emocionante, se aproximam da linha final, praticamente, emparelhados, e… cruzam a linha de chegada!
Os cavalos ainda correm um pouco na curva enquanto os cavaleiros praticam as manobras de desaceleração, o cavalo do Abel resvala e lá se vão os dois para o chão, não houve vencedores. O Abel saiu com uma perna quebrada e o Achiles teve que teve que carregar o mano para casa.
O que tinha de mais avançado na época para ossos quebrados era a prática exercida pelo Domingos Casarin, tradicional arrumador de ossos de Nova Palma, que procedeu a entalação da perna, após ter posto os ossos no lugar. Para imobilizar um membro quebrado era feito a entalação usando preferencialmente talas de taquara de 25 a 30 centímetros de comprimento por três ou quatro de largura, enroladas em um pano macio, em geral tiras de um lençol velho. As talas eram colocadas ao redor da perna ou braço quebrado e fixadas com mais tiras de pano, coladas com breu. Este tipo de imobilização era muito eficiente e fácil de fazer com os recursos limitados que havia naquela época. Fico a imaginar o que foi a arrumação do osso sem anestesia, embora seu Domingos tivesse bastante prática, com certeza não foi brincadeira.
Quem já quebrou um osso sabe muito bem que a dor que se segue nos dias subsequentes é algo capaz de fazer qualquer um delirar. E é no pós-quebradura que a história toma rumos diferentes, existem duas versões explicativas para o ocorrido. A primeira dá conta de que uma noite deu um temporal e o Abel tendo levado um susto sem perceber mexeu a perna colando fora do lugar. Mais tarde, quando foram tiradas as ataduras e talas, percebeu que sua perna estava alguns centímetros mais curta, o que mais tarde lhe deu problemas de coluna.
Mas existe outra versão, a do irmão Lino. Segundo o ele o Abel era sonâmbulo, chegando muitas vezes a levantar a noite, em noite de lua, e encangar os bois e ir lavrar dormindo. Falaremos disso noutra oportunidade. Estando ele convalescendo, após a fratura da perna ele ficou vários dias na cama, teve febre e era mantido acordado o dia todo para poder dormir quando o cansaço e a dor tomassem conta dele à noite. Depois do segundo ou terceiro dia começava a aliviar a dor e ele conseguia descansar melhor durante o dia, numa noite, ainda cedo, quando a família se preparava para jantar alguém viu o Abel passar em direção à estrebaria caminhando com extrema dificuldade e o nono gritou:
– Cossa sito drio fare? (O que você está fazendo?)
Ao que o Abel respondeu tranquilamente:
– Vao tchapare i boi par arare. (Vou pegar os bois para lavrar)
Foi um corre-corre saíram todos para fazê-lo voltar para a cama.
Apesar do serviço do arrumador de ossos ter sido feito com esmero, os ossos que estavam quebrados na diagonal sofreram um deslizamento que acabou fazendo com que a perna ficasse mais curta.
Arquivo do Autor: Liceo Piovesan
Abraço de tamanduá
Corria o ano de 1910 tranquilamente o quinteto de irmãos Bepetto, Ângelo, Toni, Valentin e Augustinho aproveitavam a entrada do inverno, quando a bicharada fica mais lenta por causa do frio, para perambular pelos matos e peraus. A vantagem de morar perto da floresta estacional semidecidual, isto é aquela onde algumas árvores derrubam as folhas no inverno, era que no inverno era mais fácil de circular pelo meio da mata e também mais fácil de encontrar animais. O Bepeto já tinha quatorze anos e o menorzinho o Augustinho já ia fazer seis e já acompanhava a trupe, porque não queria ficar em casa com a mãe gravida, a irmã e os menores o Guido e o Francisco. De qualquer forma as atividades não eram lá muito perigosas para uma criança, não tinha grandes animais ferozes nos matos daqueles peraus do vale do Portela. Certamente o Valentin e o Augustinho tinham certas dificuldades para subir em árvores pelos cipós, mas isso não era o problema quando se tratava de alguma caçada.
Domingo de manhã o Giovanni levantava cedo para percorrer a pé os quase dois quilômetros para cantar a missa. A filharada ia de tarde para a catequese, pelo menos os três mais velhos. Neste contexto eles aproveitavam para fazer uma saída aventuresca na parte da manhã enquanto o pai não estava em casa. Uma atividade bastante divertida era (castrare le bisse), castrar as cobras. Isso mesmo, eles chamavam assim a atividade de pegar as cobras com uma taquara apertando levemente logo atrás da cabeça, depois um deles pegava a cobra bem pertinho da cabeça de tal forma que ela não conseguisse se virar e morder. A cobra abria a boca tentando morder e outro cortava a parte de baixo, a mandíbula, da cobra que era solta e saia se debatendo desesperadamente. Isso era feito para que a cobra não pudesse morder mais ninguém, segundo eles desta forma não matavam a cobra e eliminavam o perigo.
Quanto aos bugios a coisa era diferente, pois destes eles nem conseguiam chegar perto, quando se aproximavam os danados faziam as necessidades fisiológicas na mão e atiravam nos agressores, e o cheiro não era nada bom. Por um lado era muito engraçada a estratégia de defesa, por outro isso dava uma boa ideia, mas deixa pra lá essa é outra história. Quando a saída é para caçar tem que trazer algum animal para casa e nem cobras nem bugios eram boas ideias. Sobrava os tamanduás, só que os tamanduás tinham garras afiadíssimas que podiam matar uma criança como eles caso desse um “abraço de tamanduá”.
Quando um tamanduá é agredido ele de apoia na cauda e patas traseiras, levanta-se como se estivesse de pé, abre os braços e quando o agressor se aproxima joga-se contra ele abraçando-o fortemente e cravando as unhas (garras) nas costas do agressor, podendo matar até mesmo um animal bem maior do que ele. Mas como falei anteriormente era frio e nesta época todos os animais ficam mais lentos, inclusive os tamanduás.
Grandes conhecedores dos hábitos e costumes dos animais selvagens, porque conviviam mais com estes do que com outros humanos, os irmãos Piovesan desenvolveram técnicas especializadas para a captura dos mais diversos animais que viviam nos matos e peraus que frequentavam. Uma era para tamanduás.
A técnica exigia um ferramental específico: uma taquara com uns dois metros ou mais e um toco de madeira, meio apodrecida, de mais ou menos um metro de comprimento por uns 25 centímetros de diâmetro. A estratégia consistia em provocar o animal com a taquara, cutucar, assim ele assumia a posição de defesa que na verdade era a posição de ataque. Fazendo bastante barulho eles, menos um, ficavam na frente do animal provocando-o até ele ficar no ponto de atacar. O Piovesaneto que não ficava provocando o bicho fazia uma volta por trás sem ser notado carregando o toco de madeira, num determinado momento, que eles conheciam por experiência o toco era passado sobre a cabeça do animal e colocado em sua frente. O tamanduá agarrava-se firmemente no toco cravando suas garras e ficando preso.
A piazada então tomava o caminho da casa, carregando o toco com o tamanduá, inofensivo por estar abraçado firmemente ao toco. Isso é um abraço de tamanduá.
O anjo da guarda.
Existe uma teoria que tudo se resolve em três etapas. Deus tem três pessoas. O banquinho de três pernas é sempre estável e por aí vai… o número três é um numero mágico. E por falar em pernas a mentira tem pernas curtas.
Um.
O caminho para o Bom Retiro já era bem conhecido o Carlinhos, vulgo Mano, que trilhava todos os domingos, sempre aproveitando o atalho pela rua Zero Hora, que naquela época era mais ou menos uma trilha. Mesmo sem saber exatamente porque o pai o recomendara para fazer a catequese com o tio Abel, na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bom Retiro, e não com os outros meninos de sua idade que eram catequizados em Nova Palma, na matriz da Santíssima Trindade. De qualquer forma tratava-se da catequese, mas não era qualquer catequese, era a do tio Abel.
– Ah! Que belas caminhadas… sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco. Depois, se juntar aos primos e amigos e ir até a capela.
O tio Abel, ou melhor a catequese dele, era disputadíssima na redondeza, tinha gente que até mudava de residência para poder participar do grupo de catequese dele. Para o Carlos isso não foi problema pois o pai tinha grande influência na paróquia e por isso matricular o filho na “catequese do Abel” não foi problema. Além disso, tem outras histórias que indicam que a família prezava muito a educação dada pelos tios, mas não importa a razão, a verdade é que o Mano ia todos os domingos para a catequese lá na capela Nossa senhora Aparecida.
Bem, exatamente não todos os domingos, porque num domingo ele encontrou amigos pelo caminho e resolveu mudar um pouco de rumo. Esta é outra característica desta família, a facilidade de improviso. Um convite para jogar um futebolzinho até que caia bem naquele domingo à tarde, e o que é um dia sem catequese, uma única faltinha, com certeza o tio vai perdoar, ele tem um coração de ouro, é só inventar uma desculpazinha qualquer.
E foi assim que o nosso catequizando mudou de rumo, afinal estaria reunido com amigos e na Bíblia está escrito: “Onde dois ou mais estiverem reunidos…” eles eram mais de vinte. Estavam ainda seguindo a Bíblia mesmo que o encontro fosse no campo de futebol em vez de ser na capela. Além disso estaria completando o time dos amigos que não poderiam jogar sem ele. Sob vários aspectos a troca da catequese pelo futebol não representava nenhum pecado imperdoável, pelo contrário, tinha lá seus méritos. Futebol com os amigos até a hora do fim da catequese pra que não ficasse muito evidente para o pai a troca de atividade daquele dia.
Dois.
Depois de cantar duas missas no domingo o regente do coro, o Pio Piovesan, chega em casa com a garganta cansada, almoça e precisa dar um descanso às cordas vocais. O dia ameno de início de outono sugere uma atividade prazerosa e tranquila, onde se possa cultivar a meditação e o silêncio. Com certeza uma pescaria no Soturno é, sem dúvida, uma bela opção. Munido de vara de pesca, uma latinha de minhocas, uma sacola para pôr os peixes e muita vontade de pescar lá vai o Pio. Bela caminhada, sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco como no tempo de criança, e caminha um pouco pela barranca do rio até achar um bom lugar para pescar. Tarde agradabilíssima, não deu muito peixe, mas em compensação o silêncio, o ruído da água, que mais parece música e a paz da beira do rio são ingredientes capazes de restabelecer qualquer um.
Em se tratando do Pio isto representa um pedaço do paraíso, com exceção da paisagem até dá pra se sentir como Cristo jejuando no deserto.
Por falar em jejuar, já passam das quatro da tarde e começa a bater uma fominha, é claro que ele não levou lanche, pois perto da casa do mano Abel era só dar um pulinho lá para o “chá das quatro”. Era a hora que ele voltava da catequese, deveria estar chegando em casa, então vamos lá.
Sempre é muito gratificante visitar os irmãos em especial quando é para tomar um chimarrão, comer uma cuca ou bolachas e jogar conversa fora…
Parecia já combinado, o Pio subindo do rio pela estrada e o Abel vindo da capela se encontraram na entrada do caminho para a casa. Como a gurizada ficava para trás brincando o Pio nem notou que o Mano não vinha com ele. Como tinham inúmeros assuntos para tratar o assunto Mano só veio à tona quando o Abel perguntou:
– Porque o Carlos não veio para a catequese hoje?
O Pio coçou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:
– Ele saiu para a catequese um pouco antes de mim e veio pra cá… A resposta ficou meio no ar, tinha algo estranho acontecendo, certamente ele deveria ouvir uma bela explicação ao chegar em casa.
O Catequista ainda falou que ele não costumava faltar, principalmente porque depois da catequese costumava jogar bola com a piazada dele.
Três.
O Carlos chega em casa suado, até meio sujo, e a mãe…
Aqui cabe um parêntesis a mãe neste caso é a tia Clementina, que corresponde exatamente a descrição do conceito de mãe, é paciente, atenciosa, amorosa e sobretudo, neste caso sem malícia. Mesmo estranhando a sujeira do filho crê que ele vem da catequese, deve ter sido alguma atividade prática que o Abel mandou fazer.
Com a maior inocência do mundo ela indaga:
– Porque não esperou o teu pai que foi pescar lá no Abel?
– É que eu fui jogar um futebol.
Foi a resposta meio lacônica, meio gaguejada, de quem acaba de ser pego numa mentira. A mãe pensando que se tratava do futebolzinho de após catequese deixou por isso mesmo, mas o Carlos… estava frito. Faltar à catequese do tio Abel, logo num dia que o pai vai lá, só podei ser castigo por ter transgredido as sagradas regras da família, a esta hora o pai já sabia de tudo. E agora? Com certeza a cinta ou a bainha do facão iriam pegar quando ele chegasse da pescaria, ainda mais que apesar de divina e relaxante não tinha rendido muito.
Mas como toda a criança, vamos dar um desconto ele ainda era criança, tem um anjo da guarda para salvar dos perigos, o Carlos também tinha o seu. Só que eu duvido um pouco que se tratava do “anjo” da guarda. Soprou uma ideia para aliviar o castigo. “Se ele tivesse meio adoentado e fosse dormir mais cedo o pai não daria o castigo naquele dia e depois, certamente, esqueceria.” E foi feito. Naquele dia o Mano foi dormir mais cedo, ficou sem janta, sem polenta com peixe frito, mas escapou da cinta.
A versão do perdedor… ou Um santo na família.
A história, diz-se que sempre é escrita do ponto de vista dos vencedores. Esta é a minha versão, da versão da Silvia, da versão do Caco, do episódio em que ele perdeu seu “canivete artesanal”. Portanto esta é uma versão dos perdedores…
Numa família religiosa como a dos Piovesan, muitas coisas, que os outros nem imaginam, podem e são consideradas sagradas, como por exemplo, a sesta do tio Abel. Um homem religioso que, alguns anos depois deste episódio, foi consagrado diácono. Ele sempre reservava uma horinha depois do almoço para uma sestazinha, tempo para recuperar o corpo e, com certeza, fazia bem para a alma também. Mesmo nos fins de semana quando o trabalho não era muito pesado a sesta era sagrada. Numa hora sagrada qualquer barulho, que pudesse atrapalhar o sacrossanto soninho, estava proibido. Não poderia ser diferente naquele sábado. A Maristela, a Bernadete e a tia Alzira faziam a limpeza semanal da casa com o maior cuidado para não tumultuar aquela hora sagrada.
Outra característica marcante na família é a capacidade inventiva e criativa, e isso é característica mais ou menos generalizada, como exemplo citarei a fabricação caseira de instrumentos e ferramentas, como o “canivete artesanal” do Caco. Tendo herdado a inventividade do avô, o Cláudio pôs em prática todos os conhecimentos de ferraria, marcenaria, física e química que conhecia e confeccionou um belíssimo canivete artesanal de múltiplas utilidades que o acompanhou por muito tempo. Outros objetos tradicionalmente feitos de forma artesanal eram os espetos de madeira, usados para assar carne. Estes, porém, de duração mais efêmera, eram usados uma única vez e depois descartados como espetos, continuando úteis para outras atividades, como por exemplo, briga de irmãos.
A família era sagrada e os seus laços venerados, no entanto, em alguns casos até podia haver pequenos desentendimentos comuns quando irmãos divergem opiniões ou preferências. Nada que a intervenção do pai, da mãe ou até mesmo de um irmão mais velho não possa resolver.

Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedicação a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na época da história narrada.
Voltemos ao nosso sábado: a mãe e as irmãs, tia Alzira, Bernadete e Maristela, estão fazendo limpeza no templo da sagrada família, a casa. O patriarca pratica a cerimonial sesta, enquanto os meninos, neste caso o grande inventor Cláudio Piovesan e seu irmão Inácio, brincam silenciosamente atrás da casa.
Segundo o Caco: para mostrar suas habilidades ameaçou, inocentemente, de brincadeira o irmão com o “canivete artesanal”, produto de seu suor e inventividade e foi mal interpretado.
Segundo o Inácio: ele ameaçou porque tinha ciúmes da desenvoltura e habilidades do irmão mais velho, ele no caso. De qualquer forma estava criado um desentendimento familiar. Na falta de uma irmã mais velha, da mãe ou do pai para mediar o conflito a solução era cada um mostrar suas habilidades, e foi o que o Inácio fez, mostrou sua habilidade de “lançamento de espeto em giro livre”, basicamente atirou contra o irmão portador do “canivete artesanal”, um espeto usado, girando em movimento livre horizontal.
Como a trajetória de espeto giratório é muito imprevisível o dito atingiu o pescoço do galo de terreiro e depois a parede. Galo de terreiro normalmente é um galo de muito boa qualidade e bonito, escolhido no quintal de um vizinho para melhoramento da qualidade genética do plantel de galináceos na propriedade. Como é um galo especial, chefe supremo da população galinácea local, porta uma bagagem genética diferenciada, canta pela manhã para acordar toda a população da propriedade e foi valorizado na compra ou troca com o vizinho, por isso, não tem preço.
Falávamos do lançamento de espeto que colidiu com o pescoço do galináceo e atingiu a parede, isto causou dois contratempos: o galináceo em questão caiu esticado no chão e o patriarca que dormia esticado na cama pôs-se de pé. Com isso foi quebrada uma regra sagrada, que é a de não acordar quem está sesteando.
Com o ruído provocado pelo espeto rotador contra a parede da casa, o tio Abel acordou mais que irritado, o que era raro acontecer com ele, e foi verificar o que acontecera. Indagou do ocorrido e ficou a par do lançamento de espeto e do motivo que ocasionou a ação.
Estendeu a mão para o Caco e disse com voz firme e decidida:
– Dame qua sto trapelo. Sem opção o artesão alcançou ao pai o “canivete artesanal” que foi usado para a prática do esporte de “lançamento de canivete ao mato” cujo objetivo é jogar o canivete de alguém, o mais distante possível, em direção a um lugar onde crescem árvores e arbustos, de forma que o proprietário, praticamente, não tenha chance de encontrá-lo. E assim foi. Segundo o proprietário, agora Sr. Cláudio Piovesan, passados mais de trinta anos ele ainda não o encontrou.
Voltando-se para o lançador de espeto, o Inácio, pouco mais que um pirralho, o pai foi mais enfático e prolixo:
– Pega este galo, ferve água e depena, depois limpa e prepara ele para o domingo, mas faça tudo isso sozinho, não quero saber de ninguém te ajudando. Soube matar, saiba preparar.
Sem outra opção o menino pegou o galo pelas pernas e foi-se em direção à cozinha, nesta altura as irmãs já festejavam aquele enorme galo assado para o domingo, coisa que estava um tanto rara naquela época de crise.
Ato número um, o Inácio foi acender o fogo para pôr a panela de água a ferver. A água fervente ajuda a soltar as penas, é uma prática bastante difundida entre os preparadores de aves. Um probleminha é que no fogão a lenha a água demora bastante para aquecer, e neste dia o tempo parecia não passar para o menino, que ficou na espera andando de cá pra lá ou de lá pra cá, com o galo morto de cabeça para baixo pego pelas pernas. Este tempo foi de penitência e arrependimento, tempo para refletir e meditar sobre a quebra de regras sagradas da família.
Na família temos pessoas que se destacaram por sua religiosidade, fé e prática da caridade, um exemplo é frei Benedetto Piovesan, irmão de nosso tataravô, que tem fama de santo na Itália, mas cujo processo de beatificação não andou porque a família nunca teve dinheiro para começar o processo.
Voltemos ao nosso inocente menino, arrependido de seus atos maléficos de ficar raivoso com o irmão, matar o galo e acordar o pai. Três pecados em um único gesto. Andando de um lado para outro segurando o galo morto pelas pernas de cabeça para baixo. Certamente orou e pediu aos céus perdão por seus atos e…
De repente o galo começou a se debater freneticamente, livrou-se das mãos do seu algoz e saiu correndo terreiro a fora…
Epílogo.
Para o Inácio, o alívio da tarefa que antevia pela frente que não sabia bem como realizar.
Para as meninas, carne a menos no almoço do domingo.
Para o Caco, para ele nada, ele está ainda procurando o “canivete artesanal”…
Para o galo, mais uns anos de vida comandando o harém galináceo, mesmo com o pescoço torto e o canto rouco, o que não prejudicou a sua genética que era o que importava.
Para os adultos da família, mais um acontecimento corriqueiro.
Para mim, muitos e muitos anos depois quando tomei conhecimento do ocorrido, a evidência de mais um santo na família. No entanto quando comecei a busca de dados para iniciar o processo de beatificação do primo pelo seu primeiro milagre, tropecei em dois problemas comuns aos Piovesan: a falta de dinheiro e a falta de provas documentais do milagre. Assim só me resta contar a história para que outros continuem venerando o nome e a santidade da família.
Um baile e tanto
Foi numas férias de julho, mais precisamente em julho de 1976, saí de Viamão, onde estudava, e resolvi ir para Jaboticaba por um caminho não tradicional, dar uma passadinha em Nova Palma para visitar os tios e os avós. Foi nesta ocasião que tirei a famosa foto do nono e da nona na frente da casa velha. Cheguei à Nova Palma na quarta-feira e comecei a visitar os tios tendo como base a casa do nono. Fiz uma série de caminhadas até o Bom Retiro e de volta, fui até a tia Eulália andei bastante pra lá e pra cá, com o Tarcísio e o Inácio e planejamos ir a um baile na noite de sábado com os guris do tio Pio e a Cecília, para isso nos reuniríamos na casa do tio Pio, e depois do Baile, o Inácio e eu iriamos dormir na casa da tia Eulália.
Tudo correu maravilhosamente bem até a hora da janta, todos reunidos contando piadas e histórias, o tio Pio participou bastante. Logo depois “el ga deto que gavea fredo” e foi para a cama, nós também tínhamos frio mas estávamos em volta do fogão.
Resolvemos esperar um pouco para não chegar ao baile muito cedo. Foi um tempo de descontração digno de uma reunião de nossos pais, fico imaginando que não seria diferente se estivessem reunidos o Pio, o Lino e o Abel. Muitas histórias deste livro com certeza tiveram origem em reuniões como essa, ou como foi a do velório do tio Pio, que infelizmente não pude participar, mas prometo que vou colher depoimentos para escrever.
Sei que alguns me perguntarão:
– O que tem a ver uma história de um baile com a de um velório?
– Tem tudo a ver. Respondo eu, quando se trata de um grupo de Piovesan. Vocês já viram um Piovesan calado? Especialmente de for um descendente do Toni.
Voltemos ao assunto inicial, o tio e a tia já tinham ido dormir e o grupo do baile mais os pequenos do tio Pio, ficamos ao redor do fogão contando histórias, para dar um tempo antes de ir ao baile. Passadas algumas horas os menores não resistiram e se recolheram para a cama, já era umas 10 horas da noite e nós continuamos com as piadas e histórias. Pelas 11 horas alguém falou:
– Vamos sair?
Não lembro bem, mas acho que foi a Cecília que abriu a porta e olhou para fora e falou:
– Faz um frio danado.
Fechamos a porta e continuamos ao redor do fogo, mais fogo, mais histórias mais risadas bem ao estilo Piovesan. Ainda era cedo para ir ao baile, poderíamos dar mais um tempo. Passada mais uma hora, mais ou menos, lembramos de novo o propósito de nossa reunião: Ir ao baile. Levantamos e fomos, em massa, para a porta agora estava na hora. Fazia um luar lindo, o céu estava límpido e muito claro, uma noite fantástica para sair se não fosse um probleminha, olhamos para o chão e estava tudo muito claro, branco de geada. Fizemos rapidamente uma assembleia geral e decidimos que não era uma hora adequada para sair de perto do fogo. Voltamos para o calor do fogão a lenha que aquecia o ambiente. Como a assembleia é soberana decidimos continuar a contar histórias e assim foi até lá pelas duas da madrugada quando terminou a lenha: – E agora, o que fazer? Buscar lenha na rua nem pensar, catamos até o último graveto disponível, a lenha terminara, mas não os assuntos. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de queimar as cadeiras, só que teríamos que sentar no chão, definitivamente não era uma boa ideia. Mas numa família de marceneiros não faltaram novas ideias e a que saiu vencedora foi a de queimar os degraus das cadeiras, depois eles poderiam ser repostos. E assim foi a noite até o último degrau de cadeira e o fogo apagou em definitivo. Não tínhamos mais saída, ou ir ao baile ou ir dormir. Aí começou o drama para o Inácio e eu. Nós iriamos dormir lá na tia Eulália que ficava mais perto do que o Bom Retiro mesmo assim com aquele frio “de renguear cusco” não tivemos coragem para sair de casa. A família de acolhida deu um jeito: colocaram-nos a dormir nos pés da cama dos pequenos, que afinal não ocupavam toda a cama mesmo.
Assim terminamos aquela maravilhosa noite de baile.
Festa surpresa de aniversário
Hoje meu pai faria 86 anos, hoje também celebro meus 35 anos de casamento, talvez meu casamento tenha sido a festa surpresa para ele quando fez 41 anos. Ele sempre gostou de festas surpresa e contava muitas histórias destas festas que sempre eram muito divertidas, e enfeitadas como ele gostava de contar. Dentre as muitas histórias de festas surpresa de aniversário, esta era uma das que o pai mais gostava, a festa surpresa de 41 anos do nono Toni, oportunamente contarei outras.
Foi no ano de 1940, o pai comemorava 12 anos e o nono Toni 41, segundo a tradição da comunidade foi planejada uma festa surpresa para o Toni. Já tinham sido roubadas as galinhas na semana anterior e esperava-se que o vinho fosse roubado no dia, ou pelo menos os aniversariantes contribuíssem com ele. Foi assim que a vizinhança começou os preparativos para a festa, assaram os frangos na casa do Afonso Vestena, outros fizeram as cucas, pães, grustolis e outras iguarias e combinaram chegar à festa com tudo pronto, a nona faria uma grande polenta e prepararia uma salada.
Para fazer esta combinação decidiram mandar recado pelo Pio. Os visitantes entregariam os ingredientes e comidas da festa para ele que estaria esperando na saída da pinguela e levaria para dentro discretamente pelos fundos. Os convidados chegariam na casa de mãos abanando como quem veio para uma rodada de cinquilho e fariam de conta que nem lembravam do aniversário e nenhum sabia que o outro também viria. Somente falariam do aniversário quando todos tivessem chegado. Neste meio tempo, enquanto os visitantes iam se acomodando na sala para o jogo, o Pio e a nona, que a esta altura já estaria fazendo a polenta, organizariam as comidas.
Só que aconteceu um problema, o recado que deveria ser dado para o Pio foi dado para o Lino, nenhum dos organizadores se deu conta que ele também era aniversariante. Ele, muito pucha saco do pai contou tudo para ele e os dois passaram a planejar a surpresa para a festa.
Primeiro tinham que atrasar a nona o quanto pudessem, para isso ficaram na lavoura até bastante tarde. Quando chegaram em casa o nono foi para a cozinha e ficou lá, sentado na caixa de lenha, o Lino foi para a saída do carreiro da pinguela para pegar as comidas e levar para casa neste caso esconder. Tudo pronto e ficaram a postos, a nona não sabia de nada e começou a fazer a janta normalmente, os outros ficaram pra cá e pra lá como sempre faziam antes da janta, o Lino sumiu, quanto perguntaram por ele o nono disse que tinha ido tomar banho no rio, ninguém questionou porque sabiam que ele ia mesmo quando era frio.
Quando começou escurecer começaram a chegar os convidados os Vestena, o Angelim Girardello, o Guerino Rossato os cunhados Zanon… Cada um que chegava, o Lino do meio do mato cochichava:
– “dame qua cossa te gue aportá”(me dê o que você trouxe), e assim um por um foram chegando e dando para o Lino o que tinham trazido para a festa. Tudo foi guardado no galpãozinho onde o nono guardava o vinho e as graspas perto do rio.
Na cozinha o nono ia recebendo os convidados e fazendo questão que ficassem na cozinha, que estava mais quentinho, tomando chimarrão, e “zô mato” (dá-lhe chimarrão). Chegou a comentar que estava esperando eles para depois da janta para um carteado. Passava algum tempo e chegava mais um, e mais um, e a nona começou a ficar preocupada porque não estava preparada para dar janta para toda aquela gente. Quando já tinham chegado uns sete ou oito eles começaram a insistir que era melhor irem para a sala, pois lá tinha o banco, e a mesa maior. Olhavam para a nona e para o Pio e nenhum dos dois parecia saber de nada, ninguém falava nada e tentavam se comunicar por gestos. O nono fazia de conta que não sabia de nada e finalmente concordou em ir para a sala para deixar a nona fazer a janta mais sossegada. Foram para a sala, a esta altura a situação já começava ficar tensa, a piazada já estava dentro de casa e ninguém percebeu que o Lino chegara mais tarde. Foi aí que o nono pediu para ele buscar vinho para a turma, ele pegou um bule e lá se foi, como estava demorando o nono saiu para ver o que tinha acontecido, na verdade isso estava combinado, era para saber como estavam as coisas e se ele tinha feito tudo direitinho.
Neste meio tempo a turma foi para a cozinha pra saber se tava tudo pronto e descobriram que não tinha nada, a não ser a grande polenta que a nona fez. O nono voltou falando alto com o Lino para que eles tivessem tempo para voltar para a sala. Foi aí que ele resolveu convidar todos para jantar: polenta, radicci e vinho, e “qualque toquetto de salado” (algum pedaço de salame), era tudo o que tinha. O Toni estava muito a vontade enquanto a nona estava envergonhada com a situação e mais ainda os convidados, que não sabiam o que tinha acontecido.
Quando a mesa estava servida e todos ao redor com cara de decepção e não entendendo o que estava acontecendo, ele disse que ia buscar mais vinho e saiu. Algum tempo depois voltaram ele e o aniversariante com as galinhas assadas, cucas, pães, grustolis e outros quitutes que os visitantes trouxeram. Aí eles anunciaram que era uma festa surpresa para ele e o Lino que estavam de aniversário.
Parece que os dois tinham um grau de cumplicidade bem grande principalmente quando se tratava de fazer alguma arte. O pai contava que se divertiram bastante naquela noite e ficaram até a madrugada festejando e cantando.
Algumas outras histórias de festas de aniversário ainda serão contadas…
“Tio Lino”
Finalmente a história que explica o apelido.
Como era de costume cada mês ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. Quase sempre ia toda a família e muitas vezes a turma do tio Luís e da tia Irene ia junto, eles ficavam no Vô deles, o Bortolo Schiavinatto, e nos seguíamos um pouco adiante. No final do domingo a gente voltava cansado, mas eufórico. O meio de transporte mais usado era a carroça do vovô Bortolo com os cavalos brancos. Como na subida os cavalos não tinham força para puxar toda aquela carga, em geral, a Benildes, a Zélia, o Selito e o Dimas mais o Leo e eu, desembarcávamos e subíamos a pé, depois a gente embarcava e continuava a viagem. Numa destas viagens fomos somente eu e o Leo com o tio Luís e família, a mãe estava com a Luiza pequena e como era costume ficava em casa esperando a visita das amigas, vizinhas, primas e comadres. O pai também ficou em casa para ajudar e atender as visitas.
Logo depois do almoço começaram a chegar as visitas, as irmãs, cunhadas e primas que vinham conhecer o nenê, a Luiza, e fazer a visita de praxe à mãe. As crianças vieram de carona, nem tanto pra ver o nenê quanto para andar de “carreto”, aquela maravilha que transformava a estrada numa pista de automobilismo e de aventura, a montanha russa daquele tempo. A estrada de terra vermelha, bem patrolada ficava uma verdadeira pista de corrida, pois o trafego de carroças quase que vitrificava os trilhos deixando-os muito duros e lisos, isto diminuía muito o atrito melhorando o desempenho do carro, inda bem que ele tinha freio.
Não demorou muito que a turma percebeu que o carro não tinha motorista, os dois titulares tinham ido viajar. Conversa vai conversa vem e nenhum dos visitantes se animou a dirigir o caminhãozinho, apesar do tio Lino, ter tentado formar algum motorista, empurrando o carro pelos gramados. Com a insistência cada vez maior da turminha para andar na estrada, o dono da casa cedeu aos apelos, prometendo uma corrida lomba abaixo com a gurizada na carroceria. Um carro de lomba comum não chegava a ganhar velocidade na dita pista, mas o “carreto” com rolamentos e revestimento de borracha nas rodas se comportava quase como uma bicicleta.
Aqui vale um parêntesis: As bicicletas de pau eram muito populares na região exatamente por isso, tendo um centro de gravidade mais alto, conseguiam ganhar velocidade em declives menos acentuados, muito comuns na região. Lá no tio Achiles nem pensar em bicicletas, pois as descidas chegavam a quase 45 graus, seria suicídio andar de bicicleta, lá o ideal era o carro de lomba, feitos com umas bolachas de uma tora como rodas, uma tábua que era ao mesmo tempo chassi, acento e apoio, dois sarrafos, um fixo como eixo traseiro e outro móvel como eixo dianteiro que se guiava com os pés. O caminhãozinho tinha as vantagens dos dois, a estabilidade de quatro rodas do carro de lomba e a velocidade da bicicleta, com umas vantagens adicionais como banco para o motorista, direção imitando um caminhão de verdade e o rodar macio dado pelo revestimento de borracha das rodas.
– Tio Lino! Desce com a gente no carro de lá do Luiz Moreira. – Gritava a gurizada, e foi tanta insistência que o tio cedeu.
Empurraram o carro até o topo da lomba, subiu toda a gurizada no carro com o tio na direção e despencaram lomba abaixo, tudo foi maravilhoso, só que o motorista não desceu a lomba toda, no final da primeira parte tomou o caminho de casa e parou no gramado. Desceram o trecho mais uma ou duas vezes, mas a gurizada queria mais ação, mais velocidade. Finalmente acabaram convencendo o tio a descer toda a lomba como de costume, até o chatinho do tio Luís. Mais uma vez lomba acima, criançada toda na carroceria e o tio espremido na cabine, eu disse espremido porque a cabine foi projetada para um guri e não para um adulto, apesar de caber um adulto dentro os comandos não estavam projetados para tal, não tinha regulagem de banco. Um adulto poderia sentar-se razoavelmente confortável e dirigir, mas não encolher a perna suficientemente para pisar no freio, por exemplo.
Pois bem! Eu estava falando que a turminha convenceu o motorista a fazer o trajeto completo e lá vinham eles… Passada a primeira curva acentuou-se a descida, bem carregado o carro ganhou bastante velocidade, e a plateia adrenalina. A euforia ia contagiando a gurizada enquanto a velocidade começava a preocupar o motorista que tentou dar uma beliscadinha no freio, mas não conseguiu encolher a perna suficientemente, a gritaria da sobrinhada aumentava, e o pavor do motorista também, se aproximava a segunda curva e depois a descida se acentuava mais ainda, depois vinha o chatinho onde o carro perderia velocidade e pararia, este era o comportamento esperado pela piazada acostumados com o trajeto. No entanto, não era esta a experiência do motorista. (para quem não leu, leia o Episódio 2 da bicicleta do Padre João). O caminhãozinho tinha rolamentos, exatamente como a bicicleta, a experiência de descer sem freio este trajeto ele tinha feito alguns anos antes, e o chatinho não tinha sido suficiente para perder velocidade. Bateu o pavor, ele nem pensou na possibilidade de frear com a mão, mantendo apenas uma no volante. Precisava achar uma saída urgentemente, o último trecho da descida estava quase no fim, o bólido atingindo a velocidade máxima, a criançada fazendo a maior algazarra, a estrada passando numa velocidade assustadora. Chegou o trecho plano aliviou um pouco a tensão, mas não diminuiu a velocidade…
– Raspar no barranco da estrada, esta seria a solução para parar e foi esta a decisão do tio. Do lado direito tinha um camaleão de terra solta, deixado pela patrola que passara há pouco. O tio Lino foi encostando o carro no barranco.
– Surpresa! O carro saltou o barranco como se nada fosse e se enfiou no matinho de branquilhos que tinha logo abaixo. A turma vibrou nunca tinham experimentado a sensação do solavanco de pular o barranco.
O matinho de branquilhos não era muito grande, consistia numa tira de uns vinte metros de largura por uns cinquenta de comprimento margeando a estrada. Os branquilhos não eram muito grandes tinham uns dois metros de altura em média, eram arvoretas bem galharudas e estavam quase sem folhas, era fim de outono. Outra qualidade deles é que todos os galhos terminam em espinhos, só ratos, e o tio Lino de “carreto”, se arriscam a entrar. A carroceria ficou quase fora do matinho, a turminha pulou fora para a estrada pelo caminho que o carro abriu, só o tio Lino não tinha como sair, era espinho prá todo o lado.
O motorista não podia perder a calma numa hora daquelas, tentou orientar a gurizada para puxar o carro para fora do mato, mas todos juntos não conseguiam nem mexer o caminhãozinho. Mandar algum deles pedir socorro era arriscado, não se podia deixar as crianças andando sozinhas por aí, na casa que ficava uns 300 metros de distância só tinha mulheres que com certeza não teriam força para puxar e provavelmente nenhuma sabia cangar os bois para fazer o serviço.
Mas era domingo de tarde, dia que o Lalo Franco, que morava perto do rio Fortaleza, costumava ir para a Vila Trentin tomar um trago e jogar um carteado. No domingo em questão não foi diferente, todo garboso vinha o “Seu Lalo” montando o tostado marchador quando deparou com aquele bando de crianças na estrada. Parou o cavalo e tentou ouvir o que as crianças queriam, era uma gritaria onde ninguém se entendia, ele só entendia tio Lino, tio Lino… até que pediu calma, e que um deles explicasse o problema.
– Ajuda para tirar o “Tio Lino” do mato. – explicou o maiorzinho deles. Foi então que o seu Lalo olhou para onde eles apontavam e viu o caminhãozinho. Com seu jeito fanfarão achou que era uma brincadeira das crianças. Não podia acreditar que o “Seu Lino”, veterinário conhecido na região, estivesse brincando de carro de lomba. A dúvida se desfez quando o próprio Lino, enfiou a cabeça na janelinha traseira da cabine e pediu ajuda. Seu Lalo amarrou o laço no eixo traseiro do carro e na chincha do cavalo e arrastou o carro de volta para a estrada.
O “Seu Lino” e as crianças agradeceram efusivamente e Seu Lalo seguiu seu caminho. A turma brincou mais um pouco, mas não desceram mais a lomba até o fim…
No final da tarde, depois que as comadres, cunhadas e vizinhas foram embora o Seu Lino saiu, foi buscar os guris na casa do cunhado, e como ficava no caminho deu uma passadinha no bolicho. Lá estava o Lalo numa mesa de carteado, ele tinha contado a história pra todo mundo, fez questão de levantar e pagar um trago para brindar a saúde do –“Tio Lino” – com ele fez questão de falar. Foi a partir deste episódio que o tratamento mudou de status e ele passou a ser conhecido como “Tio Lino”.
Para a criançada, aquele adulto que está presente toda hora, que participa das brincadeiras, que trata todos com carinho. Para os adultos, o gurizão que vive a vida que brinca e se diverte sem preconceitos…
Obrigado “Seu Lalo” pelo apelido! Valeu!
Agora vocês sabem porque até eu me refiro a ele muitas vezes como “Tio Lino”.
O “carreto”.
Pouco tempo depois da mudança aconteceu um fato que mudou nossas vidas, foi a chegada de um carro de lomba especial, que se tornou protagonista de muitas histórias. Mais uma vez um marceneiro influindo na nossa vida.
Muitas vezes a história exige que se faça alguma incursão pelos arredores, quando algum elemento externo começa a fazer parte do núcleo principal. Neste momento o elemento externo é o Antoninho Fikes Vaz, aprendiz de marceneiro na oficina do vovô Bortolo, filho de criação da tia Santina, irmã da Vó Maria. Pois não é que o Antoninho era bem criativo! Aprendendo, aprendendo, resolveu praticar o aprendido construindo um carro de lomba especial, em forma de caminhão, com direção ergonômica que movimentava apenas as pontas do eixo dianteiro, totalmente diferente dos carros de lomba tradicionais. Com rolamentos nas rodas, molejo feito de talas de guajuvira, freio acionado pelo pé, Cabine e carroceria imitando um Mercedes cara chata, lançado naquele ano de 1958. Era uma verdadeira joia de marcenaria, cabia dois na cabine e uns 15 na carroceria. Só que o aprendiz teve gastos e precisava praticar o desapego vendendo a sua criação. Como ninguém na vila tinha uma quantia razoável de dinheiro para desembolsar na compra de um carro de lomba, o Antoninho resolveu fazer uma rifa. Foi assim que naquele domingo de manhã o pai ao voltar da missa encontrou o marceneiro no bolicho do Vitelio Casarin, vendendo os três últimos números da rifa para fazer o sorteio.

Estacionado na frente do rancho o “carreto”, infelizmente não tenho foto melhor dele, esta foi recortada da foto da família, ampliada e retocada com Photoshop.
Naquele dia o pai deixou de beber o seu traguinho e gastou três cruzeiros com os números da rifa, um para cada filho, nunca fiquei sabendo qual o número sorteado, mas dizem que foi o meu. Assim, um pouco mais tarde do que de costume o pai chegou empurrando o “carreto”, como ficou conhecido. Vinha empurrando pela cabine e guiando com o braço enfiado pela janela da porta que não tinha vidro. Imediatamente começaram as aulas de direção e em poucos dias estávamos autorizados a dirigir o caminhãozinho na estrada. Não demorou muito e começou a peregrinação da criançada lá pra casa nos domingos, pra andar de carro lomba abaixo.
O trajeto tradicional compreendia um trecho de mais ou menos 500 metros, da casa do seu Luiz Moreira até o chatinho do tio Luís. Tinha uns 250 metros de declive suave, depois uma curva a esquerda e acentuava o declive, mais uma curva a esquerda e acentuava mais ainda, finalmente tinha uns 100 metros de plano e depois uma subidinha. No início do trajeto o motorista assumia seu posto com um auxiliar a gurizada dava o impulso inicial e pulava pra cima da carroceria, e começava a aventura. Nos primeiros cem metros a velocidade não tinha nada de emocionante, um guri correndo acompanhava, mas quando chegava próximo da primeira curva já estava a uns 15 Km/h e aí começava a aumentar. No final do terceiro trecho de declive creio que atingia uns 30 Km/h ou mais e os passageiros da carroceria faziam uma gritaria incrível, aí vinha o trecho plano onde a velocidade diminuía e parava na subidinha no fim do trecho. Aí se fazia a volta, um dos menorzinhos pegava a direção e a turma empurrava o caminhão lomba acima até a casa do seu Luiz Moreira e tudo recomeçava.
Mais tarde nos aventuramos a andar em outras lombas e até houve alguns acidentes bem interessantes. Mas o “carreto” foi o responsável pelo apelido do “Tio Lino” que vou contar qualquer hora… O trajeto aqui mencionado faz parte do trajeto de uma outra história, a segunda parte das aventuras da bicicleta do Padre João…
Como se faz um “torchio” sem torno
“Torchio”é a palavra em italiano que designa moenda, aqui no Brasil também é usada a grafia “torccio”. Este apelido carinhoso foi dado ao meu avô por ele ser um exímio fabricante deste tipo de moendas ou prensas destinadas a extrair o suco da cana, a garapa, ou guarapa como é mais conhecida no sul do Brasil.
Como trabalho com madeira, tentei ficar imaginando como meu avô torneava as maças dos torchios sem ter um grande torno, dispondo apenas de ferramentas rudimentares, foi aí que apelei para duas pessoas que trabalhavam com madeira, também com ferramentas precárias para tentar entender o processo. O tio Ângelo Chierentin, construtor de rodas d’agua de madeira e o seu Genésio Bortoluzzi, que também fazia torchios, mas com tecnologia mais avançada. Eles me ajudaram a compreender como o torneado ficava perfeito, feito tudo a base de machadinha, serrote, enxó, formão, plaina garlopa e outras ferramentas simples. Como os dentes da engrenagem eram feitos um a um e encaixados na maça de madeira, como eram calculados para dar certo, para que a velocidade das maças entre si fosse constante e não houvesse deslizamento. Algum tempo depois pude confirmar passo a passo a tecnologia com a tia Thereza, que quando jovem ajudou-o a fazer muitos torchios.
A escolha da madeira
Primeiro cortavam três pedaços de tora, preferencialmente de angico, pela qualidade da madeira. A primeira, mais grossa, e mais comprida, para sobrar uma ponta para o cabeçalho, as outras duas apenas do comprimento da maça mais o eixo. Fazer o torneado começava sempre pela marcação do centro da tora de madeira que originaria a maça, e com um compasso rudimentar marcava a grossura do eixo. A partir daí marcava o comprimento que deveria ter o eixo para encaixar bem no mancal e então começava a serrar em torno tirando com o formão a madeira até chegar no risco que definia o eixo. Este trabalho era o que exigia a maior precisão e a conferência do esquadro a cada momento.
O serviço de torno
Esculpidas as pontas dos eixos tudo ficava mais simples, mas não menos trabalhoso, o bloco de madeira era colocado apoiado pelas pontas de eixos em duas forquilhas cravadas no chão que serviam de mancal, aí começava o serviço de torno. Girando manualmente a tora e desbastando com a plaina até ficar perfeitamente torneada. A definição do diâmetro da maça não era crítico, no entanto a circunferência devia ter um tamanho múltiplo do passo dos dentes, este era o segredo para não dar errado. Esta circunferência era definida geralmente em polegadas, já que as medidas das ferramentas na época também o eram, se o formão era de uma polegada, a soma do dente e o vão deveria ser de duas polegadas, assim a circunferência deveria ser definida com um número par de polegadas. Em linguagem de engenheiro, a circunferência definia a linha média da engrenagem.
O próximo passo era definir o comprimento, a largura dos dentes e a posição na maça. Em geral se seguia um padrão ao redor de três polegadas do topo da maça, dentes de duas polegadas de largura e duas de comprimento, com passo de duas polegadas. O passo da engrenagem é que definia a circunferência, esta podia variar de acordo com o diâmetro da tora, desde que fechasse com o passo, em alguns casos o torchio tinha três maças de diâmetros diferentes. Definida a posição dos dentes da engrenagem era torneado um rebaixo na maça com a profundidade da metade do comprimento dos dentes. O serviço de torno estava acabado.
A engrenagem
No rebaixo feito para a engrenagem era feita a marcação dos dentes e com formão eram feitos furos retangulares para encaixar os mesmos. Os dentes eram feitos um a um, a partir de um sarrafo de guajuvira, por ser uma madeira que apresenta grande resistência e flexibilidade, com o tamanho exato para encaixar sem soltar dos furos, os dentes eram encaixados nos furos e depois cortados para que ficassem com o comprimento certo, então era feito o acabamento.
Os mancais e a base

Nesta foto de 1978 um dos últimos torchios feito por ele ainda em funcionamento na casa da tia Eulália.
Na base, em geral feita de uma peça única de madeira com a largura um pouco maior que a maça maior, eram feitos os furos, não passantes, que serviriam de mancal inferior para as maças. Também na base eram feitos sulcos para recolher a garapa que terminavam numa bica onde era pendurado o balde. O mancal superior, muitas vezes era feito em duas metades, principalmente quando havia escassez de madeira grande, ou para facilitar a montagem. Nas pontas das bases, superior e inferior, eram feitos furos quadrados para encaixar os postes de sustentação. Na ponta de eixo superior da maça maior e central, que ficava mais comprido era feito um rebaixo retangular onde se encaixava o cabeçalho, um galho torto que era furado no ponto de equilíbrio, ficando a ponta mais fina e mais longa voltada para baixo para facilitar o engate dos bois que fariam a tração.
Ao ver um destes engenhos atualmente jamais imaginamos quanto esforço, persistência, paciência e tempo eram gastos neste trabalho.
Daí podemos concluir que chamá-lo de “Toni Torchio” era o equivalente a chamar de paciencioso e persistente, qualidade que certamente passou às gerações futuras, tem uns tentando escrever um livro, haja paciência e persistência pra isso.
Festa no Varejão (terceiro episódio da bicicleta do padre João)
(A primeira parte desta história ouvi de minha mãe, Bazilides Carolina Piovesan, a segunda do tio Ângelo Chierentin).
“Naquele tempo”, como começava o sermão do padre Francisco Goetler, muitas vezes a única missa dominical que os católicos podiam assistir no ano era na festa do padroeiro. Que segundo meu pai podia acontecer seis meses antes ou seis meses depois da data, mas tudo bem, quando o padre podia vir aí tinha a festa. O padre vinha de aranha¹ de Palmeira das Missões e se hospedava na casa de meu avô Bortolo, que o acompanhava para responder a missa em latim. De lá do vô eles iam passando pelas capelas, durante a semana e rezando missas, que apesar de eventos extraordinários, eram missas comuns. A capela que estivesse próxima da festa do padroeiro ficava com a missa do domingo, aí como todas as capelas próximas estavam sabendo todos se reuniam lá para a festa. Daí uns três ou quatro meses o padre voltava e fazia outro tour de confissões, missas, batizados e casamentos. Esta era a parte da tradição religiosa.
Outra parte da tradição, na área da intendência da Linha do Coqueiro, do inspetor concessionado, Jardelino de Oliveira, era a fartura de churrasco e bebida nas festas, que em geral acabava com uma briga homérica no final do dia. Há esta hora o padre já tinha ido embora e o inspetor nem sempre conseguia acalmar os ânimos o que em geral acabava em algum ferido ou morto. Motivo para a próxima briga na próxima festa. Isto não era diferente no Varejão, distante uns 15 quilômetros da Vila Trentin.
Provavelmente os brigões confessavam seus desejos de vingança para o padre antes da missa o que começou torná-lo receoso de festas na região. Foi aí que o santo homem teve uma ideia brilhante – os gringos recém instalados na região, Vila Trentin e Jaboticaba, gozavam de fama de cidadãos respeitáveis, eles poderiam impor respeito nas festas, e quem sabe ajudar o inspetor a manter a ordem.
Era lá pelo mês de junho e a visita do padre coincidia com o padroeiro do varejão, São João, ia ter festa. O padre convidou para fazerem parte da comitiva, os quatro patriarcas, Bortolo e Antônio Trentin e Aurélio e Atílio Zanon, que apesar de gostarem de um bom vinho, não iriam beber e todos iriam munidos de calabrotes² que ficariam guardados na aranha para serem usados se fosse necessário. Estava quase tudo pensado, menos o transporte, a princípio iriam os cinco na aranha do padre e na do tio Antônio. O padre chegou na terça-feira, rezou missa em Jaboticaba, combinou com os tios Atílio e Aurélio e veio pra vila Trentin, onde ficava religiosamente hospedado com o Bortolo, meu avô, de onde sairia para rezar missas nas capelas da Santa Rita, São Luiz, Santa Maria Goretti, Três Mártires (na época rezava na escola Roque Gonzales, a velha, depois o Brizola mandou construir uma outra. Um dia destes conto a história das escolas. Eu estudei o primeiro e segundo anos na velha, depois na Brizoleta). Desnecessário é dizer que o padre Francisco viu a bicicleta do Lino por lá e ficou fascinado, ele já tinha usado uma delas na Alemanha antes de vir para o Brasil.
Quando no sábado o tio Antônio falou que não poderia ir não tinha como comunicar aos outros que não teria transporte. Chegado o domingo os Zanon iriam a pé até a encruzilhada da Linha São Luiz onde teriam o transporte por aranha. Como só tinha uma aranha o padre só poderia levar os Zanon, mas nenhum deles sabia responder a missa em latim, o Bortolo não poderia faltar, foi aí que o padre teve mais uma ideia brilhante: – ele iria de bicicleta, com a bicicleta do Lino, e os outros três de aranha, estava resolvido o problema.

Tio Angelo Chierentin, grande artífice em madeira, foi ele que fez a minha bicicleta de pau. Na foto aparecem ele, a Catia e a tia Rosa tendo ao fundo uma roda d’água construída por ele.
(aqui começa a narrativa do tio Ângelo) Paralelo a isso a juventude também estava planejando ir à festa e o meio de transporte escolhido foi “bicicleta de pau” para acompanhar o padre. Os da aranha pegaram a estrada e pouco tempo depois sumiram na frente, o grupo Ângelo Chierentin, Argemiro, Luis, Érico e Santo Trentin e Lino Piovesan, ora passavam ora eram ultrapassados pelo padre. Na descida como gostavam da adrenalina, desciam quase sem freio ganhando grande velocidade e ultrapassando o religioso na maior gritaria, mas quando vinha a subida eles perdiam e eram ultrapassados, na próxima ladeira vinha a revanche.
Depois de passarem pela linha São Luís tinha umas descidas bem acentuadas o que possibilitava, para os mais arrojados, atingir velocidades de um cavalo a galope, pelos meus cálculos uns 40 Km/h. Tinha uma ladeira, um pouco antes do passo do arroio Jaboticaba, que atravessava quase duas colônias, (nos meus cálculos pelo Google, aproximadamente 600 metros) tinha uma curva mediana à direita e terminava no passo do rio, lugar espraiado que permitia atravessar pulando sobre as pedras ou por dentro d’água. Pelo lado de dentro da curva tinha um barranco bastante alto e um canavial de um casal de idosos que morava num ranchinho ao lado. Depois de empurrar as bicicletas por aproximadamente cem metros da subida depois do seu Elias Manfio, a turma embarcou nas bicicletas e despencou ladeira abaixo, o padre, precavido, foi segurando no freio para não pegar muita velocidade, pois conhecia o fim da ladeira onde todos teriam que parar para atravessar o passo com as bicicletas nas costas, a comitiva de aventureiros confiava na possibilidade de frear antes do rio. Com o aumento da velocidade ainda antes da curva, e da adrenalina, a turma começou a maior gritaria, que chamou a atenção da senhora idosa. – Meu Deus! – Gritou ela – Uma carroça em disparada vai ser um desastre na chegada do passo. Imediatamente correu para o canavial que ficava sobre o barranco por onde a “carroça em disparada” deveria passar e tratou de fazer alguma coisa para parar os cavalos. Cortou uma grande braçada de cana e começou a jogar na estrada no exato momento que a troupe entrava na curva, não houve tempo para frear a idosa acabava de fazer um “strike”, o único a cair com elegância foi o religioso que vinha mais de vagar e um pouco atrás.
Inda bem que tinha o rio logo abaixo para lavar-se, se por na linha e prosseguir até a festa do Varejão.
Terei que pesquisar mais um pouco para narrar a aventura da festa, até qualquer dia.
1. Aranha – Espécie de charrete com apenas duas rodas, tracionada por um cavalo que podia transportar até três pessoas.
2. Calabrote – Relho de cabo fino fácil de carregar sob os pelegos. (RS)






