Arquivo do Autor: Liceo Piovesan

Sobre Liceo Piovesan

Um contador de histórias

A bicicleta do padre João (Episódio2)

De posse desta maravilha da tecnologia, o Lino começou a se aventurar cada vez mais longe, não chegou a fazer uma viagem como o primo, mas com certeza rodou muitos e muitos quilômetros com a bicicleta. Tornou-se quase rotina visitar os tios de Frederico Wesphalen, ficava pouco mais de 40 quilômetros. Visitar os amigos no Varejão ou no Mundo Novo ficou muito mais fácil, e é claro encomendar botas de trabalho, os famosos coturnos que ele sempre usava, lá na Guabiroba do sapateiro Zandoná.
Aqui é preciso fazer um parêntesis, a tal bicicleta tinha um sistema de freio muito usado na época o “torpedo” que só é possível de usar em bicicleta sem marchas e funciona no próprio pedal girando-o para trás, é muito prático e seguro por frear a roda traseira.
Numa destas viagens até o Zandoná todo correu bem até a chegada à sapataria, feita a encomenda precisava pegar o caminho de volta, mas não foi muito longe e aconteceu um problema mecânico, a correia (corrente) rebentou e com ela a possibilidade de subir lomba também. Não podemos nos esquecer que isto não era problema, pois o Lino estava acostumado às bicicletas de pau que não tinham pedal, assim a viagem de volta seria tranquila. Bicicleta com pneus, rolamentos e bem leve ia que era uma beleza, pegava velocidade na descida e subia quase toda a ladeira do outro lado com a embalada. Tudo ia muito bem até a lombinha antes do seu Luiz Moreira, como era um pouco mais forte a bicicleta não subiu, mas isto não era problema, faltava pouco mais de um quilômetro pra chegar.

Sobre uma imagem do Google, tracei o que era a estrada naqueles tempos.  A descida do seu Luiz Moreira té o chatinho do tio Luis foi muito usada alguns anos mais tarde para descermos de carro de lomba.

Sobre uma imagem do Google, tracei o que era a estrada naqueles tempos. A descida do seu Luiz Moreira té o chatinho do tio Luis foi muito usada alguns anos mais tarde para descermos de carro de lomba.

Passando o seu Luiz a estrada começava numa ladeira leve de uns trezentos metros, depois uma curva leve a esquerda e ficava mais forte uns cem metros e finalmente tinha uns cinquenta metros bem mais acentuada, aí vinha o “chatinho do tio Luís” uns duzentos metros de estrada plana, uma subidinha de uns cinquenta metros, curva a direita e o “direitão do tio Luís”, mais uns quatrocentos metros levemente em declive, depois a “subidinha do seu Artur”, aclive acentuado de uns quarenta metros, depois uma descida acentuada com curva acentuada à esquerda no final, mais uma subidinha e estava em casa.
Quem estava acostumado a descer este trajeto de bicicleta de pau, sabia que só precisaria empurrar a bicicleta talvez uns duzentos metros, assim o Lino, assim que passou a casa do seu Luiz Moreira, deu um impulso e montou a magrela que começou a ganhar velocidade lomba abaixo, e foi ganhando velocidade, e ganhando velocidade, chegou ao fim da ladeira, venceu todo o chatinho, a subidinha do tio Luis chegou no direitão e nem sinal de diminuir a velocidade, uma verdadeira maravilha, e que adrenalina, a velocidade começou a aumentar de novo no direitão e foi aí que o piloto se deu conta que não podia pedalar… e nem frear…
– Meu Deus! – depois do direitão tinha uma lombinha de nada, depois uma descida forte e uma curva, não ia dar pra fazer a curva naquela velocidade, mais alguns segundos e tinha que tomar uma decisão, felizmente a bicicleta perdeu um pouco a velocidade na subida e o piloto se jogou no chão…
Meio esfolado, mas vivo, chegou  em casa, depois de uns dez minutos empurrando a bicicleta, os dois foram parara na oficina na segunda-feira.
Este episódio é fundamental para entender porque ele ganhou o apelido carinhoso de “Tio Lino.” Até qualquer hora.

A greve de fome do Vicente

Logo depois do golpe militar de 1964, a pacata família do tio Achiles viveu um fato inusitado, o Vicente, com 10 anos na época, resolveu fazer greve de fome.

Primeiro precisamos conhecer um pouco melhor o Vicente da época, depois vamos a história. O Vicente já estava no terceiro ano de escola, isso não significava no terceiro ano, pois ele tinha uma metodologia bastante diferente de estudar. Também, por ter o espírito revolucionário nem sempre ficava na aula, gostava de sair pela janela quando era posto de castigo, depois ameaçava os irmãos para não contar nada em casa, isso lhe dava tempo para meditar, enquanto esperava os irmãos. Porque se chegasse antes dos outros em casa a cinta pegava, se bem que ele estava razoavelmente acostumado com a cinta, pois era “dispetoso come le cabre” como dizia o tio e padrinho Lino.
Como vimos ele tirava tempo de aula para meditar escondido enquanto esperava os irmãos que voltavam da aula. Sabemos que era filho de pais muito religiosos, como é comum na família Piovesan. Por outro lado era bastante criativo o que o tornava um verdadeiro artista, vivia “fazendo arte” e era reprimido quando fazia isso, daí a encontrar métodos criativos para chamar a atenção foi um passo. Não sabemos se foi por motivo religioso ou profano, mas…

Na foto de 1957 de cima para baixo e da esquerda para a direita: Mariazinha, Antoninho, Joãozinho, Vicente e Neli do tio Achiles, depois Eu (Liceo), Leonildo e Leo do tio Lino.

Na foto de 1957 de cima para baixo e da esquerda para a direita: Mariazinha, Antoninho, Joãozinho, Vicente e Neli do tio Achiles, depois Eu (Liceo), Leonildo e Leo do tio Lino.

Um belo dia, numa segunda-feira, provavelmente para evitar um castigo, o Vicente declarou-se em greve de fome, iria parar de comer por prazo indeterminado. – quem me contou a história foi o Leo, que trabalhou lá no tio por algum tempo. No primeiro dia tudo transcorreu normalmente – era um capricho de criança, quando bater a fome ele desiste. Só que, se foi o primeiro dia e o Vicente continuava firme em seu propósito. Hora do café do segundo dia o vivente não apareceu.
– Vamos ver se ele aparece para o almoço – dizia a tia Pierina, esperançosa que a brincadeira acabasse.
Chegou o meio dia, todos se reuniram para o almoço, que estava uma delícia, segundo o Leo, e o Vicente passou perto da mesa e se foi… era apenas o segundo dia todos ainda pensavam vamos ver no que vai dar. Chegou a hora da janta e o grevista se lavou e foi direto para a cama, aí o clima começou a esquentar. As conversas depois da janta giraram em torno do assunto.

Bem! Segundo os evangelhos Jesus teria jejuado por quarenta dias, e vencido a tentação, João Batista também fizera proeza semelhante, período em que se alimentou de gafanhotos. Foi aí que um dos irmãos levantou a hipótese que isso até poderia ser bom se ele comesse os gafanhotos e vencesse a tentação seria ótimo para todos, mas o tio não gostou nada da brincadeira e quase pôs de castigo o autor da ideia. Mas como não poderia deixar de ser, depois da oração da noite foram rezadas três Aves-Maria, na intenção de afastá-lo da loucura.
Quarta-feira ele nem apareceu para o café, levantou e sumiu, na família a situação já começava a se tornar preocupante, o Vicente participava de tudo com a maior naturalidade, mas desaparecia nas horas das refeições. O tio teve então uma atitude bem coerente com os Piovesans, – Quem sabe uma reza ou uma benção do padre? E lá se foi o tio Achiles para a missa, no meio da semana. Pediu uma intenção especial na missa, rezou e cantou com fervor e voltou para casa com a consciência do dever cumprido. Foi para a roça e voltou como de costume ao meio dia para o almoço, mas o milagre ainda não aconteceu, o grevista nem apareceu na cozinha. No fim da tarde a cena se repetiu, o Vicente direto para a cama e os outros inquietos. – Como ele está aguentando? Desta vez foi um terço inteiro…
Quarto dia de greve. Tudo se repetiu como nos dias anteriores e o dia transcorreria normalmente se não fosse um pequeno incidente matemático, quando a tia Pierina foi pegar o pão para o café observou que restavam apenas dois. Ela fazia sempre sete pães, um para cada dia da semana, no sábado. Dessa vez somente tinha o da quinta-feira e o da sexta, faltava, portanto um. Serviu o café e ficou remoendo a história intrigada, ao meio dia como já era de se esperar o Vicente passou pela cozinha e sumiu. Foi então que a tia comentou o caso da falta do pão, aí o Leo e o Toni saíram para procurar o Vicente para ver onde tinha se metido.
Depois de darem umas voltas ao redor da casa, encontraram o grevista na beira do rio molhando um pedaço de pão na água com uma mão e com um pedaço de salame na outra. Assim terminou o episódio da greve e ficou esclarecido o sumiço do pão.
Passado algum tempo o Vicente foi morar com o padrinho para ver se endireitava… (em breve)

A bicicleta do padre João

Mais um  pedaço da vida do Lino

Trabalhando na sociedade juntamente com os cunhados, o sogro, a família do tio Antônio Trentin e o patriarca Serafim Trentin e a nona Rosa, tendo como vizinhos seu Artur Oliveira, Ângelo Fassini, Atílio Zanon pertencentes à nova comunidade de italianos que se radicaram no local, o Lino começava mais e mais aumentar seu circulo de amizades em função de seu cuidado com os animais, mas apesar de tudo isso ainda não tinha um cavalo para montaria, as opções para se deslocar um pouco mais longe eram a gaiota de bois, eficiente mas bastante lenta, a aranha com cavalo do sogro ou as famosas bicicletas de pau, comuns para todos os jovens de menos de 40 anos na região.

Esta é uma réplica das famosas "bicicletas de pau" feita pelo tio Ângelo Chierentin, em 2007, especialmente para mim em reconhecimento pela preocupação em conservar a história.

Esta é uma réplica das famosas “bicicletas de pau” feita pelo tio Ângelo Chierentin, em 2007, especialmente para mim em reconhecimento pela preocupação em conservar a história.

A bicicleta de pau era uma grande auxiliar nas caminhadas, sem pedais apenas podia ser montada lomba abaixo, e dependendo das condições da estrada corria a canhada toda e até podia subir uma parte da lomba do outro lado, movida pela inércia, depois era empurrada lomba acima até o topo onde começava um novo ciclo. Era o meio de transporte mais comum entre os italianos para se deslocar para outras capelas nos domingos de festa. Pequenas distâncias como da Vila Trentin a Jaboticaba uma hora de caminhada se transformava em menos de meia hora de bicicleta, logo podemos ver a vantagem do uso desta tecnologia. Parece loucura usar um veículo que só anda lomba abaixo, mas a verdade é que foi muito útil naqueles tempos, no entanto a verdadeira loucura ainda estava por acontecer…
A bicicleta do Padre João
Aqui precisa se abrir um parêntesis para um primo, quase um irmão mais velho para o Lino, o padre João Piovesan. Nas férias de fim do ano de 1953, o seminarista, já quase padre, João Justo Piovesan empreendeu uma pequena aventura que precisa ser registrada para que se possa continuar a história. Ele se preparava para visitar os pais e irmãos em Frederico Westphalen, numa última viagem antes de sua ordenação. Na época o transporte disponível era o trem de Santa Maria até Santa Barbara e depois tomar o ônibus “Ferroviário” até Frederico. O dito ônibus fazia a linha de Santa Barbara a Iraí, duas ou três vezes por semana, quando conseguia vencer os atoleiros. Conta-se que muitas vezes passava dias sem aparecer devido às más condições das estradas, neste caso se cumulavam passageiros esperando em Santa Barbara, quando saía superlotado, demorava mais uns dias para aparecer. Esta era a opção de transporte do jovem diácono João Piovesan, talvez ele tenha pensado em fazer o trecho a pé, poderia ser menos demorado, no entanto ele optou por uma outra solução: uma bicicleta Goricke, 1951, seminova, negócio de ocasião, que o padrinho, o tio Antonio (toni Torchio) deu de presente na ordenação diaconal, economizaria a passagem trem-ônibus, faria um belo esforço mas ganhava a liberdade.
Pelo caminho alternativo: Cruz Alta-Condor-Palmeira das Missões, ficava apenas 290 quilômetros, hoje se faz de carro em pouco mais de três horas.
Na ocasião o João Justo preparou a mochila com algumas roupas, pacotes e mais pacote de publicações como: Revista Rainha dos Apóstolos, calendários religiosos e Anuários Católicos, e pôs o pé na estrada, ou melhor, no pedal da Goricke aro 28 rumo a ao Baril, nome de Frederico Westphalen na época.
À medida que o caminho era percorrido o aventureiro ia fazendo amigos e vendendo livros, revistas e fazendo assinaturas, também a mochila ficava mais leve compensando o cansaço dos dias pedalados. Em menos de três semanas estava na casa dos pais curtindo as merecidas férias, infelizmente deveriam ser abreviadas em umas três semanas devido ao transporte escolhido. Lá no Baril, descobriu que em seu caminho tinha passado a menos de dois quilômetros da casa do primo Lino, o filho do tio Antoninho. Na volta não podia de deixar de fazer uma visitinha. Calculado o tempo de volta, pé na estrada de novo, e desta vez com uma parada obrigatória na Vila Trentin, que na época ainda não tinha nome, era um vilarejo pertencente ao então distrito de Seberi, próximo da capela de Jaboticaba. O ponto de referência para localização era a parada de ônibus, mais ou menos uma estação na esquina da Boa Vista, na bodega do seu Possidônio Padilha. Beleza! Era só ir pedindo de bodega em bodega até descobrir a do Possidônio e lá pedir informações. No segundo dia de volta já estava na casa do primo, recebido com honrarias dignas de um santo, como acontecia sempre que um padre visitava a comunidade. Apesar de ainda não ser padre pouco importava, sempre era uma honra ter um homem de fé como visita.
A narração da aventura da viagem causou um enorme impacto, mas mais do que isso, uma bicicleta que podia andar lomba acima, com certos limites, é claro, mas podia. Foi aí que terminou a aventura ciclística do João Justo, o primo apaixonou-se pela bicicleta, juntou os trocados, “trenta fiorini”, e comprou a bicicleta, provavelmente a primeira bicicleta de ferro do município de Palmeira das Missões. Agora os pés do Lino criaram asas! Podia ir a Jaboticaba em quinze minutos, as distâncias encurtaram. Saindo cedo dava pra ir num domingo até a Guabiroba, hoje São Pedro das Missões, pela estrada da cordilheira, encomendar um par de botas no Zandoná e voltar no mesmo dia.

Esta história é fundamental para entender o apelido “Tio Lino” que meu pai ganhou alguns anos mais tarde. (ela vem aí)

Corrida sem obstáculos

Os primeiros tempos (este é um trecho da história da família do Lino)

O primeiro ano, depois da mudança foi bastante duro, buscávamos água numa fonte que ficava mais de trezentos metros da casa, para lavar a roupa a mãe precisava ir até a sanga (arroio) um pouco abaixo da fonte. Nos primeiros meses tínhamos dois baldes de madeira para buscar água na fonte, umas duas ou três vezes no dia.
Na época o Leo tinha uns nove anos e eu sete, para carregar o balde de água usávamos uma vara, pouco maior que um cabo de enxada, que enfiávamos na alça do balde para facilitar o trabalho, como era subida, eu ia à frente, porque era mais baixinho, e o Leo atrás. Muitas vezes com o sacolejar das passadas chegávamos em casa com pouco mais de meio balde de água. Por isso fazíamos muitas viagens por dia. Mais tarde o pai fez uma zorra com uma forquilha e encaixou nela um barril que cabia uns dez baldes aí facilitou um pouco a nossa vida, ele buscava água no barril no final da tarde e nós apenas precisávamos buscar água fresca para beber durante o dia.
Esta rotina se estendeu por bastante tempo, quase um ano, neste meio tempo a mãe foi picada por uma bicho venenoso, que nunca soubemos o que foi, e com isso quase tudo o que tínhamos foi gasto com médicos e remédios, ela estava grávida da Luiza, com movimentos limitados por causa da perna enormemente inchada…
Corrida sem obstáculos. (esta é uma das mutas histórias que permeiam nossas vidas)
Aqui é preciso fazer um parêntesis na história. Os personagens são a mãe, o Leo, o Leonildo e eu. A mãe grávida e com um problema numa perna, recém estava sarando da picada do bicho. Neste dia o Pai estava fora arrastando toras para a serraria do tio Luiz Trentin, o Leo e eu ficamos cuidando da casa e a mãe foi lavar roupa na sanga, o Leonildo não quis ficar conosco e foi com a mãe, ficou brincando no banhadinho a tarde toda.
Um pouco antes do pôr do sol, quando as sombras começam a ficar compridas, o matinho da fonte começava a fazer sombra no poço onde estava o lavador a mãe terminou de torcer as últimas peças de roupa e colocou na bacia para voltar para casa.

Lavador - Este dispositivo prático era usado para lavar roupas de joelhos no lado do arroio que o barranco terminava em zero, em geral do lado de dentro das curvas do rio ou arroio.

Lavador – Este dispositivo prático era usado para lavar roupas de joelhos no lado do arroio que o barranco terminava em zero, em geral do lado de dentro das curvas do rio ou arroio.

O lavador era um dispositivo, muito usado na época para facilitar o trabalho de lavar no arroio, como é muito difícil de descrever terei que desenhar. O lavador ficava do outro lado da sanga, tinha uma pinguela feita com três paus roliços para atravessar o arroio. O poço do lavador ficava numa curva do arroio de forma que ao norte e leste ficava a nossa terra, no quadrante sudoeste ficavam as terras do Seu Tatão, o lavador estava daquele lado porque não tinha barranco no lado de dentro da curva do rio. No quadrante sudeste ficava o banhadinho que era um espaço bastante úmido, mas gramado, no nordeste ficava o potreiro, um espaço gramado com aclive ao norte razoavelmente acentuado, no noroeste ficava o matinho da fonte, hoje é a fonte que abastece a Vila Trentin, indo ao norte costeando o matinho ficava a trilha que ia para a nossa casa, uns trezentos metros de distância. A uns cinquenta metros lomba acima tinha a trilha que entrava no mato e ia para a fonte. Do poço do lavador até a fonte dava uns trinta metros, formando um triangulo de trilha, mas a trilha não era muito usada.
A mãe terminara de lavar as roupas, o Leonildo brincava no banhadinho, enquanto o sol se punha. Era preciso apressar o passo para fazer a janta e as lidas do fim do dia antes que o Lino chegasse do trabalho.
– Leonildo! Vamos para casa! – chamou a mãe já com as roupas torcidas na bacia e pronta para atravessar a pinguela em direção ao rancho.
O guri veio correndo atravessou a pinguela e se postou do lado da mãe. A mãe pegou a bacia de roupa e se dirigiu para a pinguela quando o pequeno infante de então três anos e pouco anunciou categórico:
– Eu quero colo.
A mãe tentou argumentar que não havia condições de levar a bacia e ele no colo, nem falou de sua condição de grávida, porque ele não iria entender mesmo. O impasse estava criado o guri queria colo e a mãe não tinha condições de dar. Nenhuma argumentação foi capaz de demover o garoto, enquanto isso o sol se punha e começava a escurecer… A mãe foi para casa com a bacia de roupas e o pirralho ficou chorando do outro lado do arroio.
Chagando em casa preocupada com o caçula, tomou uma daquelas decisões que as mães sabem tomar muito bem, o Leo tinha condições de trazer o Leonildo nas costas se ele não quisesse caminhar, o Liceo, eu, levaria o balde para buscar água na fonte assim não ficava perigoso, pois escurecia rapidamente.
O Leo, consciente de sua responsabilidade foi reto ao poço do lavador para buscar o irmão caçula, eu tomei a trilha da fonte para encher o balde, depois o Leo me ajudaria como de costume a levar para casa. Para encher o balde tinha uma caneca, a gente pegava água na fonte, subia o barranco e depositava no balde, isso tinha que ser feito umas oito vezes para encher.
O lusco fusco do entardecer dava um arrepio, ainda mais dentro do mato, qualquer vulto ou som parecia maior e mais assustador. Os outros dois estavam fora do mato onde ainda estava bastante claro.
– Leonildo! Eu te levo de macaquinho. Já esta ficando noite…
– Nãaããõ! Eu quero o colo da mãe…
– Eu te levo no colo!
– Não!
– Eu vou te deixar aqui.
– Não!
Não importava a pergunta ou proposição, a resposta era sempre não, sonoro e chorado…
Neste meio tempo eu já enchera o balde e esperava o Leo para me ajudar a levá-lo para casa, mas só ouvia aquele diálogo infrutífero. Já com muito medo, e sem forças para levar o balde sozinho, resolvi ir em direção aos dois para chamar o meu ajudante. Como a trilha da fonte ao lavador era pouco usada tinha galhos e taquaras secas que começaram a quebrar na medida em que eu avançava. O barulho das taquaras quebradas deve ter despertado algum temor nos dois que o Leo pediu para o Leonildo parar de chorar e ele parou, fez-se um silêncio assustador. Nisso dei mais alguns passos para chamar o Leo para me ajudar. Foi então que ouvi o seguinte:
– Leonildo escuta! Falou o Leo, e ao ouvir o estalar das taquaras quebradas e continuou… ssss… Nisso eu gritei por eles, e o Leo arrematou:
– Leonildo escuta! Eu acho que é o diabinho…
Em seguida vi o vulto dos dois a toda a velocidade lomba acima como se disputassem uma corrida de cem metros rasos. Não tive outra escolha, alguns minutos depois cheguei, de língua de fora, arrastando o balde sozinho. Os dois ainda resfolegavam de língua de fora em função da corrida.
Outras histórias envolvendo o tal diabinho,  acho que é o Leonildo que deve conta-las.
Algum tempo depois a tia Eulália ficou uns meses lá em casa para ajudar, mas isto é outra história.

Uma história para ficar na história…

Há 14 anos na primeira festa dos Piovesan, os descendentes de Giovanni Marco, em Frederico Westphalen, Um maluco subiu ao palco para fazer um agradecimento e expôs uma ideia simples:
– O livro da genealogia está perfeito, foi uma pesquisa exaustiva e bem conduzida que resultou numa obra de valor incalculável como documento histórico. Agora é hora de começar outro, com aquilo que os Piovesan sabem fazer de melhor, “contar histórias”, histórias do pai, dos tios, dos avós, enfim aquela história viva que se renova a cada vez que é contada, que muda as versões de acordo com os sonhos e a visão de cada um, a história viva.
O maluco daquela hora era eu.
A partir de lá fui espalhando a ideia e a vontade de fazer algo que se identificasse, principalmente com o que eu conhecia do nono, o “Toni Torccio”, e de meu pai, o “Tio Lino”, que contava histórias e era capaz de transformar qualquer pequeno incidente do dia a dia numa bela história. Falei muito desta ideia com os tios Abel, Pio, Eulália, Thereza, Maria e Odila, todos foram simpáticos com a ideia, mas me faltava coragem para começar e a história estava quase sendo esquecida.
Em Janeiro de 2010, uma Piovesan, mais maluca do que eu, praticamente organizou sozinha a festa dos descendentes do “Toni Torccio”, nesta época já era de domínio público o desejo de ter um livro das histórias da família. A partir daquela beleza de festa não foi difícil de convencer a Silvia a assumir a frente da história, que continuava ainda no mundo das idéias.

A família Toni Torccio por ocasião dos votos da irmã Thereza. Da esquerda para a direita: Maria, Odila, Achiles, Toni, Pio, Thereza, Lino, Elizabeth, Abel, Eulália e Ignes.

A família Toni Torccio por ocasião dos votos da irmã Thereza. Da esquerda para a direita: Maria, Odila, Achiles, Toni, Pio, Thereza, Lino, Elizabeth, Abel, Eulália e Ignes.

Fizemos uma reunião na casa da tia Odila para dar o pontapé inicial ao livro, finalmente com a doença do tio Pio, a ideia veio com toda a força e a Silvia, que já estava coletando dados e histórias prometeu a ele que o livro sairia.
Desde então a Silvia e eu, com algumas colaborações estamos fazendo o livro acontecer, mas… sempre existe um mas. Se não tivermos a colaboração de vocês primos, não teremos histórias para contar e o livro vai se resumir na história do tio Abel e do tio Lino e naquilo que conhecemos e ou eles contaram de suas famílias. Está na hora. Enviem-nos histórias de suas famílias, de quando vocês eram crianças, de como viviam seus pais e irmãos, de como era sua casa, sua vida. Não se preocupem com a qualidade do texto, mas mandem detalhes e se tiverem fotos, nos faremos as correções e adaptações necessárias para editar a “História da família Toni Torccio” que é a história de suas vidas.
Este Blog é nosso ponto de encontro façam comentários que anexaremos à história. Também podem mandar textos para o Facebook, anexo em mensagens ou por e-mail.

Tempo de chuva – Tempo de pescaria

Para quem nasceu e se criou na roça sabe muito bem que desde criança sempre tem um servicinho para fazer. Na roça se trabalha de segunda a sábado, mas algumas tarefas são de segunda a segunda. Ou algum de vocês já experimentou ficar um dia sem comer, é claro que algumas práticas cristãs sugerem ocasionalmente dias de jejum, mas eu não conheci nenhum porco, vaca, boi, cavalo ou outro animal cristão e adepto desta prática. Logo, folga somente se tem dos trabalhos da lavoura nos dias de chuva, quando não dá para trabalhar na capina, plantio, colheita ou outra tarefa.

Colheita do milho, uma das tarefas que não pode ser feita em dias de chuva.

Colheita do milho, uma das tarefas que não pode ser feita em dias de chuva.

Uma prática comum, em dias de chuva, lá em casa, era selecionar o milho no paiol, descascar e debulhar milho para a moagem, afiar as ferramentas ou, a melhor das tarefas em dias de chuva, ir pescar. Tem cada história de pescaria que daria um livro só delas. Até aqui estou descrevendo o que os filhos do Lino faziam na sua infância e juventude. É claro que aprendemos com ele esta rotina, e ele certamente aprendeu com o pai dele, o nono.
Vejamos um exemplo: chove a noite toda, no outro dia a gente não pode carpir, pois a terra está muito molhada, segunda opção “rastolhar” o milho no galpão, Uma atividade divertidíssima: limpa-se dois cantos do galpão e começa a brincadeira. As espigas bonitas, bem fechadas, são atiradas para um dos cantos, elas vão durar mais tempo antes de criar carunchos, serão o milho principal aquele que deve durar até a nova safra, servirão de semente e de reserva. As espigas com palha aberta e os “restolhos” aquelas menores e não bem formadas vão para o outro canto para consumo imediato. O início do trabalho até que é meio chato, mas a medida que o monte de milho a selecionar começa a diminuir entram em cena os cachorros e os gatos – isto mesmo – os cachorros e os gatos, pois sempre tem algum camundongo que se esconde no meio do milho, e a medida que o monte de milho diminui eles vão ficando encantonados e começam a fugir, aí entram os cães e gatos na caçada. É muito divertido, é uma tarefa para dia de chuva.
Na nossa história tudo isso já tinha sido feito e continuava a chover, então a opção é ir pescar. Neste caso sempre é agradável a companha de alguns primos: O Orlando, o Eliot, o Qiude Zanon e por aí vai, vizinhos também vale. Uma boa prática é começar perto da usina Franciscana (hoje CELETRO) e ir se deslocando rio abaixo,  até perto dos Dalla Nora. Neste trajeto dá pra fazer uma boa pescaria, é claro que às vezes tem alguma melancia nalguma roça perto do rio, ou um milho verde pra assar. E se der sede, bah! A água do rio está suja devido à chuva então a saída é procurar alguma fonte nos barrancos e tomar a água com um canudinho de taquara. O canudinho de taquara é de grande utilidade, pois permite que se beba água de um lugar quase inacessível de outra forma, como faziam os bois do Lino nos campos de Palmeira onde as fontes d’água são profundas.
Outra utilidade do canudinho é tomar “graspa” do “garrafonetto” do Toni pela fresta na parede do galpãozinho. Só que às vezes o canudinho (cannutcho) caia dentro do garrafão, mas isto não era problema, pois tinha bastante taquara por perto e a gurizada sempre levava consigo alguma ferramenta de corte como canivete ou “brítola”. Pronto agora já sabemos como a “graspa” do Toni foi transformada em “cannutchi”.

Restolhar – Separar as espigas pequenas e abertas do milho guardado no paiol.

Brítola – Canivete em forma de foice muito comum entre os descendentes de italianos.

“Solo canucchi”

A primeira história que sugere o apelido carinhoso de “Toni Taquara” é a de “Ver as horas no milharal” outra história que reporta ao apelido, tem suas raízes num galpãozinho que tinha atrás da casa perto do rio, onde o nono guardava suas cachacinhas e “graspas” preferidas. Aqui vai a primeira parte…
Muito religioso, o seu Antônio Piovesan costumava receber periodicamente os padres em sua casa, quando não era o vigário da Nova Palma, era algum padre Palotino, muitas vezes o padre e seus amigos, o bispo ou alguma outra autoridade religiosa que vinha para a paróquia, enfim, sempre que o vigário recebia alguma visita importante era praxe fazer uma visitinha ao Toni, que sempre se destacou como homem de fé, eu tinha digitado fá, aí me dei conta que poderia ser mesmo fá, sol, lá ou qualquer outra nota. Falando em nota me lembrei do valor, enfim, ter um paroquiano como ele não tinha preço para qualquer vigário que passou pela paróquia da Santíssima Trindade de Nova Palma. Está explicado, visita-lo era uma espécie de coroação de uma visita religiosa à paróquia. Era visitar um exemplo de cristão que fazia tudo com tanto amor capaz de consagrar qualquer ato cotidiano, por mais banal que fosse, até mesmo um jogo de chinquilho com os amigos ou padres num final de tarde de domingo.

Não sei bem precisar as datas, pois ouvi esta história de meu pai, o Lino.

Num domingo à tarde, foi num domingo que havia crisma na paróquia, estando o bispo muito ocupado designou para a missão, se não me engano, o Monsenhor Vitor Batistela, recém sagrado monsenhor. Na missa da Crisma tudo ocorreu com a maior naturalidade, como tudo o que acontecia na paróquia, a missa, a cerimônia da crisma, o canto… ah o canto, para os paroquianos e para o vigário tudo era perfeitamente normal, como acontecia todo o domingo, fosse festivo ou não, aliás em Nova Palma todo o domingo é festivo, por isso tudo foi normal. Menos para o monsenhor, nada pareceu normal, a afinação do coro, com a beleza das vozes, enfim, tudo parecia fruto de muito ensaio e preparação, tudo parecia perfeito. No final da Missa ele não pode deixar de fazer elogios à fé e ao fervor dos paroquianos e, é claro, dando um destaque especial ao coro, foi então que o vigário sugeriu uma visita ao regente do coro após o meio-dia. Não precisou nem formalizar o convite que foi aceito imediatamente tanto pelo monsenhor como pelo seu séquito.
Depois do almoço, respeitada a hora da sesta, todos se dirigiram à casa do Toni, que já estava esperando com um bom vinho, cartas para um chinquilho e alguns vizinhos para companhia, o Bertoldo, o Dalla-Nora, e o cunhado Aurélio Zanon. Uma visita destas era uma oportunidade para comemorar, afinal não é todo dia que vem um bispo, ou quase, na casada gente. Depois de um copo de vinho e algumas rodadas de chinquilho, o tio Aurélio Zanon começou a falara das habilidades do cunhado na preparação de licores especiais. Tudo destilado num alambique rudimentar feito com o panelão, uma tampa de zinco e um cano de cobre, mas com sabores indescritíveis, claro, eram feitos por um artista das bebidas destiladas, nada mais nada menos que o cunhado, o Toni.
A esta altura o “vesco”, que já tinha visto o que o “Toni” era capaz de fazer no coral, a maestria com que dirigia, a beleza da voz, estava convencido que realmente estava diante de um cristão que buscava a perfeição, e pelo efeito do vinho não pode deixar de sugerir que gostaria de conhecer pessoalmente a perfeição de tais licores. O “Toni”, já com o ego bem massageado pelo padre, após a missa, pelo cunhado e agora pelo monsenhor, resolveu provar, na prática, suas habilidades e brindar as visitas com uma “graspa” especial, realmente muito especial, guardada num garrafão lá no fundo, bem no fundo do galpãozinho.
Pediu licença, e saiu rumo a arca do tesouro, o galpãozinho. Retirou com cuidado vários garrafões da frente e pegou aquele que guardava o tesouro, “quela graspeta speciale”. Aí veio a primeira surpresa, o “garrafonetto” estava muito leve, puxou-o para si e veio a segunda surpresa “il gue gera pien de canucchi” e “solo um poquetin de graspa al fondo”. A esta altura nada mais havia que fazer, pegou uma outra, não tão perfeita e serviu para as visitas…
À noite, na hora da janta, comentou com a família o ocorrido.
Porque o garrafão estava cheio de “canucchi”? – é a próxima história do Lino.

Graspa. – Bebida destilada a partir das cascas da uva depois de separado o vinho.

Garrafonetto. – Garrafãozinho, ou garrafão precioso.

Vesco. – Bispo ou alguém que tem sua autoridade.

Canucchi. – Canudos de taquara utilizados para tomar água numa fonte ou riacho. ( O Leonildo conhece uma história bem interessante sobre isto)

O parto da porca.

Esta é outra das histórias do Seu Lino, e suas aventuras como veterinário da região (1).
O fato ocorreu no inverno de 1978, na época das férias de inverno, quando se encontravam na casa do Seu Lino, o narrador deste acontecimento e seu amigo Geraldo, na época estudante do primeiro semestre da faculdade de medicina.
O dia estava chuvoso, e como era de costume “já que não dava para trabalhar”, nos reuníamos para comer rapaduras de “açúcar preto” (mascavo), com amendoim, “atiçar” os cachorros contra os gatos e, quando a chuva acalmava, correr atrás das lebres, que graças à nossa péssima pontaria quase sempre escapavam ilesas aos tiros de nossas velhas espingardas.
Estávamos com as espingardas prontas para sair à caça, quando chegou um vizinho, morador do “Travessão do Coqueiro”, localidade distante uns seis quilômetros da nossa casa.
– Buenas seu Lino!
Foi dizendo o “brezocollo” (denominação que os descendentes de italianos davam aos caboclos).
– Vim aqui pro sinhô socorrê minha porca que tá produzindo.
– Prontamente!
Respondeu o Seu Lino, usando sua tradicional expressão para quando se prontificava a atender a um chamado, enquanto agarrava a costumeira sacola de couro, equipada com a “castradeira”, uma “agulha de sutura” feita de palheta de guarda-chuva, um cano de guarda-chuva cortado em diagonal, que servia para “furar o bucho” quando o animal estivesse “estufado”, um “aparelho de injeção” e outros aparatos não menos exóticos e contaminados que os já citados.
Entusiasmado com a possibilidade de assistir a um parto, e talvez até prestar alguma ajuda, o nosso calouro da medicina se prontificou a acompanhar o Seu Lino. Como também me interessava pelo assunto, resolvi seguir a comitiva.

Seu Lino com o chapéu característico, o inseparável Ramenzoni.

Seu Lino com o chapéu característico, o inseparável Ramenzoni.

O Seu Lino enfiou seu “Ramenzoni Standard” na cabeça (2), saltou no assento do trator Valmet, e assim seguiu acompanhado da comitiva que ia pendurada ao trator.
Chegando à casa do Seu Moreno, fomos logo acudir a porca.
Seu Lino tomou a dianteira, aproximou-se do animal – que tendo “produzido” um leitão – continuava fazendo muita força, com pressa de mostrar suas habilidades.
A porca era grande e bastante gorda, dificultando o trabalho do sensível obstetra, que apalpava cuidadosamente a barriga da porca.
Bastaram alguns segundos de exame para que o mestre, olhando para nós com ar de sabedoria, desse o diagnóstico definitivo:
– Não tem mais leitão algum! Ela somente gerou um porquinho.
Inconformados com a simplicidade da intervenção, o filho do veterinário argumentou:
– Acho melhor que o Geraldinho também examine o bicho, pois com seu conhecimento científico talvez tenha um parecer diferente.
Contrariado, Seu Lino permitiu o exame, esperando que o “médico” confirmasse o diagnóstico, mas nosso amigo “quase médico”, depois de tatear a barriga da porca, querendo forçar um “intervenção cirúrgica”, pintou um quadro muito grave, e que “pela sua experiência”, pensava que somente uma casaria poderia salvar o animal, pois havia um leitão atravessado e somente a Cesária poderia salvar a porca.
Seu Lino, apesar de contrariado, cedeu ao conhecimento científico e se entusiasmou em poder, mais uma vez exibir sua habilidade cirúrgica. Foi logo retirando os apetrechos da sacola e depois de pedir para amarrar o bicho deitado de lado na posição adequada, foi logo pelando o local para a incisão.
Diante do olhar curioso dos assistentes, que seguravam a pobre porca, e, com muita destreza, rapidamente o “veterinário” cortou a porca e enfiou a mão para dentro, aumentando o clima de expectativa dos acompanhantes do parto.
Numa expressão de aborrecimento e desapontamento, olhando para a platéia, Seu Lino foi retirando a mão:
– Como eu já havia diagnosticado, aqui não tem leitão nenhum!
A chacota foi geral, e Seu Lino contrariado e meio bravo por causa dos conselhos dos curiosos que o induziram ao erro, tratou de fazer a sutura, juntar os apetrechos e voltar ligeiro para casa, para tomar um trago e esquecer o fracasso da cirurgia. Subiu no Valmet que era famoso por ser “o mais rápido da região” e sem esperar que seus ajudantes fizessem o mesmo, acelerou a máquina e partiu se vingando da dupla que teve que amargar seis quilômetros a pé para voltar para casa.

(1) Seu Lino conhecia toda a região, atendia dois ou três “pacientes” por semana, e sabia a data de nascimento da maioria das vacas, cavalos e outros bichos da região.
(2) Ramenzoni Standard era o chapéu que Seu Lino usava, era mais fácil ver ele sem calças, do que sem seu companheiro Ramenzoni.

Aconteceu em Palmeira

Lá no interior de Palmeira, no tempo em que se criava a bicharada solta ao redor de casa, todos tinham suas galinhas, vaquinhas e principalmente alguns porquinhos que produziam banha e carne para o consumo da família.

Para uma criação pouco numerosa, não se justificava ter um cachaço (porco reprodutor) em cada propriedade. Pois foi aí que o problema se criou…

“Seu Lino” era um dos poucos que se dava ao luxo de ter um reprodutor – o que mais tarde veio lhe dar “dor-de-cabeça”.

O cachaço, apesar de ser forte e muito bom reprodutor, não era muito grande, por isso, além de comer pouco tinha a vantagem de ser facilmente transportado para as frequentes visitas às porcas da região.

Não passava uma semana sem que aparecesse alguém pedindo o bicho emprestado, e “Seu Lino” nunca dizia não, satisfeito com a fama de seu animal que, muito assanhado, se ia levado em uma carriola – o meio mais prático de carregar o bicho que era de pequeno porte.

Passado algum tempo, quando na região já não existia porca com quem o bicho não houvesse cruzado, foi então que Seu Lino passou a sofrer as conseqüências do empréstimo do porco, pois toda a vez que ia usar o carrinho-de-mão, para qualquer trabalho perto de sua casa, era surpreendido pelo bicho safado, que surgia inesperadamente e se jogava em cima do carrinho, imaginando que seria levado para mais uma visita amorosa a alguma leitoa da vizinhança.

(A história é real e o narrador é filho do Seu Lino).