Il cigro de la vecchia Gusta Bertola

Algumas rotinas são diárias outras semanais, mensais ou até anuais, mas são sempre rotinas, ritos que se repetem indefinidamente sempre da mesma maneira. A “messa dominicale” da velha “Gusta Bertola” não era diferente, assim como os Piovesan de Toni, sempre iam para a primeira missa, a das oito horas, a vecchia Gusta Bertola ia para a segunda, as nove, ficava mais cômodo, não precisava levantar tão cedo, pois ela morava passando o Toni uns quatro quilômetros pro lado de São João. Depois quando ela voltava, passando o passo do Soturno, dava uma chegadinha na casa do Toni, que a esta altura já estava bebendo um copo de vinho e fumando um palheiro. Sempre tinha assunto para conversar e assim ela ficava pelo menos uma hora de conversa com o vizinho, e amigo do finado marido, mas não descia do cavalo, que ficava pisoteando e dando voltinhas.
Como isto já era uma rotina o Toni voltava da missa e arrastava uma cadeira para o terreiro e ficava na sombra da laranjeira esperando a amiga para conversar, fumando um palheiro e bebericando vinho, enquanto a nona preparava o almoço (il dinnare). A Ferruchia não tomava vinho, pelo menos aí não, pois acho que já era adepta do “se beber não dirija”. Chegava lá pelas 10 e meia e ficava mais ou menos uma hora conversando sobre os bichos, a plantação, o tempo e qualquer outro assunto que aparecesse até que lá pelas onze e meia a gurizada começava se aproximar da cozinha para almoçar. Então o nono a convidava para almoçar e ela agradecia e dizia que tinha que ir para casa que o almoço dela estava esperando, mas… se virava para o Lino, piazote de 14 ou 15 anos na época e pedia:
– Ció Lino fa-me um cigro?
O Lino pegava a brítola do pai, um pedaço de fumo e uma palha e fazia um cigarro de palha magistralmente. Exatamente como ela gostava, ia até a cozinha, acendia o cigarro no fogolaro, dava umas tragadas e levava para a Gusta Bertola, que agradecia e saia galopando o cavalo. Era uma rotina, e bem que o Lino gostava, pois era a oportunidade de dar umas tragadas no cigarro.
Imagine esta cena se repetindo um ano, dois ou mais. Podia combinar com a Gusta Bertola e talvez com o Toni, mas com o Lino eu duvido muito, no entanto a cena se repetia e se repetia… até que um dia…
O Toni arrastou a cadeira para a sombra, preparou seu palheiro, pegou o copo de vinho e ficou esperando. Chegou a Gusta Bertola, ficou conversando um tempão, foi convidada para almoçar, agradeceu e começou a procurar pelo Lino que não estava aí para fazer o palheiro. Desta vez foi o Toni que gritou:
– Lino zé hora de fare el cigro dea Gusta Bertola!
O Lino apareceu pegou a palha, o fumo e a brítola e se foi lá para cozinha fazer o cigarro de palha, passados alguns minutos veio com o cigarro aceso, alcançou para a vizinha que saiu a galope para casa. Talvez o Toni e a Gusta Bertola não tenham se dado conta, mas a rotina estava quebrada.
Passado um minuto, talvez nem isso, a Gusta Bertola estava de volta, bestemando de uma forma que não combinava nem um pouco com alguém que voltava da missa. Com os cabelos sapecados e umas manchas pretas no rosto. O Lino tinha colocado umas “dieze o dodeze teste de fuminanti” (cabeças de palitos de fósforo) no palheiro… Acho que foi uma das poucas vezes que o Toni perdeu a paciência com ele. O que nunca consegui descobrir é se, e quanto ele apanhou do nono. Afinal os dois gostavam de aprontar “dispetti”.

Tem muito mais histórias envolvendo “il cigro dea Gusta Bertola” …

Toni de brague fate sú!

“É importante que se diga que todas as histórias e fatos aqui relatados são verdadeiras, verdadeiras joias do imaginário da família, mesmo que algumas tenham várias versões todas elas são verdadeiras, por isso, sempre que possível indicaremos a fonte.” (LiceoPiovesan)

A verdadeira história do Toni de brague fate sú.  Contada pelo Lino.

Muita gente já falou e com certeza vai falar ainda da devoção que o pai tinha pelo coro, aquela voz de baixo que fazia tremer as paredes. Quando ele cantava ninguém ficava indiferente. As Missas de Natal cantadas por ele, marcaram não só a minha vida, mas com certeza a de muitos. Parecia uma orquestra inteira de contrabaixos, dava um arrepio na gente quando ele abria o peito. Desta forma fica fácil de entender qual era a sua posição no coro ao lado esquerdo do altar, bem perto do celebrante ficavam as mulheres de primeira voz (sopranos) depois as de segunda voz (contraltos) depois os homens terceira voz (tenores) e finalmente a quarta voz (baixos) que ficavam mais visíveis para o público, pelo menos naquele tempo que tinha um estrado onde o coral ficava mais elevado, quase na altura do presbitério.

Também é preciso dizer que a igreja nunca foi um lugar de desfile de moda, pelo menos não na da Santissima Trindade, em Nova Palma, os fiéis iam para rezar e louvar a Deus. Ninguém reparava em como ou o que cada um vestia, mesmo assim, todos procuravam ir a missa com a melhor roupa que tinham, ‘la roba de andar messa’. Mesmo aqueles que andavam a semana toda descalços faziam questão de calçar sapatos aos domingos e dias santos para o momento de louvor a Deus, afinal para agradecer tantas bênçãos tudo tinha que ser o melhor. Inclusive o canto que tinha que ser impecável, perfeito.

Embora nem sempre e nem tudo fosse perfeito, como naquele ano que a enchente tinha levado rio abaixo a pinguela do Portela. Quem ia à missa a cavalo não tinha problemas, pois sempre usava o passo mesmo, mas quem ia a pé tinha que se submeter a uma cerimônia não muito agradável, tirar os sapatos e as meias, atravessar o passo do Portela e recolocar no outro lado. Isso não era diferente para a família Piovesan que morava no Bom Retiro. Era Natal e o pai, o Abel, a Eulália e a Odila, iam participar da missa do galo, cantada em latim a quatro vozes e tinham que ir a pé. Chegando ao passo do Portela tinha que tirar os sapatos, atravessar o rio e recolocar os sapatos no outro lado. As gurias tinham sofisticado a cerimônia levando uma toalha para enxugar os pés antes de recolocar os sapatos, mas o rio estava alto a água dava quase no joelho, para as mulheres não era grande problema, apesar de meio constrangedor, bastava puxar o vestido para cima e pronto. Para os homens era mais complicado, precisava enrolar bem para cima as calças, (far sú e brague) senão acabava molhando. O Toni fazia isto com maestria, pois gostava de ter os pés e pernas livres, estava acostumado a este ato, arregaçou as calças, atravessou o rio, secou os pés e recolocou os sapatos e lá se foram para a missa. Chegando quase em cima da hora tomaram suas posições no coro ao lado do altar e soltaram as vozes.

A celebração foi magnífica a perfeição e a harmonia da liturgia com o canto, contribuíram para a elevação dos corações em agradecimento ao criador que se fez humilde, frágil, pequeno e indefeso para o nosso bem. Tudo combinava magnificamente para mostrar o desapego, a humildade e a simplicidade do todo poderoso feito criança. A missa estava quase no fim e foi nesse momento que o pai se deu conta que estava na igreja, bem do lado do povo, com as calças arremangadas, ninguém tinha percebido este detalhe, e provavelmente não teriam notado se não fosse o nervosismo que tomou conta do cantor. Começou a esfregar uma perna na outra de um jeito estranho, se perder na música, mas conseguiu desarremangar as calças. Aliviado terminou sua tarefa de cantor com maestria, apesar de estar um tanto envergonhado com o ocorrido. Ele andava sempre com as calças arremangadas, mas na igreja, ele achava aquilo uma falta de respeito.

Terminada a missa, ele ainda meio sem graça foi se encontrar com os amigos no bar do Raimundo Aléssio, foi aí quer vários deles vieram lhe dizer que não tinham percebido nada até que ele começou com aquela inquietação. Chegaram a dizer que ninguém teria notado que ele tinha “e brague fate sú” se não fosse o nervosismo que demonstrou quando percebeu.

Primeira visita ao tio Bellé

O ano escolar ainda não tinha terminado no seminário do Braga, mas como eu sempre tinha boas notas e era por um motivo nobre, participar da primeira missa do Padre Reinaldo Piovesan, ganhei férias antecipadas. Tendo o Tio Achiles como guia e patrocinador, tomamos o ônibus para Nova Palma, era a primeira vez que eu ia para aquelas bandas. Ia conhecer um monte de primos que só conhecia por fotografia, os do tio Abel e Pio, e outros que conhecia só de nome, os da tia Ignes e da tia Maria. Vajamos na sexta-feira de tarde para chegar a Júlio de Castilhos, pernoitar e ir no sábado para Nova Palma para a missa solene do domingo.

Naquele tempo (como dizia o padre Guilherme velho quando começava o sermão, “in illo tempore”) não tinha celular, nem telefone, nem muitas outras coisas das quais somos dependentes hoje, e consequentemente não tinha como avisar as pessoas que estávamos chegando.  E foi assim que aconteceu começou a escurecer e ainda estávamos longe de Julio, eu estava muito inquieto mesmo estando com o tio que conhecia a cidade, mas, segundo ele, não lembrava bem onde tinha que descer. Descemos antes dos trilhos e voltamos um pouco, não sei se era de verdade ou se ele estava fazendo de conta pra me assustar, só sei que não estava reconhecendo a casa, até que chegamos numa casa perto de um monte de ferro velho, já era tarde da noite.

Eles cederam a própria cama aos visitantes cansados...

Eles cederam a própria cama aos visitantes cansados…

Batemos na porta e ouvimos uns ruídos característicos de quem está acordando não muito contente de ser acordado àquela hora, aberta a porta, os donos da casa se desfizeram em sorrisos e abraços de boas vindas. A tia preparou alguma coisa para comermos enquanto o tio Achiles contava as novidades de Jaboticaba e o tio Arlindo as de Júlio de Castilhos. Tomamos um belo banho para remover a poeira da estrada e aí é que veio a grande surpresa: o tio e a tia nos deram a sua cama para dormirmos, pois estávamos cansados da viagem.

No outro dia de manhã o tio nos mostrou a horta, o ferro velho e depois a cidade, demos uma passadinha no tio Eugênio, no tio Fernande Trentin e finalmente ele nos deixou na rodoviária onde íamos tomar o ônibus para Nova Palma.

O resto da história conto outro dia…

A vaca da sogra

Antes de iniciar esta história, para que não se cometa nenhuma injustiça contra Seu Lino, contra a Dona Maria ou contra a vaca Paloma, preciso fazer um esclarecimento.

Com todo o respeito (e medo?) que Seu Lino tinha pela sogra, sempre procurava deixar bem claro, que quando usava o termo “a vaca da sogra”, jamais lhe passava pela cabeça qualquer interpretação maliciosa, queria apenas referir-se à vaca que pertencia à sogra.

Dona Maria, sempre muito exigente com a saúde e demais cuidados para com seus animais, tinha uma predileção especial pela vaca Paloma, que se dizia ser uma das mais leiteiras da região.

Muitas vezes enquanto Ludomila e Tarcila, as filhas de Dona Maria, ordenhavam a vaca, a velha matriarca ficava observando o animal, atenta a qualquer sinal que pudesse indicar uma anormalidade.

Nesta época a enérgica senhora não metia a mão numa vaca para tirar leite, e quando alguém a questionava sobre o fato, simplesmente perguntava: “Por que é que a gente tem filhas?”

Certo dia enquanto ordenhavam a Paloma, Dona Maria observou que a vaca estava diferente, meio arrepiada e um pouco “descaída”. O fato recomendava chamar o Lino para examinar a distinta ruminante. Além de genro de Dona Maria, Seu Lino, também era conhecido na região como veterinário devido aos seus conhecimentos da medicina animal, e, tanto conhecia, que sabia até mesmo a data de nascimento da maioria das vacas, cavalos e outros animais da redondeza.

Não tardou para que o dedicado “doutor” atendesse a mais esse chamado e, mesmo antes de chegar perto da vaca, já fosse dando o diagnóstico definitivo e prescrevendo a medicação:

– É pura verminose…

– Esta vaca está fraca por causa dos vermes e por isso precisa urgente de um vermífugo para acabar com eles e um tratamento a base de cálcio intravenoso para se fortalecer novamente.

Deve-se esclarecer que o cálcio intravenoso era a prescrição preferida do nosso especialista já que na região ninguém tinha os aparelhos nem sabia aplicar esta medicação, o que ele fazia com muita destreza, e, também por isso, todos tinham-lhe muita consideração como técnico das ciências veterinárias.

Dona Maria que prezava mais pela ruminante do que por muito outro ser inteligente, não questionou o tratamento (também não cabia questionamento, porque de vaca o Lino entendia) e mandou buscar logo os remédios para restaurar rapidamente a saúde do animal.

Chegados os medicamentos, lá estava novamente o Tio Lino (1), pronto para mais uma intervenção, e esta era de muita responsabilidade, porque tinha que mostrar para a sogra como tinha sabedoria e valor.

Passou o maniador (2) na vaca, palanqueou (3) bem palanqueada, pegou os frascos encomendados e foi preparando o tratamento salvador.

– Primeiro vou fazer o cálcio que é mais difícil.

Comentou o veterinário enquanto com a agulha perfurava a jugular da vaca para aplicação do medicamento. O sangue jorrou forte e ele rapidamente conectou à agulha a mangueira do frasco previamente preparado em sua mão.

Mal se iniciou a aplicação, sob o olhar angustiado do especialista, a vaca começou a estremecer, enquanto ele rapidamente soltava o maniador e tratava de retirar a letal medicação.

Os assistentes, sem perceber a gravidade do fato, imaginavam que fosse uma reação alérgica ou qualquer tipo de não tolerância à medicação, mas Seu Lino, com sua larga experiência, já percebia do que se tratava.

Libertada rapidamente das cordas, a vaca deu dois passos para frente e caiu inerte, já sem nenhum sinal de vida.

Temendo a reação da proprietária, o veterinário preferiu dizer a verdade, e, com seu costumeiro hábito de ver o aspecto positivo dos fatos, explicou:

– Mudaram o frasco do vermífugo, e fizeram muito semelhante ao vidro de cálcio. Foi uma pena… mas ao menos garanto que não sobrou verme nenhum…

Sem aguardar os agradecimentos da sogra pelos serviços prestados, Seu Lino juntou seus apetrechos, montou na égua Vitória e sem nenhuma perda de tempo tomou o rumo de casa.

Sempre cercado de animais o Lino fazia do treinamento de animais uma diversão, e as crianças participavam disso.

Sempre cercado de animais o Lino fazia do treinamento de animais uma diversão, e as crianças participavam disso.

(1)  Como a maioria das pessoas mais jovens do povoado e arredores eram sobrinhos de Seu Lino, ficou generalizado chamarem ele de Tio Lino.

(2)  Tira de couro com aproximadamente quatro centímetros de largura, usada para imobilizar o animal (a tira plana não provoca luxações).

(3) Palanquear significa amarrar o animal em um tronco (palanque) geralmente em lugar limpo e isolado para facilitar os trabalhos de cura de bicheiras, vacinas, corte de chifres, castração, etc.

O champanhe do tio Jorge.

Neste vale residia o tio Jorge, vizinho do tio David

Neste vale residia o tio Jorge, vizinho do tio David

A foto original do autor encontra-se no Panoramio

Eu estava com 16 anos, e era a primeira vez que eu ia a Nova Palma, para a primeira missa do padre Reinaldo Piovesan,  quis então aproveitar para conhecer os lugares de que a mãe e o pai nasceram, e não podia faltar Linha Base. E foi por isso que fui dormir na casa do tio Pio para acordar cedo na terça-feira para pegar o ônibus até linha base e ficar um dia na casa do tio David e tia Maria.
O sol ainda não tinha aparecido, em Nova Palma ele não costuma aparecer tão cedo, mas os galos da redondeza já tinham cantado bastante quando o visitante acordou meio sonolento e começou a sequencia de atividades programadas para o dia: acordar, tomar café, arrumar a mochila, se despedir dos tios e dos primos e sair apressadinho para a rodoviária, pois afinal ônibus não espera, mas estava em cima da hora e o café foi sacrificado, afinal o tio David não ia negar café para um sobrinho. Já estávamos dobrando a esquina perto da rodoviária quando o primo Tarcísio, que caminhava mais depressa avistou o dito cujo que já dobrava a esquina em direção a Linha Base. A solução era esperar o próximo horário, no outro dia de manhã.
De volta para casa surgiu a ideia de fazer o trajeto a pé, quando falamos para o tio Pio ele achou a ideia boa, afinal são apenas oito quilômetros, mas a tia Clementina achou que seria loucura fazer uma caminhada daquelas. Argumento daqui e dali, prós e contras analisados ficou decidido, o trajeto seria feito a pé, e para encurtar o caminho, o Tarcísio e eu iriamos subir o morro do Pelegrin e sair na estrada lá perto do Olivo Santi. Aí deu tempo para tomar café arrumar a mochila decentemente e saímos morro acima. (Esta viagem é uma história completa que vai ficar para outra oportunidade.)
Chegamos à casa do tio lá pelas 11 horas da manhã, como o Tarcísio era de casa simplesmente sumiu pelos potreiros, foi andar a cavalo, e não sei mais o quê. Eu só conhecia o tio e a tia então comecei a ser apresentado para um e para outro e a conversa durou até a hora do almoço. Depois do almoço o tio foi me mostrar as lavouras, o gado, os porcos e um pouco da redondeza. Foi quando pedi a ele se o tio Jorge Trentin morava perto, ele em disse que era bem pertinho e se eu quisesse até poderíamos ir lá. Não esperei ele terminar a frase e concordei, pois estava louco para conhecer mais aquele pedacinho de mundo. Já no final da tarde pegamos uma trilha que levava das lavouras dos Pegoraro às dos Trentin e não demorou muito estávamos lá. O tio Jorge e a tia Ângela nos receberam bem ao estilo dos Trentin, lamentando que não tivéssemos avisado para fazerem uma janta à altura das visitas. Outro contratempo é que os guris iam para o ensaio do coral e somente o casal ficaria em casa, o que não dava nem uma mesa de cinquilho, a solução seria trissete. Enquanto a tia fazia a polenta o tio Jorge apareceu com uma garrafa de champanhe para tomarmos como aperitivo, era um champanhe do ano passado que ele não conseguiu vender porque tinha ficado muito forte, a uva amadureceu demais, ficou com grau alcoólico muito alto. Era um champanhe seco que parecia ferver dentro da boca, estralava bolhinhas entre a língua e o céu da boca, confesso que não achei nada de errado.
Para a janta o tio trouxe mais uma garrafa de champanhe, depois enquanto jogávamos conversa fora, entre uma partida e outra de trissete, acho que tomamos mais umas quatro garrafas de champanhe. Já era quase meia noite quando os guris voltaram do ensaio, aí percebemos que já era hora de ir para casa, inda mais que eu tinha que tomar o ônibus para Júlio de Castilhos no outro dia. (onde fiquei dois dias na casa do Arlindo e da tia Inês, primos me cobrem e complementem esta história).
No caminho, apesar de estarmos os dois a chutar pedras, por conta do champanhe, iluminando o caminho com um tição em brasa que o tio ia sacudindo para alumiar o caminho, insisti com o tio que eu não poderia perder o ônibus no outro dia e que, se fosse necessário me jogasse um balde de água. Chegamos em casa e todos estavam dormindo, o tio me indicou o quarto, e eu caí na cama como uma pedra.
O sol já tinha dado o ar da graça, em Linha Base ele levanta cedo, o café já estava pronto, todo mundo tinha levantado, feito muito barulho, e eu continuava roncando. Não podia perder aquele ônibus, e o tio David muito consciente de sua responsabilidade de acordar o sobrinho, bateu a porta do quarto e como não obteve resposta, entrou. E agora – não é que ele continua a dormir como um anjinho – (Viu pelo menos enquanto durmo pareço um anjinho). Mas esta hora o ônibus já estava a caminho, o tio foi até a janela e abriu para deixar entrar a luz do sol e nada do sobrinho acordar. Algo deveria ser feito, foi aí que ele decidiu assumir sua função de despertador, foi até a cozinha serviu-se de um objeto e chegou na janela…
Chuá! Até que ele foi legal, só veio com uma caneca de água fria em lugar do balde que eu tinha pedido…
Vesti-me, lavei o rosto tomei café e desta vez não perdi o ônibus rumo a Júlio de Castilhos.

Tio David em Porto Alegre

Em função do acidente e por estar paraplégico o tio David tinha problemas de saúde, estava bastante debilitado e no ano de 1979, esteve internado na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Neste tempo ficou bastante só, pois a tia tinha que ficar em casa cuidando das crianças, e além da Tia Odila e eu não tinha outros parentes por aqui, quando descobrimos que ele estava internado a Catia, minha namorada, e eu fomos visita-lo, a Catia trabalhava em Porto Alegre, não muito longe da Santa Casa. Como eu morava em São Leopoldo somente podia visita-lo nos fins de semana então pedi para ela se poderia ir algum dia durante a semana, ela foi algumas vezes no intervalo do almoço, mas ficava muito apertado o tempo, pois o horário de visita não coincidia totalmente com o do almoço dela fazendo com que as visitas fossem muito curtas. Foi aí que ele pediu uma autorização para ela fazer visitas fora de hora, as enfermeiras concederam a ela uma autorização para visita-lo todos os dias no final da tarde ocasião em que podia ficar mais tempo.

A Catia sempre visitava ele no final da tarde.

A Catia sempre visitava ele no final da tarde.

Falando hoje com a Catia procuramos entender um pouco do que foi a vida dele por aqui. Segundo ela ele estava muito sentido, hoje diríamos em depressão, porque não podia mais fazer o trabalho da roça e sustentar a própria família. Uma de suas maiores inquietações era justamente não poder acompanhar o crescimento de seu filho menor, ele estava perdendo de ver seu desenvolvimento, não podia brincar com ele, e por estar longe sentia muita falta da família. Segundo a Catia “hoje eu entendo, o que ele sentia era depressão, naquela época não se falava disso, ele chorava muito e sentia muita falta da família, sempre demonstrava o carinho que sentia pelos filhos e pela tia, e quando eu chegava ele gostava de falar da vida, de quando trabalhava na lavoura, dos filhos e em especial do nenê. Às vezes pegava na minha mão e simplesmente ficava em silencio enquanto as lagrimas rolavam, outras vezes me abraçava efusivamente e falava da família, ria e parecia de bem com a vida.”

... as vezes riamos muito juntos vendo fotos e contando histórias da família e do trabalho. (Catia)

… as vezes riamos muito juntos vendo fotos e contando histórias da família e do trabalho. (Catia)

As vezes fico imaginando como ele deveria se sentir, acostumado a trabalhar, fazer serviço pesado, ficar preso a uma cadeira de rodas ou dentro de um hospital sem fazer nada deve ter sido angustiante, mais estranho ainda era ficar sem nenhum familiar por perto tendo apenas a namorada do sobrinho para visita-lo. Eu visitava ele nos fins de semana aí nós falávamos dos poucos bons momentos que tivemos juntos quando eu visitei ele em 1970, (a visita ao tio Jorge Trentin) Comigo ele sempre foi brincalhão, mesmo estando com a saúde debilitada nunca perdia o humor.

A última vez que me encontrei com ele.

A última vez que me encontrei com ele.

Quando ele deu alta e voltou para casa só ficou a saudade, por isso, quando nos casamos em maio, fizemos uma turnê pelo Rio Grande do Sul e fizemos questão de visitar o tio, foi a última vez que vi ele.

O cupido ocupado

O ano era 1944, o local, a vila de Nova Palma e arredores, mais precisamente entre o Bom Retiro e a Linha Base. Na quarta colônia da imigração italiana o cupido andava extremamente atarefado – também pudera com aquelas famílias de 12; 15; 17 ou até 24 filhos – que não tinha mais como dar jeito de juntar todos os casais possíveis. Acho que ele deu uma cochilada, aí os morcegos assumiram seu posto – Isso mesmo! Os morcegos…
– Pois bem! Vamos à história.
Aqui é importante ficar fiel aos fatos, toda a juventude daqueles dias se reunia na igreja, no domingo de manhã, vindos de todas as linhas, desde Ivorá até a Linha Seis – da Linha Sete em diante moravam os alemães, mas estes não iam à missa, eram protestantes e tinham sua igreja e frequentavam o culto na Linha Sete. Os italianos, todos católicos, jamais faltavam à missa na igreja da Santíssima Trindade em Nova Palma, é claro que nem todos iam para rezar, muitos iam para ver as gurias ou elas para ver os rapazes. Depois da missa alguns momentos de cochichos e pequenas conversas e cada família voltava para casa, para suas linhas ou redutos, à tarde se reuniam para jogar bochas ou alguma outra atividade social, até aí tudo bem, os rapazes se encontravam com as moças e os casais iam se formando naturalmente. O trabalho do cupido estava funcionando muito bem – acho até que ele andou cochilando – quando começou a acontecer um probleminha, algumas linhas tinham mais moças, outras mais rapazes e começava ficar difícil juntar todas as parelhas. O jogo de bochas até que levava rapazes de uma linha para outra, mas não dava conta do recado. O vigário dava sua força promovendo festas religiosas em cada recanto tentando atrair a juventude de um lado para outro, mas ainda assim tinha muitos casais para juntar. Até porque muitas moças não se sentiam atraídas por jogadores de bochas, ou de futebol, ou seja lá o quê, elas queriam ver outras qualidades nos seus pretendentes.
Chega de enrolação voltemos aos fatos – 1944 no final do inverno, Linha Base, Linha Um e Linha Dois que ficam na região mais montanhosa e pedregosa convivem com uma tragédia os morcegos raivosos dizimam o gado, e é claro os bois de canga, responsáveis pelo arado e pela preparação da terra. “Tutti i contadini”, os colonos da região, apelaram com a ajuda do vigário nas missas de domingo, por colonos de outras linhas que tivessem bois disponíveis para arar suas terras.
Aqui a história se particulariza. Como eu quero me deter aos fatos só tenho provas de um caso, por isso vou me limitar a ele: – Na Linha Base o Valentin Piovesan e os Trentin, o Bortolo e o Jorge, ficaram sem bois de tração para arar a terra. O Toni Torccio, meu avô do Bom Retiro, enviou o Achiles e Lino para lavrar as terras do Tio Valentin Piovesan. O Achiles era conhecido como moço trabalhador e o Lino, piazote de 16 anos, era conhecido na região por falar com os animais, os bois dele obedeciam até os seus pensamentos.
Era início da primavera, tempo de lavrar a terra e começar o plantio. Na família do Bortolo não falta mão de obra, O Gervasio, a Rosa, a Basilides, o Luis, a Ercilha, a Iria, todos já grandinhos puxam uma enxada que dá gosto, os pequenos ficam em casa, mas preparar toda a terra sem bois seria impossível. A saída veio com os irmãos Piovesan, Achiles e Lino que em poucos dias lavraram a terra do Valentin e estavam disponíveis para ajudar outros vizinhos. O plantio estava garantido.
Trabalho duro, mas sempre no fim da tarde, depois da janta, tem um tempinho para contar histórias, a luz de lamparina, ou jogar cinquilho com pipoca e vinho. O jogo exige cinco participantes em cada mesa – este é o tempo para socializar – na mesa principal ficam o Bortolo, com o irmão Jorge e o filho Gervásio, o Tio Valentin e o Achiles. Na outra mesa ficam a Rosa, a Basilides, o Luis, a Ercilha e o Lino. O jogo não tem parceiro fixo e cada rodada jogam dois contra três, é muito divertido. Fica fácil de imaginar o tipo de conversa de cada mesa, na dos patriarcas e os mais velhos provavelmente se fala de terra, trabalho, colheita entre outros, na mesa dos jovens, brincadeiras, risadas, etc…
– Bah! Eu ainda não comecei contar a história, – pois bem, depois do jogo é preciso descansar para estar pronto para mais um dia de trabalho.
O Achiles e o Lino alojados no quarto de hospedes, na cantina do Bortolo, tem liberdade para conversar e é aí que “a porca torce o rabo” como se diz em gauchês. O Lino leva o primeiro grande pito de sua vida:
– “Onde se viu um piá de 16 anos se refestelando pras moças, inda mais em se tratando das filhas de um respeitável senhor, amigo e vizinho do tio Valentin, de uma família tradicional italiana.”
– Esta parte da história o Lino, meu pai, me contou por alto. Certa vez, aí eu resolvi tirar a limpo e tentei conhecer a versão do Achiles, mas só consegui mais alguns detalhes, ele era o mais velho da família, sério, sisudo e taciturno, isto é de poucas palavras. Uma história quase apagada pelo tempo se não fosse pelo Pio, irmão do meio dos dois. Visitei ele, no ano passado, e quando comecei a falar das cartas de amor que o Lino e a Bazilides, trocaram durante os seis anos de namoro…

As duas primeiras cartas trocadas pelo casal, tenho a coleção toda, exceto uma que não chegou ao destino.

As duas primeiras cartas trocadas pelo casal, tenho a coleção toda, exceto uma que não chegou ao destino.

– Ah! Esta é a história que eu queria contar, o início do namoro de meus pais.
Aí ouvi mais detalhes da história, pois o tio Pio era quem, segundo ele, que escrevia cartas que meu pai assinava, no início do namoro, pois ele não tinha paciência para escrever e julgava a letra muito feia. Chegando em casa fui imediatamente ver as cartas, o fato estava documentado – as primeiras cartas tinham uma letra no texto e outra na assinatura, a medida que o namoro foi avançando as cartas mudaram de letra e de tratamento, os termos no início um tanto formais foram evoluindo até o casamento. Esta história toda que acabou por aproximar o casal Lino e Bazilides, também levou o Tio Pio para o lado de Linha Base pros lados de outro vizinho do tio Valentin, o velho Pegoraro, que tinha uma filha muito prendada, mas esta é outra história…
– Bem com isso, como vocês podem ver que em Nova Palma até os morcegos andaram fazendo o trabalho do cupido enquanto ele cochilava…

Ângelus

Numa família religiosa, e curiosamente uma família onde os homens eram bons praticantes, uma coisa que não podei faltar no fim do dia era um momento para agradecer a Deus pelas graças alcançadas naquele dia. Graça é tudo aquilo que ganhamos numa proporção maior que nosso esforço, numa família como esta as graças caem aos milhares de todos os lados, imagine uma brincadeira das crianças, as crianças crescendo, o milho nascendo, a uva amadurecendo, uma vaca que dá leite, impossível enumerar tudo o que acontece em um só dia que não seja gratificante, ou seja, cheio de graça. Logo nenhum só dia podia findar sem dar graças a Deus, é claro que também tinha que pedir perdão por aquilo que não estava muito bem dentro da regra, isto tudo fazia parte da cerimônia de encerramento do dia que tinha que ser gloriosa. Infelizmente não vivi estas tardes com o nono e os tios, mas acredito que não poderiam ser muito diferentes das que vivi na minha infância com minha família.

O autor é o do meio - ao fundo o ranchinho mencionado no texto e na música.

O autor é o do meio – ao fundo o ranchinho mencionado no texto e na música.

“A luz do sol logo depois do ocaso começa a escassear, é o crepúsculo, o dia recheado de atividade cede lugar ao recolhimento da noite que devagarinho cobre com seu manto toda a terra. Os pássaros nas árvores começam o burburinho da busca pelo abrigo, as galinhas se recolhem e os porcos… ah! Os porcos começam a gritar por comida, lá vai a gurizada com um balde de milho ou uma abobora picada, e eles se acalmam, a mama clama pela lenha para fazer a polenta enquanto acende o chiaro (lamparina), a gurizada termina rapidamente as brincadeira e faz as lidas do fim do dia. Como borboletas vão buscar a luz ou o calor do fogão de chapa. Enquanto a água da polenta esquenta, esquenta também a chaleira para fazer o mate, a gurizada lava os pés para dormir e põe os chinelos ou tamancos.

Os cachorros anunciam a aproximação do pai que volta da lavoura, o piá que está sentado na caixa de lenha já se coça, pois vai perder seu lugar perto do fogo, é o lugar do pai, que chega e resume rapidamente o trabalho do dia. A mãe já está com o chimarrão pronto que começa a ser servido. A partir de agora começa uma das mais emocionantes celebrações de que já participei.

O templo: uma casa muito simples sala e cozinha, a sala de assoalho rústico e a cozinha de chão batido. O altar do sacrifício: um fogão rústico com grandes toros de lenha alimentando um fogo crepitante, sobre o altar a chaleira do chimarrão e a panela da polenta aquecendo a água, talvez uma frigideira aquecendo a banha para uma fortaia. A luz do fogo e das lamparinas ilumina o ambiente. Sem distinção de ministros ou celebrantes, cada um tem consciência de sua função.  A mãe põe a farinha na panela da polenta enquanto o pai serve o chimarrão, os dois se revezam entre a cuia e a mescola, enquanto um toma seu chimarrão o outro mexe a polenta. As crianças menores encolhidas ao redor do fogão ouvem atentamente a liturgia da palavra a primeira parte da cerimônia: tempo reservado para a leitura de algum livro ou jornal, feita por um dos maiorzinhos sentado no banco com o texto sobre a mesa. Lá está a melhor lamparina uma que tem a chama fixa e grande. O leitor é quem preside esta parte da celebração, depois de uma ou duas páginas passa para outro, isto continua até a polenta e a fortaia ficarem prontas, ou um assunto lido exigir algum comentário ou discussão, onde o pai ou a mãe assumem o papel de ministro da palavra.

Pronta a ceia, interrompe-se a leitura e se prepara a mesa da comunhão. Às vezes o banquete é de apenas polenta, radicci, e um “toquetto de salado ou formaggio”, outras tem carne ou outros complementos. O pai agradece a Deus em nome da família os dons recebidos, ou se canta um agradecimento. É na hora da comunhão que os pais aproveitam para fazer uma revisão do dia dos filhos, o que fizeram? Como foi na escola? Aprontaram alguma arte? E assim por diante. Corpo e alma são alimentados nesta cerimônia simples e ao mesmo tempo completa.

Finda a comunhão os participantes se dispersam cada um segue um ritual específico: A mãe vai até o sechiaro para lavar os utensílios do culto, um dos filhos vai secar e guardar, os menores se ajoelham sobre o banco debruçando-se sobre a mesa o pai se ajoelha no chão e apoia os braços sobre a guarda duma cadeira, agora é ele quem preside. É hora de rezar o terço e a oração da noite. Normalmente as vozes das crianças começa vigorosa no início e finda, no final do terço, quase num murmúrio. Alguns até adormecidos…

Não importa como foi o dia agora já se pode dormir tranquilo, estivemos em dois ou mais reunidos em nome do Todo Poderoso, quem poderá nos impor medo?”

Mas o dia de graça muitas vezes ainda não findava aí, quando um dos menores terminava o terço dormindo nós dávamos uma cutucada para ver ele começar a responder: “Santa Maria ah ah nham nhmam aaa… e nos ríamos.

Nas noites de luar no verão a cerimônia era outra: a cantoria da qual falaremos oportunamente. Na tentativa de recordar e recontar esta cerimônia do Ângelus compus uma cantiga de ninar para minha sobrinha Isabela, filha da Leda, bisneta do Toni Torccio cuja letra está a seguir  e  a música num arranjo do Ernesto Piovesan, também bisneto do Toni numa gravação dele. Vale a pena ouvir.
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Dorme Isabela

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

1 –       Devagarinho a bicharada silencia.
A passarada se recolhe pros seus ninhos.
A criançada vai cessando a gritaria.
E pouco a pouco se achegando pro ranchinho.

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

2 –       A Chaleira chia enquanto a mãe prepara o mate
O fogo arde no braseiro do fogão
Um piá resmunga e lá fora o cusco late
É o pai que chega com os bois no carretão.

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

3 –       Depois a cuia vai passando mão em mão
Um livro conta história que nos encanta
No lusco fusco duma luz de lampião
Enquanto a mãe lá no fogão prepara a janta.

O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem.
O sol se foi. E é noite já
Dorme Isabela, pra descansar.

4 –       Depois da janta a criançada se acomoda
Pra cerimonia de encerrar aquele dia
Ajoelhados, debruçados sobre os bancos.
Rezando o terço na hora da Ave Maria.

/: O sol se foi. E é noite já
Dorme Isabela, pra descansar. :/

Como ver as horas no milharal

História que ouvi do Ernesto Binotto

Eu tinha uns 16 anos. Foi a primeira vez que fui para Nova Palma, com o Tio Achiles, para a primeira missa padre Reinaldo Piovesan, aí nós aproveitamos e ficamos uns dias por lá. Na segunda-feira estávamos na casa do nono e o tio Achiles mencionou que gostaria de visitar a Usina Franciscana (hoje usina CELETRO) onde ele tinha trabalhado logo que casou. O nono já tinha ido para a lavoura carpir no meio do milho e o tio Abel estava por casa e se prontificou a nos levar até lá. Eu estava muito curioso porque sempre ouvia o pai falar da tal usina, o tio Achiles estava tentando reviver o passado e o tio Abel, sempre prestativo achou um meio de não ir carpir. Era mais ou menos dez horas quando chegamos à usina, eu faceiro e maravilhado com aquela beleza, pois sempre fui apaixonado pela eletricidade e as coisas dela, o tio Achiles relembrando como era no tempo dele e como estavam as coisas agora e o tio Abel andando devagarinho pra lá e pra cá. Foi uma visita de curiosidade da minha parte, de saudade da parte do tio Achiles e um passeio para o tio Abel.

Na volta já bastante tempo de pé ou caminhando o tio Abel caminhava mais devagar ainda quando estávamos passando na frente da casa do Ernesto Binotto, que nos chamou para tomar um chimarrão, o tio Abel adorou a ideia, ia poder descansar um pouco e o Tio Achiles certamente ia matar a saudade do antigo vizinho. Como não tinha opção acompanhei os dois. Arrastaram umas cadeiras, nos sentamos e começaram as histórias do passado, as novidades, o que um e outro estavam fazendo, e por aí vai. – Quem era eu? Aí tive que explicar que era filho do Lino, que meu pai estava morando em Jaboticaba, etc. e tal. Aí ele quis saber do tio Abel como estava o Toni? O tio disse que estava limpando o milharal porque tinha muita milhã e picão já altos. Foi aí que seu Ernesto começou com aquele seu sotaque característico dos Binotto:

“- Sabe isso me lembra uma coisa, foi no ano passado, mais ou menos por esta época, eu quase não saio a pé, mas tinha ido pra Nova Palma e vinha voltando quase de meio dia, o sol estava bastante quente e eu cansado vinha devagarzinho. Aí quando estava perto do milharal vi uma coisa estranha (ele falou em italiano mas não lembro bem as palavras), apareceu uma enxada por cima do milharal. Não prestei muita atenção e continuei, dali a pouco vi de novo a mesma coisa e comecei a ficar intrigado. Como estava cansado mesmo, sentei no barranco, numa sombra e fiquei olhando o milharal para ver se aparecia a enxada de novo, demorou um pouco e apareceu de novo. Ai eu comecei a tentar imaginar o que estava acontecendo. O Toni levantava a enxada na velocidade normal, mas baixava muito devagar pra quem quer cavar fundo, logo não poderia ser que estava arrancando algum inço maior, será que ele levantava para ver a altura do sol para saber a hora? Aquilo foi me deixando cada vez mais intrigado, que método estranho de ver as horas.

Era um pouco longe e eu estava cansado, mas não aguentei a curiosidade, entrei no milharal e fui andando devagarinho até chegar bem perto. “-Toni ghe gera drio sapare pimpianeto –” eu fiquei olhando atrás dele para ver o que acontecia. Aí ele deu uma paradinha coçou a ponta do cabo da enxada, não sei se encostou no nariz ou no queixo, ergueu a enxada contra o sol, coçou de novo a ponta do cabo e continuou a carpir. Fiquei mais curioso ainda para ver detalhadamente o método de ver as horas e fiz uma volta grande pelo milho pra ele não me ver e fiquei pela frente para ver o que acontecia, bem quietinho. Aí aconteceu de novo, ele coçou a ponta do cabo, colocou a ponta do cabo na boca, levantou e enxada contra o sol, fez uma careta e baixou a enxada. Aí eu vi, ele colocou de volta a rolha na ponta do cabo e continuou a carpir tranquilamente.  Saí bem quietinho e fui para casa…”

Aí ele se virou para mim e completou: – eu sei que você sempre achou que teu pai era muito inteligente, mas esta de fazer o cabo da enxada de taquara e furar os nós pra levar a “cachaceta insieme” é uma invenção do teu avô.

O tio Abel e eu até achamos engraçado, mas o tio Achiles fez uma cara de quem achou a história um desrespeito. Foi aí que eu lembrei que o pai tinha enxadas com cabo de bambu, porque era muito fácil de colocar e ficava forte e leve, e eu tinha visto na casa do nono, enxadas com cabo de bambu. Voltamos para casa almoçamos e saímos e eu esqueci de verificar se a enxada do nono tinha rolha na ponta do cabo…

Dizem até que era por isso que chamaram ele, por algum tempo, de “Toni Taquara”. Outros dizem que era por causa de um garrafão que tinha no galpãozinho perto do rio cheio de “canuchi”, mas esta é outra história…

A vinda da família Piovesan ao Rio Grande de São Pedro do Sul.

Segundo Pistóia (1999), a história mais remota das raízes da arvore genealógica da família Piovesan, tem origem nos montes Vêneto da região norte de Verona, onde se encontram um pequeno povoado chamado Piovezzano, distante cinco e meio quilometro das margens do poético lago de Garda Benaco. Essa hipótese de o clã provir da península vem colaborando pela fisionomia, cor do cabelo e dos olhos dos descendentes que ostentavam considerável carga de sangue germânico.

No entanto a família de Giuseppe Piovesan saiu da região do Vêneto, que fica situada no nordeste da Itália, fora da Península Itálica onde se localiza o contorno norte do mar Adriático (uma vasta planície entre os Alpes e a Laguna Veneta, onde estão as ilhas da cidade de Veneza e arredores).

Em Santa Cristina, moravam no segundo piso de uma casa onde, no térreo criavam ovelhas. “As casas eram construídas umas ao lado das outras, com falta de luz e pouca ventilação, os hábitos de higiene eram escassos e o lixo se acumulava nas ruas estreitas. As casas dos mais pobres eram construídas de duas peças, acrescida de uma estrebaria. Quando os invernos eram muito rigorosos, era costume passar todo o tempo junto aos animais, para poder se aquecer. Com isso a saúde, em contato com o bafo dos animais torna-se precária”. (Righi, 2001).

“A alimentação era pobre, baseada exclusivamente em cereais e hortaliças com alguns produtos derivados do leite. A polenta constituía a base do almoço e era sempre acompanhada de nabos, batata, feijão e repolho. O peixe era escasso, o mesmo ocorrendo com as bebidas, exceto os vinhos”. (Righi, 2001).

Da mesma forma que varias famílias da região do Vêneto, Giuseppe Piovesan, viúvo decidiu vir para o Brasil juntamente com os filhos Luiggi (25 anos) e sua esposa Elizabetha da mesma idade e seu filho Giuseppe, neto com 6 meses, Ângelo (18 anos), Luiggia (16 anos), Giovanni Marco (14 anos), Ângela (12 anos) e Maria (9 anos). Zarparam em 21 de dezembro de 1887, do Porto de Genova, Embarcaram no Vapor Adria e chegaram em Ilha das Flores no Rio de Janeiro em 15 de janeiro de 1888,dali saíram em 10 de fevereiro de 1888 rumo ao Rio Grande do Sul (o estado de posição mais meridional do Brasil). Ficaram 26 dias no Rio de Janeiro a espera de sua bagagem que havia sido extraviada. Foram então aconselhados a prosseguir viagem chegaram a Porto Alegre (capital do Rio Grande do Sul) em 19 de fevereiro de 1888 e sobem o Rio Jacuí até a margem do rio Taquari onde apanham um trem até a estação colônia, hoje Camobi. Com o transporte muar do governo sobem a Silveira Martins e se alojam em barracões depósito de imigrantes junto à praça da comissão de terra dessa ex-colônia.

Foto da família de Giovanni Marco na ocasião do casamento de Antonio e Elizabeth

Foto da família de Giovanni Marco na ocasião do casamento de Antonio e Elizabeth