3. Lino

Lino Piovesan.
Nasceu em 19 de maio de 1928 no Bom Retiro, sendo batizado em 20 de maio de 1928 tendo como padrinhos Ângelo Girardello e Rosa Rubin. Foi crismado no ano de 1928, sendo seu padrinho Serafim Bellé.
Dois anos o nascimento de Pio veio o Lino, criança dócil e ao mesmo tempo um tanto trigueiro – ninguém sabe como ficou cego um olho. (Thereza Piovesan)
Quando tinha 14 ou 15 anos, segundo ele contava, um dia se machucou atesta roçando mato e para a mãe não ver, escondeu o machucado com o chapeu. Quando foi almoçar a mãe reclamou que ele estava tapando o olho, e não iria enxergar direito, foi aí que ele disse que não enxergava daquele olho. Foi aí que ele e a família se deram conta que ele era cego de uma vista.
O Lino sempre gostou de animais, Uma história contada pelo Liceo diz que “ele contava que tinha feito um parto de uma vaca do nono, quando tinha 16 ou 17 anos, ainda em Nova Palma, parece que ele viu de longe o nono falando com a nona, desesperado porque a vaca estava morrendo por não poder dar cria, ele entendeu os gestos do nono, que, segundo ele, “falava mais com as mãos do que com a boca,” e resolveu ver do que se tratava. Aí viu que a vaca estava com o terneiro atravessado e ajudou no parto salvando a vaca e o terneiro. Ele estava lavrando e tirou o ajoujo dos bois e com ele puxou o terneiro. A técnica consiste em passar o ajoujo ou uma corda por cima da cabeça do terneiro e puxar junto ao focinho por baixo. Quando o nono Antonio perguntou até meio constrangido como ele tinha aprendido isto ele disse que tinha ouvido uma explicação do Tio Fioravente Bagiotto? E resolveu colocar em prática o que tinha aprendido.” diz o Liceo. Tinha um cuidado muito especial com os bois de canga. Ele gostava de trabalhar com os bois principalmente lavrando ou arrastando madeira do mato, para isso precisava de bois com muita força e muito bem domados, por isso sempre teve as juntas de bois mais respeitadas da região.
Na primavera de 1945, juntamente com seu irmão Achiles, foram para a casa do tio Valentim para lavrar as terras dele, porque quase todo o gado da região havia morrido por causa da raiva transmitida pelos morcegos. Da casa do tio foram indo para outras propriedades da Linha Base para lavrar terras de quem estava sem bois, foi então que chegaram até a casa do Bortolo Trentin para lavrar suas terras e onde ficaram hospedados por alguns dias. Lá, no final da tarde se reuniam o tio Valentin Piovesan, o Jorge Trentin, o Bortolo Trentin, o seu filho Gervásio e o Achiles para jogar cinquilho. O Lino então com 17 anos, jogava com as meninas, filhas do Bortolo, foi aí que conheceu a Baselides, por causa destas jogatinas acabou levando um sermão do irmão mais velho Achiles, pois era muito novo para namorar. (ver mais detalhes no Cupido ocupado) Segundo ele – O Achiles tinha ciúmes porque tinha que jogar com os velhos enquanto ele ficava com as meninas, e nesta época o Achiles estava brigado com a Pierina.

Pouco tempo depois Bortolo e família se mudaram para Palmeira das Missões, indo morar num velho moinho na confluência dos arroios do Moinho e do Papagaio, hoje Distrito Trentin pertencente ao município de Jaboticaba.

O Lino e a Baselides continuaram o namoro por correspondência. No início o Lino pedia uma ajuda do Pio, irmão mais velho, para escrever as cartas para a namorada, isso durou até ele ir para o quartel, quando foi para São Borja, uma longa e demorada viagem, mas ficou lá apenas 15 dias quando ficou comprovado que era cego de uma vista e então foi dispensado da incorporação. As cartas que falam desta viagem apresentam uma transição, pois a partir delas as cartas se tornam mais íntimas e apresentam a mesma caligrafia na escrita e assinatura.

É evidente que estes anos de amor à distância foram formando uma personalidade muito especial, e um casal especial, até pelo teor das cartas podemos ver um Lino interior que sofre por ter sua amada distante e não ter recursos para ir vê-la, e por outro lado um Lino extrovertido que se relaciona bem com todo o mundo. Corria uma fama de namorador, pelo menos é o que aparece nas cartas, mas no fundo ele sempre teve um objetivo, sua amada distante com quem sonhava carregando uma fotografia na carteira. Muito diferente era a Bazelides, ela era mais caseira, por isso acho que demonstrava mais seus sentimentos, numa carta de 1949, sua irmã Rosa, convidando o Lino para vir ao seu casamento com o Ângelo Chierentin, escreve o seguinte: “Lino peço que venha sem falta, porque quem te ama anda sempre triste, as outras gurias passam o domingo com os garotinhos ao lado e ela fica pensando em quem tão longe está.”

Depois da mudança da família Trentin para Jaboticaba, só se encontraram algumas vezes antes de casar. A primeira viagem para Jaboticaba ocorreu em maio de 1947, ele resolveu visitar a namorada que conheceu em Linha Base e agora se encontrava distante, com quem falava e somente recebia resposta ao menos uns trinta ou quarenta dias que era o tempo que demorava a resposta de uma carta.

Se hospedou na casa do tio Atílio Zanon que tinha comprado uma olaria próxima ao moinho do Bortolo. Quando chegou foi logo visitar a namorada e ao chegar ao moinho (na época as famílias do Bortolo e seu irmão Antonio moravam no moinho) teve uma surpresa muito grande, pois encontrou cinco moças muito parecidas, as irmãs Baselides, Cacildes e Íria e duas primas filhas de Antônio Trentin, ele não sabia distinguir quem era a Bazelides. Saudou todas de forma igual e ficou esperando que uma saísse para se arrumar, foi aí que descobriu qual era a namorada.

A esquerda a Bazelides com 17 anos, na época que o Lino a conheceu. Na foto da direita as três irmãs na época da visita.

A esquerda a Bazelides com 17 anos, na época que o Lino a conheceu. Na foto da direita as três irmãs na época da visita.

Namoraram mais quatro anos, neste tempo visitou mais duas vezes a namorada, e recebeu ela em Nova Palma uma.

Um dia anunciou para as moças com quem saia em Nova Palma que iria para Jaboticaba terminar o namoro, foi e terminou o namoro, casou e ficou morando no casarão do sogro, onde já morava o cunhado Luiz casado com Irene Schiavinatto e os demais cunhados e cunhadas.
Casou-se em de abril de 1951 com Bazelides Carolina Trentin (filha de Bortolo Trentin e Maria Rossato), Nascida em Linha Base.

Muita coisa aconteceu entre 1951 e 1959 (este conteúdo estará no livro)

Foto da Família em 1959 em frente a casa nova, o rancho de madeira adquirido do seu Peixoto. Da esquerda para a direita: Leo, Liceo, Leonildo e Bazilides, grávida da Luiza na época.

Foto da Família em 1959 em frente a casa nova, o rancho de madeira adquirido do seu Peixoto. Da esquerda para a direita: Leo, Liceo, Leonildo e Bazilides, grávida da Luiza na época.

Depois de viver com o sogro por alguns anos, já com três filhos,  O Lino e a Bazilides se mudaram para uma casa própria, em 1959. A morada foi adquirida do seu Floriano Peixoto mas a terra era do seu Antonio Graminha e teve que ser comprada a parte para ter a escritura. Bem na frente da porta da casa o “caminhãozinho”, um carro de lomba feito pelo Antoninho Frikes Vaz, que protagonizou várias histórias das crianças e consagrou o apelido do “Tio Lino”. história que será relatada oportunamente.

 

Os animais, o veterinário e a terra.

Além de um porquinho, umas galinhas e os bois de então, o Bonito e o Cruzeiro, a cachorra “policia” e o cachorro “pitoco”, tínhamos uma vaca de leite emprestada do tio Atílio Zanon, padrinho do Leonildo, que era pequeno e precisava de leite. Era a vaca de leite para depois engordar para carnear a meia. A vaca dava pouco mais de uma xícara de leite por dia, esta quantia tinha que dar para as mamadeiras das crianças, um mingau de água e farinha completava. A vaca “Laranja” era somente couro e osso e o terneiro foi criado guacho, pois não sobrava leite para ele, mais tarde ele já boizinho foi trocado pela vaca “Osca”, a primeira de nossa propriedade e que ficou com a família mais de dez anos.

As terras eram esgotadas, já não produziam quase nada, por isso além das lavouras, o pai continuava arrastando madeira para a serraria, ele saía de madrugada de casa e só voltava depois do pôr do sol. Quase sempre trazia a gaiota cheia de serragem, cascas de madeira ou bagaço de cana e ia espalhando na lavoura, com isso se tornou –eu acho– o primeiro a fazer adubação orgânica nas lavouras na região. Com isso as lavouras de milho começaram a ficar engraçadas, no meio de um milho michado, baixinho, apareciam umas espécies de montanhas onde o milho crescia bem e dava bem, era onde havia sido espalhada uma carretada de serragem ou bagaço de cana no ano anterior. E assim foi recuperando a terra e a produtividade da lavoura toda.
Nesta época já começava a ficar conhecido pelas suas habilidades como veterinário. Comprou um “Manual de Veterinária”, um livrão grosso que tinha explicação das diversas doenças dos animais e como tratá-las. Juntou a isso seu conhecimento de plantas medicinais que aprendeu com o vovô Bortolo, que era arrumador de osso quebrado, os conhecimentos do velho Nézio, um argentino bioquímico que vivia meio como ermitão no meio do mato e as habilidades que aprendeu com o tio Guido para diagnosticar doenças, e começou a tratar os animais da família, depois dos vizinhos e finalmente da redondeza.
Como veterinário era seguidamente chamado fora de hora, tarde da noite, em qualquer horário e quando lhe perguntavam quanto custa sempre dizia – Não custa nada! Isto foi outra coisa que ele aprendeu com o vovô Bortolo.

Só cobrava os remédios que usava, quando cobrava, como isso muitas vezes tirava seu tempo de trabalho. Sua generosidade prejudicava sua renda, talvez tenha sido o único motivo pelo qual vi a mãe reclamar dele, até ele aprender a dizer – Dá quanto puder! Isso não melhorou muito a situação, mas pelo menos de vez em quando chegava um vizinho agradecido, em geral os mais pobres, com uma galinha ou um leitãozinho debaixo do braço para pagar um serviço. Outros vinham dar um dia de enxada na lavoura. Foi assim que se tornou conhecido num raio de uns trinta quilômetros de casa.

Nos primeiros tempos utilizamos a fonte de água que o seu Peixoto usou por toda a vida, ficava no meio do mato, uns duzentos metros de casa. A gente buscava a água com dois secchios, baldes de madeira feitos de sarrafos com arcos, como se fazem as pipas, tínhamos que fazer este caminho umas três ou quatro vezes por dia. A mãe lavava a roupa no arroio, também uns duzentos metros de casa. As primeiras providências tomadas na nova morada depois da demolição da cozinha velha e a construção de um galpão, com estrebaria para os bois, um puxado para a gaiota e o chiqueiro dos porcos, foi a exploração de água com forquilha, para cavar o poço, vários práticos estiveram lá em casa para achar água, finalmente o pai começou a fazer o poço com a ajuda do vizinho Luis Moreira, que veio a ser padrinho de crisma do Leonildo. Feito o poço já aliviou o trabalho de buscar água, logo depois o pai fez o forno de pedras para fazer pão, cercou a horta de costaneiras e construiu o galinheiro.
O que tinha de melhor na nova morada eram três laranjeiras, seis bergamoteiras e o erval, que rendia uns trocados cada ano com a erva-mate que a gente fazia. (Na foto da família acima pode-se observar ao fundo o plátano, a casa e o erval) O pomar foi crescendo seguindo uma técnica atualmente conhecida como agrofloresta, este nome é recente, mas a técnica era empregada pela minha mãe que ia plantando estrategicamente árvores na horta, assim que elas cresciam e faziam muita sombra para as verduras a horta era mudada de lugar, assim se formou um arvoredo no entorno da casa com uma riqueza invejável. O ranchinho antes com uns pés de erva mate, um plátano, as laranjeiras e bergamoteiras, em pouco tempo ficou cercado de um pomar variado e rico.
Na horta a mãe ia enterrando nos canteiros as cinzas do fogão, do forno e os restos e cascas de frutas e verduras fazendo a compostagem e enriquecendo a terra. A horta e as frutas representavam uma grande parte de nossa alimentação já que a lavoura nem sempre produzia bem. Logo depois do arvoredo tinha as bananeiras que não produziam muito, mas eram um lugar bem discreto para as necessidades fisiológicas antes de ser feita a patente. Mais adiante tinha uma lavourinha inçada de alho macho que a mãe cortava bem fininho e fritava para aumentar o volume da fortaia quando não tinha salame – Que coisa boa!

Casa nova
Vou dar um salto na história só para mostrar a evolução da família. As lacunas serão preenchidas paulatinamente, senão aqui, no “Livro encantado dos sonhos dos descendentes do Toni Torchio” que será publicado em breve.

O Leonildo e eu tomando chimarrão na sombra em frente a casa nova recém consruida.

O Leonildo e eu tomando chimarrão na sombra em frente a casa nova recém construída vê-se ao fundo o galpão que serviu de casa por alguns anos.

1973, a família do Lino já começava a se folgar economicamente, era hora de construir uma casa decente. Em breves palavras a primeira morada comprada do Peixoto era um rancho de tábuas lascadas, que aparece no fundo da foto da família. A segunda casa foi o galpão novo que serviu de morada por uns oito anos e finalmente começou a construção da casa de material. O projeto foi desenvolvido em dialogo com os da casa, cada um dando seu pitaco até todos concordarem com os detalhes, Os tijolos foram comprados na olaria do Tio Gervásio, lá perto do Antônio Matias, e o pedreiro prático foi o seu Zerico. Levantada a casa o acabamento ficou por conta da família, colocação de azulejos, pintura, divisórias internas e o parquet, tudo obra da filharada que não poupou esforço para fazer bonito.
Optou-se por assentar parquet de 12,5 por 2,5 centímetros, foi uma sugestão maluca do tio Argemiro, na época se encontrava o dito parquet em cartelas de cinco colados lado a lado formando um quadradinho. Só que a sugestão dele era fazer os ditos cujos usando a infinidade de restos de madeira que sobravam na oficina, só custaria a mão de obra e a colocação poderia ser de forma artística, formando desenhos no chão. Eu acreditei nele, aliás ele foi meu guru em várias empreitadas, algumas em eletrônica que contarei oportunamente. Aproveitei as minhas férias de verão de 1974 para por mãos à obra. Grápia, angico, canela, cabriúva e guajuvira, foram as madeiras escolhidas, nem deu muito trabalho eram somente 320 pedacinhos de madeira por metro quadrado, era só cortar 23.040 taquinhos de madeira e depois colar no chão, moleza…

haja paciência

Na sala, parquet predominantemente de grápia com detalhes de angico e canela.

Depois de três ou quatro dias picando madeira começou bater o desespero, mas não dava mais para desistir, neste particular eu sou cabeça dura, não deixaria trabalho pela metade, aliás, como até hoje não costumo deixar. Foram quase duas semanas picotando madeira, no final até dava um certo ânimo, ver aqueles montes de cores e texturas, ia ficar bonito, faltava apenas começar a colocação. O piso estava todo nivelado e desempenado, o serviço consistia em passar cola nos tacos e colocar no lugar. Na cozinha foi colocado imitando um trançado e ficou muito bonito, a sala deveria ser melhor, tinha que ficar perfeito. Optamos por uma imitação de tapete centralizado. Gastei quase um dia de planejamento e medição, tinha que ser preciso senão não passaria do meio e começaria dar erro.
Depois de um dia e meio de trabalho de colocação passamos do meio da sala, nenhum milímetro de erro, estávamos salvos, daí em diante era só acabamento. Terminamos a sala e não arriscamos fazer firulas nos quartos, seria loucura. Depois de lixado a passado Cascolac, ficou uma beleza. E o melhor de tudo é que o trabalho ficou rendendo elogios por muitos anos e isso não tem preço.

 

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