O arrodeador de bandeira

Não fui capaz de determinar com precisão de onde surgiu o termo “bandeira” para designar o monte de espigas de milho colhido. Um costume ancestral na colheita do milho consiste em calcular o centro de um quadrado de lavoura de mais ou menos 6 braças (13,32 metros) de lado, colher as espigas neste centro deitar as canas, (hastes do pé de milho) e depois ir colhendo ao redor e jogando o milho no ponto inicial até ter um monte de espigas, conhecido como bandeira. Em biologia a ponta da haste terminada num penacho ou pendão, a flor masculina, é também chamada de bandeira. O ato de colher as espigas e deitar a haste também é chamada de deitar bandeira, talvez venha daí o nome bandeira para o monte de espigas colhidas. Até aqui apenas definimos o monte de milho colhido que depois era carregado na carroça, ou gaiota no caso do Lino, para ser levado para casa.
Gaiota, dirigida pela Leda, uns 15 anos após o episódio narrado.Quando fazia tempo bom era urgente a colheita para aproveitar o milho bem seco que durava mais no paiol, por isso era comum pedir ajuda de algum vizinho para acelerar a colheita, o nosso vizinho era, em geral, o seu Generoso, naquele dia pela manhã o Léo e eu estávamos na aula, O pai e o vizinho trabalharam desde bem cedinho, o tempo estava bom, e ao meio dia já carregaram uma gaiotada de milho que foi descarregada logo após o almoço. Em seguida voltaram para a lavoura, aquela que ficava entre o canavial e as fontes, desta vez o Léo e eu fomos juntos. Quase quatro horas tinha milho suficiente para carregar uma carga. Carregamos e o pai foi para casa descarregar e trazer a merenda, o chá das quatro. Um bule com chá de mate com leite e fatias de pão com chimia. Na volta além do lanche o Leonildo veio de carona, ele tinha na época uns oito anos, já participava de muitas atividades na lavoura, mas quebrar milho exigia bastante força nas mãos então ele ajudava mais no serviço de carregar.
Para fazer render o serviço, seu Generoso começava a bandeira um pouco mais longe, umas 10 braças, aí eu e o Leo íamos colhendo perto da bandeira e ele e o pai iam pelas beiradas, pois tinham mais força para atirar as espigas longe. Ele gostava de usar este método pois facilitava também na hora de recolher porque tinha montes (bandeiras) maiores o que significava menos paradas para carregar. Só tinha um inconveniente, em função da distância o milho ficava um pouco mais esparramado. Para resolver o problema bastava dar uma volta ao redor da bandeira jogando as espigas mais distantes para o centro, este trabalho se chamava “arrodear a bandeira.”
Estávamos no finalzinho do verãozinho de maio, os dias já começavam a encurtar prenunciando o inverno e tinha umas nove bandeiras para carregar e faltava um trecho pequeno para terminar a lavoura. Seu Generoso queria terminar a empreitada e o Léo e eu ajudávamos ele, o pai começava a carregar, e o dia ia chegando ao fim. As bandeiras ainda não tinham sido arrodeadas, o que dificultava o trabalho do pai, e iria dificultar mais ainda com o crepúsculo. Foi aí que seu Generoso pediu que o Leonildo arrodeasse as bandeiras enquanto nós terminávamos de quebrar o restinho do milho. O Leonildo respondeu prontamente a solicitação até porque não ficava bem desobedecer o vizinho, e lá se foi ele. Já começava a escurecer quando colhemos as últimas espigas, fomos então ajudar o Leonildo antes que escurecesse de vez. Passamos pela primeira e achamos muito milho esparramado, seu Generoso não disse nada, juntamos as espigas esparramadas e amontoamos no centro e fomos adiante. Na outra também tinha muito milho esparramado, aí ele falou que achava que o guri não estava enxergando direito. Repetimos a cena e quando caminhávamos para a terceira vimos uma cena que fez com que seu Generoso não parasse de rir por uma boa meia hora… O “arrodeador de bandeira” chegava naquele momento à quinta, e começava seu trabalho, deu uma volta pela esquerda e não satisfeito outra pela direita sem juntar uma espiga sequer e se foi em direção a próxima bandeira. Ele estava arrodeando as bandeiras… O Seu Generoso caiu na gargalhada. O Leonildo estava cumprindo ao pé da letra a ordem dada.

O rabo de bugio

História contada pela Neli, com redação minha. Coloquem-se no lugar dela, acostumada a ver o pai bater no irmãozinho mais novo, o Vicente no caso.

Foi lá por maio de 1967, o pai estava cortando rama de mandioca na lavoura lá do fundo, não lembro onde o Toni e o João estavam. A mãe pediu para mim e o Vicente ir buscar batata na roça para cozinhar para o almoço. Aí nós pegamos um saco de linhagem e uma enxada e fomos. O batatal ficava na várzea na lavoura que ficava depois do potreiro. Enquanto arrancávamos as batatas podíamos ver o pai trabalhando na roça lá em cima do morro, aí o Vicente falou que o pai tinha xingado ele. Eu tinha dó dele porque o pai sempre xingava por qualquer coisinha, ele também apanhava muito.
Quando estávamos voltando para casa tinha um trecho da estrada que eram dois trilhos por onde passava a carroça e o resto era coberto de capim, que estava bem alto. O Vicente disse que ia amarrar os capins para o pai tropeçar quando passasse por lá. Eu fiquei quieta, não gostava das artes do Vicente, mas também não gostava de ver ele apanhando, e ele foi amarrando os capins de um lado com o outro dos trilhos.
Chagamos em casa e fomos brincar, e quando foi perto do meio dia que o pai veio para almoçar ele tropeçou nos capins e rebentou uma das varizes que ele tinha na perna e não parava mais de sair sangue. Ele chegou em casa já bem mal, aí a mãe fez curativo e conseguiu fazer parar o sangue. Nós estávamos brincando no quarto quando ele disse que queria falar com o Vicente, porque ele tinha visto de lá de cima que nós tínhamos passado por lá.
Aí eu fechei a porta do quarto e fiquei segurando e tranquei a tramela. Aí o pai batia na porta e queria que eu abrisse, mas eu tinha dó do Vicente e não queria vê-lo apanhar. Eu não abri a porta, então o pai pegou o facão e enfiou na fresta da porta e abriu a tramela, eu ainda tentei segurar a porta, mas o pai tinha mais força. Quando o Vicente viu que o pai tinha aberto a tramela, pulou a janela e se foi pro mato aí só fiquei eu no quarto. Quando o pai entrou e me viu, ele disse que eu estava acobertando as artes do meu irmão, e como ele tinha fugido eu é que ia apanhar uma surra com a vara de rabo de bugio.
Até hoje ainda me dói as varadas, mas apesar disso não fiquei com raiva, aprendi a não acobertar os erros dos outros, pois agora sei que era o jeito deles de educar.

Os figos sagrados (modificado)

Já no final dos anos 50 o Toni começou a apresentar um problema de visão, até foi ventilado que provavelmente se tratava de cegueira noturna. Provavelmente era apenas um quadro de avitaminose A que fazia com que ele tivesse dificuldade de enxergar na penumbra. Por esta razão comprou uma égua a Zaina para ir aos ensaios de canto do padre Afonso Correa. Apesar disso o Bernardo não concorda muito com esta afirmativa.
Pelo sim pelo não uma das teteias do nono eram as frutas que ele cultivava, o parreiral sempre era mantido impecável, as laranjeiras da frente da casa, definiam o limite do terreiro, as bergamoteiras se espalhavam por diversos lugares e a figueira… Bem a figueira mesmo dando frutos sem vitamina, e por consequência, inócuos para a questão da cegueira noturna, a figueira era cuidada com um zelo especial, por duas razões: as folhas quando colocadas no alambique para destilar a cachacinha davam um sabor especial e os figos, estes eram um manjar dos deuses, que ele cuidava para que amadurecessem no pé, pois assim ficavam mais doces. Só quem já comeu um figo colhido totalmente maduro sabe o que é degustar uma delícia, diga-se de passagem, mais uma dádiva sagrada deixada pelo criador aos mortais.
No entanto um grande problema para os adoradores de figos, eu também sou um deles, é que muitos passarinhos e até aves maiores também tem uma atração especial por esta fruta e por isso é preciso vigilância constante ou alguns truques para poder saborear figos maduros. No Bom Retiro, no ano de 1963, atrás da casa, a figueira do Toni não era exceção à regra, passarinhos tentavam degustar os figos antes do proprietário, e se já não bastasse isso o galo de terreiro descobriu o sabor da tão cobiçada fruta e começou também ele a se banquetear pousado nos galhos da figueira. O Toni já enfrentava a gula das galinhas que atacavam os cachos mais baixos da uva e agora tinha que enfrentar o galo que também queria dividir a produção da figueira.
Como método para desestimular os comensais indesejados ele desenvolveu a técnica de jogar pedras, juntava alguma pedrinha com a canhota e jogava de forma certeira. Na maioria das vezes, depois de uma ou duas pedradas a ave aprendia que aquele era território proibido, o mesmo aconteceu com o galo comedor de figos. Mesmo assim os figos continuavam a desaparecer antes de estarem maduros no ponto que ele esperava. Chegou a passar quase o dia todo a vigiar a dita árvore e não conseguiu descobrir como galo conseguia roubar-lhe os figos, a esta altura já estava a desconfiar que pudesse ser um galo astuto treinado pelo Lino para fazer sacanagem, mas o Lino já estava fora há mais de 10 anos, talvez outro estivesse treinando o galo, de qualquer forma não era de dia que os figos eram roubados. A menos que o galo se recolhesse ao anoitecer e depois voltasse para comê-los. Já tinha passado e repassado todas as hipóteses e não chegara a nenhuma conclusão.
Já começava a anoitecer e as galinhas já estavam recolhidas, o Toni se dirigia à cozinha, onde a Nona preparava a água da polenta, quando ele ouviu um ruído vindo de trás da casa. (PS.:) Não esperou nenhum segundo e foi correndo em direção à árvore do paraíso, um vulto escalava a figueira em direção aos frutos quase amadurecidos. Neste momento precisava manter o sangue frio, já tinha sido afrontado por demais pelo galo de terreiro. Juntou uma bela pedra do chão e pensou consigo mesmo: – Quá comando mi. (Aqui eu mando). Ajustou da melhor forma a pedra na mão esquerda e lançou com vontade…

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

O pobre bicho deu um grito e despencou galhada abaixo, mas não era um galo. Xi acho que houve um problema! Foi até a figueira e não conseguindo ver direito arrastou o animalzinho desacordado até onde havia luz. Alertados pelo grito estranho já correram para fora o Abel, a Alzira e a Isa, ainda com a mescola da polenta na mão e uma lamparina. Era o Bernardo, meio desacordado e com um baita galo no meio da testa causado pela pedrada do nono. Galo! A esta altura o Toni não queria mais saber de ouvir falar em galo.

PS.: Quando o Bernardo leu a história ficou intrigado, pois não se lembra o que o nono disse ou fez para que ele descesse da figueira, agora só nos resta a confirmação ou a alteração da história pela tia Alzira. Isto modificaria o final da história, caso não tivermos nenhuma outra informação vou manter este final que combina com o estilo da família de reescrever finais para as histórias como o nono, o pai, o tio Pio e o tio Abel faziam magistralmente.

Excesso de velocidade…

A velocidade sempre fascinou a humanidade, desde a época das cavernas os humanos tentam descobrir métodos de se locomover mais rápido, naquele tempo era compreensível pois, não raro, tinham que fugir de algum predador muito mais veloz que eles. Escapar de um predador produzia um prazer indizível, equivalia a nascer de novo, por isso a corrida foi se incorporando ao fazer humano como fonte de adrenalina e consequentemente de prazer. Isso explica porque naquele 19 de maio de 1948 os irmãos Achiles e Abel disputavam uma carreira. As carreiras eram comparáveis aos atuais rachas feitos entre jovens atualmente. Como naquele tempo só existiam cavalos por lá é natural que as corridas fossem nesta modalidade. Uma das diversões preferidas da gurizada, quando tinha apenas um cavalo a corrida era feita da seguinte forma: dividia-se a cancha em duas metades e o corredor a pé começava na metade enquanto o cavaleiro percorria o trecho todo. Diversas modalidades eram usadas para este tipo de competição, a mais comum era a cancha reta, que em geral apresentava alguns problemas porque não tinha grandes retas nas estradas e caminhos. Por isso a carreira terminava na reta, mas o espaço para desaceleração ficava numa curva.

Os Piovesans: Thereza, Odila, Clementina, Lino, Pio, Inacio, Maria e Abel cantando. note-se que o Abel ao movimentar-se evidencia a perna quebrada.
Como nos rachas, as curvas em alta velocidade sempre representaram perigo, mesmo nas corridas de cavalos, e por isso sempre foram propícias para acidentes.
– Lá vêm os dois irmãos cavaleiros em alta velocidade, passo a passo, paleta a paleta, numa corrida emocionante, se aproximam da linha final, praticamente, emparelhados, e… cruzam a linha de chegada!
Os cavalos ainda correm um pouco na curva enquanto os cavaleiros praticam as manobras de desaceleração, o cavalo do Abel resvala e lá se vão os dois para o chão, não houve vencedores. O Abel saiu com uma perna quebrada e o Achiles teve que teve que carregar o mano para casa.
O que tinha de mais avançado na época para ossos quebrados era a prática exercida pelo Domingos Casarin, tradicional arrumador de ossos de Nova Palma, que procedeu a entalação da perna, após ter posto os ossos no lugar. Para imobilizar um membro quebrado era feito a entalação usando preferencialmente talas de taquara de 25 a 30 centímetros de comprimento por três ou quatro de largura, enroladas em um pano macio, em geral tiras de um lençol velho. As talas eram colocadas ao redor da perna ou braço quebrado e fixadas com mais tiras de pano, coladas com breu. Este tipo de imobilização era muito eficiente e fácil de fazer com os recursos limitados que havia naquela época. Fico a imaginar o que foi a arrumação do osso sem anestesia, embora seu Domingos tivesse bastante prática, com certeza não foi brincadeira.
Quem já quebrou um osso sabe muito bem que a dor que se segue nos dias subsequentes é algo capaz de fazer qualquer um delirar. E é no pós-quebradura que a história toma rumos diferentes, existem duas versões explicativas para o ocorrido. A primeira dá conta de que uma noite deu um temporal e o Abel tendo levado um susto sem perceber mexeu a perna colando fora do lugar. Mais tarde, quando foram tiradas as ataduras e talas, percebeu que sua perna estava alguns centímetros mais curta, o que mais tarde lhe deu problemas de coluna.
Mas existe outra versão, a do irmão Lino. Segundo o ele o Abel era sonâmbulo, chegando muitas vezes a levantar a noite, em noite de lua, e encangar os bois e ir lavrar dormindo. Falaremos disso noutra oportunidade. Estando ele convalescendo, após a fratura da perna ele ficou vários dias na cama, teve febre e era mantido acordado o dia todo para poder dormir quando o cansaço e a dor tomassem conta dele à noite. Depois do segundo ou terceiro dia começava a aliviar a dor e ele conseguia descansar melhor durante o dia, numa noite, ainda cedo, quando a família se preparava para jantar alguém viu o Abel passar em direção à estrebaria caminhando com extrema dificuldade e o nono gritou:
– Cossa sito drio fare? (O que você está fazendo?)
Ao que o Abel respondeu tranquilamente:
– Vao tchapare i boi par arare. (Vou pegar os bois para lavrar)
Foi um corre-corre saíram todos para fazê-lo voltar para a cama.
Apesar do serviço do arrumador de ossos ter sido feito com esmero, os ossos que estavam quebrados na diagonal sofreram um deslizamento que acabou fazendo com que a perna ficasse mais curta.

Abraço de tamanduá

Corria o ano de 1910 tranquilamente o quinteto de irmãos Bepetto, Ângelo, Toni, Valentin e Augustinho aproveitavam a entrada do inverno, quando a bicharada fica mais lenta por causa do frio, para perambular pelos matos e peraus. A vantagem de morar perto da floresta estacional semidecidual, isto é aquela onde algumas árvores derrubam as folhas no inverno, era que no inverno era mais fácil de circular pelo meio da mata e também mais fácil de encontrar animais. O Bepeto já tinha quatorze anos e o menorzinho o Augustinho já ia fazer seis e já acompanhava a trupe, porque não queria ficar em casa com a mãe gravida, a irmã e os menores o Guido e o Francisco. De qualquer forma as atividades não eram lá muito perigosas para uma criança, não tinha grandes animais ferozes nos matos daqueles peraus do vale do Portela. Certamente o Valentin e o Augustinho tinham certas dificuldades para subir em árvores pelos cipós, mas isso não era o problema quando se tratava de alguma caçada.

Peraus da costa do Portela mais de cem anos depois ainda  cobertos de mato

Peraus da costa do Portela mais de cem anos depois ainda cobertos de mato

Domingo de manhã o Giovanni levantava cedo para percorrer a pé os quase dois quilômetros para cantar a missa. A filharada ia de tarde para a catequese, pelo menos os três mais velhos. Neste contexto eles aproveitavam para fazer uma saída aventuresca na parte da manhã enquanto o pai não estava em casa. Uma atividade bastante divertida era (castrare le bisse), castrar as cobras. Isso mesmo, eles chamavam assim a atividade de pegar as cobras com uma taquara apertando levemente logo atrás da cabeça, depois um deles pegava a cobra bem pertinho da cabeça de tal forma que ela não conseguisse se virar e morder. A cobra abria a boca tentando morder e outro cortava a parte de baixo, a mandíbula, da cobra que era solta e saia se debatendo desesperadamente. Isso era feito para que a cobra não pudesse morder mais ninguém, segundo eles desta forma não matavam a cobra e eliminavam o perigo.
Quanto aos bugios a coisa era diferente, pois destes eles nem conseguiam chegar perto, quando se aproximavam os danados faziam as necessidades fisiológicas na mão e atiravam nos agressores, e o cheiro não era nada bom. Por um lado era muito engraçada a estratégia de defesa, por outro isso dava uma boa ideia, mas deixa pra lá essa é outra história. Quando a saída é para caçar tem que trazer algum animal para casa e nem cobras nem bugios eram boas ideias. Sobrava os tamanduás, só que os tamanduás tinham garras afiadíssimas que podiam matar uma criança como eles caso desse um “abraço de tamanduá”.
Quando um tamanduá é agredido ele de apoia na cauda e patas traseiras, levanta-se como se estivesse de pé, abre os braços e quando o agressor se aproxima joga-se contra ele abraçando-o fortemente e cravando as unhas (garras) nas costas do agressor, podendo matar até mesmo um animal bem maior do que ele. Mas como falei anteriormente era frio e nesta época todos os animais ficam mais lentos, inclusive os tamanduás.
Grandes conhecedores dos hábitos e costumes dos animais selvagens, porque conviviam mais com estes do que com outros humanos, os irmãos Piovesan desenvolveram técnicas especializadas para a captura dos mais diversos animais que viviam nos matos e peraus que frequentavam. Uma era para tamanduás.
A técnica exigia um ferramental específico: uma taquara com uns dois metros ou mais e um toco de madeira, meio apodrecida, de mais ou menos um metro de comprimento por uns 25 centímetros de diâmetro. A estratégia consistia em provocar o animal com a taquara, cutucar, assim ele assumia a posição de defesa que na verdade era a posição de ataque. Fazendo bastante barulho eles, menos um, ficavam na frente do animal provocando-o até ele ficar no ponto de atacar. O Piovesaneto que não ficava provocando o bicho fazia uma volta por trás sem ser notado carregando o toco de madeira, num determinado momento, que eles conheciam por experiência o toco era passado sobre a cabeça do animal e colocado em sua frente. O tamanduá agarrava-se firmemente no toco cravando suas garras e ficando preso.
A piazada então tomava o caminho da casa, carregando o toco com o tamanduá, inofensivo por estar abraçado firmemente ao toco. Isso é um abraço de tamanduá.

O anjo da guarda.

Existe uma teoria que tudo se resolve em três etapas. Deus tem três pessoas. O banquinho de três pernas é sempre estável e por aí vai… o número três é um numero mágico. E por falar em pernas a mentira tem pernas curtas.

Um.
O caminho para o Bom Retiro já era bem conhecido o Carlinhos, vulgo Mano, que trilhava todos os domingos, sempre aproveitando o atalho pela rua Zero Hora, que naquela época era mais ou menos uma trilha. Mesmo sem saber exatamente porque o pai o recomendara para fazer a catequese com o tio Abel, na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bom Retiro, e não com os outros meninos de sua idade que eram catequizados em Nova Palma, na matriz da Santíssima Trindade. De qualquer forma tratava-se da catequese, mas não era qualquer catequese, era a do tio Abel.
– Ah! Que belas caminhadas… sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco. Depois, se juntar aos primos e amigos e ir até a capela.
O tio Abel, ou melhor a catequese dele, era disputadíssima na redondeza, tinha gente que até mudava de residência para poder participar do grupo de catequese dele. Para o Carlos isso não foi problema pois o pai tinha grande influência na paróquia e por isso matricular o filho na “catequese do Abel” não foi problema. Além disso, tem outras histórias que indicam que a família prezava muito a educação dada pelos tios, mas não importa a razão, a verdade é que o Mano ia todos os domingos para a catequese lá na capela Nossa senhora Aparecida.
Bem, exatamente não todos os domingos, porque num domingo ele encontrou amigos pelo caminho e resolveu mudar um pouco de rumo. Esta é outra característica desta família, a facilidade de improviso. Um convite para jogar um futebolzinho até que caia bem naquele domingo à tarde, e o que é um dia sem catequese, uma única faltinha, com certeza o tio vai perdoar, ele tem um coração de ouro, é só inventar uma desculpazinha qualquer.
E foi assim que o nosso catequizando mudou de rumo, afinal estaria reunido com amigos e na Bíblia está escrito: “Onde dois ou mais estiverem reunidos…” eles eram mais de vinte. Estavam ainda seguindo a Bíblia mesmo que o encontro fosse no campo de futebol em vez de ser na capela. Além disso estaria completando o time dos amigos que não poderiam jogar sem ele. Sob vários aspectos a troca da catequese pelo futebol não representava nenhum pecado imperdoável, pelo contrário, tinha lá seus méritos. Futebol com os amigos até a hora do fim da catequese pra que não ficasse muito evidente para o pai a troca de atividade daquele dia.

Dois.
Depois de cantar duas missas no domingo o regente do coro, o Pio Piovesan, chega em casa com a garganta cansada, almoça e precisa dar um descanso às cordas vocais. O dia ameno de início de outono sugere uma atividade prazerosa e tranquila, onde se possa cultivar a meditação e o silêncio. Com certeza uma pescaria no Soturno é, sem dúvida, uma bela opção. Munido de vara de pesca, uma latinha de minhocas, uma sacola para pôr os peixes e muita vontade de pescar lá vai o Pio. Bela caminhada, sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco como no tempo de criança, e caminha um pouco pela barranca do rio até achar um bom lugar para pescar. Tarde agradabilíssima, não deu muito peixe, mas em compensação o silêncio, o ruído da água, que mais parece música e a paz da beira do rio são ingredientes capazes de restabelecer qualquer um.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Em se tratando do Pio isto representa um pedaço do paraíso, com exceção da paisagem até dá pra se sentir como Cristo jejuando no deserto.
Por falar em jejuar, já passam das quatro da tarde e começa a bater uma fominha, é claro que ele não levou lanche, pois perto da casa do mano Abel era só dar um pulinho lá para o “chá das quatro”. Era a hora que ele voltava da catequese, deveria estar chegando em casa, então vamos lá.
Sempre é muito gratificante visitar os irmãos em especial quando é para tomar um chimarrão, comer uma cuca ou bolachas e jogar conversa fora…
Parecia já combinado, o Pio subindo do rio pela estrada e o Abel vindo da capela se encontraram na entrada do caminho para a casa. Como a gurizada ficava para trás brincando o Pio nem notou que o Mano não vinha com ele. Como tinham inúmeros assuntos para tratar o assunto Mano só veio à tona quando o Abel perguntou:
– Porque o Carlos não veio para a catequese hoje?
O Pio coçou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:
– Ele saiu para a catequese um pouco antes de mim e veio pra cá… A resposta ficou meio no ar, tinha algo estranho acontecendo, certamente ele deveria ouvir uma bela explicação ao chegar em casa.
O Catequista ainda falou que ele não costumava faltar, principalmente porque depois da catequese costumava jogar bola com a piazada dele.

Três.
O Carlos chega em casa suado, até meio sujo, e a mãe…
Aqui cabe um parêntesis a mãe neste caso é a tia Clementina, que corresponde exatamente a descrição do conceito de mãe, é paciente, atenciosa, amorosa e sobretudo, neste caso sem malícia. Mesmo estranhando a sujeira do filho crê que ele vem da catequese, deve ter sido alguma atividade prática que o Abel mandou fazer.
Com a maior inocência do mundo ela indaga:
– Porque não esperou o teu pai que foi pescar lá no Abel?
– É que eu fui jogar um futebol.
Foi a resposta meio lacônica, meio gaguejada, de quem acaba de ser pego numa mentira. A mãe pensando que se tratava do futebolzinho de após catequese deixou por isso mesmo, mas o Carlos… estava frito. Faltar à catequese do tio Abel, logo num dia que o pai vai lá, só podei ser castigo por ter transgredido as sagradas regras da família, a esta hora o pai já sabia de tudo. E agora? Com certeza a cinta ou a bainha do facão iriam pegar quando ele chegasse da pescaria, ainda mais que apesar de divina e relaxante não tinha rendido muito.
Mas como toda a criança, vamos dar um desconto ele ainda era criança, tem um anjo da guarda para salvar dos perigos, o Carlos também tinha o seu. Só que eu duvido um pouco que se tratava do “anjo” da guarda. Soprou uma ideia para aliviar o castigo. “Se ele tivesse meio adoentado e fosse dormir mais cedo o pai não daria o castigo naquele dia e depois, certamente, esqueceria.” E foi feito. Naquele dia o Mano foi dormir mais cedo, ficou sem janta, sem polenta com peixe frito, mas escapou da cinta.

A versão do perdedor… ou Um santo na família.

A história, diz-se que sempre é escrita do ponto de vista dos vencedores. Esta é a minha versão, da versão da Silvia, da versão do Caco, do episódio em que ele perdeu seu “canivete artesanal”. Portanto esta é uma versão dos perdedores…

Numa família religiosa como a dos Piovesan, muitas coisas, que os outros nem imaginam, podem e são consideradas sagradas, como por exemplo, a sesta do tio Abel. Um homem religioso que, alguns anos depois deste episódio, foi consagrado diácono. Ele sempre reservava uma horinha depois do almoço para uma sestazinha, tempo para recuperar o corpo e, com certeza, fazia bem para a alma também. Mesmo nos fins de semana quando o trabalho não era muito pesado a sesta era sagrada. Numa hora sagrada qualquer barulho, que pudesse atrapalhar o sacrossanto soninho, estava proibido. Não poderia ser diferente naquele sábado. A Maristela, a Bernadete e a tia Alzira faziam a limpeza semanal da casa com o maior cuidado para não tumultuar aquela hora sagrada.
Outra característica marcante na família é a capacidade inventiva e criativa, e isso é característica mais ou menos generalizada, como exemplo citarei a fabricação caseira de instrumentos e ferramentas, como o “canivete artesanal” do Caco. Tendo herdado a inventividade do avô, o Cláudio pôs em prática todos os conhecimentos de ferraria, marcenaria, física e química que conhecia e confeccionou um belíssimo canivete artesanal de múltiplas utilidades que o acompanhou por muito tempo. Outros objetos tradicionalmente feitos de forma artesanal eram os espetos de madeira, usados para assar carne. Estes, porém, de duração mais efêmera, eram usados uma única vez e depois descartados como espetos, continuando úteis para outras atividades, como por exemplo, briga de irmãos.
A família era sagrada e os seus laços venerados, no entanto, em alguns casos até podia haver pequenos desentendimentos comuns quando irmãos divergem opiniões ou preferências. Nada que a intervenção do pai, da mãe ou até mesmo de um irmão mais velho não possa resolver.

Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedicação a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na época da história narrada.

Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedicação a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na época da história narrada.

Voltemos ao nosso sábado: a mãe e as irmãs, tia Alzira, Bernadete e Maristela, estão fazendo limpeza no templo da sagrada família, a casa. O patriarca pratica a cerimonial sesta, enquanto os meninos, neste caso o grande inventor Cláudio Piovesan e seu irmão Inácio, brincam silenciosamente atrás da casa.
Segundo o Caco: para mostrar suas habilidades ameaçou, inocentemente, de brincadeira o irmão com o “canivete artesanal”, produto de seu suor e inventividade e foi mal interpretado.
Segundo o Inácio: ele ameaçou porque tinha ciúmes da desenvoltura e habilidades do irmão mais velho, ele no caso. De qualquer forma estava criado um desentendimento familiar. Na falta de uma irmã mais velha, da mãe ou do pai para mediar o conflito a solução era cada um mostrar suas habilidades, e foi o que o Inácio fez, mostrou sua habilidade de “lançamento de espeto em giro livre”, basicamente atirou contra o irmão portador do “canivete artesanal”, um espeto usado, girando em movimento livre horizontal.
Como a trajetória de espeto giratório é muito imprevisível o dito atingiu o pescoço do galo de terreiro e depois a parede. Galo de terreiro normalmente é um galo de muito boa qualidade e bonito, escolhido no quintal de um vizinho para melhoramento da qualidade genética do plantel de galináceos na propriedade. Como é um galo especial, chefe supremo da população galinácea local, porta uma bagagem genética diferenciada, canta pela manhã para acordar toda a população da propriedade e foi valorizado na compra ou troca com o vizinho, por isso, não tem preço.

Falávamos do lançamento de espeto que colidiu com o pescoço do galináceo e atingiu a parede, isto causou dois contratempos: o galináceo em questão caiu esticado no chão e o patriarca que dormia esticado na cama pôs-se de pé. Com isso foi quebrada uma regra sagrada, que é a de não acordar quem está sesteando.
Com o ruído provocado pelo espeto rotador contra a parede da casa, o tio Abel acordou mais que irritado, o que era raro acontecer com ele, e foi verificar o que acontecera. Indagou do ocorrido e ficou a par do lançamento de espeto e do motivo que ocasionou a ação.
Estendeu a mão para o Caco e disse com voz firme e decidida:
– Dame qua sto trapelo. Sem opção o artesão alcançou ao pai o “canivete artesanal” que foi usado para a prática do esporte de “lançamento de canivete ao mato” cujo objetivo é jogar o canivete de alguém, o mais distante possível, em direção a um lugar onde crescem árvores e arbustos, de forma que o proprietário, praticamente, não tenha chance de encontrá-lo. E assim foi. Segundo o proprietário, agora Sr. Cláudio Piovesan, passados mais de trinta anos ele ainda não o encontrou.
Voltando-se para o lançador de espeto, o Inácio, pouco mais que um pirralho, o pai foi mais enfático e prolixo:
– Pega este galo, ferve água e depena, depois limpa e prepara ele para o domingo, mas faça tudo isso sozinho, não quero saber de ninguém te ajudando. Soube matar, saiba preparar.
Sem outra opção o menino pegou o galo pelas pernas e foi-se em direção à cozinha, nesta altura as irmãs já festejavam aquele enorme galo assado para o domingo, coisa que estava um tanto rara naquela época de crise.

Ato número um, o Inácio foi acender o fogo para pôr a panela de água a ferver. A água fervente ajuda a soltar as penas, é uma prática bastante difundida entre os preparadores de aves. Um probleminha é que no fogão a lenha a água demora bastante para aquecer, e neste dia o tempo parecia não passar para o menino, que ficou na espera andando de cá pra lá ou de lá pra cá, com o galo morto de cabeça para baixo pego pelas pernas. Este tempo foi de penitência e arrependimento, tempo para refletir e meditar sobre a quebra de regras sagradas da família.

Na família temos pessoas que se destacaram por sua religiosidade, fé e prática da caridade, um exemplo é frei Benedetto Piovesan, irmão de nosso tataravô, que tem fama de santo na Itália, mas cujo processo de beatificação não andou porque a família nunca teve dinheiro para começar o processo.

Voltemos ao nosso inocente menino, arrependido de seus atos maléficos de ficar raivoso com o irmão, matar o galo e acordar o pai. Três pecados em um único gesto. Andando de um lado para outro segurando o galo morto pelas pernas de cabeça para baixo. Certamente orou e pediu aos céus perdão por seus atos e…
De repente o galo começou a se debater freneticamente, livrou-se das mãos do seu algoz e saiu correndo terreiro a fora…

Epílogo.

Para o Inácio, o alívio da tarefa que antevia pela frente que não sabia bem como realizar.

Para as meninas, carne a menos no almoço do domingo.

Para o Caco, para ele nada, ele está ainda procurando o “canivete artesanal”…

Para o galo, mais uns anos de vida comandando o harém galináceo, mesmo com o pescoço torto e o canto rouco, o que não prejudicou a sua genética que era o que importava.

Para os adultos da família, mais um acontecimento corriqueiro.

Para mim, muitos e muitos anos depois quando tomei conhecimento do ocorrido, a evidência de mais um santo na família. No entanto quando comecei a busca de dados para iniciar o processo de beatificação do primo pelo seu primeiro milagre, tropecei em dois problemas comuns aos Piovesan: a falta de dinheiro e a falta de provas documentais do milagre. Assim só me resta contar a história para que outros continuem venerando o nome e a santidade da família.

Um baile e tanto

Creio que esta foi a última foto tirada do casal. em julho de 1976.

Creio que esta foi a última foto tirada do casal, em julho de 1976.

Foi numas férias de julho, mais precisamente em julho de 1976, saí de Viamão, onde estudava, e resolvi ir para Jaboticaba por um caminho não tradicional, dar uma passadinha em Nova Palma para visitar os tios e os avós. Foi nesta ocasião que tirei a famosa foto do nono e da nona na frente da casa velha. Cheguei à Nova Palma na quarta-feira e comecei a visitar os tios tendo como base a casa do nono. Fiz uma série de caminhadas até o Bom Retiro e de volta, fui até a tia Eulália andei bastante pra lá e pra cá, com o Tarcísio e o Inácio e planejamos ir a um baile na noite de sábado com os guris do tio Pio e a Cecília, para isso nos reuniríamos na casa do tio Pio, e depois do Baile, o Inácio e eu iriamos dormir na casa da tia Eulália.

Tudo correu maravilhosamente bem até a hora da janta, todos reunidos contando piadas e histórias, o tio Pio participou bastante. Logo depois “el ga deto que gavea fredo” e foi para a cama, nós também tínhamos frio mas estávamos em volta do fogão.

Resolvemos esperar um pouco para não chegar ao baile muito cedo. Foi um tempo de descontração digno de uma reunião de nossos pais, fico imaginando que não seria diferente se estivessem reunidos o Pio, o Lino e o Abel. Muitas histórias deste livro com certeza tiveram origem em reuniões como essa, ou como foi a do velório do tio Pio, que infelizmente não pude participar, mas prometo que vou colher depoimentos para escrever.
Sei que alguns me perguntarão:

– O que tem a ver uma história de um baile com a de um velório?

– Tem tudo a ver. Respondo eu, quando se trata de um grupo de Piovesan. Vocês já viram um Piovesan calado? Especialmente de for um descendente do Toni.

Voltemos ao assunto inicial, o tio e a tia já tinham ido dormir e o grupo do baile mais os pequenos do tio Pio, ficamos ao redor do fogão contando histórias, para dar um tempo antes de ir ao baile. Passadas algumas horas os menores não resistiram e se recolheram para a cama, já era umas 10 horas da noite e nós continuamos com as piadas e histórias. Pelas 11 horas alguém falou:

– Vamos sair?

Não lembro bem, mas acho que foi a Cecília que abriu a porta e olhou para fora e falou:

– Faz um frio danado.

Fechamos a porta e continuamos ao redor do fogo, mais fogo, mais histórias mais risadas bem ao estilo Piovesan. Ainda era cedo para ir ao baile, poderíamos dar mais um tempo. Passada mais uma hora, mais ou menos, lembramos de novo o propósito de nossa reunião: Ir ao baile. Levantamos e fomos, em massa, para a porta agora estava na hora. Fazia um luar lindo, o céu estava límpido e muito claro, uma noite fantástica para sair se não fosse um probleminha, olhamos para o chão e estava tudo muito claro, branco de geada. Fizemos rapidamente uma assembleia geral e decidimos que não era uma hora adequada para sair de perto do fogo. Voltamos para o calor do fogão a lenha que aquecia o ambiente. Como a assembleia é soberana decidimos continuar a contar histórias e assim foi até lá pelas duas da madrugada quando terminou a lenha: – E agora, o que fazer? Buscar lenha na rua nem pensar, catamos até o último graveto disponível, a lenha terminara, mas não os assuntos. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de queimar as cadeiras, só que teríamos que sentar no chão, definitivamente não era uma boa ideia. Mas numa família de marceneiros não faltaram novas ideias e a que saiu vencedora foi a de queimar os degraus das cadeiras, depois eles poderiam ser repostos. E assim foi a noite até o último degrau de cadeira e o fogo apagou em definitivo. Não tínhamos mais saída, ou ir ao baile ou ir dormir. Aí começou o drama para o Inácio e eu. Nós iriamos dormir lá na tia Eulália que ficava mais perto do que o Bom Retiro mesmo assim com aquele frio “de renguear cusco” não tivemos coragem para sair de casa. A família de acolhida deu um jeito: colocaram-nos a dormir nos pés da cama dos pequenos, que afinal não ocupavam toda a cama mesmo.
Assim terminamos aquela maravilhosa noite de baile.

Festa surpresa de aniversário

aniversário surpresa

Foto do meu casamento, no 51º aniversário de meu pai, 39 anos depois da festa aqui narrada.

Hoje meu pai faria 86 anos, hoje também celebro meus 35 anos de casamento, talvez meu casamento tenha sido a festa surpresa para ele quando fez 41 anos. Ele sempre gostou de festas surpresa e contava muitas histórias destas festas que sempre eram muito divertidas, e enfeitadas como ele gostava de contar. Dentre as muitas histórias de festas surpresa de aniversário, esta era uma das que o pai mais gostava, a festa surpresa de 41 anos do nono Toni, oportunamente contarei outras.

Foi no ano de 1940, o pai comemorava 12 anos e o nono Toni 41, segundo a tradição da comunidade foi planejada uma festa surpresa para o Toni. Já tinham sido roubadas as galinhas na semana anterior e esperava-se que o vinho fosse roubado no dia, ou pelo menos os aniversariantes contribuíssem com ele. Foi assim que a vizinhança começou os preparativos para a festa, assaram os frangos na casa do Afonso Vestena, outros fizeram as cucas, pães, grustolis e outras iguarias e combinaram chegar à festa com tudo pronto, a nona faria uma grande polenta e prepararia uma salada.

Para fazer esta combinação decidiram mandar recado pelo Pio. Os visitantes entregariam os ingredientes e comidas da festa para ele que estaria esperando na saída da pinguela e levaria para dentro discretamente pelos fundos. Os convidados chegariam na casa de mãos abanando como quem veio para uma rodada de cinquilho e fariam de conta que nem lembravam do aniversário e nenhum sabia que o outro também viria. Somente falariam do aniversário quando todos tivessem chegado. Neste meio tempo, enquanto os visitantes iam se acomodando na sala para o jogo, o Pio e a nona, que a esta altura já estaria fazendo a polenta, organizariam as comidas.

Só que aconteceu um problema, o recado que deveria ser dado para o Pio foi dado para o Lino, nenhum dos organizadores se deu conta que ele também era aniversariante. Ele, muito pucha saco do pai contou tudo para ele e os dois passaram a planejar a surpresa para a festa.

Primeiro tinham que atrasar a nona o quanto pudessem, para isso ficaram na lavoura até bastante tarde. Quando chegaram em casa o nono foi para a cozinha e ficou lá, sentado na caixa de lenha, o Lino foi para a saída do carreiro da pinguela para pegar as comidas e levar para casa neste caso esconder. Tudo pronto e ficaram a postos, a nona não sabia de nada e começou a fazer a janta normalmente, os outros ficaram pra cá e pra lá como sempre faziam antes da janta, o Lino sumiu, quanto perguntaram por ele o nono disse que tinha ido tomar banho no rio, ninguém questionou porque sabiam que ele ia mesmo quando era frio.
Quando começou escurecer começaram a chegar os convidados os Vestena, o Angelim Girardello, o Guerino Rossato os cunhados Zanon… Cada um que chegava, o Lino do meio do mato cochichava:

“dame qua cossa te gue aportá”(me dê o que você trouxe), e assim um por um foram chegando e dando para o Lino o que tinham trazido para a festa. Tudo foi guardado no galpãozinho onde o nono guardava o vinho e as graspas perto do rio.
Na cozinha o nono ia recebendo os convidados e fazendo questão que ficassem na cozinha, que estava mais quentinho, tomando chimarrão, e “zô mato” (dá-lhe chimarrão). Chegou a comentar que estava esperando eles para depois da janta para um carteado. Passava algum tempo e chegava mais um, e mais um, e a nona começou a ficar preocupada porque não estava preparada para dar janta para toda aquela gente. Quando já tinham chegado uns sete ou oito eles começaram a insistir que era melhor irem para a sala, pois lá tinha o banco, e a mesa maior. Olhavam para a nona e para o Pio e nenhum dos dois parecia saber de nada, ninguém falava nada e tentavam se comunicar por gestos. O nono fazia de conta que não sabia de nada e finalmente concordou em ir para a sala para deixar a nona fazer a janta mais sossegada. Foram para a sala, a esta altura a situação já começava ficar tensa, a piazada já estava dentro de casa e ninguém percebeu que o Lino chegara mais tarde. Foi aí que o nono pediu para ele buscar vinho para a turma, ele pegou um bule e lá se foi, como estava demorando o nono saiu para ver o que tinha acontecido, na verdade isso estava combinado, era para saber como estavam as coisas e se ele tinha feito tudo direitinho.
Neste meio tempo a turma foi para a cozinha pra saber se tava tudo pronto e descobriram que não tinha nada, a não ser a grande polenta que a nona fez. O nono voltou falando alto com o Lino para que eles tivessem tempo para voltar para a sala. Foi aí que ele resolveu convidar todos para jantar: polenta, radicci e vinho, e “qualque toquetto de salado” (algum pedaço de salame), era tudo o que tinha. O Toni estava muito a vontade enquanto a nona estava envergonhada com a situação e mais ainda os convidados, que não sabiam o que tinha acontecido.
Quando a mesa estava servida e todos ao redor com cara de decepção e não entendendo o que estava acontecendo, ele disse que ia buscar mais vinho e saiu. Algum tempo depois voltaram ele e o aniversariante com as galinhas assadas, cucas, pães, grustolis e outros quitutes que os visitantes trouxeram. Aí eles anunciaram que era uma festa surpresa para ele e o Lino que estavam de aniversário.
Parece que os dois tinham um grau de cumplicidade bem grande principalmente quando se tratava de fazer alguma arte. O pai contava que se divertiram bastante naquela noite e ficaram até a madrugada festejando e cantando.

Algumas outras histórias de festas de aniversário ainda serão contadas…

“Tio Lino”

Finalmente a história que explica o apelido.

Como era de costume cada mês ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. Quase sempre ia toda a família e muitas vezes a turma do tio Luís e da tia Irene ia junto, eles ficavam no Vô deles, o Bortolo Schiavinatto, e nos seguíamos um pouco adiante. No final do domingo a gente voltava cansado, mas eufórico. O meio de transporte mais usado era a carroça do vovô Bortolo com os cavalos brancos. Como na subida os cavalos não tinham força para puxar toda aquela carga, em geral, a Benildes, a Zélia, o Selito e o Dimas mais o Leo e eu, desembarcávamos e subíamos a pé, depois a gente embarcava e continuava a viagem. Numa destas viagens fomos somente eu e o Leo com o tio Luís e família, a mãe estava com a Luiza pequena e como era costume ficava em casa esperando a visita das amigas, vizinhas, primas e comadres. O pai também ficou em casa para ajudar e atender as visitas.
Logo depois do almoço começaram a chegar as visitas, as irmãs, cunhadas e primas que vinham conhecer o nenê, a Luiza, e fazer a visita de praxe à mãe. As crianças vieram de carona, nem tanto pra ver o nenê quanto para andar de “carreto”, aquela maravilha que transformava a estrada numa pista de automobilismo e de aventura, a montanha russa daquele tempo. A estrada de terra vermelha, bem patrolada ficava uma verdadeira pista de corrida, pois o trafego de carroças quase que vitrificava os trilhos deixando-os muito duros e lisos, isto diminuía muito o atrito melhorando o desempenho do carro, inda bem que ele tinha freio.
Não demorou muito que a turma percebeu que o carro não tinha motorista, os dois titulares tinham ido viajar. Conversa vai conversa vem e nenhum dos visitantes se animou a dirigir o caminhãozinho, apesar do tio Lino, ter tentado formar algum motorista, empurrando o carro pelos gramados. Com a insistência cada vez maior da turminha para andar na estrada, o dono da casa cedeu aos apelos, prometendo uma corrida lomba abaixo com a gurizada na carroceria. Um carro de lomba comum não chegava a ganhar velocidade na dita pista, mas o “carreto” com rolamentos e revestimento de borracha nas rodas se comportava quase como uma bicicleta.
Aqui vale um parêntesis: As bicicletas de pau eram muito populares na região exatamente por isso, tendo um centro de gravidade mais alto, conseguiam ganhar velocidade em declives menos acentuados, muito comuns na região. Lá no tio Achiles nem pensar em bicicletas, pois as descidas chegavam a quase 45 graus, seria suicídio andar de bicicleta, lá o ideal era o carro de lomba, feitos com umas bolachas de uma tora como rodas, uma tábua que era ao mesmo tempo chassi, acento e apoio, dois sarrafos, um fixo como eixo traseiro e outro móvel como eixo dianteiro que se guiava com os pés. O caminhãozinho tinha as vantagens dos dois, a estabilidade de quatro rodas do carro de lomba e a velocidade da bicicleta, com umas vantagens adicionais como banco para o motorista, direção imitando um caminhão de verdade e o rodar macio dado pelo revestimento de borracha das rodas.
– Tio Lino! Desce com a gente no carro de lá do Luiz Moreira. – Gritava a gurizada, e foi tanta insistência que o tio cedeu.
Empurraram o carro até o topo da lomba, subiu toda a gurizada no carro com o tio na direção e despencaram lomba abaixo, tudo foi maravilhoso, só que o motorista não desceu a lomba toda, no final da primeira parte tomou o caminho de casa e parou no gramado. Desceram o trecho mais uma ou duas vezes, mas a gurizada queria mais ação, mais velocidade. Finalmente acabaram convencendo o tio a descer toda a lomba como de costume, até o chatinho do tio Luís. Mais uma vez lomba acima, criançada toda na carroceria e o tio espremido na cabine, eu disse espremido porque a cabine foi projetada para um guri e não para um adulto, apesar de caber um adulto dentro os comandos não estavam projetados para tal, não tinha regulagem de banco. Um adulto poderia sentar-se razoavelmente confortável e dirigir, mas não encolher a perna suficientemente para pisar no freio, por exemplo.
Pois bem! Eu estava falando que a turminha convenceu o motorista a fazer o trajeto completo e lá vinham eles… Passada a primeira curva acentuou-se a descida, bem carregado o carro ganhou bastante velocidade, e a plateia adrenalina. A euforia ia contagiando a gurizada enquanto a velocidade começava a preocupar o motorista que tentou dar uma beliscadinha no freio, mas não conseguiu encolher a perna suficientemente, a gritaria da sobrinhada aumentava, e o pavor do motorista também, se aproximava a segunda curva e depois a descida se acentuava mais ainda, depois vinha o chatinho onde o carro perderia velocidade e pararia, este era o comportamento esperado pela piazada acostumados com o trajeto. No entanto, não era esta a experiência do motorista. (para quem não leu, leia o Episódio 2 da bicicleta do Padre João). O caminhãozinho tinha rolamentos, exatamente como a bicicleta, a experiência de descer sem freio este trajeto ele tinha feito alguns anos antes, e o chatinho não tinha sido suficiente para perder velocidade. Bateu o pavor, ele nem pensou na possibilidade de frear com a mão, mantendo apenas uma no volante. Precisava achar uma saída urgentemente, o último trecho da descida estava quase no fim, o bólido atingindo a velocidade máxima, a criançada fazendo a maior algazarra, a estrada passando numa velocidade assustadora. Chegou o trecho plano aliviou um pouco a tensão, mas não diminuiu a velocidade…
– Raspar no barranco da estrada, esta seria a solução para parar e foi esta a decisão do tio. Do lado direito tinha um camaleão de terra solta, deixado pela patrola que passara há pouco. O tio Lino foi encostando o carro no barranco.
– Surpresa! O carro saltou o barranco como se nada fosse e se enfiou no matinho de branquilhos que tinha logo abaixo. A turma vibrou nunca tinham experimentado a sensação do solavanco de pular o barranco.
O matinho de branquilhos não era muito grande, consistia numa tira de uns vinte metros de largura por uns cinquenta de comprimento margeando a estrada. Os branquilhos não eram muito grandes tinham uns dois metros de altura em média, eram arvoretas bem galharudas e estavam quase sem folhas, era fim de outono. Outra qualidade deles é que todos os galhos terminam em espinhos, só ratos, e o tio Lino de “carreto”, se arriscam a entrar. A carroceria ficou quase fora do matinho, a turminha pulou fora para a estrada pelo caminho que o carro abriu, só o tio Lino não tinha como sair, era espinho prá todo o lado.
O motorista não podia perder a calma numa hora daquelas, tentou orientar a gurizada para puxar o carro para fora do mato, mas todos juntos não conseguiam nem mexer o caminhãozinho. Mandar algum deles pedir socorro era arriscado, não se podia deixar as crianças andando sozinhas por aí, na casa que ficava uns 300 metros de distância só tinha mulheres que com certeza não teriam força para puxar e provavelmente nenhuma sabia cangar os bois para fazer o serviço.
Mas era domingo de tarde, dia que o Lalo Franco, que morava perto do rio Fortaleza, costumava ir para a Vila Trentin tomar um trago e jogar um carteado. No domingo em questão não foi diferente, todo garboso vinha o “Seu Lalo” montando o tostado marchador quando deparou com aquele bando de crianças na estrada. Parou o cavalo e tentou ouvir o que as crianças queriam, era uma gritaria onde ninguém se entendia, ele só entendia tio Lino, tio Lino… até que pediu calma, e que um deles explicasse o problema.
– Ajuda para tirar o “Tio Lino” do mato. – explicou o maiorzinho deles. Foi então que o seu Lalo olhou para onde eles apontavam e viu o caminhãozinho. Com seu jeito fanfarão achou que era uma brincadeira das crianças. Não podia acreditar que o “Seu Lino”, veterinário conhecido na região, estivesse brincando de carro de lomba. A dúvida se desfez quando o próprio Lino, enfiou a cabeça na janelinha traseira da cabine e pediu ajuda. Seu Lalo amarrou o laço no eixo traseiro do carro e na chincha do cavalo e arrastou o carro de volta para a estrada.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

O “Seu Lino” e as crianças agradeceram efusivamente e Seu Lalo seguiu seu caminho. A turma brincou mais um pouco, mas não desceram mais a lomba até o fim…
No final da tarde, depois que as comadres, cunhadas e vizinhas foram embora o Seu Lino saiu, foi buscar os guris na casa do cunhado, e como ficava no caminho deu uma passadinha no bolicho. Lá estava o Lalo numa mesa de carteado, ele tinha contado a história pra todo mundo, fez questão de levantar e pagar um trago para brindar a saúde do –“Tio Lino” – com ele fez questão de falar. Foi a partir deste episódio que o tratamento mudou de status e ele passou a ser conhecido como “Tio Lino”.
Para a criançada, aquele adulto que está presente toda hora, que participa das brincadeiras, que trata todos com carinho. Para os adultos, o gurizão que vive a vida que brinca e se diverte sem preconceitos…
Obrigado “Seu Lalo” pelo apelido! Valeu!
Agora vocês sabem porque até eu me refiro a ele muitas vezes como “Tio Lino”.