“Dolci in scarcella” e a netinha

A tradição de carregar doces no bolso já é bastante conhecida na família, principalmente pelas crianças, era uma forma de agradar que o nono nunca negligenciou.

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O episódio de hoje já é dos anos 70, a Leda já estava com uns cinco aninhos, numa das raras viagens que o nono e a nona fizeram para Jaboticaba. Eu disse rara porque a nona Elisabeth raramente viajava, lembro de apenas uma visita dela. Nesta em particular eu não estava em casa eles vieram para fazer uma espécie de férias em Jaboticaba onde moravam os filhos Lino e Achiles e os irmãos dela o tio Atílio e tio Aurélio Zanon. Eles ficaram quase uma semana e como o Toni não ficava muito tempo longe de um traguinho teve que achar um método de levar o ingrediente consigo, só que tinha um probleminha, a nona não gostava muito deste hábito, até porque tinha uma outra história, que será contada oportunamente, de ajudá-lo a atravessar a pinguela quando voltava da missa devidamente batizado. Como ele iria ficar alguns dias deslocado de seu ambiente natural, e evidentemente do bar do Alessio, resolveu utilizar o método largamente conhecido nos filmes de faroeste de levar o combustível num vidro chato, organicamente curvado para se acomodar ao bolso sem despertar suspeita, um vidro de Biotônico Fontoura.
Na visita ao Lino enquanto a nona, a nora Bazilides e o Lino tomavam chimarrão na cozinha ele saiu dar uma volta para “ver as plantas”, aliás um hábito que eu também tenho, só que não era exatamente para ver as árvores, quando chegou aos fundos da casa levou a mão discretamente ao peito, pelo lado de dentro do casaco e sacou a arma, digo o vidro, e sorveu um belo trago.

A netinha inocente

A netinha inocente

Quando abaixou os olhos viu a netinha Leda, que brincava na terra. Aí bateu o pânico, tomar bebida alcoólica escondido da esposa, e pior, na frente de uma criança, e se ela falasse… por via das dúvidas era preciso fazer algo.
Ha! “i dolci” – lembrou das balas que estavam no bolso. Tirou um belo punhado e ofereceu para ela, mas com uma condição, que não falasse e a “cachacetta”.
A Leda que não sabia do que se tratava achou um bom negócio aceitar as balas para ficar quieta, até porque nem sabia de que se tratava aquilo que ele havia bebido.
Muitos anos depois, até porque nos outros protagonistas já faleceram, a menina resolveu confessar a travessura do nono. Agora ela sabe que não era exatamente Biotônico que o vô tomava escondido…

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