Uno e altro tanto – Um conto de Natal

Muitas das tradições que cultivamos tem suas raízes perdidas na história e nem sabemos mais de onde vieram, assim acontece com a maioria das tradições natalinas, tem até quem diga que a data do nascimento de Jesus foi adaptada de uma tradição pagã. Algumas delas são tradições criadas pelo comércio, originadas nas tentativas de imitar outros estados em especial aqueles que tem muito poder por serem unidos. Não que aqui não sejamos unidos, a união é uma tradição e em especial na família Piovesan dizem que nos casamentos deveria se dizer “na saúde e na doença, na paz e na desavença, na fé e na descrença e por ai vai…”

Hoje tentarei resgatar um pouco da origem da tradição de decorar a casa com anjinhos sobre o telhado. Eu sei que meus leitores devem estar pensando que me enganei e deveria ser o papai Noel, não, não é o papai Noel, este é uma invenção do comercio de brinquedos. Anjinhos, bem, pelo menos um está citado na bíblia em Lucas 2:9, no entanto logo depois fala-se de uma multidão do exército celeste que cantava, mas não diz que eram anjos e nem quantos. Pelo sim pelo não, um temos certeza, está na Bíblia. Então porque na nossa tradição de família são cinco anjos? Teremos que voltar uns anos na nossa história, mais precisamente para 1964, o ano das grandes mudanças e revelações de nossa história. Por exemplo neste ano é que foi abolido o ensino da língua francesa nas escolas públicas, não tinha interesse comercial. Mas, voltemos ao que interessa.

Só para provar que não gostamos de seguir regras: Esta foto é de 1979 da direita para a esquerda: (-Viu como vou começar virado) Tio Pio, o marceneiro; Tia Clementina, a mãe; Tarcísio, com a Janine no colo; na segunda fila a Cecília; a Catia; e a Marta, o bebê da história.

Se aproximava a data de comemorar o Natal, tradição já arraigada na cultura cristã ocidental, as famílias se organizam como podem para tornar a data festiva mais doce e alegre. Lembremos que as tradições comerciais ainda não estão presentes nas nossa famílias nesta época, até mesmo porque não tem dinheiro para comprar bugigangas mesmo.  Numa casinha humilde próxima a um barranco ao lado do rio Portela a santa Mãe cuida o bebê e com os poucos recursos procura fazer o máximo para festejar o Natal com a dignidade que a data merece, o pai, marceneiro, sim marceneiro não é o que estão pensando, carpinteiro era o pai de Jesus esta é outra tradição. Bem, em resumo: o pai estava trabalhando fora e a mãe se ocupava em preparar a festa de Natal. Naquele tempo ainda não tinha a tradição de peru, champanhe e outras. O Natal se celebrava da seguinte forma: A família toda ia para a missa do galo, aquela que é rezada a meia noite, a parte culminante da celebração, depois voltavam para casa, tomavam um chá com bolachas e iam para a cama. Como viram ainda não tinha sido institucionalizada comercialmente a ceia com fogos de artifício, peru, champanhe e outros quitutes que se usam atualmente. A preparação, na época, consistia em fazer as bolachas para o Natal com decoração especial, eram cobertas de clara de ovo batida em neve e salpicadas de açúcar colorido. Atualmente chamam de biscoitos de Natal, mas não são apreciados na ceia, deve ser porque é coisa de pobre. Vamos então ao que interessa:

A mãe preparava (os biscoitos) as bolachinhas de Natal, o bebê dormia no seu bercinho rústico, (na época rústico era necessidade e não moda) e os irmãozinhos brincavam na rua fazendo uma algazarra digna da família que não consegue ficar calada. Se alguém já bateu clara em neve a mão sabe o quanto demora e o tec tec repetido do garfo no prato chamou a atenção dos cinco, que pararam com a correria e se dirigiram ao interior da casa, mais ou menos como os reis magos, não em adoração ao bebê mas ao redor do prato do merengue. Por mais que a mãe se esmerasse para raspar tudo o que podia sempre restava um restinho que podia ser limpado com os dedos que seriam depois lambidos. Por algum tempo o silêncio reinou na casa e todos faziam o possível para serem notados como querendo ajudar a mãe, um embalava o bebê, outro organizava as bolachas em fileira nas formas,  outro ajudava passar o merengue, um espalhava o açúcar colorido e sempre sobrava um que tentava fazer uma das quatro tarefas. Até houve empurra empurra para tentar ajudar, as crianças dos sonhos de cada mãe, todos empenhados em aliviar seu trabalho, a mãe meio sem ter o que fazer pensava consigo: – Realmente criamos us anjinhos.

No entanto, sempre tem um no entanto, as verdadeiras intenções dos “anjinhos” era lamber o prato do merengue e quando terminasse a tarefa. Prontas as bolachas começou a disputa e imediatamente cinco dedinhos indicadores começaram a limpeza do prato. Bem, não era exatamente limpeza, cada um queria era uma parte do merengue sobrado pala lamber. Não tardou muito e a disputa se transformou em briga, na briga o bebê foi esquecido e com a gritaria começou a chorar. No desespero a mãe foi atender ao bebê, se não me engano com dois meses e pouco na época, o único consolo para a Martinha foi oferecer o peito e pelo menos ela parou de gritar. Quanto aos outros a disputa continuava e o único argumento da mãe foi: – Esperem eu terminar de dar mamá pra Marta que vocês vão ver a varinha. Todos largaram o prato, como que por magia, que quase caiu no chão, e a desavença terminou também como que por magia. Uma tábua do barranco ajudou e todos foram voando para cima do telhado, lá como não tinha muito o que fazer e não dava pra correr, a saída foi aproveitar o tempo para cantar. Descer, nem pensar enquanto a promessa da mãe estivesse de pé.

Já findava a tarde, as sombras se espichavam e o sol tomava um colorido avermelhado… Ah! Eu ia me esquecendo. Na época não tinha horário de verão. Se aproximava a hora do pai chegar do trabalho mas os cinco não se deram conta disso. A promessa da mãe não durava muito ela era como que um anjo de perdão, conseguia perdoar até as maiores traquinagens de seus pupilos, mas o pai… Bem, o pai era outra coisa. Ele chegou do trabalho, não estranhou a ausência da criançada, pois estava acostumado que ficavam brincando na rua até tarde, mas perguntou por elas assim mesmo.

– Onde estão as crianças?

– Subiram no telhado para não apanhar. Eu prometi dar umas varadas para pararem a bagunça ai eles fugiram.

– Como assim?

Assim ficou sabendo da história contada pela mãe que ainda se atarefava com a lida de tirar as bolachas do forno e cuidar da bebê. A tarefa de dar as varadas foi assumida por ele que pegou a vara de rabo-de-bugiu e saiu da casa,  a cantoria cessara.

– Acho que agora nem vale a pena dar as varadas… – Disse a mãe.

– Não! Se prometeu tem que dar para eles saberem que estamos de acordo com a educação deles. – Olhou pra cima e disse:

– Zô tutti quanti, uno par uno!

Os cinco não tiveram opção, descer um por um a terra, encarrar a realidade… e começou a sequência:

– Uno e un tanto… Due e un altro tanto… Tré e altro tanto… Quatro e altro tanto… Cinque e altro tanto…

Assim a fila chegou ao fim sendo que o altro tanto era uma quantidade de varadas que cada um merecia.

Até aqui ficou claro que colocar os cinco anjinhos cantando sobre o telhado da casa no Natal é uma tradição que surgiu na nossa família.

Um colega meu, também estudioso das tradições cristãs, chegou a aventar a ideia que o cajado do carpinteiro do presépio é uma alusão ao rabo-de-bugiu, mas infelizmente não conseguiu provar. Ele partia da cena da mãe com o bebê e o pai com a vara na mão. De fato é muito parecida a cena mas não tem elementos probatórios para afirmar que o presépio foi baseado nela.

De qualquer forma não temos dúvidas que a Elena, a Lucila, a Cecília, o Tarcísio e o Orácio costumavam subir no telhado, cantavam e faziam fila para apanhar. E segundo a tia Clementina eram uns anjinhos.

Tradição é tradição e não se fala mais nisso. Feliz Natal!

Mamma mia

Mamma mia!

Eu sempre me senti bastante Trentin, apesar de ter o sobrenome Piovesan, por isso comecei a refletir sobre a riqueza cultural da família para tentar descobrir como foi se dando, no decorrer das gerações este crescimento. Afinal de contas como é que as famílias Piovesan vão diversificando e enriquecendo a cultura familiar? Tentando achar uma hipótese explicativa para o fenômeno conclui que estava dentro de casa. As tias Piovesan que me perdoem, eu as amo muito, mas  vou falar um pouco daquelas que foram escolhidas para serem as mães dos Piovesan.

Quando a nona Eliza foi escolhida, pelo que sei era porque a moça era Filha de Maria e certamente bastante religiosa, portava valores familiares, participava das atividades da sociedade, liderava o grupo pois carregava o estandarte, capaz de se ajoelhar e rezar e além de tudo era bonita. Tentarei analisar por partes, que valores o Toni viu naquela moça que eram importantes para a família que ele queria constituir?  Na época as moças não tinham muitas opções de socialização ainda não chegara o ano de 1922, as opções para elas era ficar em casa, ir à missa no domingo e ficar em casa o resto do dia, eventualmente acompanhar a mãe a uma visita nas vizinhanças e aprender as artes das prendas domésticas, bordado, crochê, tricô e cuidar da casa.  Participar de um movimento organizado como as Filhas de Maria era uma forma de integrar-se a sociedade feminina, da mesma faixa etária para troca de experiências, que experiências? O que almejavam estas senhoritas? Formar uma família? Repetir a sina de suas mães? Me dá vontade de chorar quando penso nisso…

O que tem de diferente uma moça que carrega o estandarte? Ela pode estar reproduzindo o padrão, mas acho que não, ela carrega o estandarte porque lidera, ela lidera porque quer algo diferente, ela quer algo diferente porque quer mudar. Não importa o que e como, mas é preciso mudar, evoluir, dar o melhor de si para agregar valores. Que valores? Os valores de uma moça que sabe se ajoelhar e reconhecer sua pequenez diante do criador, que carrega o estandarte da liderança e não esquece a humildade. Que resplandece a beleza interior como seu vestido branco. Que traz a determinação dos Zanon no sangue. Que sabe o que quer, que é positiva, que sabe se impor na hora certa, que carrega consigo os valores sociais, religiosos e familiares de seu tempo, mas que sobretudo quer ir além…

Porque isto encantou o Toni? Tão diferente, extrovertido, um tanto inconsequente, trabalhador habilidoso e criativo, mas segundo alguns um ‘bom vivant’, religioso também, mas acima de tudo comprometido com a parte mais festiva da religiosidade da época. Ao escolher uma mãe para seus filhos ele queria não alguém igual a si, mas aquela moça que acrescentaria valores e qualidades à família. “Mamma mia” matei a charada. A mãe é aquela que por ser completa e diferente acrescenta qualidades, valores, habilidades e criatividade a nova família. É na soma que se constitui a evolução.

Assim cada Piovesan soube ao longo do tempo acrescentar qualidades à família, vejamos pela ordem dos acréscimos. A tia Pierina, minha madrinha, creio que foi escolhida pela qualidade dos Rossato que é a persistência ao mesmo tempo que ela representa a mulher forte também trazia a bondade e uma forma de conduzir a família mais leve que o tio, ele era o mais sério da família, segundo minha avaliação. E segundo as crianças muito severo em seus castigos. Já a segunda foi a tia Bazilides, minha mãe. Desde o primeiro encontro foram seis anos cultivando um namoro a distância, no tempo que a unica forma de comunicação eram as cartas. Acho que um dos motivos da escolha foi esta intelectualidade que acompanhava as famílias Trentin, uma curiosidade que completava admiravelmente o lado prático do pai. Mas outras qualidades complementares constituíram a família, ele falava com os animais, ela com as plantas, ela não sabia dizer não, ela impunha os limites, ele gostava de cantar e fazer amigos, ela também. A tia Clementina a inocência em pessoa, jamais conheci alguém mais transparente e dedicada, com certeza o complemento perfeito para o tio Pio, até acho que adotei ela como mãe depois do falecimento da minha. E finalmente a tia Alzira, bem! Esta é a eterna tia, aquela que sabe ser forte quando é necessário, ser mãe, ser amiga, ser confidente, enfim, olhando como sobrinho ela sempre foi a casa enquanto o tio era o caminho.

Assim, depois desta breve análise podemos compreender um pouco como a família Piovesan foi enriquecendo a própria cultura ao buscar nas mães as qualidades que desejavam ou que complementavam a cultura familiar.

No verão de 1991, minha família, Catia, Lucas, Licéia e Luciana com a mãe e o pai tratando as ovelhas.

 

  • Como é dia das mães me permitam um aparte, vou falar da minha. Ela sempre nos estimulou a leitura, talvez por isso eu hoje seja jornalista, trazia de família o gosto pelas letras, isto pode ser visto nas cartas ao namorado, que tenho e guardo com carinho, onde pode-se ler nas entrelinhas a paciência, a fidelidade, o amor com que ela esperou pelo dia de seu casamento. Sonhou e planejou por seis anos a sua futura família. Ela trouxe a reflexão, a filosofia, o conhecimento teórico, o planejamento futuro enquanto o pai trouxe a prática, o dia a dia, a experiência. Por outro lado muitas coisas eles tinham em comum, amavam a música, o canto, tinham um milhão de amigos, estavam sempre prontos a ajudar e não se conformavam com as injustiças sociais o que fez deles revolucionários, muitas vezes se colocaram contra a “ordem” estabelecida. Até acho que foi ela que despertou em mim o espírito crítico…

O anjo da guarda.

Existe uma teoria que tudo se resolve em três etapas. Deus tem três pessoas. O banquinho de três pernas é sempre estável e por aí vai… o número três é um numero mágico. E por falar em pernas a mentira tem pernas curtas.

Um.
O caminho para o Bom Retiro já era bem conhecido o Carlinhos, vulgo Mano, que trilhava todos os domingos, sempre aproveitando o atalho pela rua Zero Hora, que naquela época era mais ou menos uma trilha. Mesmo sem saber exatamente porque o pai o recomendara para fazer a catequese com o tio Abel, na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bom Retiro, e não com os outros meninos de sua idade que eram catequizados em Nova Palma, na matriz da Santíssima Trindade. De qualquer forma tratava-se da catequese, mas não era qualquer catequese, era a do tio Abel.
– Ah! Que belas caminhadas… sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco. Depois, se juntar aos primos e amigos e ir até a capela.
O tio Abel, ou melhor a catequese dele, era disputadíssima na redondeza, tinha gente que até mudava de residência para poder participar do grupo de catequese dele. Para o Carlos isso não foi problema pois o pai tinha grande influência na paróquia e por isso matricular o filho na “catequese do Abel” não foi problema. Além disso, tem outras histórias que indicam que a família prezava muito a educação dada pelos tios, mas não importa a razão, a verdade é que o Mano ia todos os domingos para a catequese lá na capela Nossa senhora Aparecida.
Bem, exatamente não todos os domingos, porque num domingo ele encontrou amigos pelo caminho e resolveu mudar um pouco de rumo. Esta é outra característica desta família, a facilidade de improviso. Um convite para jogar um futebolzinho até que caia bem naquele domingo à tarde, e o que é um dia sem catequese, uma única faltinha, com certeza o tio vai perdoar, ele tem um coração de ouro, é só inventar uma desculpazinha qualquer.
E foi assim que o nosso catequizando mudou de rumo, afinal estaria reunido com amigos e na Bíblia está escrito: “Onde dois ou mais estiverem reunidos…” eles eram mais de vinte. Estavam ainda seguindo a Bíblia mesmo que o encontro fosse no campo de futebol em vez de ser na capela. Além disso estaria completando o time dos amigos que não poderiam jogar sem ele. Sob vários aspectos a troca da catequese pelo futebol não representava nenhum pecado imperdoável, pelo contrário, tinha lá seus méritos. Futebol com os amigos até a hora do fim da catequese pra que não ficasse muito evidente para o pai a troca de atividade daquele dia.

Dois.
Depois de cantar duas missas no domingo o regente do coro, o Pio Piovesan, chega em casa com a garganta cansada, almoça e precisa dar um descanso às cordas vocais. O dia ameno de início de outono sugere uma atividade prazerosa e tranquila, onde se possa cultivar a meditação e o silêncio. Com certeza uma pescaria no Soturno é, sem dúvida, uma bela opção. Munido de vara de pesca, uma latinha de minhocas, uma sacola para pôr os peixes e muita vontade de pescar lá vai o Pio. Bela caminhada, sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco como no tempo de criança, e caminha um pouco pela barranca do rio até achar um bom lugar para pescar. Tarde agradabilíssima, não deu muito peixe, mas em compensação o silêncio, o ruído da água, que mais parece música e a paz da beira do rio são ingredientes capazes de restabelecer qualquer um.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Em se tratando do Pio isto representa um pedaço do paraíso, com exceção da paisagem até dá pra se sentir como Cristo jejuando no deserto.
Por falar em jejuar, já passam das quatro da tarde e começa a bater uma fominha, é claro que ele não levou lanche, pois perto da casa do mano Abel era só dar um pulinho lá para o “chá das quatro”. Era a hora que ele voltava da catequese, deveria estar chegando em casa, então vamos lá.
Sempre é muito gratificante visitar os irmãos em especial quando é para tomar um chimarrão, comer uma cuca ou bolachas e jogar conversa fora…
Parecia já combinado, o Pio subindo do rio pela estrada e o Abel vindo da capela se encontraram na entrada do caminho para a casa. Como a gurizada ficava para trás brincando o Pio nem notou que o Mano não vinha com ele. Como tinham inúmeros assuntos para tratar o assunto Mano só veio à tona quando o Abel perguntou:
– Porque o Carlos não veio para a catequese hoje?
O Pio coçou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:
– Ele saiu para a catequese um pouco antes de mim e veio pra cá… A resposta ficou meio no ar, tinha algo estranho acontecendo, certamente ele deveria ouvir uma bela explicação ao chegar em casa.
O Catequista ainda falou que ele não costumava faltar, principalmente porque depois da catequese costumava jogar bola com a piazada dele.

Três.
O Carlos chega em casa suado, até meio sujo, e a mãe…
Aqui cabe um parêntesis a mãe neste caso é a tia Clementina, que corresponde exatamente a descrição do conceito de mãe, é paciente, atenciosa, amorosa e sobretudo, neste caso sem malícia. Mesmo estranhando a sujeira do filho crê que ele vem da catequese, deve ter sido alguma atividade prática que o Abel mandou fazer.
Com a maior inocência do mundo ela indaga:
– Porque não esperou o teu pai que foi pescar lá no Abel?
– É que eu fui jogar um futebol.
Foi a resposta meio lacônica, meio gaguejada, de quem acaba de ser pego numa mentira. A mãe pensando que se tratava do futebolzinho de após catequese deixou por isso mesmo, mas o Carlos… estava frito. Faltar à catequese do tio Abel, logo num dia que o pai vai lá, só podei ser castigo por ter transgredido as sagradas regras da família, a esta hora o pai já sabia de tudo. E agora? Com certeza a cinta ou a bainha do facão iriam pegar quando ele chegasse da pescaria, ainda mais que apesar de divina e relaxante não tinha rendido muito.
Mas como toda a criança, vamos dar um desconto ele ainda era criança, tem um anjo da guarda para salvar dos perigos, o Carlos também tinha o seu. Só que eu duvido um pouco que se tratava do “anjo” da guarda. Soprou uma ideia para aliviar o castigo. “Se ele tivesse meio adoentado e fosse dormir mais cedo o pai não daria o castigo naquele dia e depois, certamente, esqueceria.” E foi feito. Naquele dia o Mano foi dormir mais cedo, ficou sem janta, sem polenta com peixe frito, mas escapou da cinta.

Um baile e tanto

Creio que esta foi a última foto tirada do casal. em julho de 1976.

Creio que esta foi a última foto tirada do casal, em julho de 1976.

Foi numas férias de julho, mais precisamente em julho de 1976, saí de Viamão, onde estudava, e resolvi ir para Jaboticaba por um caminho não tradicional, dar uma passadinha em Nova Palma para visitar os tios e os avós. Foi nesta ocasião que tirei a famosa foto do nono e da nona na frente da casa velha. Cheguei à Nova Palma na quarta-feira e comecei a visitar os tios tendo como base a casa do nono. Fiz uma série de caminhadas até o Bom Retiro e de volta, fui até a tia Eulália andei bastante pra lá e pra cá, com o Tarcísio e o Inácio e planejamos ir a um baile na noite de sábado com os guris do tio Pio e a Cecília, para isso nos reuniríamos na casa do tio Pio, e depois do Baile, o Inácio e eu iriamos dormir na casa da tia Eulália.

Tudo correu maravilhosamente bem até a hora da janta, todos reunidos contando piadas e histórias, o tio Pio participou bastante. Logo depois “el ga deto que gavea fredo” e foi para a cama, nós também tínhamos frio mas estávamos em volta do fogão.

Resolvemos esperar um pouco para não chegar ao baile muito cedo. Foi um tempo de descontração digno de uma reunião de nossos pais, fico imaginando que não seria diferente se estivessem reunidos o Pio, o Lino e o Abel. Muitas histórias deste livro com certeza tiveram origem em reuniões como essa, ou como foi a do velório do tio Pio, que infelizmente não pude participar, mas prometo que vou colher depoimentos para escrever.
Sei que alguns me perguntarão:

– O que tem a ver uma história de um baile com a de um velório?

– Tem tudo a ver. Respondo eu, quando se trata de um grupo de Piovesan. Vocês já viram um Piovesan calado? Especialmente de for um descendente do Toni.

Voltemos ao assunto inicial, o tio e a tia já tinham ido dormir e o grupo do baile mais os pequenos do tio Pio, ficamos ao redor do fogão contando histórias, para dar um tempo antes de ir ao baile. Passadas algumas horas os menores não resistiram e se recolheram para a cama, já era umas 10 horas da noite e nós continuamos com as piadas e histórias. Pelas 11 horas alguém falou:

– Vamos sair?

Não lembro bem, mas acho que foi a Cecília que abriu a porta e olhou para fora e falou:

– Faz um frio danado.

Fechamos a porta e continuamos ao redor do fogo, mais fogo, mais histórias mais risadas bem ao estilo Piovesan. Ainda era cedo para ir ao baile, poderíamos dar mais um tempo. Passada mais uma hora, mais ou menos, lembramos de novo o propósito de nossa reunião: Ir ao baile. Levantamos e fomos, em massa, para a porta agora estava na hora. Fazia um luar lindo, o céu estava límpido e muito claro, uma noite fantástica para sair se não fosse um probleminha, olhamos para o chão e estava tudo muito claro, branco de geada. Fizemos rapidamente uma assembleia geral e decidimos que não era uma hora adequada para sair de perto do fogo. Voltamos para o calor do fogão a lenha que aquecia o ambiente. Como a assembleia é soberana decidimos continuar a contar histórias e assim foi até lá pelas duas da madrugada quando terminou a lenha: – E agora, o que fazer? Buscar lenha na rua nem pensar, catamos até o último graveto disponível, a lenha terminara, mas não os assuntos. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de queimar as cadeiras, só que teríamos que sentar no chão, definitivamente não era uma boa ideia. Mas numa família de marceneiros não faltaram novas ideias e a que saiu vencedora foi a de queimar os degraus das cadeiras, depois eles poderiam ser repostos. E assim foi a noite até o último degrau de cadeira e o fogo apagou em definitivo. Não tínhamos mais saída, ou ir ao baile ou ir dormir. Aí começou o drama para o Inácio e eu. Nós iriamos dormir lá na tia Eulália que ficava mais perto do que o Bom Retiro mesmo assim com aquele frio “de renguear cusco” não tivemos coragem para sair de casa. A família de acolhida deu um jeito: colocaram-nos a dormir nos pés da cama dos pequenos, que afinal não ocupavam toda a cama mesmo.
Assim terminamos aquela maravilhosa noite de baile.