Mamma mia

Mamma mia!

Eu sempre me senti bastante Trentin, apesar de ter o sobrenome Piovesan, por isso comecei a refletir sobre a riqueza cultural da família para tentar descobrir como foi se dando, no decorrer das gerações este crescimento. Afinal de contas como é que as famílias Piovesan vão diversificando e enriquecendo a cultura familiar? Tentando achar uma hipótese explicativa para o fenômeno conclui que estava dentro de casa. As tias Piovesan que me perdoem, eu as amo muito, mas  vou falar um pouco daquelas que foram escolhidas para serem as mães dos Piovesan.

Quando a nona Eliza foi escolhida, pelo que sei era porque a moça era Filha de Maria e certamente bastante religiosa, portava valores familiares, participava das atividades da sociedade, liderava o grupo pois carregava o estandarte, capaz de se ajoelhar e rezar e além de tudo era bonita. Tentarei analisar por partes, que valores o Toni viu naquela moça que eram importantes para a família que ele queria constituir?  Na época as moças não tinham muitas opções de socialização ainda não chegara o ano de 1922, as opções para elas era ficar em casa, ir à missa no domingo e ficar em casa o resto do dia, eventualmente acompanhar a mãe a uma visita nas vizinhanças e aprender as artes das prendas domésticas, bordado, crochê, tricô e cuidar da casa.  Participar de um movimento organizado como as Filhas de Maria era uma forma de integrar-se a sociedade feminina, da mesma faixa etária para troca de experiências, que experiências? O que almejavam estas senhoritas? Formar uma família? Repetir a sina de suas mães? Me dá vontade de chorar quando penso nisso…

O que tem de diferente uma moça que carrega o estandarte? Ela pode estar reproduzindo o padrão, mas acho que não, ela carrega o estandarte porque lidera, ela lidera porque quer algo diferente, ela quer algo diferente porque quer mudar. Não importa o que e como, mas é preciso mudar, evoluir, dar o melhor de si para agregar valores. Que valores? Os valores de uma moça que sabe se ajoelhar e reconhecer sua pequenez diante do criador, que carrega o estandarte da liderança e não esquece a humildade. Que resplandece a beleza interior como seu vestido branco. Que traz a determinação dos Zanon no sangue. Que sabe o que quer, que é positiva, que sabe se impor na hora certa, que carrega consigo os valores sociais, religiosos e familiares de seu tempo, mas que sobretudo quer ir além…

Porque isto encantou o Toni? Tão diferente, extrovertido, um tanto inconsequente, trabalhador habilidoso e criativo, mas segundo alguns um ‘bom vivant’, religioso também, mas acima de tudo comprometido com a parte mais festiva da religiosidade da época. Ao escolher uma mãe para seus filhos ele queria não alguém igual a si, mas aquela moça que acrescentaria valores e qualidades à família. “Mamma mia” matei a charada. A mãe é aquela que por ser completa e diferente acrescenta qualidades, valores, habilidades e criatividade a nova família. É na soma que se constitui a evolução.

Assim cada Piovesan soube ao longo do tempo acrescentar qualidades à família, vejamos pela ordem dos acréscimos. A tia Pierina, minha madrinha, creio que foi escolhida pela qualidade dos Rossato que é a persistência ao mesmo tempo que ela representa a mulher forte também trazia a bondade e uma forma de conduzir a família mais leve que o tio, ele era o mais sério da família, segundo minha avaliação. E segundo as crianças muito severo em seus castigos. Já a segunda foi a tia Bazilides, minha mãe. Desde o primeiro encontro foram seis anos cultivando um namoro a distância, no tempo que a unica forma de comunicação eram as cartas. Acho que um dos motivos da escolha foi esta intelectualidade que acompanhava as famílias Trentin, uma curiosidade que completava admiravelmente o lado prático do pai. Mas outras qualidades complementares constituíram a família, ele falava com os animais, ela com as plantas, ela não sabia dizer não, ela impunha os limites, ele gostava de cantar e fazer amigos, ela também. A tia Clementina a inocência em pessoa, jamais conheci alguém mais transparente e dedicada, com certeza o complemento perfeito para o tio Pio, até acho que adotei ela como mãe depois do falecimento da minha. E finalmente a tia Alzira, bem! Esta é a eterna tia, aquela que sabe ser forte quando é necessário, ser mãe, ser amiga, ser confidente, enfim, olhando como sobrinho ela sempre foi a casa enquanto o tio era o caminho.

Assim, depois desta breve análise podemos compreender um pouco como a família Piovesan foi enriquecendo a própria cultura ao buscar nas mães as qualidades que desejavam ou que complementavam a cultura familiar.

No verão de 1991, minha família, Catia, Lucas, Licéia e Luciana com a mãe e o pai tratando as ovelhas.

 

  • Como é dia das mães me permitam um aparte, vou falar da minha. Ela sempre nos estimulou a leitura, talvez por isso eu hoje seja jornalista, trazia de família o gosto pelas letras, isto pode ser visto nas cartas ao namorado, que tenho e guardo com carinho, onde pode-se ler nas entrelinhas a paciência, a fidelidade, o amor com que ela esperou pelo dia de seu casamento. Sonhou e planejou por seis anos a sua futura família. Ela trouxe a reflexão, a filosofia, o conhecimento teórico, o planejamento futuro enquanto o pai trouxe a prática, o dia a dia, a experiência. Por outro lado muitas coisas eles tinham em comum, amavam a música, o canto, tinham um milhão de amigos, estavam sempre prontos a ajudar e não se conformavam com as injustiças sociais o que fez deles revolucionários, muitas vezes se colocaram contra a “ordem” estabelecida. Até acho que foi ela que despertou em mim o espírito crítico…

O rabo de bugio

História contada pela Neli, com redação minha. Coloquem-se no lugar dela, acostumada a ver o pai bater no irmãozinho mais novo, o Vicente no caso.

Foi lá por maio de 1967, o pai estava cortando rama de mandioca na lavoura lá do fundo, não lembro onde o Toni e o João estavam. A mãe pediu para mim e o Vicente ir buscar batata na roça para cozinhar para o almoço. Aí nós pegamos um saco de linhagem e uma enxada e fomos. O batatal ficava na várzea na lavoura que ficava depois do potreiro. Enquanto arrancávamos as batatas podíamos ver o pai trabalhando na roça lá em cima do morro, aí o Vicente falou que o pai tinha xingado ele. Eu tinha dó dele porque o pai sempre xingava por qualquer coisinha, ele também apanhava muito.
Quando estávamos voltando para casa tinha um trecho da estrada que eram dois trilhos por onde passava a carroça e o resto era coberto de capim, que estava bem alto. O Vicente disse que ia amarrar os capins para o pai tropeçar quando passasse por lá. Eu fiquei quieta, não gostava das artes do Vicente, mas também não gostava de ver ele apanhando, e ele foi amarrando os capins de um lado com o outro dos trilhos.
Chagamos em casa e fomos brincar, e quando foi perto do meio dia que o pai veio para almoçar ele tropeçou nos capins e rebentou uma das varizes que ele tinha na perna e não parava mais de sair sangue. Ele chegou em casa já bem mal, aí a mãe fez curativo e conseguiu fazer parar o sangue. Nós estávamos brincando no quarto quando ele disse que queria falar com o Vicente, porque ele tinha visto de lá de cima que nós tínhamos passado por lá.
Aí eu fechei a porta do quarto e fiquei segurando e tranquei a tramela. Aí o pai batia na porta e queria que eu abrisse, mas eu tinha dó do Vicente e não queria vê-lo apanhar. Eu não abri a porta, então o pai pegou o facão e enfiou na fresta da porta e abriu a tramela, eu ainda tentei segurar a porta, mas o pai tinha mais força. Quando o Vicente viu que o pai tinha aberto a tramela, pulou a janela e se foi pro mato aí só fiquei eu no quarto. Quando o pai entrou e me viu, ele disse que eu estava acobertando as artes do meu irmão, e como ele tinha fugido eu é que ia apanhar uma surra com a vara de rabo de bugio.
Até hoje ainda me dói as varadas, mas apesar disso não fiquei com raiva, aprendi a não acobertar os erros dos outros, pois agora sei que era o jeito deles de educar.

A greve de fome do Vicente

Logo depois do golpe militar de 1964, a pacata família do tio Achiles viveu um fato inusitado, o Vicente, com 10 anos na época, resolveu fazer greve de fome.

Primeiro precisamos conhecer um pouco melhor o Vicente da época, depois vamos a história. O Vicente já estava no terceiro ano de escola, isso não significava no terceiro ano, pois ele tinha uma metodologia bastante diferente de estudar. Também, por ter o espírito revolucionário nem sempre ficava na aula, gostava de sair pela janela quando era posto de castigo, depois ameaçava os irmãos para não contar nada em casa, isso lhe dava tempo para meditar, enquanto esperava os irmãos. Porque se chegasse antes dos outros em casa a cinta pegava, se bem que ele estava razoavelmente acostumado com a cinta, pois era “dispetoso come le cabre” como dizia o tio e padrinho Lino.
Como vimos ele tirava tempo de aula para meditar escondido enquanto esperava os irmãos que voltavam da aula. Sabemos que era filho de pais muito religiosos, como é comum na família Piovesan. Por outro lado era bastante criativo o que o tornava um verdadeiro artista, vivia “fazendo arte” e era reprimido quando fazia isso, daí a encontrar métodos criativos para chamar a atenção foi um passo. Não sabemos se foi por motivo religioso ou profano, mas…

Na foto de 1957 de cima para baixo e da esquerda para a direita: Mariazinha, Antoninho, Joãozinho, Vicente e Neli do tio Achiles, depois Eu (Liceo), Leonildo e Leo do tio Lino.

Na foto de 1957 de cima para baixo e da esquerda para a direita: Mariazinha, Antoninho, Joãozinho, Vicente e Neli do tio Achiles, depois Eu (Liceo), Leonildo e Leo do tio Lino.

Um belo dia, numa segunda-feira, provavelmente para evitar um castigo, o Vicente declarou-se em greve de fome, iria parar de comer por prazo indeterminado. – quem me contou a história foi o Leo, que trabalhou lá no tio por algum tempo. No primeiro dia tudo transcorreu normalmente – era um capricho de criança, quando bater a fome ele desiste. Só que, se foi o primeiro dia e o Vicente continuava firme em seu propósito. Hora do café do segundo dia o vivente não apareceu.
– Vamos ver se ele aparece para o almoço – dizia a tia Pierina, esperançosa que a brincadeira acabasse.
Chegou o meio dia, todos se reuniram para o almoço, que estava uma delícia, segundo o Leo, e o Vicente passou perto da mesa e se foi… era apenas o segundo dia todos ainda pensavam vamos ver no que vai dar. Chegou a hora da janta e o grevista se lavou e foi direto para a cama, aí o clima começou a esquentar. As conversas depois da janta giraram em torno do assunto.

Bem! Segundo os evangelhos Jesus teria jejuado por quarenta dias, e vencido a tentação, João Batista também fizera proeza semelhante, período em que se alimentou de gafanhotos. Foi aí que um dos irmãos levantou a hipótese que isso até poderia ser bom se ele comesse os gafanhotos e vencesse a tentação seria ótimo para todos, mas o tio não gostou nada da brincadeira e quase pôs de castigo o autor da ideia. Mas como não poderia deixar de ser, depois da oração da noite foram rezadas três Aves-Maria, na intenção de afastá-lo da loucura.
Quarta-feira ele nem apareceu para o café, levantou e sumiu, na família a situação já começava a se tornar preocupante, o Vicente participava de tudo com a maior naturalidade, mas desaparecia nas horas das refeições. O tio teve então uma atitude bem coerente com os Piovesans, – Quem sabe uma reza ou uma benção do padre? E lá se foi o tio Achiles para a missa, no meio da semana. Pediu uma intenção especial na missa, rezou e cantou com fervor e voltou para casa com a consciência do dever cumprido. Foi para a roça e voltou como de costume ao meio dia para o almoço, mas o milagre ainda não aconteceu, o grevista nem apareceu na cozinha. No fim da tarde a cena se repetiu, o Vicente direto para a cama e os outros inquietos. – Como ele está aguentando? Desta vez foi um terço inteiro…
Quarto dia de greve. Tudo se repetiu como nos dias anteriores e o dia transcorreria normalmente se não fosse um pequeno incidente matemático, quando a tia Pierina foi pegar o pão para o café observou que restavam apenas dois. Ela fazia sempre sete pães, um para cada dia da semana, no sábado. Dessa vez somente tinha o da quinta-feira e o da sexta, faltava, portanto um. Serviu o café e ficou remoendo a história intrigada, ao meio dia como já era de se esperar o Vicente passou pela cozinha e sumiu. Foi então que a tia comentou o caso da falta do pão, aí o Leo e o Toni saíram para procurar o Vicente para ver onde tinha se metido.
Depois de darem umas voltas ao redor da casa, encontraram o grevista na beira do rio molhando um pedaço de pão na água com uma mão e com um pedaço de salame na outra. Assim terminou o episódio da greve e ficou esclarecido o sumiço do pão.
Passado algum tempo o Vicente foi morar com o padrinho para ver se endireitava… (em breve)