Encontro de família e a programação da máquina do tempo

Já se tornou um hábito achar um motivo para fazer uma reunião de família pelo umas duas vezes por ano. Pelo menos na dos descendentes do Lino e da Bazilides Piovesan. Os motivos, bem! Os motivos são pelo menos dois, tanto o pai como a mãe expressaram no leito de morte, o desejo que fizéssemos uma festa de família por ano, logo para satisfazer o desejo dos dois temos que fazer pelo menos duas. Nem sempre conseguimos reunir todos, mas quase sempre atingimos uma assiduidade da ordem de 94 a 97%, ou seja faltam apenas um ou dois descendentes. Além do motivo principal é claro tem os outros: se encontrar, por as histórias em dia, falar muito (esta é uma qualidade dos Piovesan), rir um pouco, fazer travessuras, rever os irmãos, primos, sobrinhos, etc., etc., etc…

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Para o aquecimento um futebolzinho

Eu já cheguei atrasado, o guarda do estacionamento só não me barrou porque eu era irmão do organizador da festa e cunhado da aniversariante. Ah! eu ia esquecendo este era mais um motivo para estarmos juntos. Bons dias, abraços, beijos, brincadeiras e já estava rolando um aperitivozinho, um tira gosto, degustação de butiás e jabuticabas da Leda, sem falsa modéstia, os butiás da casa dela são os melhores do mundo e ponto. Uma que outra criança aproveitava o campinho de futebol ao lado para correr atras de uma bola e eu absorto olhava a cena quando comecei a ouvir vozes…

  • Eu nunca fui bom jogador, nunca gostei muito de futebol…
  • Eu também não.
  • Eu joguei algum tempo de goleiro…
  • Eu gostava de ir aos torneios de caminhão…

Não me contive e me voltei para trás, de onde vinham as vozes e acrescentei;

  • Eu tinha posição fixa, era marrecão.
  • Marrecão tio! O que é isso?
  • É uma longa história, do tempo que os campos de futebol do interior ficavam nas várzeas perto de banhados…
  • É daí que vem a expressão futebol varzeano?
  • Sim! Mas esta é uma história muito longa que eu vou contar outro dia… <leia aqui>
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Escorregando no talude com um papelão

Dei corda na minha máquina do tempo, claro tenho que explicar o que é dar corda, a expressão significa carregar a bateria de energia mecânica que faz a máquina funcionar, pois bem! Dei corda na minha máquina do tempo e programei para retornar uns cinquenta anos. A programação da máquina é muito simples, instantânea, basta que uma imagem coincida com alguma guardada na memória e pronto. Além de instantânea a programação começa a vasculhar outras imagens do mesmo arquivo e pronto. Voltamos dez, vinte, cinquenta, ou até mais anos em uma fração de segundo. Eu mesmo já tenho voltado até mais de sessenta anos com esta máquina maravilhosa.

Voltei apenas cinquenta anos, acho que era o Ipiranga jogando com um time de Tiradentes. As moças de família gostavam de ir ver o futebol, pois naquela época era uma das poucas oportunidades de ver um rapaz de pernas de fora. Como eu não jogava nada não tinha este privilégio dos jogadores e por conseguinte não tinha a admiração das moças. Que chato! Mas eu era o marrecão, um piá levinho, magricelo, que conseguia correr por sobre os capins do banhado pra buscar a bola quando um fortão chutava um pouco mais forte e o goleiro não pegava. Lá ia o marrecão quase flutuando sobre o banhado e em alguns instantes a bola estava novamente em jogo. O bom da história é que lá no campo do Ipiranga o marrecão tinha uma vantagem: no banhado tinha muito guamirim e as moças gostavam de guamirim, só que depois de um ou dois jogos não havia mais nada ao alcance dos mortais comuns, só o marrecão conseguia chegar até as arvoretas com belos cachos de frutas maduras, aí as moças começavam a olhar para ele.

  • Bah! Não é pra esta história que eu queria voltar.
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… tinha que fazer uma ginástica para ficar sobre o papelinho.

É que no talude do campo de futebol algumas pessoas escorregavam com um papelão sobre a grama. Esta história é de uns cinquenta e cinco anos, como a chuva andava escassa a grama estava bastante seca e lisa e permitia um belo esporte, escorregar morro abaixo com uma casca de coqueiro, um pouco semelhante a brincadeira do talude, a lá fui eu. O papelão poderia ser grande o suficiente para uma criança de cinco ou seis anos, mas a máquina do tempo não nos

de carona com piloto experiente

de carona com piloto experiente

diminui, tive que me encolher o que deu para ficar sobre o papelão, mas a descida foi um sucesso. Em pouco tempo o número de crianças a escorregar aumentou que deu pra fazer fila, tinha piá dos dois aos sessenta e dois anos brincando, alguns mais inseguros andavam em duplas com um piloto experiente na frente, outros andavam em grupo, que tarde divertida!

Enquanto isso rolava uma partidinha de futebol dos sem camisa contra os com camisa, bem como naquela época, ao mesmo tempo alguns que não entraram nestas brincadeiras aproveitavam o tempo para o esporte preferido da família, contar histórias.

Além de todos os motivos citados acima num encontro como este descobrimos novos destinos para a nossa maravilhosa máquina do tempo.

O viajante já está dando corda, em breve partiremos para outros destinos…