Visita surpresa

Colhida nas memorias da Silvia

Já era tradição, na época das férias de julho, esperar a prima que vinha de Porto Alegre para passar as férias comigo. A tia Odila, tendo se criado na roça, não queria que a filha perdesse as oportunidades de conviver com aquele estilo particular de vida, por isso dava um jeito de avisar o pai que a Fabíola estava chegando para mais umas férias, sempre com alguns dias de antecedência.
No entanto algo estranho começava a acontecer no mês de julho de 1992, a primeira semana já se passara e não havia chegado a comunicação para buscar a prima na rodoviária. De qualquer forma se ela vem darão um jeito de avisar ou na pior das hipóteses ela vai até o tio Pio e algum dos guris traz ela. Normalmente o recado vinha por algum conhecido no domingo durante a missa, alguém que tinha telefone, é claro, aí eu ou um dos guris ia até a rodoviária esperar o ônibus.
Como já ia quase para o fim da segunda semana eu estava começando a ficar preocupada. A minha missão, durante as férias, era de passar o tempo todo brincando com ela e defendendo ela dos monstros que tinha ao redor da casa como: porcos, galinhas, trator, vacas, grilos, formigas e terneiros.
– Ah! Eu ia me esquecendo. Ela tinha medo de tudo o que se mexia. Menos da água pois adorava tomar banho no rio, mas tinha medo de pegar os peixes na mão quando a gente ia pescar, e minhoca então nem pensar.
Enquanto isso, na cabeça da Fabíola no, auge de seus 12 anos, se passava “é hora de deixar de ser tratada como criança, chega de ficarem andando de lá pra cá por minha causa”. Fabíola este ano faria uma surpresa para Sílvia, para nona e para o tio Abel. Fez a mãe pensar que tinha mandado o recado de sua chegada mas não mandou dizer nada seria a “Visita surpresa”, se não tivesse polenta que chega azar, mas o gostinho de aprontar uma arte compensaria. Com a passagem comprada até Santa Maria, onde a prima Rosália tinha a incumbência de esperar na rodoviária e embarcá-la para Nova Palma, teve mais que tempo para planejar como iria concretizar a sua surpresa.
Com a chega prevista para as 14 horas dava mais que tempo para ir a pé tranquilamente até a casa da nona antes que escurecesse. Por que para a Fabíola em Nova Palma todas as pessoas eram boas, ao contrário da Capital, onde deveria tomar cuidados com estranhos. Ia ser uma surpresa e tanto, quase seis horas de viagem para planejar nos mínimos detalhes a chegada. O embarque foi tranquilo, a mãe recomendou ao motorista o cuidado com a filha e principalmente o cuidado de entregá-la a um parente em Santa Maria. Na cabeça da mãe, em Nova Palma, seria o Abel ou a Silvia ou, talvez, um dos guris, que a pegariam na Rodoviária. Na cabeça da filha, todo mundo me conhece na rodoviária e quase todos são parentes lá. Seria uma quebra de rotina, um dispeto, como diria o tio Lino, coerente com as tradições familiares.
– Ah! O gostinho de fazer uma arte. O plano. Chegando na rodoviária vou direto a Casa do Tio Pio, ter um dedo de prosa com a prima Janine, depois, como já sou mocinha, posso ir andando e daí é só caminhar tranquilamente até lá e… surpresa! Tempo para imaginar cada detalhe não faltou afinal foram quase seis horas sozinha naquele ônibus. A chegada a Nova Palma foi sem incidentes, eram quatorze e pouco, foi a casa do tio Pio e papeou com a prima Janine, que já estava de saída. Então falou para a Janine,que iria aproveitar a saída dela e iria andando. Vejo vocês na missa do domingo. E lá se foi pela estrada principal carregando a maleta.
– Não precisa caminhar muito depressa pois a ‘tarde ainda é criança’, tem muito tempo. Que legal poder caminhar curtindo a paisagem, a estrada deserta. Neste horário todo mundo estava na lavoura e como o tempo estava, bom tem que aproveitar principalmente para carpir as lavouras.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Na época tinha dois caminhos para chegar na casa do tio Abel: seguindo pela estrada atravessando o rio na ponte nova e descendo de volta pela escola ou descendo pela trilha da estrada velha atravessando o rio pela pinguela improvisada, que era muito mais curto, só tinha o inconveniente da pinguela. É claro que a segunda opção foi a escolhida, até porque depois de uma caminhada destas qualquer metro a menos de estrada faz diferença. Já estamos quase lá é só passar a cerca caminhar uns duzentos metros pelo potreiro do Valdecir Rossato atravessar o rio e pronto… Surpresa! Chiii! a surpresa veio antes. Do outro lado da cerca estão passando pequenos monstros com chifres que fazem bééé. Meu Deus e agora? Passar rapidamente a cerca de volta e fazer a volta pela ponte. Mas é longe, dá mais de um quilômetro, a mala está pesada. Ainda bem que aquelas cabras malvadas estavam passando, daqui a pouco,elas se vão e eu posso ir tranquila.
O que a menina moça não contava é que as cabras estavam pastando e não passando, o que começou a aumentar significativamente o tempo de espera. Pelo menos, ali perto da cerca, tinha uma pedra grande que dava pra sentar. Mas já está ficando tarde e aqueles bichos perigosos não vão embora, será que estão esperando uma vítima? Eu é claro. O sol começava a se pôr e logo iria escurecer. As cabras pastantes, seguiram a sua trilha e liberaram o caminho para a Fabíola seguir viagem …
– Ah, que alívio! – Agora posso ir e tem que ser depressa antes que anoiteça.
Fabíola Imaginou que teriam se passado varias horas, mas apos o episodio ao olhar no relógio percebeu que somente havia transcorrido míseros 20 minutos.
A panela da polenta já está com a água quase fervendo, a mãe, o pai e a nona tomam chimarrão na cozinha. Um dos guris está tirando água do poço. Os cachorros começam a latir como quando fazem festa para algum conhecido. Ouvimos um grito desesperado:
– Siiiiilvia! vem me salvar destes monstros que estão me atacando! Surpresa! é a Fabíola que chegou sem avisar.

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