Mamma mia

Mamma mia!

Eu sempre me senti bastante Trentin, apesar de ter o sobrenome Piovesan, por isso comecei a refletir sobre a riqueza cultural da família para tentar descobrir como foi se dando, no decorrer das gerações este crescimento. Afinal de contas como é que as famílias Piovesan vão diversificando e enriquecendo a cultura familiar? Tentando achar uma hipótese explicativa para o fenômeno conclui que estava dentro de casa. As tias Piovesan que me perdoem, eu as amo muito, mas  vou falar um pouco daquelas que foram escolhidas para serem as mães dos Piovesan.

Quando a nona Eliza foi escolhida, pelo que sei era porque a moça era Filha de Maria e certamente bastante religiosa, portava valores familiares, participava das atividades da sociedade, liderava o grupo pois carregava o estandarte, capaz de se ajoelhar e rezar e além de tudo era bonita. Tentarei analisar por partes, que valores o Toni viu naquela moça que eram importantes para a família que ele queria constituir?  Na época as moças não tinham muitas opções de socialização ainda não chegara o ano de 1922, as opções para elas era ficar em casa, ir à missa no domingo e ficar em casa o resto do dia, eventualmente acompanhar a mãe a uma visita nas vizinhanças e aprender as artes das prendas domésticas, bordado, crochê, tricô e cuidar da casa.  Participar de um movimento organizado como as Filhas de Maria era uma forma de integrar-se a sociedade feminina, da mesma faixa etária para troca de experiências, que experiências? O que almejavam estas senhoritas? Formar uma família? Repetir a sina de suas mães? Me dá vontade de chorar quando penso nisso…

O que tem de diferente uma moça que carrega o estandarte? Ela pode estar reproduzindo o padrão, mas acho que não, ela carrega o estandarte porque lidera, ela lidera porque quer algo diferente, ela quer algo diferente porque quer mudar. Não importa o que e como, mas é preciso mudar, evoluir, dar o melhor de si para agregar valores. Que valores? Os valores de uma moça que sabe se ajoelhar e reconhecer sua pequenez diante do criador, que carrega o estandarte da liderança e não esquece a humildade. Que resplandece a beleza interior como seu vestido branco. Que traz a determinação dos Zanon no sangue. Que sabe o que quer, que é positiva, que sabe se impor na hora certa, que carrega consigo os valores sociais, religiosos e familiares de seu tempo, mas que sobretudo quer ir além…

Porque isto encantou o Toni? Tão diferente, extrovertido, um tanto inconsequente, trabalhador habilidoso e criativo, mas segundo alguns um ‘bom vivant’, religioso também, mas acima de tudo comprometido com a parte mais festiva da religiosidade da época. Ao escolher uma mãe para seus filhos ele queria não alguém igual a si, mas aquela moça que acrescentaria valores e qualidades à família. “Mamma mia” matei a charada. A mãe é aquela que por ser completa e diferente acrescenta qualidades, valores, habilidades e criatividade a nova família. É na soma que se constitui a evolução.

Assim cada Piovesan soube ao longo do tempo acrescentar qualidades à família, vejamos pela ordem dos acréscimos. A tia Pierina, minha madrinha, creio que foi escolhida pela qualidade dos Rossato que é a persistência ao mesmo tempo que ela representa a mulher forte também trazia a bondade e uma forma de conduzir a família mais leve que o tio, ele era o mais sério da família, segundo minha avaliação. E segundo as crianças muito severo em seus castigos. Já a segunda foi a tia Bazilides, minha mãe. Desde o primeiro encontro foram seis anos cultivando um namoro a distância, no tempo que a unica forma de comunicação eram as cartas. Acho que um dos motivos da escolha foi esta intelectualidade que acompanhava as famílias Trentin, uma curiosidade que completava admiravelmente o lado prático do pai. Mas outras qualidades complementares constituíram a família, ele falava com os animais, ela com as plantas, ela não sabia dizer não, ela impunha os limites, ele gostava de cantar e fazer amigos, ela também. A tia Clementina a inocência em pessoa, jamais conheci alguém mais transparente e dedicada, com certeza o complemento perfeito para o tio Pio, até acho que adotei ela como mãe depois do falecimento da minha. E finalmente a tia Alzira, bem! Esta é a eterna tia, aquela que sabe ser forte quando é necessário, ser mãe, ser amiga, ser confidente, enfim, olhando como sobrinho ela sempre foi a casa enquanto o tio era o caminho.

Assim, depois desta breve análise podemos compreender um pouco como a família Piovesan foi enriquecendo a própria cultura ao buscar nas mães as qualidades que desejavam ou que complementavam a cultura familiar.

No verão de 1991, minha família, Catia, Lucas, Licéia e Luciana com a mãe e o pai tratando as ovelhas.

 

  • Como é dia das mães me permitam um aparte, vou falar da minha. Ela sempre nos estimulou a leitura, talvez por isso eu hoje seja jornalista, trazia de família o gosto pelas letras, isto pode ser visto nas cartas ao namorado, que tenho e guardo com carinho, onde pode-se ler nas entrelinhas a paciência, a fidelidade, o amor com que ela esperou pelo dia de seu casamento. Sonhou e planejou por seis anos a sua futura família. Ela trouxe a reflexão, a filosofia, o conhecimento teórico, o planejamento futuro enquanto o pai trouxe a prática, o dia a dia, a experiência. Por outro lado muitas coisas eles tinham em comum, amavam a música, o canto, tinham um milhão de amigos, estavam sempre prontos a ajudar e não se conformavam com as injustiças sociais o que fez deles revolucionários, muitas vezes se colocaram contra a “ordem” estabelecida. Até acho que foi ela que despertou em mim o espírito crítico…

O soque do Antoninho Frikes

Passando um pouco do erval, uma trilha a direita costeava a cerca do potreiro e depois serpenteava por entre as touceiras de branquilhos chegando em alguns trechos a ser quase um túnel verde que desembocava finalmente numa clareira de gramado. Ao norte cercada de branquilhos e ao sul demarcada pela curva do arroio do Papagaio, cortada ao meio por uma valeta que trazia a água em curva de nível do passo até a bica da roda d’água do soque de erva mate do Antoninho. Qual a razão para fazer um soque de erva escondido?

Bella Famiglia - Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Bella Famiglia – Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Em plena época de ditadura qualquer atividade econômica era controlada rigorosamente e o que não estivesse exatamente dentro do que era preconizado pelos detentores do poder era passível de punição. O tio Luis tinha na época o moinho da vila mas não podia moer trigo, nem no modelo que era usado até então em que o agricultor levava o trigo e ele moia ficando com uma porcentagem. Acho que era até proibido moer o trigo em casa no pilão. Tinha que mandar tudo pra cooperativa e deixar lá reservado uma quantidade de farinha que podia ser retirada mensalmente. Se não me engano esta farinha não podia ser vendida.

– Bem! Deixa pra lá! Isto era coisa da ditadura e eu queria falar do soque do Antoninho.

– O Antoninho Frikes Vaz tinha um armazém, destes tipo boteco mesmo, em frente ao campo de futebol, hoje a praça da igreja da Vila Trentin, também tinha um bando de filhos pequenos, bocas pra dar comida, logo tinha que se virar para conseguir sustentar a família. Se virar em época de vacas magras significava ter que diversificar as atividades então ele comprou uma kombi velha e começou a fazer uma linha de transporte da vila até Palmeira para levar e trazer passageiros e mercadorias, era lá pelos anos setenta, se não me engano. Só que esta atividade era considerada ilegal mas ninguém denunciava porque o povo dependia dele pra se locomover, mas nem assim  ele estava conseguindo por comida nas bocas das crianças em quantidade suficiente. Foi aí que teve a ideia de montar um soque de erva mate. Esta atividade além de ilegal também tinha concorrentes que poderiam denunciá-lo, por isso tinha que ser feita com a maior discrição possível.

Não sei como ele chegou até meu pai, mas com certeza chegou no lugar certo pois o pai sempre teve um quê de revolucionário, daí até fazer alguma coisa que contrariasse o regime era um passo. Como já falei antes, na nossa terra tinha o lugar ideal, uma clareira na beira do arroio, toda cercada de mato, o acesso se poderia fazer pelo lado da casa, como isto chamaria a atenção, a opção dos dois foi fazer uma trilha que desembocava no travessão, dentro da picada de mato. Depois, a estrada que ia até o soque, era um verdadeiro labirinto aproveitando as trilhas do gado por entre os branquilhos espinhentos.

A água não era muita, mas o desnível até o pondo da roda era de uns três metros e oitenta centímetros, o que segundo cálculos teóricos do Tio Ângelo, o fazedor de rodas d’água, ia dar uns três cavalos de força, mais que suficiente para movimentar seis mãos de pilão. os dados de cálculo ele obteve teoricamente do tio pois ninguém podia ficar sabendo da indústria, na época tinha espião até dentro da própria família. Não seria umas grande indústria mas daria para abastecer o armazém com erva própria e mais barata o que aumentava a margem de lucro, ainda mais que alguns clientes da Palmeira começavam a aumentar o volume de encomendas, já que era boa e mais barata.

O empreendedor comprava a erva dos produtores que seria beneficiada, seca e moída, em algum soque autorizado e depois seria revendida no armazém. É claro que uma parte seguia o caminho legal, outra parte ele secava em algum barbaquá escondido e moia no dito soque, isto aumentava enormemente a margem de lucro, hoje diríamos aumentava o valor agregado.

Até hoje não sei bem quais as tratativas que fez com o tio Lino, o que lembro é que um dia apareceu lá em casa com a ideia e pronto para começar a obra. Primeiro tinha que desviar a valeta da roda de bombeamento de água por um canal, valeta, mais acima e ir abrindo a mesma té a clareira onde se somavam mais umas corredeiras e uma cachoeirinha dando os três metros e pouco que precisava de “caimento”. Feito isso tinha que preparar a “cava” para a roda e aplainar o terreno para a instalação do cocho de moagem e das cavadeiras. E por cima de tido um galpãozinho de proteção. No dia que foi liberada a água na valeta nova foi uma festa, formou uma bela cachoeira na bica, só que deu um problema, com a água desviada não sobrou quantidade suficiente para bombear água da fonte pra casa. Mais uma obra se fez necessária, reforçar a barragem de contenção, açude, para aproveitar melhor a água do arroio.

Depois foi montada a roda d’água, o soque, o galpão e a indústria começou a produzir. Ele vinha de noite trazer erva para socar e carregar a erva, pois o trabalho não podia ser conhecido por terceiros. O soque funcionava o dia inteiro e no cair da noite chegava o Antoninho para descarregar a erva moída e reabastecer o cocho.

Terminaram as minhas férias e quando cheguei em casa novamente não tinha mais soque, até hoje não sei o que aconteceu…

… mas o bom de tudo isso é que ale ficou devendo favor pro pai e nas outras férias fizemos uma viagem em família par Nova Palma, na kombi do Antoninho, é claro.

Acho que a viagem dá outra história qualquer dia…

 

O Trator

Dentre todas as maravilhas tecnológicas que povoaram a vida dos Piovesan certamente não pode faltar o Trator, aqui escrito em maiúscula por se tratar de um trator de verdade, não um tratorzinho qualquer.

O transporte de produtos, objetos pesados e pessoas sempre foi prerrogativa dos bois e da velha gaiota, quando precisava mais velocidade de deslocamento era a Lavareda, a égua tostada, que assumia a tarefa, quando precisava velocidade para um grupo de pessoas ou muitos objetos mais leves, a função era outorgada à carroça e aos cavalos tordilhos do Bôrtolo. Estes últimos, em geral eram os responsáveis pelas viagens de compras, outro assunto palpitante, mas hoje o assunto é o trator, que de certa forma veio substituir todos os outros com algumas vantagens.

O trator se transformou num faz tudo da sociedade. Aqui vemos ao fundo a moenda acionada pelo trator.

O trator se transformou num faz tudo da sociedade. Aqui vemos ao fundo a moenda acionada pelo trator.

A família já estava mecanizada, arar a terra e transportar pessoas e coisas agora já era tarefa do trator, que desenvolvia velocidades astronômicas.

A sociedade com o Marcelino Piovesan Dalbianco, primo distante e cunhado, melhorou bastante o trabalho e possibilitou desenvolvimento e mecanização ainda maiores. Foi comprada a colheitadeira automotriz John Deere (Jandira), (outra história para contar, a Reforma) para facilitar a colheita.

O trator fazendo a semeadura

O trator fazendo a semeadura

Hoje é o dia do trator, mas não pode ser contada esta sua história sem falar na colheitadeira, recém comprada, usada, caindo aos pedaços, mas trabalhando. Ela trabalhava um bocado de tempo e enchia o depósito graneleiro, aí se encostava o trator com o carroção do lado e se descarregava o soja que era ensacado para comercialização, mas tinha uns probleminhas. O descarregador do graneleiro não encaixava muito bem e tinha que alguém ficar segurando, isso não era problema pois não faltava mão de obra.

A John Deere (Jandira)

A John Deere (Jandira)

Normalmente no final do dia para facilitar a última carga do graneleiro era descarregada em casa, neste caso na casa do tio Marcelino. O trator e o carroção estavam a postos na frente da casa, no terreiro, o Léo, motorista da colheitadeira, já ia chegando quando o Lino, tratorista oficial, saltou do trator para ajudar a segurar o descarregador, o compadre Marcelino, do outro lado da colheitadeira, se preparava para segurar a alavanca do acionamento do descarregador.

Aqui precisa fazer um parênteses – O trator andava mal de bateria por isso ficou funcionando, travado é claro, ou não? – Veremos…

Três operavam na automotriz para o descarregamento enquanto o trator ficou sozinho, isso não era problema pois o terreiro era quase plano e o trator tinha freio. A operação descarga estava começando, motor do trator acionado em espera na lenta.

– Tup, tup, tup.

Motor da colheitaderia acelerado para fazer força.

– Brrrrrrrrrr!

– Clanc, clanc.

– Ok o carregador esta no ponto, acelera Léo, compadre pode acionar a alavanca!

– Grrrrr, ahhhhh!

Começou a cair o soja no carroção, que maravilha da tecnologia, o tempo da foicinha e da trilhadeira já eram parte do passado. Os grãos fluindo como uma cascata começam a formar uma pequena montanha no carroção, o trator avança um pouco para reposicionar o ponto de descarga…

– Compadre! Deu, senão o soja cai fora!

Espera aí! não tem ninguém no trator, e o Trator continua a se mover lentamente para frente.

– Pára compadre!

Nisso o Marcelino, que estava do outro lado da colheitadeira ouvindo aquela zoeira toda, ouviu a ordem e desativou a alavanca do carregamento. Os grãos pararam de fluir mas o trator não. Já começava a ganhar velocidade rumo ao potreiro e ao chiqueiro de porcos.

– Pára! Pára!

O trator não ouviu e seguiu seu caminho, os porcos que a esta altura já estavam pedindo comida vêem o trator se aproximar com uma carga de soja. O trator desobediente não ouve os gritos de – Páaaaare!  do tratorista e segue passando como um trator sobre o chiqueiro.

– Blam! Nhéééé! Crac! Tóiinn… – disseram o chiqueiro e o trator quando se encontraram.

– Quí, quíííí – gritaram os porcos correndo em direção ao banhado.

Vacinando o gado, ao fundo o açude e o banhado

Vacinando o gado, ao fundo o açude e o banhado

O trator ainda teve tempo de dizer cof! cof! antes de parar de vez.

Neste meio tempo a Jandira foi abandonada lá no terreiro e começou uma corrida de obstáculos. Léo, Marcelino, Lino, a tia e as crianças saíram em disparada para socorrer os porcos esparramados. Primeiro tinha que tirar o trator de lá, depois refazer as pressas o chiqueiro, depois catar os porcos esparramados. Alguns ainda corriam pelo potreiro, outros, os que foram em direção ao banhado estavam imobilizados pelo barro. Mas o mesmo barro que segurou os porcos também atolava os caçadores de porcos, foi uma aventura e já estava escurecendo…

Mas o pior de tudo é que depois, os porcos gritavam desesperados cada vez que ouviam o ruido do trator…

Um baile e tanto

Creio que esta foi a última foto tirada do casal. em julho de 1976.

Creio que esta foi a última foto tirada do casal, em julho de 1976.

Foi numas férias de julho, mais precisamente em julho de 1976, saí de Viamão, onde estudava, e resolvi ir para Jaboticaba por um caminho não tradicional, dar uma passadinha em Nova Palma para visitar os tios e os avós. Foi nesta ocasião que tirei a famosa foto do nono e da nona na frente da casa velha. Cheguei à Nova Palma na quarta-feira e comecei a visitar os tios tendo como base a casa do nono. Fiz uma série de caminhadas até o Bom Retiro e de volta, fui até a tia Eulália andei bastante pra lá e pra cá, com o Tarcísio e o Inácio e planejamos ir a um baile na noite de sábado com os guris do tio Pio e a Cecília, para isso nos reuniríamos na casa do tio Pio, e depois do Baile, o Inácio e eu iriamos dormir na casa da tia Eulália.

Tudo correu maravilhosamente bem até a hora da janta, todos reunidos contando piadas e histórias, o tio Pio participou bastante. Logo depois “el ga deto que gavea fredo” e foi para a cama, nós também tínhamos frio mas estávamos em volta do fogão.

Resolvemos esperar um pouco para não chegar ao baile muito cedo. Foi um tempo de descontração digno de uma reunião de nossos pais, fico imaginando que não seria diferente se estivessem reunidos o Pio, o Lino e o Abel. Muitas histórias deste livro com certeza tiveram origem em reuniões como essa, ou como foi a do velório do tio Pio, que infelizmente não pude participar, mas prometo que vou colher depoimentos para escrever.
Sei que alguns me perguntarão:

– O que tem a ver uma história de um baile com a de um velório?

– Tem tudo a ver. Respondo eu, quando se trata de um grupo de Piovesan. Vocês já viram um Piovesan calado? Especialmente de for um descendente do Toni.

Voltemos ao assunto inicial, o tio e a tia já tinham ido dormir e o grupo do baile mais os pequenos do tio Pio, ficamos ao redor do fogão contando histórias, para dar um tempo antes de ir ao baile. Passadas algumas horas os menores não resistiram e se recolheram para a cama, já era umas 10 horas da noite e nós continuamos com as piadas e histórias. Pelas 11 horas alguém falou:

– Vamos sair?

Não lembro bem, mas acho que foi a Cecília que abriu a porta e olhou para fora e falou:

– Faz um frio danado.

Fechamos a porta e continuamos ao redor do fogo, mais fogo, mais histórias mais risadas bem ao estilo Piovesan. Ainda era cedo para ir ao baile, poderíamos dar mais um tempo. Passada mais uma hora, mais ou menos, lembramos de novo o propósito de nossa reunião: Ir ao baile. Levantamos e fomos, em massa, para a porta agora estava na hora. Fazia um luar lindo, o céu estava límpido e muito claro, uma noite fantástica para sair se não fosse um probleminha, olhamos para o chão e estava tudo muito claro, branco de geada. Fizemos rapidamente uma assembleia geral e decidimos que não era uma hora adequada para sair de perto do fogo. Voltamos para o calor do fogão a lenha que aquecia o ambiente. Como a assembleia é soberana decidimos continuar a contar histórias e assim foi até lá pelas duas da madrugada quando terminou a lenha: – E agora, o que fazer? Buscar lenha na rua nem pensar, catamos até o último graveto disponível, a lenha terminara, mas não os assuntos. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de queimar as cadeiras, só que teríamos que sentar no chão, definitivamente não era uma boa ideia. Mas numa família de marceneiros não faltaram novas ideias e a que saiu vencedora foi a de queimar os degraus das cadeiras, depois eles poderiam ser repostos. E assim foi a noite até o último degrau de cadeira e o fogo apagou em definitivo. Não tínhamos mais saída, ou ir ao baile ou ir dormir. Aí começou o drama para o Inácio e eu. Nós iriamos dormir lá na tia Eulália que ficava mais perto do que o Bom Retiro mesmo assim com aquele frio “de renguear cusco” não tivemos coragem para sair de casa. A família de acolhida deu um jeito: colocaram-nos a dormir nos pés da cama dos pequenos, que afinal não ocupavam toda a cama mesmo.
Assim terminamos aquela maravilhosa noite de baile.

Festa surpresa de aniversário

aniversário surpresa

Foto do meu casamento, no 51º aniversário de meu pai, 39 anos depois da festa aqui narrada.

Hoje meu pai faria 86 anos, hoje também celebro meus 35 anos de casamento, talvez meu casamento tenha sido a festa surpresa para ele quando fez 41 anos. Ele sempre gostou de festas surpresa e contava muitas histórias destas festas que sempre eram muito divertidas, e enfeitadas como ele gostava de contar. Dentre as muitas histórias de festas surpresa de aniversário, esta era uma das que o pai mais gostava, a festa surpresa de 41 anos do nono Toni, oportunamente contarei outras.

Foi no ano de 1940, o pai comemorava 12 anos e o nono Toni 41, segundo a tradição da comunidade foi planejada uma festa surpresa para o Toni. Já tinham sido roubadas as galinhas na semana anterior e esperava-se que o vinho fosse roubado no dia, ou pelo menos os aniversariantes contribuíssem com ele. Foi assim que a vizinhança começou os preparativos para a festa, assaram os frangos na casa do Afonso Vestena, outros fizeram as cucas, pães, grustolis e outras iguarias e combinaram chegar à festa com tudo pronto, a nona faria uma grande polenta e prepararia uma salada.

Para fazer esta combinação decidiram mandar recado pelo Pio. Os visitantes entregariam os ingredientes e comidas da festa para ele que estaria esperando na saída da pinguela e levaria para dentro discretamente pelos fundos. Os convidados chegariam na casa de mãos abanando como quem veio para uma rodada de cinquilho e fariam de conta que nem lembravam do aniversário e nenhum sabia que o outro também viria. Somente falariam do aniversário quando todos tivessem chegado. Neste meio tempo, enquanto os visitantes iam se acomodando na sala para o jogo, o Pio e a nona, que a esta altura já estaria fazendo a polenta, organizariam as comidas.

Só que aconteceu um problema, o recado que deveria ser dado para o Pio foi dado para o Lino, nenhum dos organizadores se deu conta que ele também era aniversariante. Ele, muito pucha saco do pai contou tudo para ele e os dois passaram a planejar a surpresa para a festa.

Primeiro tinham que atrasar a nona o quanto pudessem, para isso ficaram na lavoura até bastante tarde. Quando chegaram em casa o nono foi para a cozinha e ficou lá, sentado na caixa de lenha, o Lino foi para a saída do carreiro da pinguela para pegar as comidas e levar para casa neste caso esconder. Tudo pronto e ficaram a postos, a nona não sabia de nada e começou a fazer a janta normalmente, os outros ficaram pra cá e pra lá como sempre faziam antes da janta, o Lino sumiu, quanto perguntaram por ele o nono disse que tinha ido tomar banho no rio, ninguém questionou porque sabiam que ele ia mesmo quando era frio.
Quando começou escurecer começaram a chegar os convidados os Vestena, o Angelim Girardello, o Guerino Rossato os cunhados Zanon… Cada um que chegava, o Lino do meio do mato cochichava:

“dame qua cossa te gue aportá”(me dê o que você trouxe), e assim um por um foram chegando e dando para o Lino o que tinham trazido para a festa. Tudo foi guardado no galpãozinho onde o nono guardava o vinho e as graspas perto do rio.
Na cozinha o nono ia recebendo os convidados e fazendo questão que ficassem na cozinha, que estava mais quentinho, tomando chimarrão, e “zô mato” (dá-lhe chimarrão). Chegou a comentar que estava esperando eles para depois da janta para um carteado. Passava algum tempo e chegava mais um, e mais um, e a nona começou a ficar preocupada porque não estava preparada para dar janta para toda aquela gente. Quando já tinham chegado uns sete ou oito eles começaram a insistir que era melhor irem para a sala, pois lá tinha o banco, e a mesa maior. Olhavam para a nona e para o Pio e nenhum dos dois parecia saber de nada, ninguém falava nada e tentavam se comunicar por gestos. O nono fazia de conta que não sabia de nada e finalmente concordou em ir para a sala para deixar a nona fazer a janta mais sossegada. Foram para a sala, a esta altura a situação já começava ficar tensa, a piazada já estava dentro de casa e ninguém percebeu que o Lino chegara mais tarde. Foi aí que o nono pediu para ele buscar vinho para a turma, ele pegou um bule e lá se foi, como estava demorando o nono saiu para ver o que tinha acontecido, na verdade isso estava combinado, era para saber como estavam as coisas e se ele tinha feito tudo direitinho.
Neste meio tempo a turma foi para a cozinha pra saber se tava tudo pronto e descobriram que não tinha nada, a não ser a grande polenta que a nona fez. O nono voltou falando alto com o Lino para que eles tivessem tempo para voltar para a sala. Foi aí que ele resolveu convidar todos para jantar: polenta, radicci e vinho, e “qualque toquetto de salado” (algum pedaço de salame), era tudo o que tinha. O Toni estava muito a vontade enquanto a nona estava envergonhada com a situação e mais ainda os convidados, que não sabiam o que tinha acontecido.
Quando a mesa estava servida e todos ao redor com cara de decepção e não entendendo o que estava acontecendo, ele disse que ia buscar mais vinho e saiu. Algum tempo depois voltaram ele e o aniversariante com as galinhas assadas, cucas, pães, grustolis e outros quitutes que os visitantes trouxeram. Aí eles anunciaram que era uma festa surpresa para ele e o Lino que estavam de aniversário.
Parece que os dois tinham um grau de cumplicidade bem grande principalmente quando se tratava de fazer alguma arte. O pai contava que se divertiram bastante naquela noite e ficaram até a madrugada festejando e cantando.

Algumas outras histórias de festas de aniversário ainda serão contadas…

“Tio Lino”

Finalmente a história que explica o apelido.

Como era de costume cada mês ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. Quase sempre ia toda a família e muitas vezes a turma do tio Luís e da tia Irene ia junto, eles ficavam no Vô deles, o Bortolo Schiavinatto, e nos seguíamos um pouco adiante. No final do domingo a gente voltava cansado, mas eufórico. O meio de transporte mais usado era a carroça do vovô Bortolo com os cavalos brancos. Como na subida os cavalos não tinham força para puxar toda aquela carga, em geral, a Benildes, a Zélia, o Selito e o Dimas mais o Leo e eu, desembarcávamos e subíamos a pé, depois a gente embarcava e continuava a viagem. Numa destas viagens fomos somente eu e o Leo com o tio Luís e família, a mãe estava com a Luiza pequena e como era costume ficava em casa esperando a visita das amigas, vizinhas, primas e comadres. O pai também ficou em casa para ajudar e atender as visitas.
Logo depois do almoço começaram a chegar as visitas, as irmãs, cunhadas e primas que vinham conhecer o nenê, a Luiza, e fazer a visita de praxe à mãe. As crianças vieram de carona, nem tanto pra ver o nenê quanto para andar de “carreto”, aquela maravilha que transformava a estrada numa pista de automobilismo e de aventura, a montanha russa daquele tempo. A estrada de terra vermelha, bem patrolada ficava uma verdadeira pista de corrida, pois o trafego de carroças quase que vitrificava os trilhos deixando-os muito duros e lisos, isto diminuía muito o atrito melhorando o desempenho do carro, inda bem que ele tinha freio.
Não demorou muito que a turma percebeu que o carro não tinha motorista, os dois titulares tinham ido viajar. Conversa vai conversa vem e nenhum dos visitantes se animou a dirigir o caminhãozinho, apesar do tio Lino, ter tentado formar algum motorista, empurrando o carro pelos gramados. Com a insistência cada vez maior da turminha para andar na estrada, o dono da casa cedeu aos apelos, prometendo uma corrida lomba abaixo com a gurizada na carroceria. Um carro de lomba comum não chegava a ganhar velocidade na dita pista, mas o “carreto” com rolamentos e revestimento de borracha nas rodas se comportava quase como uma bicicleta.
Aqui vale um parêntesis: As bicicletas de pau eram muito populares na região exatamente por isso, tendo um centro de gravidade mais alto, conseguiam ganhar velocidade em declives menos acentuados, muito comuns na região. Lá no tio Achiles nem pensar em bicicletas, pois as descidas chegavam a quase 45 graus, seria suicídio andar de bicicleta, lá o ideal era o carro de lomba, feitos com umas bolachas de uma tora como rodas, uma tábua que era ao mesmo tempo chassi, acento e apoio, dois sarrafos, um fixo como eixo traseiro e outro móvel como eixo dianteiro que se guiava com os pés. O caminhãozinho tinha as vantagens dos dois, a estabilidade de quatro rodas do carro de lomba e a velocidade da bicicleta, com umas vantagens adicionais como banco para o motorista, direção imitando um caminhão de verdade e o rodar macio dado pelo revestimento de borracha das rodas.
– Tio Lino! Desce com a gente no carro de lá do Luiz Moreira. – Gritava a gurizada, e foi tanta insistência que o tio cedeu.
Empurraram o carro até o topo da lomba, subiu toda a gurizada no carro com o tio na direção e despencaram lomba abaixo, tudo foi maravilhoso, só que o motorista não desceu a lomba toda, no final da primeira parte tomou o caminho de casa e parou no gramado. Desceram o trecho mais uma ou duas vezes, mas a gurizada queria mais ação, mais velocidade. Finalmente acabaram convencendo o tio a descer toda a lomba como de costume, até o chatinho do tio Luís. Mais uma vez lomba acima, criançada toda na carroceria e o tio espremido na cabine, eu disse espremido porque a cabine foi projetada para um guri e não para um adulto, apesar de caber um adulto dentro os comandos não estavam projetados para tal, não tinha regulagem de banco. Um adulto poderia sentar-se razoavelmente confortável e dirigir, mas não encolher a perna suficientemente para pisar no freio, por exemplo.
Pois bem! Eu estava falando que a turminha convenceu o motorista a fazer o trajeto completo e lá vinham eles… Passada a primeira curva acentuou-se a descida, bem carregado o carro ganhou bastante velocidade, e a plateia adrenalina. A euforia ia contagiando a gurizada enquanto a velocidade começava a preocupar o motorista que tentou dar uma beliscadinha no freio, mas não conseguiu encolher a perna suficientemente, a gritaria da sobrinhada aumentava, e o pavor do motorista também, se aproximava a segunda curva e depois a descida se acentuava mais ainda, depois vinha o chatinho onde o carro perderia velocidade e pararia, este era o comportamento esperado pela piazada acostumados com o trajeto. No entanto, não era esta a experiência do motorista. (para quem não leu, leia o Episódio 2 da bicicleta do Padre João). O caminhãozinho tinha rolamentos, exatamente como a bicicleta, a experiência de descer sem freio este trajeto ele tinha feito alguns anos antes, e o chatinho não tinha sido suficiente para perder velocidade. Bateu o pavor, ele nem pensou na possibilidade de frear com a mão, mantendo apenas uma no volante. Precisava achar uma saída urgentemente, o último trecho da descida estava quase no fim, o bólido atingindo a velocidade máxima, a criançada fazendo a maior algazarra, a estrada passando numa velocidade assustadora. Chegou o trecho plano aliviou um pouco a tensão, mas não diminuiu a velocidade…
– Raspar no barranco da estrada, esta seria a solução para parar e foi esta a decisão do tio. Do lado direito tinha um camaleão de terra solta, deixado pela patrola que passara há pouco. O tio Lino foi encostando o carro no barranco.
– Surpresa! O carro saltou o barranco como se nada fosse e se enfiou no matinho de branquilhos que tinha logo abaixo. A turma vibrou nunca tinham experimentado a sensação do solavanco de pular o barranco.
O matinho de branquilhos não era muito grande, consistia numa tira de uns vinte metros de largura por uns cinquenta de comprimento margeando a estrada. Os branquilhos não eram muito grandes tinham uns dois metros de altura em média, eram arvoretas bem galharudas e estavam quase sem folhas, era fim de outono. Outra qualidade deles é que todos os galhos terminam em espinhos, só ratos, e o tio Lino de “carreto”, se arriscam a entrar. A carroceria ficou quase fora do matinho, a turminha pulou fora para a estrada pelo caminho que o carro abriu, só o tio Lino não tinha como sair, era espinho prá todo o lado.
O motorista não podia perder a calma numa hora daquelas, tentou orientar a gurizada para puxar o carro para fora do mato, mas todos juntos não conseguiam nem mexer o caminhãozinho. Mandar algum deles pedir socorro era arriscado, não se podia deixar as crianças andando sozinhas por aí, na casa que ficava uns 300 metros de distância só tinha mulheres que com certeza não teriam força para puxar e provavelmente nenhuma sabia cangar os bois para fazer o serviço.
Mas era domingo de tarde, dia que o Lalo Franco, que morava perto do rio Fortaleza, costumava ir para a Vila Trentin tomar um trago e jogar um carteado. No domingo em questão não foi diferente, todo garboso vinha o “Seu Lalo” montando o tostado marchador quando deparou com aquele bando de crianças na estrada. Parou o cavalo e tentou ouvir o que as crianças queriam, era uma gritaria onde ninguém se entendia, ele só entendia tio Lino, tio Lino… até que pediu calma, e que um deles explicasse o problema.
– Ajuda para tirar o “Tio Lino” do mato. – explicou o maiorzinho deles. Foi então que o seu Lalo olhou para onde eles apontavam e viu o caminhãozinho. Com seu jeito fanfarão achou que era uma brincadeira das crianças. Não podia acreditar que o “Seu Lino”, veterinário conhecido na região, estivesse brincando de carro de lomba. A dúvida se desfez quando o próprio Lino, enfiou a cabeça na janelinha traseira da cabine e pediu ajuda. Seu Lalo amarrou o laço no eixo traseiro do carro e na chincha do cavalo e arrastou o carro de volta para a estrada.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

O “Seu Lino” e as crianças agradeceram efusivamente e Seu Lalo seguiu seu caminho. A turma brincou mais um pouco, mas não desceram mais a lomba até o fim…
No final da tarde, depois que as comadres, cunhadas e vizinhas foram embora o Seu Lino saiu, foi buscar os guris na casa do cunhado, e como ficava no caminho deu uma passadinha no bolicho. Lá estava o Lalo numa mesa de carteado, ele tinha contado a história pra todo mundo, fez questão de levantar e pagar um trago para brindar a saúde do –“Tio Lino” – com ele fez questão de falar. Foi a partir deste episódio que o tratamento mudou de status e ele passou a ser conhecido como “Tio Lino”.
Para a criançada, aquele adulto que está presente toda hora, que participa das brincadeiras, que trata todos com carinho. Para os adultos, o gurizão que vive a vida que brinca e se diverte sem preconceitos…
Obrigado “Seu Lalo” pelo apelido! Valeu!
Agora vocês sabem porque até eu me refiro a ele muitas vezes como “Tio Lino”.

O “carreto”.

Pouco tempo depois da mudança aconteceu um fato que mudou nossas vidas, foi a chegada de um carro de lomba especial, que se tornou protagonista de muitas histórias. Mais uma vez um marceneiro influindo na nossa vida.
Muitas vezes a história exige que se faça alguma incursão pelos arredores, quando algum elemento externo começa a fazer parte do núcleo principal. Neste momento o elemento externo é o Antoninho Fikes Vaz, aprendiz de marceneiro na oficina do vovô Bortolo, filho de criação da tia Santina, irmã da Vó Maria. Pois não é que o Antoninho era bem criativo! Aprendendo, aprendendo, resolveu praticar o aprendido construindo um carro de lomba especial, em forma de caminhão, com direção ergonômica que movimentava apenas as pontas do eixo dianteiro, totalmente diferente dos carros de lomba tradicionais. Com rolamentos nas rodas, molejo feito de talas de guajuvira, freio acionado pelo pé, Cabine e carroceria imitando um Mercedes cara chata, lançado naquele ano de 1958. Era uma verdadeira joia de marcenaria, cabia dois na cabine e uns 15 na carroceria. Só que o aprendiz teve gastos e precisava praticar o desapego vendendo a sua criação. Como ninguém na vila tinha uma quantia razoável de dinheiro para desembolsar na compra de um carro de lomba, o Antoninho resolveu fazer uma rifa. Foi assim que naquele domingo de manhã o pai ao voltar da missa encontrou o marceneiro no bolicho do Vitelio Casarin, vendendo os três últimos números da rifa para fazer o sorteio.

Estacionado na frente do rancho o "carreto", infelizmente não tenho foto melhor dele, esta foi recortada da foto da família, ampliada e retocada com Photoshop.

Estacionado na frente do rancho o “carreto”, infelizmente não tenho foto melhor dele, esta foi recortada da foto da família, ampliada e retocada com Photoshop.

Naquele dia o pai deixou de beber o seu traguinho e gastou três cruzeiros com os números da rifa, um para cada filho, nunca fiquei sabendo qual o número sorteado, mas dizem que foi o meu. Assim, um pouco mais tarde do que de costume o pai chegou empurrando o “carreto”, como ficou conhecido. Vinha empurrando pela cabine e guiando com o braço enfiado pela janela da porta que não tinha vidro. Imediatamente começaram as aulas de direção e em poucos dias estávamos autorizados a dirigir o caminhãozinho na estrada. Não demorou muito e começou a peregrinação da criançada lá pra casa nos domingos, pra andar de carro lomba abaixo.
O trajeto tradicional compreendia um trecho de mais ou menos 500 metros, da casa do seu Luiz Moreira até o chatinho do tio Luís. Tinha uns 250 metros de declive suave, depois uma curva a esquerda e acentuava o declive, mais uma curva a esquerda e acentuava mais ainda, finalmente tinha uns 100 metros de plano e depois uma subidinha. No início do trajeto o motorista assumia seu posto com um auxiliar a gurizada dava o impulso inicial e pulava pra cima da carroceria, e começava a aventura. Nos primeiros cem metros a velocidade não tinha nada de emocionante, um guri correndo acompanhava, mas quando chegava próximo da primeira curva já estava a uns 15 Km/h e aí começava a aumentar. No final do terceiro trecho de declive creio que atingia uns 30 Km/h ou mais e os passageiros da carroceria faziam uma gritaria incrível, aí vinha o trecho plano onde a velocidade diminuía e parava na subidinha no fim do trecho. Aí se fazia a volta, um dos menorzinhos pegava a direção e a turma empurrava o caminhão lomba acima até a casa do seu Luiz Moreira e tudo recomeçava.
Mais tarde nos aventuramos a andar em outras lombas e até houve alguns acidentes bem interessantes. Mas o “carreto” foi o responsável pelo apelido do “Tio Lino” que vou contar qualquer hora… O trajeto aqui mencionado faz parte do trajeto de uma outra história, a segunda parte das aventuras da bicicleta do Padre João…

Festa no Varejão (terceiro episódio da bicicleta do padre João)

(A primeira parte desta história ouvi de minha mãe, Bazilides Carolina Piovesan, a segunda do tio Ângelo Chierentin).
“Naquele tempo”, como começava o sermão do padre Francisco Goetler, muitas vezes a única missa dominical que os católicos podiam assistir no ano era na festa do padroeiro. Que segundo meu pai podia acontecer seis meses antes ou seis meses depois da data, mas tudo bem, quando o padre podia vir aí tinha a festa. O padre vinha de aranha¹ de Palmeira das Missões e se hospedava na casa de meu avô Bortolo, que o acompanhava para responder a missa em latim. De lá do vô eles iam passando pelas capelas, durante a semana e rezando missas, que apesar de eventos extraordinários, eram missas comuns. A capela que estivesse próxima da festa do padroeiro ficava com a missa do domingo, aí como todas as capelas próximas estavam sabendo todos se reuniam lá para a festa. Daí uns três ou quatro meses o padre voltava e fazia outro tour de confissões, missas, batizados e casamentos. Esta era a parte da tradição religiosa.
Outra parte da tradição, na área da intendência da Linha do Coqueiro, do inspetor concessionado, Jardelino de Oliveira, era a fartura de churrasco e bebida nas festas, que em geral acabava com uma briga homérica no final do dia. Há esta hora o padre já tinha ido embora e o inspetor nem sempre conseguia acalmar os ânimos o que em geral acabava em algum ferido ou morto. Motivo para a próxima briga na próxima festa. Isto não era diferente no Varejão, distante uns 15 quilômetros da Vila Trentin.
Provavelmente os brigões confessavam seus desejos de vingança para o padre antes da missa o que começou torná-lo receoso de festas na região. Foi aí que o santo homem teve uma ideia brilhante – os gringos recém instalados na região, Vila Trentin e Jaboticaba, gozavam de fama de cidadãos respeitáveis, eles poderiam impor respeito nas festas, e quem sabe ajudar o inspetor a manter a ordem.
Era lá pelo mês de junho e a visita do padre coincidia com o padroeiro do varejão, São João, ia ter festa. O padre convidou para fazerem parte da comitiva, os quatro patriarcas, Bortolo e Antônio Trentin e Aurélio e Atílio Zanon, que apesar de gostarem de um bom vinho, não iriam beber e todos iriam munidos de calabrotes² que ficariam guardados na aranha para serem usados se fosse necessário. Estava quase tudo pensado, menos o transporte, a princípio iriam os cinco na aranha do padre e na do tio Antônio. O padre chegou na terça-feira, rezou missa em Jaboticaba, combinou com os tios Atílio e Aurélio e veio pra vila Trentin, onde ficava religiosamente hospedado com o Bortolo, meu avô, de onde sairia para rezar missas nas capelas da Santa Rita, São Luiz, Santa Maria Goretti, Três Mártires (na época rezava na escola Roque Gonzales, a velha, depois o Brizola mandou construir uma outra. Um dia destes conto a história das escolas. Eu estudei o primeiro e segundo anos na velha, depois na Brizoleta). Desnecessário é dizer que o padre Francisco viu a bicicleta do Lino por lá e ficou fascinado, ele já tinha usado uma delas na Alemanha antes de vir para o Brasil.
Quando no sábado o tio Antônio falou que não poderia ir não tinha como comunicar aos outros que não teria transporte. Chegado o domingo os Zanon iriam a pé até a encruzilhada da Linha São Luiz onde teriam o transporte por aranha. Como só tinha uma aranha o padre só poderia levar os Zanon, mas nenhum deles sabia responder a missa em latim, o Bortolo não poderia faltar, foi aí que o padre teve mais uma ideia brilhante: – ele iria de bicicleta, com a bicicleta do Lino, e os outros três de aranha, estava resolvido o problema.

Tio Angelo Chierentin, grande artífice em madeira, foi ele que fez a minha bicicleta de pau. Na foto aparecem ele, a Catia e a tia Rosa tendo ao fundo uma roda d'água construída por ele.

Tio Angelo Chierentin, grande artífice em madeira, foi ele que fez a minha bicicleta de pau. Na foto aparecem ele, a Catia e a tia Rosa tendo ao fundo uma roda d’água construída por ele.

(aqui começa a narrativa do tio Ângelo) Paralelo a isso a juventude também estava planejando ir à festa e o meio de transporte escolhido foi “bicicleta de pau” para acompanhar o padre. Os da aranha pegaram a estrada e pouco tempo depois sumiram na frente, o grupo Ângelo Chierentin, Argemiro, Luis, Érico e Santo Trentin e Lino Piovesan, ora passavam ora eram ultrapassados pelo padre. Na descida como gostavam da adrenalina, desciam quase sem freio ganhando grande velocidade e ultrapassando o religioso na maior gritaria, mas quando vinha a subida eles perdiam e eram ultrapassados, na próxima ladeira vinha a revanche.
Depois de passarem pela linha São Luís tinha umas descidas bem acentuadas o que possibilitava, para os mais arrojados, atingir velocidades de um cavalo a galope, pelos meus cálculos uns 40 Km/h. Tinha uma ladeira, um pouco antes do passo do arroio Jaboticaba, que atravessava quase duas colônias, (nos meus cálculos pelo Google, aproximadamente 600 metros) tinha uma curva mediana à direita e terminava no passo do rio, lugar espraiado que permitia atravessar pulando sobre as pedras ou por dentro d’água. Pelo lado de dentro da curva tinha um barranco bastante alto e um canavial de um casal de idosos que morava num ranchinho ao lado. Depois de empurrar as bicicletas por aproximadamente cem metros da subida depois do seu Elias Manfio, a turma embarcou nas bicicletas e despencou ladeira abaixo, o padre, precavido, foi segurando no freio para não pegar muita velocidade, pois conhecia o fim da ladeira onde todos teriam que parar para atravessar o passo com as bicicletas nas costas, a comitiva de aventureiros confiava na possibilidade de frear antes do rio. Com o aumento da velocidade ainda antes da curva, e da adrenalina, a turma começou a maior gritaria, que chamou a atenção da senhora idosa. – Meu Deus! – Gritou ela – Uma carroça em disparada vai ser um desastre na chegada do passo. Imediatamente correu para o canavial que ficava sobre o barranco por onde a “carroça em disparada” deveria passar e tratou de fazer alguma coisa para parar os cavalos. Cortou uma grande braçada de cana e começou a jogar na estrada no exato momento que a troupe entrava na curva, não houve tempo para frear a idosa acabava de fazer um “strike”, o único a cair com elegância foi o religioso que vinha mais de vagar e um pouco atrás.
Inda bem que tinha o rio logo abaixo para lavar-se, se por na linha e prosseguir até a festa do Varejão.
Terei que pesquisar mais um pouco para narrar a aventura da festa, até qualquer dia.

1. Aranha – Espécie de charrete com apenas duas rodas, tracionada por um cavalo que podia transportar até três pessoas.

2. Calabrote – Relho de cabo fino fácil de carregar sob os pelegos. (RS)

A bicicleta do padre João (Episódio2)

De posse desta maravilha da tecnologia, o Lino começou a se aventurar cada vez mais longe, não chegou a fazer uma viagem como o primo, mas com certeza rodou muitos e muitos quilômetros com a bicicleta. Tornou-se quase rotina visitar os tios de Frederico Wesphalen, ficava pouco mais de 40 quilômetros. Visitar os amigos no Varejão ou no Mundo Novo ficou muito mais fácil, e é claro encomendar botas de trabalho, os famosos coturnos que ele sempre usava, lá na Guabiroba do sapateiro Zandoná.
Aqui é preciso fazer um parêntesis, a tal bicicleta tinha um sistema de freio muito usado na época o “torpedo” que só é possível de usar em bicicleta sem marchas e funciona no próprio pedal girando-o para trás, é muito prático e seguro por frear a roda traseira.
Numa destas viagens até o Zandoná todo correu bem até a chegada à sapataria, feita a encomenda precisava pegar o caminho de volta, mas não foi muito longe e aconteceu um problema mecânico, a correia (corrente) rebentou e com ela a possibilidade de subir lomba também. Não podemos nos esquecer que isto não era problema, pois o Lino estava acostumado às bicicletas de pau que não tinham pedal, assim a viagem de volta seria tranquila. Bicicleta com pneus, rolamentos e bem leve ia que era uma beleza, pegava velocidade na descida e subia quase toda a ladeira do outro lado com a embalada. Tudo ia muito bem até a lombinha antes do seu Luiz Moreira, como era um pouco mais forte a bicicleta não subiu, mas isto não era problema, faltava pouco mais de um quilômetro pra chegar.

Sobre uma imagem do Google, tracei o que era a estrada naqueles tempos.  A descida do seu Luiz Moreira té o chatinho do tio Luis foi muito usada alguns anos mais tarde para descermos de carro de lomba.

Sobre uma imagem do Google, tracei o que era a estrada naqueles tempos. A descida do seu Luiz Moreira té o chatinho do tio Luis foi muito usada alguns anos mais tarde para descermos de carro de lomba.

Passando o seu Luiz a estrada começava numa ladeira leve de uns trezentos metros, depois uma curva leve a esquerda e ficava mais forte uns cem metros e finalmente tinha uns cinquenta metros bem mais acentuada, aí vinha o “chatinho do tio Luís” uns duzentos metros de estrada plana, uma subidinha de uns cinquenta metros, curva a direita e o “direitão do tio Luís”, mais uns quatrocentos metros levemente em declive, depois a “subidinha do seu Artur”, aclive acentuado de uns quarenta metros, depois uma descida acentuada com curva acentuada à esquerda no final, mais uma subidinha e estava em casa.
Quem estava acostumado a descer este trajeto de bicicleta de pau, sabia que só precisaria empurrar a bicicleta talvez uns duzentos metros, assim o Lino, assim que passou a casa do seu Luiz Moreira, deu um impulso e montou a magrela que começou a ganhar velocidade lomba abaixo, e foi ganhando velocidade, e ganhando velocidade, chegou ao fim da ladeira, venceu todo o chatinho, a subidinha do tio Luis chegou no direitão e nem sinal de diminuir a velocidade, uma verdadeira maravilha, e que adrenalina, a velocidade começou a aumentar de novo no direitão e foi aí que o piloto se deu conta que não podia pedalar… e nem frear…
– Meu Deus! – depois do direitão tinha uma lombinha de nada, depois uma descida forte e uma curva, não ia dar pra fazer a curva naquela velocidade, mais alguns segundos e tinha que tomar uma decisão, felizmente a bicicleta perdeu um pouco a velocidade na subida e o piloto se jogou no chão…
Meio esfolado, mas vivo, chegou  em casa, depois de uns dez minutos empurrando a bicicleta, os dois foram parara na oficina na segunda-feira.
Este episódio é fundamental para entender porque ele ganhou o apelido carinhoso de “Tio Lino.” Até qualquer hora.