Mamma mia

Mamma mia!

Eu sempre me senti bastante Trentin, apesar de ter o sobrenome Piovesan, por isso comecei a refletir sobre a riqueza cultural da família para tentar descobrir como foi se dando, no decorrer das gerações este crescimento. Afinal de contas como é que as famílias Piovesan vão diversificando e enriquecendo a cultura familiar? Tentando achar uma hipótese explicativa para o fenômeno conclui que estava dentro de casa. As tias Piovesan que me perdoem, eu as amo muito, mas  vou falar um pouco daquelas que foram escolhidas para serem as mães dos Piovesan.

Quando a nona Eliza foi escolhida, pelo que sei era porque a moça era Filha de Maria e certamente bastante religiosa, portava valores familiares, participava das atividades da sociedade, liderava o grupo pois carregava o estandarte, capaz de se ajoelhar e rezar e além de tudo era bonita. Tentarei analisar por partes, que valores o Toni viu naquela moça que eram importantes para a família que ele queria constituir?  Na época as moças não tinham muitas opções de socialização ainda não chegara o ano de 1922, as opções para elas era ficar em casa, ir à missa no domingo e ficar em casa o resto do dia, eventualmente acompanhar a mãe a uma visita nas vizinhanças e aprender as artes das prendas domésticas, bordado, crochê, tricô e cuidar da casa.  Participar de um movimento organizado como as Filhas de Maria era uma forma de integrar-se a sociedade feminina, da mesma faixa etária para troca de experiências, que experiências? O que almejavam estas senhoritas? Formar uma família? Repetir a sina de suas mães? Me dá vontade de chorar quando penso nisso…

O que tem de diferente uma moça que carrega o estandarte? Ela pode estar reproduzindo o padrão, mas acho que não, ela carrega o estandarte porque lidera, ela lidera porque quer algo diferente, ela quer algo diferente porque quer mudar. Não importa o que e como, mas é preciso mudar, evoluir, dar o melhor de si para agregar valores. Que valores? Os valores de uma moça que sabe se ajoelhar e reconhecer sua pequenez diante do criador, que carrega o estandarte da liderança e não esquece a humildade. Que resplandece a beleza interior como seu vestido branco. Que traz a determinação dos Zanon no sangue. Que sabe o que quer, que é positiva, que sabe se impor na hora certa, que carrega consigo os valores sociais, religiosos e familiares de seu tempo, mas que sobretudo quer ir além…

Porque isto encantou o Toni? Tão diferente, extrovertido, um tanto inconsequente, trabalhador habilidoso e criativo, mas segundo alguns um ‘bom vivant’, religioso também, mas acima de tudo comprometido com a parte mais festiva da religiosidade da época. Ao escolher uma mãe para seus filhos ele queria não alguém igual a si, mas aquela moça que acrescentaria valores e qualidades à família. “Mamma mia” matei a charada. A mãe é aquela que por ser completa e diferente acrescenta qualidades, valores, habilidades e criatividade a nova família. É na soma que se constitui a evolução.

Assim cada Piovesan soube ao longo do tempo acrescentar qualidades à família, vejamos pela ordem dos acréscimos. A tia Pierina, minha madrinha, creio que foi escolhida pela qualidade dos Rossato que é a persistência ao mesmo tempo que ela representa a mulher forte também trazia a bondade e uma forma de conduzir a família mais leve que o tio, ele era o mais sério da família, segundo minha avaliação. E segundo as crianças muito severo em seus castigos. Já a segunda foi a tia Bazilides, minha mãe. Desde o primeiro encontro foram seis anos cultivando um namoro a distância, no tempo que a unica forma de comunicação eram as cartas. Acho que um dos motivos da escolha foi esta intelectualidade que acompanhava as famílias Trentin, uma curiosidade que completava admiravelmente o lado prático do pai. Mas outras qualidades complementares constituíram a família, ele falava com os animais, ela com as plantas, ela não sabia dizer não, ela impunha os limites, ele gostava de cantar e fazer amigos, ela também. A tia Clementina a inocência em pessoa, jamais conheci alguém mais transparente e dedicada, com certeza o complemento perfeito para o tio Pio, até acho que adotei ela como mãe depois do falecimento da minha. E finalmente a tia Alzira, bem! Esta é a eterna tia, aquela que sabe ser forte quando é necessário, ser mãe, ser amiga, ser confidente, enfim, olhando como sobrinho ela sempre foi a casa enquanto o tio era o caminho.

Assim, depois desta breve análise podemos compreender um pouco como a família Piovesan foi enriquecendo a própria cultura ao buscar nas mães as qualidades que desejavam ou que complementavam a cultura familiar.

No verão de 1991, minha família, Catia, Lucas, Licéia e Luciana com a mãe e o pai tratando as ovelhas.

 

  • Como é dia das mães me permitam um aparte, vou falar da minha. Ela sempre nos estimulou a leitura, talvez por isso eu hoje seja jornalista, trazia de família o gosto pelas letras, isto pode ser visto nas cartas ao namorado, que tenho e guardo com carinho, onde pode-se ler nas entrelinhas a paciência, a fidelidade, o amor com que ela esperou pelo dia de seu casamento. Sonhou e planejou por seis anos a sua futura família. Ela trouxe a reflexão, a filosofia, o conhecimento teórico, o planejamento futuro enquanto o pai trouxe a prática, o dia a dia, a experiência. Por outro lado muitas coisas eles tinham em comum, amavam a música, o canto, tinham um milhão de amigos, estavam sempre prontos a ajudar e não se conformavam com as injustiças sociais o que fez deles revolucionários, muitas vezes se colocaram contra a “ordem” estabelecida. Até acho que foi ela que despertou em mim o espírito crítico…

A enchente de 1984

História baseada nas memórias da Silvia

Maio em geral foi o mês dos grandes eventos da família, por diversas razões os grandes milagres também aconteceram neste mês. Exatamente no ano do centenário da imigração italiana na quarta colônia, quando a euforia pela saga dos italianos na região atingia seu auge o tempo se desenrolava com características peculiares. O ano prometia ser chuvoso, e maio em especial começou mostrando um comportamento peculiar. Muita coisa acontecia nos dias de chuva, a chuva era, por assim dizer, uma benção, irriga as plantações, abastece as fontes, e autoriza um dia de folga ou pescaria conforme já vimos ou veremos em eventos da família. Mas nosso assunto, neste momento, é a chuva de maio de 1984, o ano do centenário da imigração.
A chuva já cai por mais de uma semana sobre as terras do Bom Retiro, de Nova Palma, da região, do estado e do sul do país. Para os que vivem nas cidades, mesmo em Nova Palma, isso não muda muito a rotina de trabalho, a semana segue seu curso preestabelecido, no entanto para os agricultores significa uma quebra radical da rotina. No primeiro dia deixa chover, aproveita-se para fazer um dia de descanso para os que trabalham na lavoura, é claro, os guris Abel, Cláudio, Inácio e Bernardo. As meninas, Sílvia, Alice, Verônica e Letícia aproveitam para fazer uma grande faxina e organização da casa, com a ajuda da mãe e da nona. O segundo dia, se der uma estiada é propício para uma pescaria, vai pescar quem estiver de folga, alguem tem que ficar em casa pra fazer a comida. No terceiro dia… Bem! A partir do terceiro dia não tem mais nada pra fazer, o tempo começa passar muito devagar, é preciso encontrar alguma coisa pra fazer tipo, jogar trissete entre os homens e escutar a Verônica lendo as histórias do Naneto Pipeta. Quarto… quinto…. sexto… o tempo passa cada vez mais devagar… A chuva não passa, a medida que o tempo passa, as águas atingem o máximo que a terra pode absorver e começam a formar a enxurrada, atingem os rios e arroios e se precipitam em direção ao oceano, um dos caminhos é o Soturno.
O Soturno contorna quase toda a terra da família, começa a subir e, se continuar, vai deixar a família Piovesan ilhada. Já é o oitavo dia consecutivo de chuva todo o sul do país já apresenta sinais de enchente, milhares de desabrigados e desalojados desfilam nas imagens dos telejornais, as defesas civis dos municípios trabalham sem cessar, enquanto isso na casa de nossos personagens a rotina é outra. As meninas, Sílvia Alice e Letícia, continuam ouvindo as histórias do Naneto Pipeta, os guris e o pai jogam trissete, uma partida depois da outra.
O mundo lá fora, o da TV não existe para a família, não tem televisão, logo o mundo la fora é a chuva, o barulho da chuva e quando cai a noite… O Soturno “scumicia a rudare”, – diz a nona – (começa a roncar) o nível da água sobe assustadoramente. O chiqueiro é inundado e os porcos devem ser soltos para não morrerem afogados. As galinhas e frangos são levados para a casa velha. Pela experiência de anos anteriores a tensão começa a aumentar, o perigo de ficarem ilhados já é uma realidade. A água começa a subir pela estrada a barragem não dá mais passagem.
O então patriarca Abel, com toda sua calma e previsibilidade ordena as medidas para a noite de vigília. Engatar o reboque no trator e carregar os pertences básicos caso seja necessário deixar a casa e deixar o reboque em lugar estratégico. A família se abrigará na escola, sem saber estão fazendo como em todo o sul do país. Todos permanecerão acordados, os meninos jogando com ele e as meninas ouvindo a Verônica ler histórias. A mãe (Alzira) ao lado do fogão, pois faz muito frio, esfrega as mãos de nervosa e a mãe, (nona Isa) no quarto reza um terço após o outro, quando cansa de ficar ajoelhada no quarto dá uma volta nervosa pela casa com a corona (terço) na mão. Todos os outros devem manter a calma como convém aos Piovesan.
Cai a noite e o ruído da água do Soturno parece gritar espantando as pessoas e animais para que se afastem em vista do perigo que se aproxima. Na casa o silêncio é quebrado pela voz monótona e cadenciada da leitura de Naneto Pipeta. Vez por outra uma árvore que desce rio abaixo vem quebrando galhos e fazendo sons diferenciados. Os animais silenciosos aguardam apreensivos o desenrolar dos fatos. A chuva mansa canta uma canção assustadora, cadenciada pelo troar dos canhões dos raios e iluminada pelos flashes dos relâmpagos intermitentes. O Soturno ronca contra as pedras e barrancas com um som grave,carregado, sombrio, taciturno, tristonho, infunde pavor, parece fazer honrarias ao próprio nome. Dentro de casa família aguarda apreensiva, a mãe de vez em quando coloca mais uma acha de lenha no fogão para manter o fogo e a casa aquecida, os guris jogam com o pai e a nona reza. Os porcos assustados perambulam pela propriedade não entendendo o porque desta liberdade, que ao mesmo tempo amplia seus domínios, mas afasta-os de sua casa, agora tomada pela água. As galinhas, e frangos, que ocupam a casa velha sentem a situação como uma honraria estranha, os ruídos da noite não são de nenhum predador, mas mesmo assim assustam. A chuva acalma, já se assemelha a uma cantiga de ninar, no entanto o troar dos trovões e o ronco do rio destoam.

– Vou ver o nível da água na estrada – disse o pai. E lá se foi ele seguido pelos guris e pelas meninas mais curiosas. A água corria depressa pelo leito do rio e formava ondas que subiam pela estrada, a cada onda avançava um pouco mais evidenciando que o nível subia, e isso assustava. O pai resolveu então tomar uma decisão, demarcar o limite para saírem de casa.

Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa história.

Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa história.

Questo sasso. – Esta pedra é o limite, se a água passar dela temos que sair de casa senão ficaremos ilhados. Os guris continuam jogando cartas e ao fim de cada partida um vai até a estrada ver o nível da água. A mãe continua perto do fogão esfregando as mãos, as meninas ouvem a leitura da Verônica, enquanto a nona continua no quarto a rezar. Já foi um terço, dois, um inteiro (rosário), mais um e a rotina continua. A mãe é intimada a ir descansar, os outros continuarão a vigília. Já é madrugada e de repente um estrondo sinistro e assustador seguido de um aumento do volume dos sons do rio.
Maria Vergine! – gritou a nona – o que foi isso?
Um ruído de árvores arrastadas se aproxima da casa, o rio começa a roncar aliviado como se uma barreira tivesse sido eliminada. E foi… a pinguela que retinha galhos de árvores e até árvores inteiras, fazia uma barreira que dificultava o curso da água, até que ela, demonstrando sua força, rompeu os cabos de aço e levou abaixo aquele estorvo. Secretamente já havia levado a barragem da estrada, e levava abaixo tudo o que poderia dificultar seu caminho. Foi a pinguela, mas está escuro, não dá pra ver os detalhes o observador da pedra limite com guarda chuva e lanterna observa a água chegando, centímetro após centímetro conquistados pela água a cada onda. A água chega na pedra, algumas ondas já ultrapassam, mas a pedra ainda não está coberta. Alguma onda cobre a pedra, a tensão aumenta, as cartas ficam de lado e os observadores se juntam ao redor da pedra, as palavras do pai ecoam nas mentes.
– Se a água passar da pedra temos que sair de casa.
Uma onda um pouco maior cobre a pedra por completo e recua, outra onda avança e recua, as ondas passam a determinar o ritmo da respiração da família. Os avanços e recuos começam a ficar assimétricos, a água começa a recuar lentamente, começa a se distanciar, já não atinge mais a pedra. Todos respiram aliviados, as orações da nona alcançaram mais um milagre, como tantos outros na família, agora poderiam se recolher para a cama. Já é madrugada está quase na hora do galo cantar, mas o grupo familiar exausto se recolhe para a cama…
O ruído da água ainda alta no rio, mas agora correndo tranquila e baixando lentamente embala o sono da família, que não dura muito. São despertados ainda de madrugada, lá pelas 10 da madrugada, pelos gritos e assobios do Tarcísio e do Horácio, enviados especiais do tio Pio para ver como estava a mãe, o irmão e a família. Os dois foram direto para a pinguela, que não estava mais lá.
– Meu Deus! O tio e a nona estão ilhados. – fala o Horácio.
– Bem, Bem… mas eles tem o nosso caíque que esta guardado no galponeto deles – completou o Tarcísio.
– Mas parece que não tem ninguém em casa. Acho que foram se abrigar na escola.
– Acho que não. O trator ainda tá com o reboque na frente da casa…
– Então vamos gritar pra ver se acordamos eles…
E foi o que fizeram. Não tardou muito a turma começou a acordar com o gritedo. Aí eles disseram do caíque, e souberam que todos estavam bem. O caíque foi largamente utilizado pela comunidade como meio de passagem do rio por algum tempo já que a barragem e a pinguela tinham ido agua abaixo.

Os figos sagrados (modificado)

Já no final dos anos 50 o Toni começou a apresentar um problema de visão, até foi ventilado que provavelmente se tratava de cegueira noturna. Provavelmente era apenas um quadro de avitaminose A que fazia com que ele tivesse dificuldade de enxergar na penumbra. Por esta razão comprou uma égua a Zaina para ir aos ensaios de canto do padre Afonso Correa. Apesar disso o Bernardo não concorda muito com esta afirmativa.
Pelo sim pelo não uma das teteias do nono eram as frutas que ele cultivava, o parreiral sempre era mantido impecável, as laranjeiras da frente da casa, definiam o limite do terreiro, as bergamoteiras se espalhavam por diversos lugares e a figueira… Bem a figueira mesmo dando frutos sem vitamina, e por consequência, inócuos para a questão da cegueira noturna, a figueira era cuidada com um zelo especial, por duas razões: as folhas quando colocadas no alambique para destilar a cachacinha davam um sabor especial e os figos, estes eram um manjar dos deuses, que ele cuidava para que amadurecessem no pé, pois assim ficavam mais doces. Só quem já comeu um figo colhido totalmente maduro sabe o que é degustar uma delícia, diga-se de passagem, mais uma dádiva sagrada deixada pelo criador aos mortais.
No entanto um grande problema para os adoradores de figos, eu também sou um deles, é que muitos passarinhos e até aves maiores também tem uma atração especial por esta fruta e por isso é preciso vigilância constante ou alguns truques para poder saborear figos maduros. No Bom Retiro, no ano de 1963, atrás da casa, a figueira do Toni não era exceção à regra, passarinhos tentavam degustar os figos antes do proprietário, e se já não bastasse isso o galo de terreiro descobriu o sabor da tão cobiçada fruta e começou também ele a se banquetear pousado nos galhos da figueira. O Toni já enfrentava a gula das galinhas que atacavam os cachos mais baixos da uva e agora tinha que enfrentar o galo que também queria dividir a produção da figueira.
Como método para desestimular os comensais indesejados ele desenvolveu a técnica de jogar pedras, juntava alguma pedrinha com a canhota e jogava de forma certeira. Na maioria das vezes, depois de uma ou duas pedradas a ave aprendia que aquele era território proibido, o mesmo aconteceu com o galo comedor de figos. Mesmo assim os figos continuavam a desaparecer antes de estarem maduros no ponto que ele esperava. Chegou a passar quase o dia todo a vigiar a dita árvore e não conseguiu descobrir como galo conseguia roubar-lhe os figos, a esta altura já estava a desconfiar que pudesse ser um galo astuto treinado pelo Lino para fazer sacanagem, mas o Lino já estava fora há mais de 10 anos, talvez outro estivesse treinando o galo, de qualquer forma não era de dia que os figos eram roubados. A menos que o galo se recolhesse ao anoitecer e depois voltasse para comê-los. Já tinha passado e repassado todas as hipóteses e não chegara a nenhuma conclusão.
Já começava a anoitecer e as galinhas já estavam recolhidas, o Toni se dirigia à cozinha, onde a Nona preparava a água da polenta, quando ele ouviu um ruído vindo de trás da casa. (PS.:) Não esperou nenhum segundo e foi correndo em direção à árvore do paraíso, um vulto escalava a figueira em direção aos frutos quase amadurecidos. Neste momento precisava manter o sangue frio, já tinha sido afrontado por demais pelo galo de terreiro. Juntou uma bela pedra do chão e pensou consigo mesmo: – Quá comando mi. (Aqui eu mando). Ajustou da melhor forma a pedra na mão esquerda e lançou com vontade…

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

O pobre bicho deu um grito e despencou galhada abaixo, mas não era um galo. Xi acho que houve um problema! Foi até a figueira e não conseguindo ver direito arrastou o animalzinho desacordado até onde havia luz. Alertados pelo grito estranho já correram para fora o Abel, a Alzira e a Isa, ainda com a mescola da polenta na mão e uma lamparina. Era o Bernardo, meio desacordado e com um baita galo no meio da testa causado pela pedrada do nono. Galo! A esta altura o Toni não queria mais saber de ouvir falar em galo.

PS.: Quando o Bernardo leu a história ficou intrigado, pois não se lembra o que o nono disse ou fez para que ele descesse da figueira, agora só nos resta a confirmação ou a alteração da história pela tia Alzira. Isto modificaria o final da história, caso não tivermos nenhuma outra informação vou manter este final que combina com o estilo da família de reescrever finais para as histórias como o nono, o pai, o tio Pio e o tio Abel faziam magistralmente.

Excesso de velocidade…

A velocidade sempre fascinou a humanidade, desde a época das cavernas os humanos tentam descobrir métodos de se locomover mais rápido, naquele tempo era compreensível pois, não raro, tinham que fugir de algum predador muito mais veloz que eles. Escapar de um predador produzia um prazer indizível, equivalia a nascer de novo, por isso a corrida foi se incorporando ao fazer humano como fonte de adrenalina e consequentemente de prazer. Isso explica porque naquele 19 de maio de 1948 os irmãos Achiles e Abel disputavam uma carreira. As carreiras eram comparáveis aos atuais rachas feitos entre jovens atualmente. Como naquele tempo só existiam cavalos por lá é natural que as corridas fossem nesta modalidade. Uma das diversões preferidas da gurizada, quando tinha apenas um cavalo a corrida era feita da seguinte forma: dividia-se a cancha em duas metades e o corredor a pé começava na metade enquanto o cavaleiro percorria o trecho todo. Diversas modalidades eram usadas para este tipo de competição, a mais comum era a cancha reta, que em geral apresentava alguns problemas porque não tinha grandes retas nas estradas e caminhos. Por isso a carreira terminava na reta, mas o espaço para desaceleração ficava numa curva.

Os Piovesans: Thereza, Odila, Clementina, Lino, Pio, Inacio, Maria e Abel cantando. note-se que o Abel ao movimentar-se evidencia a perna quebrada.
Como nos rachas, as curvas em alta velocidade sempre representaram perigo, mesmo nas corridas de cavalos, e por isso sempre foram propícias para acidentes.
– Lá vêm os dois irmãos cavaleiros em alta velocidade, passo a passo, paleta a paleta, numa corrida emocionante, se aproximam da linha final, praticamente, emparelhados, e… cruzam a linha de chegada!
Os cavalos ainda correm um pouco na curva enquanto os cavaleiros praticam as manobras de desaceleração, o cavalo do Abel resvala e lá se vão os dois para o chão, não houve vencedores. O Abel saiu com uma perna quebrada e o Achiles teve que teve que carregar o mano para casa.
O que tinha de mais avançado na época para ossos quebrados era a prática exercida pelo Domingos Casarin, tradicional arrumador de ossos de Nova Palma, que procedeu a entalação da perna, após ter posto os ossos no lugar. Para imobilizar um membro quebrado era feito a entalação usando preferencialmente talas de taquara de 25 a 30 centímetros de comprimento por três ou quatro de largura, enroladas em um pano macio, em geral tiras de um lençol velho. As talas eram colocadas ao redor da perna ou braço quebrado e fixadas com mais tiras de pano, coladas com breu. Este tipo de imobilização era muito eficiente e fácil de fazer com os recursos limitados que havia naquela época. Fico a imaginar o que foi a arrumação do osso sem anestesia, embora seu Domingos tivesse bastante prática, com certeza não foi brincadeira.
Quem já quebrou um osso sabe muito bem que a dor que se segue nos dias subsequentes é algo capaz de fazer qualquer um delirar. E é no pós-quebradura que a história toma rumos diferentes, existem duas versões explicativas para o ocorrido. A primeira dá conta de que uma noite deu um temporal e o Abel tendo levado um susto sem perceber mexeu a perna colando fora do lugar. Mais tarde, quando foram tiradas as ataduras e talas, percebeu que sua perna estava alguns centímetros mais curta, o que mais tarde lhe deu problemas de coluna.
Mas existe outra versão, a do irmão Lino. Segundo o ele o Abel era sonâmbulo, chegando muitas vezes a levantar a noite, em noite de lua, e encangar os bois e ir lavrar dormindo. Falaremos disso noutra oportunidade. Estando ele convalescendo, após a fratura da perna ele ficou vários dias na cama, teve febre e era mantido acordado o dia todo para poder dormir quando o cansaço e a dor tomassem conta dele à noite. Depois do segundo ou terceiro dia começava a aliviar a dor e ele conseguia descansar melhor durante o dia, numa noite, ainda cedo, quando a família se preparava para jantar alguém viu o Abel passar em direção à estrebaria caminhando com extrema dificuldade e o nono gritou:
– Cossa sito drio fare? (O que você está fazendo?)
Ao que o Abel respondeu tranquilamente:
– Vao tchapare i boi par arare. (Vou pegar os bois para lavrar)
Foi um corre-corre saíram todos para fazê-lo voltar para a cama.
Apesar do serviço do arrumador de ossos ter sido feito com esmero, os ossos que estavam quebrados na diagonal sofreram um deslizamento que acabou fazendo com que a perna ficasse mais curta.

O anjo da guarda.

Existe uma teoria que tudo se resolve em três etapas. Deus tem três pessoas. O banquinho de três pernas é sempre estável e por aí vai… o número três é um numero mágico. E por falar em pernas a mentira tem pernas curtas.

Um.
O caminho para o Bom Retiro já era bem conhecido o Carlinhos, vulgo Mano, que trilhava todos os domingos, sempre aproveitando o atalho pela rua Zero Hora, que naquela época era mais ou menos uma trilha. Mesmo sem saber exatamente porque o pai o recomendara para fazer a catequese com o tio Abel, na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bom Retiro, e não com os outros meninos de sua idade que eram catequizados em Nova Palma, na matriz da Santíssima Trindade. De qualquer forma tratava-se da catequese, mas não era qualquer catequese, era a do tio Abel.
– Ah! Que belas caminhadas… sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco. Depois, se juntar aos primos e amigos e ir até a capela.
O tio Abel, ou melhor a catequese dele, era disputadíssima na redondeza, tinha gente que até mudava de residência para poder participar do grupo de catequese dele. Para o Carlos isso não foi problema pois o pai tinha grande influência na paróquia e por isso matricular o filho na “catequese do Abel” não foi problema. Além disso, tem outras histórias que indicam que a família prezava muito a educação dada pelos tios, mas não importa a razão, a verdade é que o Mano ia todos os domingos para a catequese lá na capela Nossa senhora Aparecida.
Bem, exatamente não todos os domingos, porque num domingo ele encontrou amigos pelo caminho e resolveu mudar um pouco de rumo. Esta é outra característica desta família, a facilidade de improviso. Um convite para jogar um futebolzinho até que caia bem naquele domingo à tarde, e o que é um dia sem catequese, uma única faltinha, com certeza o tio vai perdoar, ele tem um coração de ouro, é só inventar uma desculpazinha qualquer.
E foi assim que o nosso catequizando mudou de rumo, afinal estaria reunido com amigos e na Bíblia está escrito: “Onde dois ou mais estiverem reunidos…” eles eram mais de vinte. Estavam ainda seguindo a Bíblia mesmo que o encontro fosse no campo de futebol em vez de ser na capela. Além disso estaria completando o time dos amigos que não poderiam jogar sem ele. Sob vários aspectos a troca da catequese pelo futebol não representava nenhum pecado imperdoável, pelo contrário, tinha lá seus méritos. Futebol com os amigos até a hora do fim da catequese pra que não ficasse muito evidente para o pai a troca de atividade daquele dia.

Dois.
Depois de cantar duas missas no domingo o regente do coro, o Pio Piovesan, chega em casa com a garganta cansada, almoça e precisa dar um descanso às cordas vocais. O dia ameno de início de outono sugere uma atividade prazerosa e tranquila, onde se possa cultivar a meditação e o silêncio. Com certeza uma pescaria no Soturno é, sem dúvida, uma bela opção. Munido de vara de pesca, uma latinha de minhocas, uma sacola para pôr os peixes e muita vontade de pescar lá vai o Pio. Bela caminhada, sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde dá pra se balançar um pouco como no tempo de criança, e caminha um pouco pela barranca do rio até achar um bom lugar para pescar. Tarde agradabilíssima, não deu muito peixe, mas em compensação o silêncio, o ruído da água, que mais parece música e a paz da beira do rio são ingredientes capazes de restabelecer qualquer um.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Um lugar paradisíaco para pescar e meditar, um pedaço do céu na terra.

Em se tratando do Pio isto representa um pedaço do paraíso, com exceção da paisagem até dá pra se sentir como Cristo jejuando no deserto.
Por falar em jejuar, já passam das quatro da tarde e começa a bater uma fominha, é claro que ele não levou lanche, pois perto da casa do mano Abel era só dar um pulinho lá para o “chá das quatro”. Era a hora que ele voltava da catequese, deveria estar chegando em casa, então vamos lá.
Sempre é muito gratificante visitar os irmãos em especial quando é para tomar um chimarrão, comer uma cuca ou bolachas e jogar conversa fora…
Parecia já combinado, o Pio subindo do rio pela estrada e o Abel vindo da capela se encontraram na entrada do caminho para a casa. Como a gurizada ficava para trás brincando o Pio nem notou que o Mano não vinha com ele. Como tinham inúmeros assuntos para tratar o assunto Mano só veio à tona quando o Abel perguntou:
– Porque o Carlos não veio para a catequese hoje?
O Pio coçou a cabeça, pensou um pouco e respondeu:
– Ele saiu para a catequese um pouco antes de mim e veio pra cá… A resposta ficou meio no ar, tinha algo estranho acontecendo, certamente ele deveria ouvir uma bela explicação ao chegar em casa.
O Catequista ainda falou que ele não costumava faltar, principalmente porque depois da catequese costumava jogar bola com a piazada dele.

Três.
O Carlos chega em casa suado, até meio sujo, e a mãe…
Aqui cabe um parêntesis a mãe neste caso é a tia Clementina, que corresponde exatamente a descrição do conceito de mãe, é paciente, atenciosa, amorosa e sobretudo, neste caso sem malícia. Mesmo estranhando a sujeira do filho crê que ele vem da catequese, deve ter sido alguma atividade prática que o Abel mandou fazer.
Com a maior inocência do mundo ela indaga:
– Porque não esperou o teu pai que foi pescar lá no Abel?
– É que eu fui jogar um futebol.
Foi a resposta meio lacônica, meio gaguejada, de quem acaba de ser pego numa mentira. A mãe pensando que se tratava do futebolzinho de após catequese deixou por isso mesmo, mas o Carlos… estava frito. Faltar à catequese do tio Abel, logo num dia que o pai vai lá, só podei ser castigo por ter transgredido as sagradas regras da família, a esta hora o pai já sabia de tudo. E agora? Com certeza a cinta ou a bainha do facão iriam pegar quando ele chegasse da pescaria, ainda mais que apesar de divina e relaxante não tinha rendido muito.
Mas como toda a criança, vamos dar um desconto ele ainda era criança, tem um anjo da guarda para salvar dos perigos, o Carlos também tinha o seu. Só que eu duvido um pouco que se tratava do “anjo” da guarda. Soprou uma ideia para aliviar o castigo. “Se ele tivesse meio adoentado e fosse dormir mais cedo o pai não daria o castigo naquele dia e depois, certamente, esqueceria.” E foi feito. Naquele dia o Mano foi dormir mais cedo, ficou sem janta, sem polenta com peixe frito, mas escapou da cinta.

A versão do perdedor… ou Um santo na família.

A história, diz-se que sempre é escrita do ponto de vista dos vencedores. Esta é a minha versão, da versão da Silvia, da versão do Caco, do episódio em que ele perdeu seu “canivete artesanal”. Portanto esta é uma versão dos perdedores…

Numa família religiosa como a dos Piovesan, muitas coisas, que os outros nem imaginam, podem e são consideradas sagradas, como por exemplo, a sesta do tio Abel. Um homem religioso que, alguns anos depois deste episódio, foi consagrado diácono. Ele sempre reservava uma horinha depois do almoço para uma sestazinha, tempo para recuperar o corpo e, com certeza, fazia bem para a alma também. Mesmo nos fins de semana quando o trabalho não era muito pesado a sesta era sagrada. Numa hora sagrada qualquer barulho, que pudesse atrapalhar o sacrossanto soninho, estava proibido. Não poderia ser diferente naquele sábado. A Maristela, a Bernadete e a tia Alzira faziam a limpeza semanal da casa com o maior cuidado para não tumultuar aquela hora sagrada.
Outra característica marcante na família é a capacidade inventiva e criativa, e isso é característica mais ou menos generalizada, como exemplo citarei a fabricação caseira de instrumentos e ferramentas, como o “canivete artesanal” do Caco. Tendo herdado a inventividade do avô, o Cláudio pôs em prática todos os conhecimentos de ferraria, marcenaria, física e química que conhecia e confeccionou um belíssimo canivete artesanal de múltiplas utilidades que o acompanhou por muito tempo. Outros objetos tradicionalmente feitos de forma artesanal eram os espetos de madeira, usados para assar carne. Estes, porém, de duração mais efêmera, eram usados uma única vez e depois descartados como espetos, continuando úteis para outras atividades, como por exemplo, briga de irmãos.
A família era sagrada e os seus laços venerados, no entanto, em alguns casos até podia haver pequenos desentendimentos comuns quando irmãos divergem opiniões ou preferências. Nada que a intervenção do pai, da mãe ou até mesmo de um irmão mais velho não possa resolver.

Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedicação a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na época da história narrada.

Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedicação a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na época da história narrada.

Voltemos ao nosso sábado: a mãe e as irmãs, tia Alzira, Bernadete e Maristela, estão fazendo limpeza no templo da sagrada família, a casa. O patriarca pratica a cerimonial sesta, enquanto os meninos, neste caso o grande inventor Cláudio Piovesan e seu irmão Inácio, brincam silenciosamente atrás da casa.
Segundo o Caco: para mostrar suas habilidades ameaçou, inocentemente, de brincadeira o irmão com o “canivete artesanal”, produto de seu suor e inventividade e foi mal interpretado.
Segundo o Inácio: ele ameaçou porque tinha ciúmes da desenvoltura e habilidades do irmão mais velho, ele no caso. De qualquer forma estava criado um desentendimento familiar. Na falta de uma irmã mais velha, da mãe ou do pai para mediar o conflito a solução era cada um mostrar suas habilidades, e foi o que o Inácio fez, mostrou sua habilidade de “lançamento de espeto em giro livre”, basicamente atirou contra o irmão portador do “canivete artesanal”, um espeto usado, girando em movimento livre horizontal.
Como a trajetória de espeto giratório é muito imprevisível o dito atingiu o pescoço do galo de terreiro e depois a parede. Galo de terreiro normalmente é um galo de muito boa qualidade e bonito, escolhido no quintal de um vizinho para melhoramento da qualidade genética do plantel de galináceos na propriedade. Como é um galo especial, chefe supremo da população galinácea local, porta uma bagagem genética diferenciada, canta pela manhã para acordar toda a população da propriedade e foi valorizado na compra ou troca com o vizinho, por isso, não tem preço.

Falávamos do lançamento de espeto que colidiu com o pescoço do galináceo e atingiu a parede, isto causou dois contratempos: o galináceo em questão caiu esticado no chão e o patriarca que dormia esticado na cama pôs-se de pé. Com isso foi quebrada uma regra sagrada, que é a de não acordar quem está sesteando.
Com o ruído provocado pelo espeto rotador contra a parede da casa, o tio Abel acordou mais que irritado, o que era raro acontecer com ele, e foi verificar o que acontecera. Indagou do ocorrido e ficou a par do lançamento de espeto e do motivo que ocasionou a ação.
Estendeu a mão para o Caco e disse com voz firme e decidida:
– Dame qua sto trapelo. Sem opção o artesão alcançou ao pai o “canivete artesanal” que foi usado para a prática do esporte de “lançamento de canivete ao mato” cujo objetivo é jogar o canivete de alguém, o mais distante possível, em direção a um lugar onde crescem árvores e arbustos, de forma que o proprietário, praticamente, não tenha chance de encontrá-lo. E assim foi. Segundo o proprietário, agora Sr. Cláudio Piovesan, passados mais de trinta anos ele ainda não o encontrou.
Voltando-se para o lançador de espeto, o Inácio, pouco mais que um pirralho, o pai foi mais enfático e prolixo:
– Pega este galo, ferve água e depena, depois limpa e prepara ele para o domingo, mas faça tudo isso sozinho, não quero saber de ninguém te ajudando. Soube matar, saiba preparar.
Sem outra opção o menino pegou o galo pelas pernas e foi-se em direção à cozinha, nesta altura as irmãs já festejavam aquele enorme galo assado para o domingo, coisa que estava um tanto rara naquela época de crise.

Ato número um, o Inácio foi acender o fogo para pôr a panela de água a ferver. A água fervente ajuda a soltar as penas, é uma prática bastante difundida entre os preparadores de aves. Um probleminha é que no fogão a lenha a água demora bastante para aquecer, e neste dia o tempo parecia não passar para o menino, que ficou na espera andando de cá pra lá ou de lá pra cá, com o galo morto de cabeça para baixo pego pelas pernas. Este tempo foi de penitência e arrependimento, tempo para refletir e meditar sobre a quebra de regras sagradas da família.

Na família temos pessoas que se destacaram por sua religiosidade, fé e prática da caridade, um exemplo é frei Benedetto Piovesan, irmão de nosso tataravô, que tem fama de santo na Itália, mas cujo processo de beatificação não andou porque a família nunca teve dinheiro para começar o processo.

Voltemos ao nosso inocente menino, arrependido de seus atos maléficos de ficar raivoso com o irmão, matar o galo e acordar o pai. Três pecados em um único gesto. Andando de um lado para outro segurando o galo morto pelas pernas de cabeça para baixo. Certamente orou e pediu aos céus perdão por seus atos e…
De repente o galo começou a se debater freneticamente, livrou-se das mãos do seu algoz e saiu correndo terreiro a fora…

Epílogo.

Para o Inácio, o alívio da tarefa que antevia pela frente que não sabia bem como realizar.

Para as meninas, carne a menos no almoço do domingo.

Para o Caco, para ele nada, ele está ainda procurando o “canivete artesanal”…

Para o galo, mais uns anos de vida comandando o harém galináceo, mesmo com o pescoço torto e o canto rouco, o que não prejudicou a sua genética que era o que importava.

Para os adultos da família, mais um acontecimento corriqueiro.

Para mim, muitos e muitos anos depois quando tomei conhecimento do ocorrido, a evidência de mais um santo na família. No entanto quando comecei a busca de dados para iniciar o processo de beatificação do primo pelo seu primeiro milagre, tropecei em dois problemas comuns aos Piovesan: a falta de dinheiro e a falta de provas documentais do milagre. Assim só me resta contar a história para que outros continuem venerando o nome e a santidade da família.

Um baile e tanto

Creio que esta foi a última foto tirada do casal. em julho de 1976.

Creio que esta foi a última foto tirada do casal, em julho de 1976.

Foi numas férias de julho, mais precisamente em julho de 1976, saí de Viamão, onde estudava, e resolvi ir para Jaboticaba por um caminho não tradicional, dar uma passadinha em Nova Palma para visitar os tios e os avós. Foi nesta ocasião que tirei a famosa foto do nono e da nona na frente da casa velha. Cheguei à Nova Palma na quarta-feira e comecei a visitar os tios tendo como base a casa do nono. Fiz uma série de caminhadas até o Bom Retiro e de volta, fui até a tia Eulália andei bastante pra lá e pra cá, com o Tarcísio e o Inácio e planejamos ir a um baile na noite de sábado com os guris do tio Pio e a Cecília, para isso nos reuniríamos na casa do tio Pio, e depois do Baile, o Inácio e eu iriamos dormir na casa da tia Eulália.

Tudo correu maravilhosamente bem até a hora da janta, todos reunidos contando piadas e histórias, o tio Pio participou bastante. Logo depois “el ga deto que gavea fredo” e foi para a cama, nós também tínhamos frio mas estávamos em volta do fogão.

Resolvemos esperar um pouco para não chegar ao baile muito cedo. Foi um tempo de descontração digno de uma reunião de nossos pais, fico imaginando que não seria diferente se estivessem reunidos o Pio, o Lino e o Abel. Muitas histórias deste livro com certeza tiveram origem em reuniões como essa, ou como foi a do velório do tio Pio, que infelizmente não pude participar, mas prometo que vou colher depoimentos para escrever.
Sei que alguns me perguntarão:

– O que tem a ver uma história de um baile com a de um velório?

– Tem tudo a ver. Respondo eu, quando se trata de um grupo de Piovesan. Vocês já viram um Piovesan calado? Especialmente de for um descendente do Toni.

Voltemos ao assunto inicial, o tio e a tia já tinham ido dormir e o grupo do baile mais os pequenos do tio Pio, ficamos ao redor do fogão contando histórias, para dar um tempo antes de ir ao baile. Passadas algumas horas os menores não resistiram e se recolheram para a cama, já era umas 10 horas da noite e nós continuamos com as piadas e histórias. Pelas 11 horas alguém falou:

– Vamos sair?

Não lembro bem, mas acho que foi a Cecília que abriu a porta e olhou para fora e falou:

– Faz um frio danado.

Fechamos a porta e continuamos ao redor do fogo, mais fogo, mais histórias mais risadas bem ao estilo Piovesan. Ainda era cedo para ir ao baile, poderíamos dar mais um tempo. Passada mais uma hora, mais ou menos, lembramos de novo o propósito de nossa reunião: Ir ao baile. Levantamos e fomos, em massa, para a porta agora estava na hora. Fazia um luar lindo, o céu estava límpido e muito claro, uma noite fantástica para sair se não fosse um probleminha, olhamos para o chão e estava tudo muito claro, branco de geada. Fizemos rapidamente uma assembleia geral e decidimos que não era uma hora adequada para sair de perto do fogo. Voltamos para o calor do fogão a lenha que aquecia o ambiente. Como a assembleia é soberana decidimos continuar a contar histórias e assim foi até lá pelas duas da madrugada quando terminou a lenha: – E agora, o que fazer? Buscar lenha na rua nem pensar, catamos até o último graveto disponível, a lenha terminara, mas não os assuntos. Foi aí que alguém teve a brilhante ideia de queimar as cadeiras, só que teríamos que sentar no chão, definitivamente não era uma boa ideia. Mas numa família de marceneiros não faltaram novas ideias e a que saiu vencedora foi a de queimar os degraus das cadeiras, depois eles poderiam ser repostos. E assim foi a noite até o último degrau de cadeira e o fogo apagou em definitivo. Não tínhamos mais saída, ou ir ao baile ou ir dormir. Aí começou o drama para o Inácio e eu. Nós iriamos dormir lá na tia Eulália que ficava mais perto do que o Bom Retiro mesmo assim com aquele frio “de renguear cusco” não tivemos coragem para sair de casa. A família de acolhida deu um jeito: colocaram-nos a dormir nos pés da cama dos pequenos, que afinal não ocupavam toda a cama mesmo.
Assim terminamos aquela maravilhosa noite de baile.