“Tio Lino”

Finalmente a história que explica o apelido.

Como era de costume cada mês ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. Quase sempre ia toda a família e muitas vezes a turma do tio Luís e da tia Irene ia junto, eles ficavam no Vô deles, o Bortolo Schiavinatto, e nos seguíamos um pouco adiante. No final do domingo a gente voltava cansado, mas eufórico. O meio de transporte mais usado era a carroça do vovô Bortolo com os cavalos brancos. Como na subida os cavalos não tinham força para puxar toda aquela carga, em geral, a Benildes, a Zélia, o Selito e o Dimas mais o Leo e eu, desembarcávamos e subíamos a pé, depois a gente embarcava e continuava a viagem. Numa destas viagens fomos somente eu e o Leo com o tio Luís e família, a mãe estava com a Luiza pequena e como era costume ficava em casa esperando a visita das amigas, vizinhas, primas e comadres. O pai também ficou em casa para ajudar e atender as visitas.
Logo depois do almoço começaram a chegar as visitas, as irmãs, cunhadas e primas que vinham conhecer o nenê, a Luiza, e fazer a visita de praxe à mãe. As crianças vieram de carona, nem tanto pra ver o nenê quanto para andar de “carreto”, aquela maravilha que transformava a estrada numa pista de automobilismo e de aventura, a montanha russa daquele tempo. A estrada de terra vermelha, bem patrolada ficava uma verdadeira pista de corrida, pois o trafego de carroças quase que vitrificava os trilhos deixando-os muito duros e lisos, isto diminuía muito o atrito melhorando o desempenho do carro, inda bem que ele tinha freio.
Não demorou muito que a turma percebeu que o carro não tinha motorista, os dois titulares tinham ido viajar. Conversa vai conversa vem e nenhum dos visitantes se animou a dirigir o caminhãozinho, apesar do tio Lino, ter tentado formar algum motorista, empurrando o carro pelos gramados. Com a insistência cada vez maior da turminha para andar na estrada, o dono da casa cedeu aos apelos, prometendo uma corrida lomba abaixo com a gurizada na carroceria. Um carro de lomba comum não chegava a ganhar velocidade na dita pista, mas o “carreto” com rolamentos e revestimento de borracha nas rodas se comportava quase como uma bicicleta.
Aqui vale um parêntesis: As bicicletas de pau eram muito populares na região exatamente por isso, tendo um centro de gravidade mais alto, conseguiam ganhar velocidade em declives menos acentuados, muito comuns na região. Lá no tio Achiles nem pensar em bicicletas, pois as descidas chegavam a quase 45 graus, seria suicídio andar de bicicleta, lá o ideal era o carro de lomba, feitos com umas bolachas de uma tora como rodas, uma tábua que era ao mesmo tempo chassi, acento e apoio, dois sarrafos, um fixo como eixo traseiro e outro móvel como eixo dianteiro que se guiava com os pés. O caminhãozinho tinha as vantagens dos dois, a estabilidade de quatro rodas do carro de lomba e a velocidade da bicicleta, com umas vantagens adicionais como banco para o motorista, direção imitando um caminhão de verdade e o rodar macio dado pelo revestimento de borracha das rodas.
– Tio Lino! Desce com a gente no carro de lá do Luiz Moreira. – Gritava a gurizada, e foi tanta insistência que o tio cedeu.
Empurraram o carro até o topo da lomba, subiu toda a gurizada no carro com o tio na direção e despencaram lomba abaixo, tudo foi maravilhoso, só que o motorista não desceu a lomba toda, no final da primeira parte tomou o caminho de casa e parou no gramado. Desceram o trecho mais uma ou duas vezes, mas a gurizada queria mais ação, mais velocidade. Finalmente acabaram convencendo o tio a descer toda a lomba como de costume, até o chatinho do tio Luís. Mais uma vez lomba acima, criançada toda na carroceria e o tio espremido na cabine, eu disse espremido porque a cabine foi projetada para um guri e não para um adulto, apesar de caber um adulto dentro os comandos não estavam projetados para tal, não tinha regulagem de banco. Um adulto poderia sentar-se razoavelmente confortável e dirigir, mas não encolher a perna suficientemente para pisar no freio, por exemplo.
Pois bem! Eu estava falando que a turminha convenceu o motorista a fazer o trajeto completo e lá vinham eles… Passada a primeira curva acentuou-se a descida, bem carregado o carro ganhou bastante velocidade, e a plateia adrenalina. A euforia ia contagiando a gurizada enquanto a velocidade começava a preocupar o motorista que tentou dar uma beliscadinha no freio, mas não conseguiu encolher a perna suficientemente, a gritaria da sobrinhada aumentava, e o pavor do motorista também, se aproximava a segunda curva e depois a descida se acentuava mais ainda, depois vinha o chatinho onde o carro perderia velocidade e pararia, este era o comportamento esperado pela piazada acostumados com o trajeto. No entanto, não era esta a experiência do motorista. (para quem não leu, leia o Episódio 2 da bicicleta do Padre João). O caminhãozinho tinha rolamentos, exatamente como a bicicleta, a experiência de descer sem freio este trajeto ele tinha feito alguns anos antes, e o chatinho não tinha sido suficiente para perder velocidade. Bateu o pavor, ele nem pensou na possibilidade de frear com a mão, mantendo apenas uma no volante. Precisava achar uma saída urgentemente, o último trecho da descida estava quase no fim, o bólido atingindo a velocidade máxima, a criançada fazendo a maior algazarra, a estrada passando numa velocidade assustadora. Chegou o trecho plano aliviou um pouco a tensão, mas não diminuiu a velocidade…
– Raspar no barranco da estrada, esta seria a solução para parar e foi esta a decisão do tio. Do lado direito tinha um camaleão de terra solta, deixado pela patrola que passara há pouco. O tio Lino foi encostando o carro no barranco.
– Surpresa! O carro saltou o barranco como se nada fosse e se enfiou no matinho de branquilhos que tinha logo abaixo. A turma vibrou nunca tinham experimentado a sensação do solavanco de pular o barranco.
O matinho de branquilhos não era muito grande, consistia numa tira de uns vinte metros de largura por uns cinquenta de comprimento margeando a estrada. Os branquilhos não eram muito grandes tinham uns dois metros de altura em média, eram arvoretas bem galharudas e estavam quase sem folhas, era fim de outono. Outra qualidade deles é que todos os galhos terminam em espinhos, só ratos, e o tio Lino de “carreto”, se arriscam a entrar. A carroceria ficou quase fora do matinho, a turminha pulou fora para a estrada pelo caminho que o carro abriu, só o tio Lino não tinha como sair, era espinho prá todo o lado.
O motorista não podia perder a calma numa hora daquelas, tentou orientar a gurizada para puxar o carro para fora do mato, mas todos juntos não conseguiam nem mexer o caminhãozinho. Mandar algum deles pedir socorro era arriscado, não se podia deixar as crianças andando sozinhas por aí, na casa que ficava uns 300 metros de distância só tinha mulheres que com certeza não teriam força para puxar e provavelmente nenhuma sabia cangar os bois para fazer o serviço.
Mas era domingo de tarde, dia que o Lalo Franco, que morava perto do rio Fortaleza, costumava ir para a Vila Trentin tomar um trago e jogar um carteado. No domingo em questão não foi diferente, todo garboso vinha o “Seu Lalo” montando o tostado marchador quando deparou com aquele bando de crianças na estrada. Parou o cavalo e tentou ouvir o que as crianças queriam, era uma gritaria onde ninguém se entendia, ele só entendia tio Lino, tio Lino… até que pediu calma, e que um deles explicasse o problema.
– Ajuda para tirar o “Tio Lino” do mato. – explicou o maiorzinho deles. Foi então que o seu Lalo olhou para onde eles apontavam e viu o caminhãozinho. Com seu jeito fanfarão achou que era uma brincadeira das crianças. Não podia acreditar que o “Seu Lino”, veterinário conhecido na região, estivesse brincando de carro de lomba. A dúvida se desfez quando o próprio Lino, enfiou a cabeça na janelinha traseira da cabine e pediu ajuda. Seu Lalo amarrou o laço no eixo traseiro do carro e na chincha do cavalo e arrastou o carro de volta para a estrada.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

Mesmo depois de ter filhos casados ele não perdeu o jeito de gurizão.

O “Seu Lino” e as crianças agradeceram efusivamente e Seu Lalo seguiu seu caminho. A turma brincou mais um pouco, mas não desceram mais a lomba até o fim…
No final da tarde, depois que as comadres, cunhadas e vizinhas foram embora o Seu Lino saiu, foi buscar os guris na casa do cunhado, e como ficava no caminho deu uma passadinha no bolicho. Lá estava o Lalo numa mesa de carteado, ele tinha contado a história pra todo mundo, fez questão de levantar e pagar um trago para brindar a saúde do –“Tio Lino” – com ele fez questão de falar. Foi a partir deste episódio que o tratamento mudou de status e ele passou a ser conhecido como “Tio Lino”.
Para a criançada, aquele adulto que está presente toda hora, que participa das brincadeiras, que trata todos com carinho. Para os adultos, o gurizão que vive a vida que brinca e se diverte sem preconceitos…
Obrigado “Seu Lalo” pelo apelido! Valeu!
Agora vocês sabem porque até eu me refiro a ele muitas vezes como “Tio Lino”.

O “carreto”.

Pouco tempo depois da mudança aconteceu um fato que mudou nossas vidas, foi a chegada de um carro de lomba especial, que se tornou protagonista de muitas histórias. Mais uma vez um marceneiro influindo na nossa vida.
Muitas vezes a história exige que se faça alguma incursão pelos arredores, quando algum elemento externo começa a fazer parte do núcleo principal. Neste momento o elemento externo é o Antoninho Fikes Vaz, aprendiz de marceneiro na oficina do vovô Bortolo, filho de criação da tia Santina, irmã da Vó Maria. Pois não é que o Antoninho era bem criativo! Aprendendo, aprendendo, resolveu praticar o aprendido construindo um carro de lomba especial, em forma de caminhão, com direção ergonômica que movimentava apenas as pontas do eixo dianteiro, totalmente diferente dos carros de lomba tradicionais. Com rolamentos nas rodas, molejo feito de talas de guajuvira, freio acionado pelo pé, Cabine e carroceria imitando um Mercedes cara chata, lançado naquele ano de 1958. Era uma verdadeira joia de marcenaria, cabia dois na cabine e uns 15 na carroceria. Só que o aprendiz teve gastos e precisava praticar o desapego vendendo a sua criação. Como ninguém na vila tinha uma quantia razoável de dinheiro para desembolsar na compra de um carro de lomba, o Antoninho resolveu fazer uma rifa. Foi assim que naquele domingo de manhã o pai ao voltar da missa encontrou o marceneiro no bolicho do Vitelio Casarin, vendendo os três últimos números da rifa para fazer o sorteio.

Estacionado na frente do rancho o "carreto", infelizmente não tenho foto melhor dele, esta foi recortada da foto da família, ampliada e retocada com Photoshop.

Estacionado na frente do rancho o “carreto”, infelizmente não tenho foto melhor dele, esta foi recortada da foto da família, ampliada e retocada com Photoshop.

Naquele dia o pai deixou de beber o seu traguinho e gastou três cruzeiros com os números da rifa, um para cada filho, nunca fiquei sabendo qual o número sorteado, mas dizem que foi o meu. Assim, um pouco mais tarde do que de costume o pai chegou empurrando o “carreto”, como ficou conhecido. Vinha empurrando pela cabine e guiando com o braço enfiado pela janela da porta que não tinha vidro. Imediatamente começaram as aulas de direção e em poucos dias estávamos autorizados a dirigir o caminhãozinho na estrada. Não demorou muito e começou a peregrinação da criançada lá pra casa nos domingos, pra andar de carro lomba abaixo.
O trajeto tradicional compreendia um trecho de mais ou menos 500 metros, da casa do seu Luiz Moreira até o chatinho do tio Luís. Tinha uns 250 metros de declive suave, depois uma curva a esquerda e acentuava o declive, mais uma curva a esquerda e acentuava mais ainda, finalmente tinha uns 100 metros de plano e depois uma subidinha. No início do trajeto o motorista assumia seu posto com um auxiliar a gurizada dava o impulso inicial e pulava pra cima da carroceria, e começava a aventura. Nos primeiros cem metros a velocidade não tinha nada de emocionante, um guri correndo acompanhava, mas quando chegava próximo da primeira curva já estava a uns 15 Km/h e aí começava a aumentar. No final do terceiro trecho de declive creio que atingia uns 30 Km/h ou mais e os passageiros da carroceria faziam uma gritaria incrível, aí vinha o trecho plano onde a velocidade diminuía e parava na subidinha no fim do trecho. Aí se fazia a volta, um dos menorzinhos pegava a direção e a turma empurrava o caminhão lomba acima até a casa do seu Luiz Moreira e tudo recomeçava.
Mais tarde nos aventuramos a andar em outras lombas e até houve alguns acidentes bem interessantes. Mas o “carreto” foi o responsável pelo apelido do “Tio Lino” que vou contar qualquer hora… O trajeto aqui mencionado faz parte do trajeto de uma outra história, a segunda parte das aventuras da bicicleta do Padre João…

Como se faz um “torchio” sem torno

Moenda ou "torchio" feito pelo mestre carpinteiro Antônio Piovesan.

Moenda ou “torchio” feito pelo mestre carpinteiro Antônio Piovesan.

“Torchio”é a palavra em italiano que designa moenda, aqui no Brasil também é usada a grafia “torccio”. Este apelido carinhoso foi dado ao meu avô por ele ser um exímio fabricante deste tipo de moendas ou prensas destinadas a extrair o suco da cana, a garapa, ou guarapa como é mais conhecida no sul do Brasil.
Como trabalho com madeira, tentei ficar imaginando como meu avô torneava as maças dos torchios sem ter um grande torno, dispondo apenas de ferramentas rudimentares, foi aí que apelei para duas pessoas que trabalhavam com madeira, também com ferramentas precárias para tentar entender o processo. O tio Ângelo Chierentin, construtor de rodas d’agua de madeira e o seu Genésio Bortoluzzi, que também fazia torchios, mas com tecnologia mais avançada. Eles me ajudaram a compreender como o torneado ficava perfeito, feito tudo a base de machadinha, serrote, enxó, formão, plaina garlopa e outras ferramentas simples. Como os dentes da engrenagem eram feitos um a um e encaixados na maça de madeira, como eram calculados para dar certo, para que a velocidade das maças entre si fosse constante e não houvesse deslizamento. Algum tempo depois pude confirmar passo a passo a tecnologia com a tia Thereza, que quando jovem ajudou-o a fazer muitos torchios.
A escolha da madeira
Primeiro cortavam três pedaços de tora, preferencialmente de angico, pela qualidade da madeira. A primeira, mais grossa, e mais comprida, para sobrar uma ponta para o cabeçalho, as outras duas apenas do comprimento da maça mais o eixo. Fazer o torneado começava sempre pela marcação do centro da tora de madeira que originaria a maça, e com um compasso rudimentar marcava a grossura do eixo. A partir daí marcava o comprimento que deveria ter o eixo para encaixar bem no mancal e então começava a serrar em torno tirando com o formão a madeira até chegar no risco que definia o eixo. Este trabalho era o que exigia a maior precisão e a conferência do esquadro a cada momento.
O serviço de torno
Esculpidas as pontas dos eixos tudo ficava mais simples, mas não menos trabalhoso, o bloco de madeira era colocado apoiado pelas pontas de eixos em duas forquilhas cravadas no chão que serviam de mancal, aí começava o serviço de torno. Girando manualmente a tora e desbastando com a plaina até ficar perfeitamente torneada. A definição do diâmetro da maça não era crítico, no entanto a circunferência devia ter um tamanho múltiplo do passo dos dentes, este era o segredo para não dar errado. Esta circunferência era definida geralmente em polegadas, já que as medidas das ferramentas na época também o eram, se o formão era de uma polegada, a soma do dente e o vão deveria ser de duas polegadas, assim a circunferência deveria ser definida com um número par de polegadas. Em linguagem de engenheiro, a circunferência definia a linha média da engrenagem.
O próximo passo era definir o comprimento, a largura dos dentes e a posição na maça. Em geral se seguia um padrão ao redor de três polegadas do topo da maça, dentes de duas polegadas de largura e duas de comprimento, com passo de duas polegadas. O passo da engrenagem é que definia a circunferência, esta podia variar de acordo com o diâmetro da tora, desde que fechasse com o passo, em alguns casos o torchio tinha três maças de diâmetros diferentes. Definida a posição dos dentes da engrenagem era torneado um rebaixo na maça com a profundidade da metade do comprimento dos dentes. O serviço de torno estava acabado.
A engrenagem
No rebaixo feito para a engrenagem era feita a marcação dos dentes e com formão eram feitos furos retangulares para encaixar os mesmos. Os dentes eram feitos um a um, a partir de um sarrafo de guajuvira, por ser uma madeira que apresenta grande resistência e flexibilidade, com o tamanho exato para encaixar sem soltar dos furos, os dentes eram encaixados nos furos e depois cortados para que ficassem com o comprimento certo, então era feito o acabamento.
Os mancais e a base

Nesta foto de 1978 um dos últimos torchios feito por ele ainda em funcionamento na casa da tia Eulália.

Nesta foto de 1978 um dos últimos torchios feito por ele ainda em funcionamento na casa da tia Eulália.

Na base, em geral feita de uma peça única de madeira com a largura um pouco maior que a maça maior, eram feitos os furos, não passantes, que serviriam de mancal inferior para as maças. Também na base eram feitos sulcos para recolher a garapa que terminavam numa bica onde era pendurado o balde. O mancal superior, muitas vezes era feito em duas metades, principalmente quando havia escassez de madeira grande, ou para facilitar a montagem. Nas pontas das bases, superior e inferior, eram feitos furos quadrados para encaixar os postes de sustentação. Na ponta de eixo superior da maça maior e central, que ficava mais comprido era feito um rebaixo retangular onde se encaixava o cabeçalho, um galho torto que era furado no ponto de equilíbrio, ficando a ponta mais fina e mais longa voltada para baixo para facilitar o engate dos bois que fariam a tração.

Ao ver um destes engenhos atualmente jamais imaginamos quanto esforço, persistência, paciência e tempo eram gastos neste trabalho.

Daí podemos concluir que chamá-lo de “Toni Torchio” era o equivalente a chamar de paciencioso e persistente, qualidade que certamente passou às gerações futuras, tem uns tentando escrever um livro, haja paciência e persistência pra isso.

 

Festa no Varejão (terceiro episódio da bicicleta do padre João)

(A primeira parte desta história ouvi de minha mãe, Bazilides Carolina Piovesan, a segunda do tio Ângelo Chierentin).
“Naquele tempo”, como começava o sermão do padre Francisco Goetler, muitas vezes a única missa dominical que os católicos podiam assistir no ano era na festa do padroeiro. Que segundo meu pai podia acontecer seis meses antes ou seis meses depois da data, mas tudo bem, quando o padre podia vir aí tinha a festa. O padre vinha de aranha¹ de Palmeira das Missões e se hospedava na casa de meu avô Bortolo, que o acompanhava para responder a missa em latim. De lá do vô eles iam passando pelas capelas, durante a semana e rezando missas, que apesar de eventos extraordinários, eram missas comuns. A capela que estivesse próxima da festa do padroeiro ficava com a missa do domingo, aí como todas as capelas próximas estavam sabendo todos se reuniam lá para a festa. Daí uns três ou quatro meses o padre voltava e fazia outro tour de confissões, missas, batizados e casamentos. Esta era a parte da tradição religiosa.
Outra parte da tradição, na área da intendência da Linha do Coqueiro, do inspetor concessionado, Jardelino de Oliveira, era a fartura de churrasco e bebida nas festas, que em geral acabava com uma briga homérica no final do dia. Há esta hora o padre já tinha ido embora e o inspetor nem sempre conseguia acalmar os ânimos o que em geral acabava em algum ferido ou morto. Motivo para a próxima briga na próxima festa. Isto não era diferente no Varejão, distante uns 15 quilômetros da Vila Trentin.
Provavelmente os brigões confessavam seus desejos de vingança para o padre antes da missa o que começou torná-lo receoso de festas na região. Foi aí que o santo homem teve uma ideia brilhante – os gringos recém instalados na região, Vila Trentin e Jaboticaba, gozavam de fama de cidadãos respeitáveis, eles poderiam impor respeito nas festas, e quem sabe ajudar o inspetor a manter a ordem.
Era lá pelo mês de junho e a visita do padre coincidia com o padroeiro do varejão, São João, ia ter festa. O padre convidou para fazerem parte da comitiva, os quatro patriarcas, Bortolo e Antônio Trentin e Aurélio e Atílio Zanon, que apesar de gostarem de um bom vinho, não iriam beber e todos iriam munidos de calabrotes² que ficariam guardados na aranha para serem usados se fosse necessário. Estava quase tudo pensado, menos o transporte, a princípio iriam os cinco na aranha do padre e na do tio Antônio. O padre chegou na terça-feira, rezou missa em Jaboticaba, combinou com os tios Atílio e Aurélio e veio pra vila Trentin, onde ficava religiosamente hospedado com o Bortolo, meu avô, de onde sairia para rezar missas nas capelas da Santa Rita, São Luiz, Santa Maria Goretti, Três Mártires (na época rezava na escola Roque Gonzales, a velha, depois o Brizola mandou construir uma outra. Um dia destes conto a história das escolas. Eu estudei o primeiro e segundo anos na velha, depois na Brizoleta). Desnecessário é dizer que o padre Francisco viu a bicicleta do Lino por lá e ficou fascinado, ele já tinha usado uma delas na Alemanha antes de vir para o Brasil.
Quando no sábado o tio Antônio falou que não poderia ir não tinha como comunicar aos outros que não teria transporte. Chegado o domingo os Zanon iriam a pé até a encruzilhada da Linha São Luiz onde teriam o transporte por aranha. Como só tinha uma aranha o padre só poderia levar os Zanon, mas nenhum deles sabia responder a missa em latim, o Bortolo não poderia faltar, foi aí que o padre teve mais uma ideia brilhante: – ele iria de bicicleta, com a bicicleta do Lino, e os outros três de aranha, estava resolvido o problema.

Tio Angelo Chierentin, grande artífice em madeira, foi ele que fez a minha bicicleta de pau. Na foto aparecem ele, a Catia e a tia Rosa tendo ao fundo uma roda d'água construída por ele.

Tio Angelo Chierentin, grande artífice em madeira, foi ele que fez a minha bicicleta de pau. Na foto aparecem ele, a Catia e a tia Rosa tendo ao fundo uma roda d’água construída por ele.

(aqui começa a narrativa do tio Ângelo) Paralelo a isso a juventude também estava planejando ir à festa e o meio de transporte escolhido foi “bicicleta de pau” para acompanhar o padre. Os da aranha pegaram a estrada e pouco tempo depois sumiram na frente, o grupo Ângelo Chierentin, Argemiro, Luis, Érico e Santo Trentin e Lino Piovesan, ora passavam ora eram ultrapassados pelo padre. Na descida como gostavam da adrenalina, desciam quase sem freio ganhando grande velocidade e ultrapassando o religioso na maior gritaria, mas quando vinha a subida eles perdiam e eram ultrapassados, na próxima ladeira vinha a revanche.
Depois de passarem pela linha São Luís tinha umas descidas bem acentuadas o que possibilitava, para os mais arrojados, atingir velocidades de um cavalo a galope, pelos meus cálculos uns 40 Km/h. Tinha uma ladeira, um pouco antes do passo do arroio Jaboticaba, que atravessava quase duas colônias, (nos meus cálculos pelo Google, aproximadamente 600 metros) tinha uma curva mediana à direita e terminava no passo do rio, lugar espraiado que permitia atravessar pulando sobre as pedras ou por dentro d’água. Pelo lado de dentro da curva tinha um barranco bastante alto e um canavial de um casal de idosos que morava num ranchinho ao lado. Depois de empurrar as bicicletas por aproximadamente cem metros da subida depois do seu Elias Manfio, a turma embarcou nas bicicletas e despencou ladeira abaixo, o padre, precavido, foi segurando no freio para não pegar muita velocidade, pois conhecia o fim da ladeira onde todos teriam que parar para atravessar o passo com as bicicletas nas costas, a comitiva de aventureiros confiava na possibilidade de frear antes do rio. Com o aumento da velocidade ainda antes da curva, e da adrenalina, a turma começou a maior gritaria, que chamou a atenção da senhora idosa. – Meu Deus! – Gritou ela – Uma carroça em disparada vai ser um desastre na chegada do passo. Imediatamente correu para o canavial que ficava sobre o barranco por onde a “carroça em disparada” deveria passar e tratou de fazer alguma coisa para parar os cavalos. Cortou uma grande braçada de cana e começou a jogar na estrada no exato momento que a troupe entrava na curva, não houve tempo para frear a idosa acabava de fazer um “strike”, o único a cair com elegância foi o religioso que vinha mais de vagar e um pouco atrás.
Inda bem que tinha o rio logo abaixo para lavar-se, se por na linha e prosseguir até a festa do Varejão.
Terei que pesquisar mais um pouco para narrar a aventura da festa, até qualquer dia.

1. Aranha – Espécie de charrete com apenas duas rodas, tracionada por um cavalo que podia transportar até três pessoas.

2. Calabrote – Relho de cabo fino fácil de carregar sob os pelegos. (RS)