Toni de brague fate sú!

“É importante que se diga que todas as histórias e fatos aqui relatados são verdadeiras, verdadeiras joias do imaginário da família, mesmo que algumas tenham várias versões todas elas são verdadeiras, por isso, sempre que possível indicaremos a fonte.” (LiceoPiovesan)

A verdadeira história do Toni de brague fate sú.  Contada pelo Lino.

Muita gente já falou e com certeza vai falar ainda da devoção que o pai tinha pelo coro, aquela voz de baixo que fazia tremer as paredes. Quando ele cantava ninguém ficava indiferente. As Missas de Natal cantadas por ele, marcaram não só a minha vida, mas com certeza a de muitos. Parecia uma orquestra inteira de contrabaixos, dava um arrepio na gente quando ele abria o peito. Desta forma fica fácil de entender qual era a sua posição no coro ao lado esquerdo do altar, bem perto do celebrante ficavam as mulheres de primeira voz (sopranos) depois as de segunda voz (contraltos) depois os homens terceira voz (tenores) e finalmente a quarta voz (baixos) que ficavam mais visíveis para o público, pelo menos naquele tempo que tinha um estrado onde o coral ficava mais elevado, quase na altura do presbitério.

Também é preciso dizer que a igreja nunca foi um lugar de desfile de moda, pelo menos não na da Santissima Trindade, em Nova Palma, os fiéis iam para rezar e louvar a Deus. Ninguém reparava em como ou o que cada um vestia, mesmo assim, todos procuravam ir a missa com a melhor roupa que tinham, ‘la roba de andar messa’. Mesmo aqueles que andavam a semana toda descalços faziam questão de calçar sapatos aos domingos e dias santos para o momento de louvor a Deus, afinal para agradecer tantas bênçãos tudo tinha que ser o melhor. Inclusive o canto que tinha que ser impecável, perfeito.

Embora nem sempre e nem tudo fosse perfeito, como naquele ano que a enchente tinha levado rio abaixo a pinguela do Portela. Quem ia à missa a cavalo não tinha problemas, pois sempre usava o passo mesmo, mas quem ia a pé tinha que se submeter a uma cerimônia não muito agradável, tirar os sapatos e as meias, atravessar o passo do Portela e recolocar no outro lado. Isso não era diferente para a família Piovesan que morava no Bom Retiro. Era Natal e o pai, o Abel, a Eulália e a Odila, iam participar da missa do galo, cantada em latim a quatro vozes e tinham que ir a pé. Chegando ao passo do Portela tinha que tirar os sapatos, atravessar o rio e recolocar os sapatos no outro lado. As gurias tinham sofisticado a cerimônia levando uma toalha para enxugar os pés antes de recolocar os sapatos, mas o rio estava alto a água dava quase no joelho, para as mulheres não era grande problema, apesar de meio constrangedor, bastava puxar o vestido para cima e pronto. Para os homens era mais complicado, precisava enrolar bem para cima as calças, (far sú e brague) senão acabava molhando. O Toni fazia isto com maestria, pois gostava de ter os pés e pernas livres, estava acostumado a este ato, arregaçou as calças, atravessou o rio, secou os pés e recolocou os sapatos e lá se foram para a missa. Chegando quase em cima da hora tomaram suas posições no coro ao lado do altar e soltaram as vozes.

A celebração foi magnífica a perfeição e a harmonia da liturgia com o canto, contribuíram para a elevação dos corações em agradecimento ao criador que se fez humilde, frágil, pequeno e indefeso para o nosso bem. Tudo combinava magnificamente para mostrar o desapego, a humildade e a simplicidade do todo poderoso feito criança. A missa estava quase no fim e foi nesse momento que o pai se deu conta que estava na igreja, bem do lado do povo, com as calças arremangadas, ninguém tinha percebido este detalhe, e provavelmente não teriam notado se não fosse o nervosismo que tomou conta do cantor. Começou a esfregar uma perna na outra de um jeito estranho, se perder na música, mas conseguiu desarremangar as calças. Aliviado terminou sua tarefa de cantor com maestria, apesar de estar um tanto envergonhado com o ocorrido. Ele andava sempre com as calças arremangadas, mas na igreja, ele achava aquilo uma falta de respeito.

Terminada a missa, ele ainda meio sem graça foi se encontrar com os amigos no bar do Raimundo Aléssio, foi aí quer vários deles vieram lhe dizer que não tinham percebido nada até que ele começou com aquela inquietação. Chegaram a dizer que ninguém teria notado que ele tinha “e brague fate sú” se não fosse o nervosismo que demonstrou quando percebeu.

Primeira visita ao tio Bellé

O ano escolar ainda não tinha terminado no seminário do Braga, mas como eu sempre tinha boas notas e era por um motivo nobre, participar da primeira missa do Padre Reinaldo Piovesan, ganhei férias antecipadas. Tendo o Tio Achiles como guia e patrocinador, tomamos o ônibus para Nova Palma, era a primeira vez que eu ia para aquelas bandas. Ia conhecer um monte de primos que só conhecia por fotografia, os do tio Abel e Pio, e outros que conhecia só de nome, os da tia Ignes e da tia Maria. Vajamos na sexta-feira de tarde para chegar a Júlio de Castilhos, pernoitar e ir no sábado para Nova Palma para a missa solene do domingo.

Naquele tempo (como dizia o padre Guilherme velho quando começava o sermão, “in illo tempore”) não tinha celular, nem telefone, nem muitas outras coisas das quais somos dependentes hoje, e consequentemente não tinha como avisar as pessoas que estávamos chegando.  E foi assim que aconteceu começou a escurecer e ainda estávamos longe de Julio, eu estava muito inquieto mesmo estando com o tio que conhecia a cidade, mas, segundo ele, não lembrava bem onde tinha que descer. Descemos antes dos trilhos e voltamos um pouco, não sei se era de verdade ou se ele estava fazendo de conta pra me assustar, só sei que não estava reconhecendo a casa, até que chegamos numa casa perto de um monte de ferro velho, já era tarde da noite.

Eles cederam a própria cama aos visitantes cansados...

Eles cederam a própria cama aos visitantes cansados…

Batemos na porta e ouvimos uns ruídos característicos de quem está acordando não muito contente de ser acordado àquela hora, aberta a porta, os donos da casa se desfizeram em sorrisos e abraços de boas vindas. A tia preparou alguma coisa para comermos enquanto o tio Achiles contava as novidades de Jaboticaba e o tio Arlindo as de Júlio de Castilhos. Tomamos um belo banho para remover a poeira da estrada e aí é que veio a grande surpresa: o tio e a tia nos deram a sua cama para dormirmos, pois estávamos cansados da viagem.

No outro dia de manhã o tio nos mostrou a horta, o ferro velho e depois a cidade, demos uma passadinha no tio Eugênio, no tio Fernande Trentin e finalmente ele nos deixou na rodoviária onde íamos tomar o ônibus para Nova Palma.

O resto da história conto outro dia…