Uno e altro tanto – Um conto de Natal

Muitas das tradições que cultivamos tem suas raízes perdidas na história e nem sabemos mais de onde vieram, assim acontece com a maioria das tradições natalinas, tem até quem diga que a data do nascimento de Jesus foi adaptada de uma tradição pagã. Algumas delas são tradições criadas pelo comércio, originadas nas tentativas de imitar outros estados em especial aqueles que tem muito poder por serem unidos. Não que aqui não sejamos unidos, a união é uma tradição e em especial na família Piovesan dizem que nos casamentos deveria se dizer “na saúde e na doença, na paz e na desavença, na fé e na descrença e por ai vai…”

Hoje tentarei resgatar um pouco da origem da tradição de decorar a casa com anjinhos sobre o telhado. Eu sei que meus leitores devem estar pensando que me enganei e deveria ser o papai Noel, não, não é o papai Noel, este é uma invenção do comercio de brinquedos. Anjinhos, bem, pelo menos um está citado na bíblia em Lucas 2:9, no entanto logo depois fala-se de uma multidão do exército celeste que cantava, mas não diz que eram anjos e nem quantos. Pelo sim pelo não, um temos certeza, está na Bíblia. Então porque na nossa tradição de família são cinco anjos? Teremos que voltar uns anos na nossa história, mais precisamente para 1964, o ano das grandes mudanças e revelações de nossa história. Por exemplo neste ano é que foi abolido o ensino da língua francesa nas escolas públicas, não tinha interesse comercial. Mas, voltemos ao que interessa.

Só para provar que não gostamos de seguir regras: Esta foto é de 1979 da direita para a esquerda: (-Viu como vou começar virado) Tio Pio, o marceneiro; Tia Clementina, a mãe; Tarcísio, com a Janine no colo; na segunda fila a Cecília; a Catia; e a Marta, o bebê da história.

Se aproximava a data de comemorar o Natal, tradição já arraigada na cultura cristã ocidental, as famílias se organizam como podem para tornar a data festiva mais doce e alegre. Lembremos que as tradições comerciais ainda não estão presentes nas nossa famílias nesta época, até mesmo porque não tem dinheiro para comprar bugigangas mesmo.  Numa casinha humilde próxima a um barranco ao lado do rio Portela a santa Mãe cuida o bebê e com os poucos recursos procura fazer o máximo para festejar o Natal com a dignidade que a data merece, o pai, marceneiro, sim marceneiro não é o que estão pensando, carpinteiro era o pai de Jesus esta é outra tradição. Bem, em resumo: o pai estava trabalhando fora e a mãe se ocupava em preparar a festa de Natal. Naquele tempo ainda não tinha a tradição de peru, champanhe e outras. O Natal se celebrava da seguinte forma: A família toda ia para a missa do galo, aquela que é rezada a meia noite, a parte culminante da celebração, depois voltavam para casa, tomavam um chá com bolachas e iam para a cama. Como viram ainda não tinha sido institucionalizada comercialmente a ceia com fogos de artifício, peru, champanhe e outros quitutes que se usam atualmente. A preparação, na época, consistia em fazer as bolachas para o Natal com decoração especial, eram cobertas de clara de ovo batida em neve e salpicadas de açúcar colorido. Atualmente chamam de biscoitos de Natal, mas não são apreciados na ceia, deve ser porque é coisa de pobre. Vamos então ao que interessa:

A mãe preparava (os biscoitos) as bolachinhas de Natal, o bebê dormia no seu bercinho rústico, (na época rústico era necessidade e não moda) e os irmãozinhos brincavam na rua fazendo uma algazarra digna da família que não consegue ficar calada. Se alguém já bateu clara em neve a mão sabe o quanto demora e o tec tec repetido do garfo no prato chamou a atenção dos cinco, que pararam com a correria e se dirigiram ao interior da casa, mais ou menos como os reis magos, não em adoração ao bebê mas ao redor do prato do merengue. Por mais que a mãe se esmerasse para raspar tudo o que podia sempre restava um restinho que podia ser limpado com os dedos que seriam depois lambidos. Por algum tempo o silêncio reinou na casa e todos faziam o possível para serem notados como querendo ajudar a mãe, um embalava o bebê, outro organizava as bolachas em fileira nas formas,  outro ajudava passar o merengue, um espalhava o açúcar colorido e sempre sobrava um que tentava fazer uma das quatro tarefas. Até houve empurra empurra para tentar ajudar, as crianças dos sonhos de cada mãe, todos empenhados em aliviar seu trabalho, a mãe meio sem ter o que fazer pensava consigo: – Realmente criamos us anjinhos.

No entanto, sempre tem um no entanto, as verdadeiras intenções dos “anjinhos” era lamber o prato do merengue e quando terminasse a tarefa. Prontas as bolachas começou a disputa e imediatamente cinco dedinhos indicadores começaram a limpeza do prato. Bem, não era exatamente limpeza, cada um queria era uma parte do merengue sobrado pala lamber. Não tardou muito e a disputa se transformou em briga, na briga o bebê foi esquecido e com a gritaria começou a chorar. No desespero a mãe foi atender ao bebê, se não me engano com dois meses e pouco na época, o único consolo para a Martinha foi oferecer o peito e pelo menos ela parou de gritar. Quanto aos outros a disputa continuava e o único argumento da mãe foi: – Esperem eu terminar de dar mamá pra Marta que vocês vão ver a varinha. Todos largaram o prato, como que por magia, que quase caiu no chão, e a desavença terminou também como que por magia. Uma tábua do barranco ajudou e todos foram voando para cima do telhado, lá como não tinha muito o que fazer e não dava pra correr, a saída foi aproveitar o tempo para cantar. Descer, nem pensar enquanto a promessa da mãe estivesse de pé.

Já findava a tarde, as sombras se espichavam e o sol tomava um colorido avermelhado… Ah! Eu ia me esquecendo. Na época não tinha horário de verão. Se aproximava a hora do pai chegar do trabalho mas os cinco não se deram conta disso. A promessa da mãe não durava muito ela era como que um anjo de perdão, conseguia perdoar até as maiores traquinagens de seus pupilos, mas o pai… Bem, o pai era outra coisa. Ele chegou do trabalho, não estranhou a ausência da criançada, pois estava acostumado que ficavam brincando na rua até tarde, mas perguntou por elas assim mesmo.

– Onde estão as crianças?

– Subiram no telhado para não apanhar. Eu prometi dar umas varadas para pararem a bagunça ai eles fugiram.

– Como assim?

Assim ficou sabendo da história contada pela mãe que ainda se atarefava com a lida de tirar as bolachas do forno e cuidar da bebê. A tarefa de dar as varadas foi assumida por ele que pegou a vara de rabo-de-bugiu e saiu da casa,  a cantoria cessara.

– Acho que agora nem vale a pena dar as varadas… – Disse a mãe.

– Não! Se prometeu tem que dar para eles saberem que estamos de acordo com a educação deles. – Olhou pra cima e disse:

– Zô tutti quanti, uno par uno!

Os cinco não tiveram opção, descer um por um a terra, encarrar a realidade… e começou a sequência:

– Uno e un tanto… Due e un altro tanto… Tré e altro tanto… Quatro e altro tanto… Cinque e altro tanto…

Assim a fila chegou ao fim sendo que o altro tanto era uma quantidade de varadas que cada um merecia.

Até aqui ficou claro que colocar os cinco anjinhos cantando sobre o telhado da casa no Natal é uma tradição que surgiu na nossa família.

Um colega meu, também estudioso das tradições cristãs, chegou a aventar a ideia que o cajado do carpinteiro do presépio é uma alusão ao rabo-de-bugiu, mas infelizmente não conseguiu provar. Ele partia da cena da mãe com o bebê e o pai com a vara na mão. De fato é muito parecida a cena mas não tem elementos probatórios para afirmar que o presépio foi baseado nela.

De qualquer forma não temos dúvidas que a Elena, a Lucila, a Cecília, o Tarcísio e o Orácio costumavam subir no telhado, cantavam e faziam fila para apanhar. E segundo a tia Clementina eram uns anjinhos.

Tradição é tradição e não se fala mais nisso. Feliz Natal!

Encontro de família e a programação da máquina do tempo

Já se tornou um hábito achar um motivo para fazer uma reunião de família pelo umas duas vezes por ano. Pelo menos na dos descendentes do Lino e da Bazilides Piovesan. Os motivos, bem! Os motivos são pelo menos dois, tanto o pai como a mãe expressaram no leito de morte, o desejo que fizéssemos uma festa de família por ano, logo para satisfazer o desejo dos dois temos que fazer pelo menos duas. Nem sempre conseguimos reunir todos, mas quase sempre atingimos uma assiduidade da ordem de 94 a 97%, ou seja faltam apenas um ou dois descendentes. Além do motivo principal é claro tem os outros: se encontrar, por as histórias em dia, falar muito (esta é uma qualidade dos Piovesan), rir um pouco, fazer travessuras, rever os irmãos, primos, sobrinhos, etc., etc., etc…

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Para o aquecimento um futebolzinho

Eu já cheguei atrasado, o guarda do estacionamento só não me barrou porque eu era irmão do organizador da festa e cunhado da aniversariante. Ah! eu ia esquecendo este era mais um motivo para estarmos juntos. Bons dias, abraços, beijos, brincadeiras e já estava rolando um aperitivozinho, um tira gosto, degustação de butiás e jabuticabas da Leda, sem falsa modéstia, os butiás da casa dela são os melhores do mundo e ponto. Uma que outra criança aproveitava o campinho de futebol ao lado para correr atras de uma bola e eu absorto olhava a cena quando comecei a ouvir vozes…

  • Eu nunca fui bom jogador, nunca gostei muito de futebol…
  • Eu também não.
  • Eu joguei algum tempo de goleiro…
  • Eu gostava de ir aos torneios de caminhão…

Não me contive e me voltei para trás, de onde vinham as vozes e acrescentei;

  • Eu tinha posição fixa, era marrecão.
  • Marrecão tio! O que é isso?
  • É uma longa história, do tempo que os campos de futebol do interior ficavam nas várzeas perto de banhados…
  • É daí que vem a expressão futebol varzeano?
  • Sim! Mas esta é uma história muito longa que eu vou contar outro dia… <leia aqui>
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Escorregando no talude com um papelão

Dei corda na minha máquina do tempo, claro tenho que explicar o que é dar corda, a expressão significa carregar a bateria de energia mecânica que faz a máquina funcionar, pois bem! Dei corda na minha máquina do tempo e programei para retornar uns cinquenta anos. A programação da máquina é muito simples, instantânea, basta que uma imagem coincida com alguma guardada na memória e pronto. Além de instantânea a programação começa a vasculhar outras imagens do mesmo arquivo e pronto. Voltamos dez, vinte, cinquenta, ou até mais anos em uma fração de segundo. Eu mesmo já tenho voltado até mais de sessenta anos com esta máquina maravilhosa.

Voltei apenas cinquenta anos, acho que era o Ipiranga jogando com um time de Tiradentes. As moças de família gostavam de ir ver o futebol, pois naquela época era uma das poucas oportunidades de ver um rapaz de pernas de fora. Como eu não jogava nada não tinha este privilégio dos jogadores e por conseguinte não tinha a admiração das moças. Que chato! Mas eu era o marrecão, um piá levinho, magricelo, que conseguia correr por sobre os capins do banhado pra buscar a bola quando um fortão chutava um pouco mais forte e o goleiro não pegava. Lá ia o marrecão quase flutuando sobre o banhado e em alguns instantes a bola estava novamente em jogo. O bom da história é que lá no campo do Ipiranga o marrecão tinha uma vantagem: no banhado tinha muito guamirim e as moças gostavam de guamirim, só que depois de um ou dois jogos não havia mais nada ao alcance dos mortais comuns, só o marrecão conseguia chegar até as arvoretas com belos cachos de frutas maduras, aí as moças começavam a olhar para ele.

  • Bah! Não é pra esta história que eu queria voltar.
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… tinha que fazer uma ginástica para ficar sobre o papelinho.

É que no talude do campo de futebol algumas pessoas escorregavam com um papelão sobre a grama. Esta história é de uns cinquenta e cinco anos, como a chuva andava escassa a grama estava bastante seca e lisa e permitia um belo esporte, escorregar morro abaixo com uma casca de coqueiro, um pouco semelhante a brincadeira do talude, a lá fui eu. O papelão poderia ser grande o suficiente para uma criança de cinco ou seis anos, mas a máquina do tempo não nos

de carona com piloto experiente

de carona com piloto experiente

diminui, tive que me encolher o que deu para ficar sobre o papelão, mas a descida foi um sucesso. Em pouco tempo o número de crianças a escorregar aumentou que deu pra fazer fila, tinha piá dos dois aos sessenta e dois anos brincando, alguns mais inseguros andavam em duplas com um piloto experiente na frente, outros andavam em grupo, que tarde divertida!

Enquanto isso rolava uma partidinha de futebol dos sem camisa contra os com camisa, bem como naquela época, ao mesmo tempo alguns que não entraram nestas brincadeiras aproveitavam o tempo para o esporte preferido da família, contar histórias.

Além de todos os motivos citados acima num encontro como este descobrimos novos destinos para a nossa maravilhosa máquina do tempo.

O viajante já está dando corda, em breve partiremos para outros destinos…

Se beber, NÃO!

Epílogo

O sol já estava quase no seu ocaso, as sombras compridas desenhavam riscos brancos e pretos no chão, no gramado da frente da casa, os palanques das velha cerca com suas sombras formavam um desenho simétrico e organizado, enquanto as sombras das árvores destoavam um pouco. O filho com a roçadeira ia emparelhando e endireitando as sombras que se projetavam sobre o gramado. O pai e a mãe que saíram para a vila logo após o meio dia ainda não voltaram, a espera é como todas as outras. Um ruído um pouco estranho, no entanto, quebra a monotonia daquele entardecer. O velho corcel que vem tossindo lomba acima dá seu último suspiro e morre ao subir a rampinha da entrada da morada. O Leonidas deita de lado a roçadeira e vai ao encontro do velho corcel ano 1972, parado, que traz em seu interior o pai e a mãe que retornam da Vila Trentin onde havia missa naquele sábado à tarde. O pai tenta mais uma vez dar partida, mas a bateria não carregou o suficiente, as luzes ainda ligadas ostentam um brilho amarelado pálido e se apagam a cada nova tentativa de partida.

– Lani dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco. – grita o pai com a cabeça fora da janela.

O Leonidas se aproxima do carro, olha para dentro, e não vendo a mãe pergunta?

– Pai, onde ficou a mãe?

Só então o pai olha para o banco do caroneiro e percebe que a Bazelides não está lá e responde:

– Não sei.

O Lani então espicha o olhar para a estrada que se perde na curva após o direitão do tio Luís, e lá vem a mãe, a pé, já quase de língua de fora…

 

Prólogo – é o que acontece antes da história.

Devido a escassez de padres cada paróquia, e Jaboticaba não era exceção, só tinha um padre, e como o número de capelas é grande, o vigário se vê obrigado a fazer suas visitas pastorais até mesmo fora do dia do Senhor, o domingo. Nestas circunstâncias a capela dos Três Mártires, exatamente neste dia, tinha sua missa semanal no sábado à tarde. Para os cristãos católicos isto não era um problema desde que a obrigação da missa dominical passou a ser considerada em qualquer dia da semana. E, por conta disso, o casal saíra após o meio dia do sábado para cumprir a obrigação dominical.

A missa, independentemente do dia da semana em que era celebrada, tinha uma conotação religiosa e social, pois estando os filhos de Deus reunidos para a missa não custava ficar mais um pouco após ela para celebrar o encontro, a vida social. Esta segunda celebração podia ser um encontro de comadres para visitar uma amiga enferma, conhecer o nenê de outra, tomar um chimarrão, visitar uma idosa, até algo mais profano como atualizar os assuntos do momento. Entre os marmanjos o mais comum para os mais jovens era jogar um futebolzinho e entre os mais experientes caia sempre bem um carteado, muitas vezes acompanhado de uma ou umas rodadas do liso de purinha, outras vezes de biter amargo com conhaque ou até mesmo de um garrafãozinho de vinho, tudo dependia das circunstâncias.

No nosso sábado em questão a missa foi celebrada às 13 horas, uma solicitação da comunidade para possibilitar o convívio social no restante da tarde. Depois disso algum tempo de conversa com os amigos, saudar aqueles que chegaram atrasados e partir para a socialização.  O bar do Mauri fica bem perto da capela, é fácil ir lá, para os que vêm de carro até dá para deixar estacionado no pátio da capela, é o destino daqueles que praticam o carteado, trissete, cinquilho, bisca, pife ou canastra. E é claro, para ser completo com um traguinho pra molhar a garganta. Os mais jovens desaparecem rumo ao campo de futebol e todos os carros cochilam sozinhos a espera de seus condutores no pátio da capela. Todos não, o corcel marrom ano 72 está de olhos bem abertos, digo os faróis acesos.

O seu Lino vai até o bar em companhia do Gregório, do Valdomiro, do Elso e mais uns amigos para umas rodadas de cartas. A Bazelides vai com algumas amigas e primas visitar a tia Santina, assim passa a tarde, depois da missa continua o preceito bíblico, “onde dois ou mais estiverem reunidos…” O sol já cansado daquele dia comprido de início de verão se esconde, as vezes, por traz das nuvens, mas reaparece de novo mais tarde. Finalmente se escondeu por um tempo por trás das copas dos timbós do pátio da capela e reapareceu de novo, vermelho de vergonha, por entre os troncos das árvores. É hora de ir para casa, dona Bazelides se despede das primas e da tia e se dirige ao estacionamento, não sem antes passar pelo bar do Mauri para chamar o “pai” que se entretém com o baralho espanhol e um liso de pura.

Ele é obediente a não espera a rainha do lar chamar duas vezes, termina a rodada e se levanta, ou melhor se põe de pé, vai até a porta, meio duro “das cadeiras” por ter ficado muito tempo sentado. Pelo menos é o que ele diz. Saem os dois abraçadinhos, que lindeza.

Dali até o carro não é muito longe e o ombro da esposa é uma escora e tanto para contrabalançar o desequilíbrio da cachacinha sorvida durante o jogo. A “mãe” abre o carro e ele se aboleta atrás da direção, ela também embarca à direita do “pai”.

– Guuu, cof, cof! – diz o corcel quando o motorista tenta dar a partida. Mais uma vez:
– Guuu, cof, cof! e nada, as luzes ligadas acabaram a bateria.
– Mãe! Dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco.

A mãe desce e se põe a empurrar o veículo ainda bem que é meio ladeira.

– Crank, gruuuu, gruuu, – diz o corcel desta vez, e se põe a caminho de casa.
– Lino! Liiiino! – grita a mãe.

Nem o corcel nem o Lino ouviram os gritos dela, já estão a caminho de casa. Sem alternativa ela se põe a caminho, desta vez a pé, é um belo quilômetro de caminhada.

 

Epílogo do epílogo

– Não sei… não sei mesmo Lani.
– Pai tu esqueceu a mãe la na vila!
– Ah! Ela foi empurrar o carro pra pegar no tranco e não embarcou depois.
– Pai, o que é isso? Andou bebendo e passou da conta.
– Não! Só foi uns traguinhos…

Casa com o paiol ao fundo.

Casa com o paiol ao fundo.

Nisso a mãe já está chegando, o Lani dá um empurrãozinho pro carro pegar e desta vez vai até o meio do pátio. O motorista desce, apesar da falta de equilíbrio e desta vez é novamente apoiado pela esposa dedicada, só que desta vez não é na direção da casa…
– Mãe! Esta é a direção errada.
– Não, a direção errada foi quando me deixou lá na vila, por causa disso hoje vai dormir no paiol.

“Dolci in scarcella” e a netinha

A tradição de carregar doces no bolso já é bastante conhecida na família, principalmente pelas crianças, era uma forma de agradar que o nono nunca negligenciou.

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O episódio de hoje já é dos anos 70, a Leda já estava com uns cinco aninhos, numa das raras viagens que o nono e a nona fizeram para Jaboticaba. Eu disse rara porque a nona Elisabeth raramente viajava, lembro de apenas uma visita dela. Nesta em particular eu não estava em casa eles vieram para fazer uma espécie de férias em Jaboticaba onde moravam os filhos Lino e Achiles e os irmãos dela o tio Atílio e tio Aurélio Zanon. Eles ficaram quase uma semana e como o Toni não ficava muito tempo longe de um traguinho teve que achar um método de levar o ingrediente consigo, só que tinha um probleminha, a nona não gostava muito deste hábito, até porque tinha uma outra história, que será contada oportunamente, de ajudá-lo a atravessar a pinguela quando voltava da missa devidamente batizado. Como ele iria ficar alguns dias deslocado de seu ambiente natural, e evidentemente do bar do Alessio, resolveu utilizar o método largamente conhecido nos filmes de faroeste de levar o combustível num vidro chato, organicamente curvado para se acomodar ao bolso sem despertar suspeita, um vidro de Biotônico Fontoura.
Na visita ao Lino enquanto a nona, a nora Bazilides e o Lino tomavam chimarrão na cozinha ele saiu dar uma volta para “ver as plantas”, aliás um hábito que eu também tenho, só que não era exatamente para ver as árvores, quando chegou aos fundos da casa levou a mão discretamente ao peito, pelo lado de dentro do casaco e sacou a arma, digo o vidro, e sorveu um belo trago.

A netinha inocente

A netinha inocente

Quando abaixou os olhos viu a netinha Leda, que brincava na terra. Aí bateu o pânico, tomar bebida alcoólica escondido da esposa, e pior, na frente de uma criança, e se ela falasse… por via das dúvidas era preciso fazer algo.
Ha! “i dolci” – lembrou das balas que estavam no bolso. Tirou um belo punhado e ofereceu para ela, mas com uma condição, que não falasse e a “cachacetta”.
A Leda que não sabia do que se tratava achou um bom negócio aceitar as balas para ficar quieta, até porque nem sabia de que se tratava aquilo que ele havia bebido.
Muitos anos depois, até porque nos outros protagonistas já faleceram, a menina resolveu confessar a travessura do nono. Agora ela sabe que não era exatamente Biotônico que o vô tomava escondido…

Visita surpresa

Colhida nas memorias da Silvia

Já era tradição, na época das férias de julho, esperar a prima que vinha de Porto Alegre para passar as férias comigo. A tia Odila, tendo se criado na roça, não queria que a filha perdesse as oportunidades de conviver com aquele estilo particular de vida, por isso dava um jeito de avisar o pai que a Fabíola estava chegando para mais umas férias, sempre com alguns dias de antecedência.
No entanto algo estranho começava a acontecer no mês de julho de 1992, a primeira semana já se passara e não havia chegado a comunicação para buscar a prima na rodoviária. De qualquer forma se ela vem darão um jeito de avisar ou na pior das hipóteses ela vai até o tio Pio e algum dos guris traz ela. Normalmente o recado vinha por algum conhecido no domingo durante a missa, alguém que tinha telefone, é claro, aí eu ou um dos guris ia até a rodoviária esperar o ônibus.
Como já ia quase para o fim da segunda semana eu estava começando a ficar preocupada. A minha missão, durante as férias, era de passar o tempo todo brincando com ela e defendendo ela dos monstros que tinha ao redor da casa como: porcos, galinhas, trator, vacas, grilos, formigas e terneiros.
– Ah! Eu ia me esquecendo. Ela tinha medo de tudo o que se mexia. Menos da água pois adorava tomar banho no rio, mas tinha medo de pegar os peixes na mão quando a gente ia pescar, e minhoca então nem pensar.
Enquanto isso, na cabeça da Fabíola no, auge de seus 12 anos, se passava “é hora de deixar de ser tratada como criança, chega de ficarem andando de lá pra cá por minha causa”. Fabíola este ano faria uma surpresa para Sílvia, para nona e para o tio Abel. Fez a mãe pensar que tinha mandado o recado de sua chegada mas não mandou dizer nada seria a “Visita surpresa”, se não tivesse polenta que chega azar, mas o gostinho de aprontar uma arte compensaria. Com a passagem comprada até Santa Maria, onde a prima Rosália tinha a incumbência de esperar na rodoviária e embarcá-la para Nova Palma, teve mais que tempo para planejar como iria concretizar a sua surpresa.
Com a chega prevista para as 14 horas dava mais que tempo para ir a pé tranquilamente até a casa da nona antes que escurecesse. Por que para a Fabíola em Nova Palma todas as pessoas eram boas, ao contrário da Capital, onde deveria tomar cuidados com estranhos. Ia ser uma surpresa e tanto, quase seis horas de viagem para planejar nos mínimos detalhes a chegada. O embarque foi tranquilo, a mãe recomendou ao motorista o cuidado com a filha e principalmente o cuidado de entregá-la a um parente em Santa Maria. Na cabeça da mãe, em Nova Palma, seria o Abel ou a Silvia ou, talvez, um dos guris, que a pegariam na Rodoviária. Na cabeça da filha, todo mundo me conhece na rodoviária e quase todos são parentes lá. Seria uma quebra de rotina, um dispeto, como diria o tio Lino, coerente com as tradições familiares.
– Ah! O gostinho de fazer uma arte. O plano. Chegando na rodoviária vou direto a Casa do Tio Pio, ter um dedo de prosa com a prima Janine, depois, como já sou mocinha, posso ir andando e daí é só caminhar tranquilamente até lá e… surpresa! Tempo para imaginar cada detalhe não faltou afinal foram quase seis horas sozinha naquele ônibus. A chegada a Nova Palma foi sem incidentes, eram quatorze e pouco, foi a casa do tio Pio e papeou com a prima Janine, que já estava de saída. Então falou para a Janine,que iria aproveitar a saída dela e iria andando. Vejo vocês na missa do domingo. E lá se foi pela estrada principal carregando a maleta.
– Não precisa caminhar muito depressa pois a ‘tarde ainda é criança’, tem muito tempo. Que legal poder caminhar curtindo a paisagem, a estrada deserta. Neste horário todo mundo estava na lavoura e como o tempo estava, bom tem que aproveitar principalmente para carpir as lavouras.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Na época tinha dois caminhos para chegar na casa do tio Abel: seguindo pela estrada atravessando o rio na ponte nova e descendo de volta pela escola ou descendo pela trilha da estrada velha atravessando o rio pela pinguela improvisada, que era muito mais curto, só tinha o inconveniente da pinguela. É claro que a segunda opção foi a escolhida, até porque depois de uma caminhada destas qualquer metro a menos de estrada faz diferença. Já estamos quase lá é só passar a cerca caminhar uns duzentos metros pelo potreiro do Valdecir Rossato atravessar o rio e pronto… Surpresa! Chiii! a surpresa veio antes. Do outro lado da cerca estão passando pequenos monstros com chifres que fazem bééé. Meu Deus e agora? Passar rapidamente a cerca de volta e fazer a volta pela ponte. Mas é longe, dá mais de um quilômetro, a mala está pesada. Ainda bem que aquelas cabras malvadas estavam passando, daqui a pouco,elas se vão e eu posso ir tranquila.
O que a menina moça não contava é que as cabras estavam pastando e não passando, o que começou a aumentar significativamente o tempo de espera. Pelo menos, ali perto da cerca, tinha uma pedra grande que dava pra sentar. Mas já está ficando tarde e aqueles bichos perigosos não vão embora, será que estão esperando uma vítima? Eu é claro. O sol começava a se pôr e logo iria escurecer. As cabras pastantes, seguiram a sua trilha e liberaram o caminho para a Fabíola seguir viagem …
– Ah, que alívio! – Agora posso ir e tem que ser depressa antes que anoiteça.
Fabíola Imaginou que teriam se passado varias horas, mas apos o episodio ao olhar no relógio percebeu que somente havia transcorrido míseros 20 minutos.
A panela da polenta já está com a água quase fervendo, a mãe, o pai e a nona tomam chimarrão na cozinha. Um dos guris está tirando água do poço. Os cachorros começam a latir como quando fazem festa para algum conhecido. Ouvimos um grito desesperado:
– Siiiiilvia! vem me salvar destes monstros que estão me atacando! Surpresa! é a Fabíola que chegou sem avisar.

A mula que não queria rezar

O Carlos já estava se sentindo o máximo com a história de matar a catequese e foi aí que me caiu no colo outra história que coloca a dele no bolso, ele não foi o primeiro na família…
Não sei se o numero três é mágico, mas tem a ver com as aventuras ligadas a catequese na família. Foi lá pelo ano de 1909 (três vezes três), os três filhos mais velhos do Giovanni Marco já estavam na idade de frequentar a catequese, nesta época já moravam na costa do Portela no caminho de Linha Base. A moradia ficava uns três quilômetros da matriz, uma distância um pouco grande para ser percorrida a pé pelas crianças, daí a opção de ir à cavalo, ou melhor à mula. A “mussa vecchia” era o meio de transporte dos irmãos, Beppi, Ângelo e Toni. Logo após o meio dia os três montavam a “mussa” e rumavam para a igreja para as aulas de catequese.

A “mula velha” era um animal extremamente pacífico e tranquilo, cobria o trajeto em aproximadamente quarenta minutos, ou seja, um pouco mais devagar do que um adulto anda a pé. A viagem era muito tranquila e permitia a contemplação da natureza no decorrer da mesma. Depois de ir e vir muitas vezes, o caminho já decorado, começava a perder a graça e a catequese, bem a catequese era uma obrigação, um compromisso, e apesar da educação religiosa e rigorosa, às vezes batia aquela vontade travessa de fazer algo diferente aos domingos à tarde. Achar uma desculpa plausível e razoável para faltar a catequese passou a ser uma tarefa dos meninos.

Licéia, Lucidio e Léia montados na tostada do tio Marcelino, um arranjo comum desde a época do meu avô, andar três ou mais crianças no cavalo. No finalzinho do vídeo eu e a Licéia no alazão do tio Aquiles.

Licéia, Lucidio e Léia montados na tostada do tio Marcelino, um arranjo comum desde a época do meu avô, andar três ou mais crianças no cavalo. No finalzinho do vídeo eu e a Licéia no alazão do tio Aquiles.


Não demorou muito, na observação do comportamento da mula eles descobriram que ela não gostava de ser contrariada, como por exemplo, ser acelerada, qualquer forma de instigação para que andasse mais de pressa ela fazia o contrário, parava. Empacava, e a partir disso não se mexia mais e se batessem nela, baixava a cabeça, se ajoelhava com as patas da frente e derrubava a gurizada no chão. O método, para matar a catequese, passou a ser: apertar os calcanhares na barriga dela para que ela parasse e a partir daí continuar tentando fazer ela andar até que ela decidisse derrubar o grupo, preferencialmente num lugar com barro. Sujos não tinham outra roupa para vestir aí não poderiam ir para a catequese, culpa da mula que tinha a mania de se ajoelhar.

O arrodeador de bandeira

Não fui capaz de determinar com precisão de onde surgiu o termo “bandeira” para designar o monte de espigas de milho colhido. Um costume ancestral na colheita do milho consiste em calcular o centro de um quadrado de lavoura de mais ou menos 6 braças (13,32 metros) de lado, colher as espigas neste centro deitar as canas, (hastes do pé de milho) e depois ir colhendo ao redor e jogando o milho no ponto inicial até ter um monte de espigas, conhecido como bandeira. Em biologia a ponta da haste terminada num penacho ou pendão, a flor masculina, é também chamada de bandeira. O ato de colher as espigas e deitar a haste também é chamada de deitar bandeira, talvez venha daí o nome bandeira para o monte de espigas colhidas. Até aqui apenas definimos o monte de milho colhido que depois era carregado na carroça, ou gaiota no caso do Lino, para ser levado para casa.
Gaiota, dirigida pela Leda, uns 15 anos após o episódio narrado.Quando fazia tempo bom era urgente a colheita para aproveitar o milho bem seco que durava mais no paiol, por isso era comum pedir ajuda de algum vizinho para acelerar a colheita, o nosso vizinho era, em geral, o seu Generoso, naquele dia pela manhã o Léo e eu estávamos na aula, O pai e o vizinho trabalharam desde bem cedinho, o tempo estava bom, e ao meio dia já carregaram uma gaiotada de milho que foi descarregada logo após o almoço. Em seguida voltaram para a lavoura, aquela que ficava entre o canavial e as fontes, desta vez o Léo e eu fomos juntos. Quase quatro horas tinha milho suficiente para carregar uma carga. Carregamos e o pai foi para casa descarregar e trazer a merenda, o chá das quatro. Um bule com chá de mate com leite e fatias de pão com chimia. Na volta além do lanche o Leonildo veio de carona, ele tinha na época uns oito anos, já participava de muitas atividades na lavoura, mas quebrar milho exigia bastante força nas mãos então ele ajudava mais no serviço de carregar.
Para fazer render o serviço, seu Generoso começava a bandeira um pouco mais longe, umas 10 braças, aí eu e o Leo íamos colhendo perto da bandeira e ele e o pai iam pelas beiradas, pois tinham mais força para atirar as espigas longe. Ele gostava de usar este método pois facilitava também na hora de recolher porque tinha montes (bandeiras) maiores o que significava menos paradas para carregar. Só tinha um inconveniente, em função da distância o milho ficava um pouco mais esparramado. Para resolver o problema bastava dar uma volta ao redor da bandeira jogando as espigas mais distantes para o centro, este trabalho se chamava “arrodear a bandeira.”
Estávamos no finalzinho do verãozinho de maio, os dias já começavam a encurtar prenunciando o inverno e tinha umas nove bandeiras para carregar e faltava um trecho pequeno para terminar a lavoura. Seu Generoso queria terminar a empreitada e o Léo e eu ajudávamos ele, o pai começava a carregar, e o dia ia chegando ao fim. As bandeiras ainda não tinham sido arrodeadas, o que dificultava o trabalho do pai, e iria dificultar mais ainda com o crepúsculo. Foi aí que seu Generoso pediu que o Leonildo arrodeasse as bandeiras enquanto nós terminávamos de quebrar o restinho do milho. O Leonildo respondeu prontamente a solicitação até porque não ficava bem desobedecer o vizinho, e lá se foi ele. Já começava a escurecer quando colhemos as últimas espigas, fomos então ajudar o Leonildo antes que escurecesse de vez. Passamos pela primeira e achamos muito milho esparramado, seu Generoso não disse nada, juntamos as espigas esparramadas e amontoamos no centro e fomos adiante. Na outra também tinha muito milho esparramado, aí ele falou que achava que o guri não estava enxergando direito. Repetimos a cena e quando caminhávamos para a terceira vimos uma cena que fez com que seu Generoso não parasse de rir por uma boa meia hora… O “arrodeador de bandeira” chegava naquele momento à quinta, e começava seu trabalho, deu uma volta pela esquerda e não satisfeito outra pela direita sem juntar uma espiga sequer e se foi em direção a próxima bandeira. Ele estava arrodeando as bandeiras… O Seu Generoso caiu na gargalhada. O Leonildo estava cumprindo ao pé da letra a ordem dada.

Os figos sagrados (modificado)

Já no final dos anos 50 o Toni começou a apresentar um problema de visão, até foi ventilado que provavelmente se tratava de cegueira noturna. Provavelmente era apenas um quadro de avitaminose A que fazia com que ele tivesse dificuldade de enxergar na penumbra. Por esta razão comprou uma égua a Zaina para ir aos ensaios de canto do padre Afonso Correa. Apesar disso o Bernardo não concorda muito com esta afirmativa.
Pelo sim pelo não uma das teteias do nono eram as frutas que ele cultivava, o parreiral sempre era mantido impecável, as laranjeiras da frente da casa, definiam o limite do terreiro, as bergamoteiras se espalhavam por diversos lugares e a figueira… Bem a figueira mesmo dando frutos sem vitamina, e por consequência, inócuos para a questão da cegueira noturna, a figueira era cuidada com um zelo especial, por duas razões: as folhas quando colocadas no alambique para destilar a cachacinha davam um sabor especial e os figos, estes eram um manjar dos deuses, que ele cuidava para que amadurecessem no pé, pois assim ficavam mais doces. Só quem já comeu um figo colhido totalmente maduro sabe o que é degustar uma delícia, diga-se de passagem, mais uma dádiva sagrada deixada pelo criador aos mortais.
No entanto um grande problema para os adoradores de figos, eu também sou um deles, é que muitos passarinhos e até aves maiores também tem uma atração especial por esta fruta e por isso é preciso vigilância constante ou alguns truques para poder saborear figos maduros. No Bom Retiro, no ano de 1963, atrás da casa, a figueira do Toni não era exceção à regra, passarinhos tentavam degustar os figos antes do proprietário, e se já não bastasse isso o galo de terreiro descobriu o sabor da tão cobiçada fruta e começou também ele a se banquetear pousado nos galhos da figueira. O Toni já enfrentava a gula das galinhas que atacavam os cachos mais baixos da uva e agora tinha que enfrentar o galo que também queria dividir a produção da figueira.
Como método para desestimular os comensais indesejados ele desenvolveu a técnica de jogar pedras, juntava alguma pedrinha com a canhota e jogava de forma certeira. Na maioria das vezes, depois de uma ou duas pedradas a ave aprendia que aquele era território proibido, o mesmo aconteceu com o galo comedor de figos. Mesmo assim os figos continuavam a desaparecer antes de estarem maduros no ponto que ele esperava. Chegou a passar quase o dia todo a vigiar a dita árvore e não conseguiu descobrir como galo conseguia roubar-lhe os figos, a esta altura já estava a desconfiar que pudesse ser um galo astuto treinado pelo Lino para fazer sacanagem, mas o Lino já estava fora há mais de 10 anos, talvez outro estivesse treinando o galo, de qualquer forma não era de dia que os figos eram roubados. A menos que o galo se recolhesse ao anoitecer e depois voltasse para comê-los. Já tinha passado e repassado todas as hipóteses e não chegara a nenhuma conclusão.
Já começava a anoitecer e as galinhas já estavam recolhidas, o Toni se dirigia à cozinha, onde a Nona preparava a água da polenta, quando ele ouviu um ruído vindo de trás da casa. (PS.:) Não esperou nenhum segundo e foi correndo em direção à árvore do paraíso, um vulto escalava a figueira em direção aos frutos quase amadurecidos. Neste momento precisava manter o sangue frio, já tinha sido afrontado por demais pelo galo de terreiro. Juntou uma bela pedra do chão e pensou consigo mesmo: – Quá comando mi. (Aqui eu mando). Ajustou da melhor forma a pedra na mão esquerda e lançou com vontade…

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

Foto da família aproximadamente da época do fato. Toni de chapéu e Bernardo um dos meninos de cócoras.

O pobre bicho deu um grito e despencou galhada abaixo, mas não era um galo. Xi acho que houve um problema! Foi até a figueira e não conseguindo ver direito arrastou o animalzinho desacordado até onde havia luz. Alertados pelo grito estranho já correram para fora o Abel, a Alzira e a Isa, ainda com a mescola da polenta na mão e uma lamparina. Era o Bernardo, meio desacordado e com um baita galo no meio da testa causado pela pedrada do nono. Galo! A esta altura o Toni não queria mais saber de ouvir falar em galo.

PS.: Quando o Bernardo leu a história ficou intrigado, pois não se lembra o que o nono disse ou fez para que ele descesse da figueira, agora só nos resta a confirmação ou a alteração da história pela tia Alzira. Isto modificaria o final da história, caso não tivermos nenhuma outra informação vou manter este final que combina com o estilo da família de reescrever finais para as histórias como o nono, o pai, o tio Pio e o tio Abel faziam magistralmente.

Abraço de tamanduá

Corria o ano de 1910 tranquilamente o quinteto de irmãos Bepetto, Ângelo, Toni, Valentin e Augustinho aproveitavam a entrada do inverno, quando a bicharada fica mais lenta por causa do frio, para perambular pelos matos e peraus. A vantagem de morar perto da floresta estacional semidecidual, isto é aquela onde algumas árvores derrubam as folhas no inverno, era que no inverno era mais fácil de circular pelo meio da mata e também mais fácil de encontrar animais. O Bepeto já tinha quatorze anos e o menorzinho o Augustinho já ia fazer seis e já acompanhava a trupe, porque não queria ficar em casa com a mãe gravida, a irmã e os menores o Guido e o Francisco. De qualquer forma as atividades não eram lá muito perigosas para uma criança, não tinha grandes animais ferozes nos matos daqueles peraus do vale do Portela. Certamente o Valentin e o Augustinho tinham certas dificuldades para subir em árvores pelos cipós, mas isso não era o problema quando se tratava de alguma caçada.

Peraus da costa do Portela mais de cem anos depois ainda  cobertos de mato

Peraus da costa do Portela mais de cem anos depois ainda cobertos de mato

Domingo de manhã o Giovanni levantava cedo para percorrer a pé os quase dois quilômetros para cantar a missa. A filharada ia de tarde para a catequese, pelo menos os três mais velhos. Neste contexto eles aproveitavam para fazer uma saída aventuresca na parte da manhã enquanto o pai não estava em casa. Uma atividade bastante divertida era (castrare le bisse), castrar as cobras. Isso mesmo, eles chamavam assim a atividade de pegar as cobras com uma taquara apertando levemente logo atrás da cabeça, depois um deles pegava a cobra bem pertinho da cabeça de tal forma que ela não conseguisse se virar e morder. A cobra abria a boca tentando morder e outro cortava a parte de baixo, a mandíbula, da cobra que era solta e saia se debatendo desesperadamente. Isso era feito para que a cobra não pudesse morder mais ninguém, segundo eles desta forma não matavam a cobra e eliminavam o perigo.
Quanto aos bugios a coisa era diferente, pois destes eles nem conseguiam chegar perto, quando se aproximavam os danados faziam as necessidades fisiológicas na mão e atiravam nos agressores, e o cheiro não era nada bom. Por um lado era muito engraçada a estratégia de defesa, por outro isso dava uma boa ideia, mas deixa pra lá essa é outra história. Quando a saída é para caçar tem que trazer algum animal para casa e nem cobras nem bugios eram boas ideias. Sobrava os tamanduás, só que os tamanduás tinham garras afiadíssimas que podiam matar uma criança como eles caso desse um “abraço de tamanduá”.
Quando um tamanduá é agredido ele de apoia na cauda e patas traseiras, levanta-se como se estivesse de pé, abre os braços e quando o agressor se aproxima joga-se contra ele abraçando-o fortemente e cravando as unhas (garras) nas costas do agressor, podendo matar até mesmo um animal bem maior do que ele. Mas como falei anteriormente era frio e nesta época todos os animais ficam mais lentos, inclusive os tamanduás.
Grandes conhecedores dos hábitos e costumes dos animais selvagens, porque conviviam mais com estes do que com outros humanos, os irmãos Piovesan desenvolveram técnicas especializadas para a captura dos mais diversos animais que viviam nos matos e peraus que frequentavam. Uma era para tamanduás.
A técnica exigia um ferramental específico: uma taquara com uns dois metros ou mais e um toco de madeira, meio apodrecida, de mais ou menos um metro de comprimento por uns 25 centímetros de diâmetro. A estratégia consistia em provocar o animal com a taquara, cutucar, assim ele assumia a posição de defesa que na verdade era a posição de ataque. Fazendo bastante barulho eles, menos um, ficavam na frente do animal provocando-o até ele ficar no ponto de atacar. O Piovesaneto que não ficava provocando o bicho fazia uma volta por trás sem ser notado carregando o toco de madeira, num determinado momento, que eles conheciam por experiência o toco era passado sobre a cabeça do animal e colocado em sua frente. O tamanduá agarrava-se firmemente no toco cravando suas garras e ficando preso.
A piazada então tomava o caminho da casa, carregando o toco com o tamanduá, inofensivo por estar abraçado firmemente ao toco. Isso é um abraço de tamanduá.

Uma história para ficar na história…

Há 14 anos na primeira festa dos Piovesan, os descendentes de Giovanni Marco, em Frederico Westphalen, Um maluco subiu ao palco para fazer um agradecimento e expôs uma ideia simples:
– O livro da genealogia está perfeito, foi uma pesquisa exaustiva e bem conduzida que resultou numa obra de valor incalculável como documento histórico. Agora é hora de começar outro, com aquilo que os Piovesan sabem fazer de melhor, “contar histórias”, histórias do pai, dos tios, dos avós, enfim aquela história viva que se renova a cada vez que é contada, que muda as versões de acordo com os sonhos e a visão de cada um, a história viva.
O maluco daquela hora era eu.
A partir de lá fui espalhando a ideia e a vontade de fazer algo que se identificasse, principalmente com o que eu conhecia do nono, o “Toni Torccio”, e de meu pai, o “Tio Lino”, que contava histórias e era capaz de transformar qualquer pequeno incidente do dia a dia numa bela história. Falei muito desta ideia com os tios Abel, Pio, Eulália, Thereza, Maria e Odila, todos foram simpáticos com a ideia, mas me faltava coragem para começar e a história estava quase sendo esquecida.
Em Janeiro de 2010, uma Piovesan, mais maluca do que eu, praticamente organizou sozinha a festa dos descendentes do “Toni Torccio”, nesta época já era de domínio público o desejo de ter um livro das histórias da família. A partir daquela beleza de festa não foi difícil de convencer a Silvia a assumir a frente da história, que continuava ainda no mundo das idéias.

A família Toni Torccio por ocasião dos votos da irmã Thereza. Da esquerda para a direita: Maria, Odila, Achiles, Toni, Pio, Thereza, Lino, Elizabeth, Abel, Eulália e Ignes.

A família Toni Torccio por ocasião dos votos da irmã Thereza. Da esquerda para a direita: Maria, Odila, Achiles, Toni, Pio, Thereza, Lino, Elizabeth, Abel, Eulália e Ignes.

Fizemos uma reunião na casa da tia Odila para dar o pontapé inicial ao livro, finalmente com a doença do tio Pio, a ideia veio com toda a força e a Silvia, que já estava coletando dados e histórias prometeu a ele que o livro sairia.
Desde então a Silvia e eu, com algumas colaborações estamos fazendo o livro acontecer, mas… sempre existe um mas. Se não tivermos a colaboração de vocês primos, não teremos histórias para contar e o livro vai se resumir na história do tio Abel e do tio Lino e naquilo que conhecemos e ou eles contaram de suas famílias. Está na hora. Enviem-nos histórias de suas famílias, de quando vocês eram crianças, de como viviam seus pais e irmãos, de como era sua casa, sua vida. Não se preocupem com a qualidade do texto, mas mandem detalhes e se tiverem fotos, nos faremos as correções e adaptações necessárias para editar a “História da família Toni Torccio” que é a história de suas vidas.
Este Blog é nosso ponto de encontro façam comentários que anexaremos à história. Também podem mandar textos para o Facebook, anexo em mensagens ou por e-mail.