Sobre Liceo Piovesan

Um contador de histórias

Uno e altro tanto – Um conto de Natal

Muitas das tradições que cultivamos tem suas raízes perdidas na história e nem sabemos mais de onde vieram, assim acontece com a maioria das tradições natalinas, tem até quem diga que a data do nascimento de Jesus foi adaptada de uma tradição pagã. Algumas delas são tradições criadas pelo comércio, originadas nas tentativas de imitar outros estados em especial aqueles que tem muito poder por serem unidos. Não que aqui não sejamos unidos, a união é uma tradição e em especial na família Piovesan dizem que nos casamentos deveria se dizer “na saúde e na doença, na paz e na desavença, na fé e na descrença e por ai vai…”

Hoje tentarei resgatar um pouco da origem da tradição de decorar a casa com anjinhos sobre o telhado. Eu sei que meus leitores devem estar pensando que me enganei e deveria ser o papai Noel, não, não é o papai Noel, este é uma invenção do comercio de brinquedos. Anjinhos, bem, pelo menos um está citado na bíblia em Lucas 2:9, no entanto logo depois fala-se de uma multidão do exército celeste que cantava, mas não diz que eram anjos e nem quantos. Pelo sim pelo não, um temos certeza, está na Bíblia. Então porque na nossa tradição de família são cinco anjos? Teremos que voltar uns anos na nossa história, mais precisamente para 1964, o ano das grandes mudanças e revelações de nossa história. Por exemplo neste ano é que foi abolido o ensino da língua francesa nas escolas públicas, não tinha interesse comercial. Mas, voltemos ao que interessa.

Só para provar que não gostamos de seguir regras: Esta foto é de 1979 da direita para a esquerda: (-Viu como vou começar virado) Tio Pio, o marceneiro; Tia Clementina, a mãe; Tarcísio, com a Janine no colo; na segunda fila a Cecília; a Catia; e a Marta, o bebê da história.

Se aproximava a data de comemorar o Natal, tradição já arraigada na cultura cristã ocidental, as famílias se organizam como podem para tornar a data festiva mais doce e alegre. Lembremos que as tradições comerciais ainda não estão presentes nas nossa famílias nesta época, até mesmo porque não tem dinheiro para comprar bugigangas mesmo.  Numa casinha humilde próxima a um barranco ao lado do rio Portela a santa Mãe cuida o bebê e com os poucos recursos procura fazer o máximo para festejar o Natal com a dignidade que a data merece, o pai, marceneiro, sim marceneiro não é o que estão pensando, carpinteiro era o pai de Jesus esta é outra tradição. Bem, em resumo: o pai estava trabalhando fora e a mãe se ocupava em preparar a festa de Natal. Naquele tempo ainda não tinha a tradição de peru, champanhe e outras. O Natal se celebrava da seguinte forma: A família toda ia para a missa do galo, aquela que é rezada a meia noite, a parte culminante da celebração, depois voltavam para casa, tomavam um chá com bolachas e iam para a cama. Como viram ainda não tinha sido institucionalizada comercialmente a ceia com fogos de artifício, peru, champanhe e outros quitutes que se usam atualmente. A preparação, na época, consistia em fazer as bolachas para o Natal com decoração especial, eram cobertas de clara de ovo batida em neve e salpicadas de açúcar colorido. Atualmente chamam de biscoitos de Natal, mas não são apreciados na ceia, deve ser porque é coisa de pobre. Vamos então ao que interessa:

A mãe preparava (os biscoitos) as bolachinhas de Natal, o bebê dormia no seu bercinho rústico, (na época rústico era necessidade e não moda) e os irmãozinhos brincavam na rua fazendo uma algazarra digna da família que não consegue ficar calada. Se alguém já bateu clara em neve a mão sabe o quanto demora e o tec tec repetido do garfo no prato chamou a atenção dos cinco, que pararam com a correria e se dirigiram ao interior da casa, mais ou menos como os reis magos, não em adoração ao bebê mas ao redor do prato do merengue. Por mais que a mãe se esmerasse para raspar tudo o que podia sempre restava um restinho que podia ser limpado com os dedos que seriam depois lambidos. Por algum tempo o silêncio reinou na casa e todos faziam o possível para serem notados como querendo ajudar a mãe, um embalava o bebê, outro organizava as bolachas em fileira nas formas,  outro ajudava passar o merengue, um espalhava o açúcar colorido e sempre sobrava um que tentava fazer uma das quatro tarefas. Até houve empurra empurra para tentar ajudar, as crianças dos sonhos de cada mãe, todos empenhados em aliviar seu trabalho, a mãe meio sem ter o que fazer pensava consigo: – Realmente criamos us anjinhos.

No entanto, sempre tem um no entanto, as verdadeiras intenções dos “anjinhos” era lamber o prato do merengue e quando terminasse a tarefa. Prontas as bolachas começou a disputa e imediatamente cinco dedinhos indicadores começaram a limpeza do prato. Bem, não era exatamente limpeza, cada um queria era uma parte do merengue sobrado pala lamber. Não tardou muito e a disputa se transformou em briga, na briga o bebê foi esquecido e com a gritaria começou a chorar. No desespero a mãe foi atender ao bebê, se não me engano com dois meses e pouco na época, o único consolo para a Martinha foi oferecer o peito e pelo menos ela parou de gritar. Quanto aos outros a disputa continuava e o único argumento da mãe foi: – Esperem eu terminar de dar mamá pra Marta que vocês vão ver a varinha. Todos largaram o prato, como que por magia, que quase caiu no chão, e a desavença terminou também como que por magia. Uma tábua do barranco ajudou e todos foram voando para cima do telhado, lá como não tinha muito o que fazer e não dava pra correr, a saída foi aproveitar o tempo para cantar. Descer, nem pensar enquanto a promessa da mãe estivesse de pé.

Já findava a tarde, as sombras se espichavam e o sol tomava um colorido avermelhado… Ah! Eu ia me esquecendo. Na época não tinha horário de verão. Se aproximava a hora do pai chegar do trabalho mas os cinco não se deram conta disso. A promessa da mãe não durava muito ela era como que um anjo de perdão, conseguia perdoar até as maiores traquinagens de seus pupilos, mas o pai… Bem, o pai era outra coisa. Ele chegou do trabalho, não estranhou a ausência da criançada, pois estava acostumado que ficavam brincando na rua até tarde, mas perguntou por elas assim mesmo.

– Onde estão as crianças?

– Subiram no telhado para não apanhar. Eu prometi dar umas varadas para pararem a bagunça ai eles fugiram.

– Como assim?

Assim ficou sabendo da história contada pela mãe que ainda se atarefava com a lida de tirar as bolachas do forno e cuidar da bebê. A tarefa de dar as varadas foi assumida por ele que pegou a vara de rabo-de-bugiu e saiu da casa,  a cantoria cessara.

– Acho que agora nem vale a pena dar as varadas… – Disse a mãe.

– Não! Se prometeu tem que dar para eles saberem que estamos de acordo com a educação deles. – Olhou pra cima e disse:

– Zô tutti quanti, uno par uno!

Os cinco não tiveram opção, descer um por um a terra, encarrar a realidade… e começou a sequência:

– Uno e un tanto… Due e un altro tanto… Tré e altro tanto… Quatro e altro tanto… Cinque e altro tanto…

Assim a fila chegou ao fim sendo que o altro tanto era uma quantidade de varadas que cada um merecia.

Até aqui ficou claro que colocar os cinco anjinhos cantando sobre o telhado da casa no Natal é uma tradição que surgiu na nossa família.

Um colega meu, também estudioso das tradições cristãs, chegou a aventar a ideia que o cajado do carpinteiro do presépio é uma alusão ao rabo-de-bugiu, mas infelizmente não conseguiu provar. Ele partia da cena da mãe com o bebê e o pai com a vara na mão. De fato é muito parecida a cena mas não tem elementos probatórios para afirmar que o presépio foi baseado nela.

De qualquer forma não temos dúvidas que a Elena, a Lucila, a Cecília, o Tarcísio e o Orácio costumavam subir no telhado, cantavam e faziam fila para apanhar. E segundo a tia Clementina eram uns anjinhos.

Tradição é tradição e não se fala mais nisso. Feliz Natal!

Mamma mia

Mamma mia!

Eu sempre me senti bastante Trentin, apesar de ter o sobrenome Piovesan, por isso comecei a refletir sobre a riqueza cultural da família para tentar descobrir como foi se dando, no decorrer das gerações este crescimento. Afinal de contas como é que as famílias Piovesan vão diversificando e enriquecendo a cultura familiar? Tentando achar uma hipótese explicativa para o fenômeno conclui que estava dentro de casa. As tias Piovesan que me perdoem, eu as amo muito, mas  vou falar um pouco daquelas que foram escolhidas para serem as mães dos Piovesan.

Quando a nona Eliza foi escolhida, pelo que sei era porque a moça era Filha de Maria e certamente bastante religiosa, portava valores familiares, participava das atividades da sociedade, liderava o grupo pois carregava o estandarte, capaz de se ajoelhar e rezar e além de tudo era bonita. Tentarei analisar por partes, que valores o Toni viu naquela moça que eram importantes para a família que ele queria constituir?  Na época as moças não tinham muitas opções de socialização ainda não chegara o ano de 1922, as opções para elas era ficar em casa, ir à missa no domingo e ficar em casa o resto do dia, eventualmente acompanhar a mãe a uma visita nas vizinhanças e aprender as artes das prendas domésticas, bordado, crochê, tricô e cuidar da casa.  Participar de um movimento organizado como as Filhas de Maria era uma forma de integrar-se a sociedade feminina, da mesma faixa etária para troca de experiências, que experiências? O que almejavam estas senhoritas? Formar uma família? Repetir a sina de suas mães? Me dá vontade de chorar quando penso nisso…

O que tem de diferente uma moça que carrega o estandarte? Ela pode estar reproduzindo o padrão, mas acho que não, ela carrega o estandarte porque lidera, ela lidera porque quer algo diferente, ela quer algo diferente porque quer mudar. Não importa o que e como, mas é preciso mudar, evoluir, dar o melhor de si para agregar valores. Que valores? Os valores de uma moça que sabe se ajoelhar e reconhecer sua pequenez diante do criador, que carrega o estandarte da liderança e não esquece a humildade. Que resplandece a beleza interior como seu vestido branco. Que traz a determinação dos Zanon no sangue. Que sabe o que quer, que é positiva, que sabe se impor na hora certa, que carrega consigo os valores sociais, religiosos e familiares de seu tempo, mas que sobretudo quer ir além…

Porque isto encantou o Toni? Tão diferente, extrovertido, um tanto inconsequente, trabalhador habilidoso e criativo, mas segundo alguns um ‘bom vivant’, religioso também, mas acima de tudo comprometido com a parte mais festiva da religiosidade da época. Ao escolher uma mãe para seus filhos ele queria não alguém igual a si, mas aquela moça que acrescentaria valores e qualidades à família. “Mamma mia” matei a charada. A mãe é aquela que por ser completa e diferente acrescenta qualidades, valores, habilidades e criatividade a nova família. É na soma que se constitui a evolução.

Assim cada Piovesan soube ao longo do tempo acrescentar qualidades à família, vejamos pela ordem dos acréscimos. A tia Pierina, minha madrinha, creio que foi escolhida pela qualidade dos Rossato que é a persistência ao mesmo tempo que ela representa a mulher forte também trazia a bondade e uma forma de conduzir a família mais leve que o tio, ele era o mais sério da família, segundo minha avaliação. E segundo as crianças muito severo em seus castigos. Já a segunda foi a tia Bazilides, minha mãe. Desde o primeiro encontro foram seis anos cultivando um namoro a distância, no tempo que a unica forma de comunicação eram as cartas. Acho que um dos motivos da escolha foi esta intelectualidade que acompanhava as famílias Trentin, uma curiosidade que completava admiravelmente o lado prático do pai. Mas outras qualidades complementares constituíram a família, ele falava com os animais, ela com as plantas, ela não sabia dizer não, ela impunha os limites, ele gostava de cantar e fazer amigos, ela também. A tia Clementina a inocência em pessoa, jamais conheci alguém mais transparente e dedicada, com certeza o complemento perfeito para o tio Pio, até acho que adotei ela como mãe depois do falecimento da minha. E finalmente a tia Alzira, bem! Esta é a eterna tia, aquela que sabe ser forte quando é necessário, ser mãe, ser amiga, ser confidente, enfim, olhando como sobrinho ela sempre foi a casa enquanto o tio era o caminho.

Assim, depois desta breve análise podemos compreender um pouco como a família Piovesan foi enriquecendo a própria cultura ao buscar nas mães as qualidades que desejavam ou que complementavam a cultura familiar.

No verão de 1991, minha família, Catia, Lucas, Licéia e Luciana com a mãe e o pai tratando as ovelhas.

 

  • Como é dia das mães me permitam um aparte, vou falar da minha. Ela sempre nos estimulou a leitura, talvez por isso eu hoje seja jornalista, trazia de família o gosto pelas letras, isto pode ser visto nas cartas ao namorado, que tenho e guardo com carinho, onde pode-se ler nas entrelinhas a paciência, a fidelidade, o amor com que ela esperou pelo dia de seu casamento. Sonhou e planejou por seis anos a sua futura família. Ela trouxe a reflexão, a filosofia, o conhecimento teórico, o planejamento futuro enquanto o pai trouxe a prática, o dia a dia, a experiência. Por outro lado muitas coisas eles tinham em comum, amavam a música, o canto, tinham um milhão de amigos, estavam sempre prontos a ajudar e não se conformavam com as injustiças sociais o que fez deles revolucionários, muitas vezes se colocaram contra a “ordem” estabelecida. Até acho que foi ela que despertou em mim o espírito crítico…

O soque do Antoninho Frikes

Passando um pouco do erval, uma trilha a direita costeava a cerca do potreiro e depois serpenteava por entre as touceiras de branquilhos chegando em alguns trechos a ser quase um túnel verde que desembocava finalmente numa clareira de gramado. Ao norte cercada de branquilhos e ao sul demarcada pela curva do arroio do Papagaio, cortada ao meio por uma valeta que trazia a água em curva de nível do passo até a bica da roda d’água do soque de erva mate do Antoninho. Qual a razão para fazer um soque de erva escondido?

Bella Famiglia - Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Bella Famiglia – Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Em plena época de ditadura qualquer atividade econômica era controlada rigorosamente e o que não estivesse exatamente dentro do que era preconizado pelos detentores do poder era passível de punição. O tio Luis tinha na época o moinho da vila mas não podia moer trigo, nem no modelo que era usado até então em que o agricultor levava o trigo e ele moia ficando com uma porcentagem. Acho que era até proibido moer o trigo em casa no pilão. Tinha que mandar tudo pra cooperativa e deixar lá reservado uma quantidade de farinha que podia ser retirada mensalmente. Se não me engano esta farinha não podia ser vendida.

– Bem! Deixa pra lá! Isto era coisa da ditadura e eu queria falar do soque do Antoninho.

– O Antoninho Frikes Vaz tinha um armazém, destes tipo boteco mesmo, em frente ao campo de futebol, hoje a praça da igreja da Vila Trentin, também tinha um bando de filhos pequenos, bocas pra dar comida, logo tinha que se virar para conseguir sustentar a família. Se virar em época de vacas magras significava ter que diversificar as atividades então ele comprou uma kombi velha e começou a fazer uma linha de transporte da vila até Palmeira para levar e trazer passageiros e mercadorias, era lá pelos anos setenta, se não me engano. Só que esta atividade era considerada ilegal mas ninguém denunciava porque o povo dependia dele pra se locomover, mas nem assim  ele estava conseguindo por comida nas bocas das crianças em quantidade suficiente. Foi aí que teve a ideia de montar um soque de erva mate. Esta atividade além de ilegal também tinha concorrentes que poderiam denunciá-lo, por isso tinha que ser feita com a maior discrição possível.

Não sei como ele chegou até meu pai, mas com certeza chegou no lugar certo pois o pai sempre teve um quê de revolucionário, daí até fazer alguma coisa que contrariasse o regime era um passo. Como já falei antes, na nossa terra tinha o lugar ideal, uma clareira na beira do arroio, toda cercada de mato, o acesso se poderia fazer pelo lado da casa, como isto chamaria a atenção, a opção dos dois foi fazer uma trilha que desembocava no travessão, dentro da picada de mato. Depois, a estrada que ia até o soque, era um verdadeiro labirinto aproveitando as trilhas do gado por entre os branquilhos espinhentos.

A água não era muita, mas o desnível até o pondo da roda era de uns três metros e oitenta centímetros, o que segundo cálculos teóricos do Tio Ângelo, o fazedor de rodas d’água, ia dar uns três cavalos de força, mais que suficiente para movimentar seis mãos de pilão. os dados de cálculo ele obteve teoricamente do tio pois ninguém podia ficar sabendo da indústria, na época tinha espião até dentro da própria família. Não seria umas grande indústria mas daria para abastecer o armazém com erva própria e mais barata o que aumentava a margem de lucro, ainda mais que alguns clientes da Palmeira começavam a aumentar o volume de encomendas, já que era boa e mais barata.

O empreendedor comprava a erva dos produtores que seria beneficiada, seca e moída, em algum soque autorizado e depois seria revendida no armazém. É claro que uma parte seguia o caminho legal, outra parte ele secava em algum barbaquá escondido e moia no dito soque, isto aumentava enormemente a margem de lucro, hoje diríamos aumentava o valor agregado.

Até hoje não sei bem quais as tratativas que fez com o tio Lino, o que lembro é que um dia apareceu lá em casa com a ideia e pronto para começar a obra. Primeiro tinha que desviar a valeta da roda de bombeamento de água por um canal, valeta, mais acima e ir abrindo a mesma té a clareira onde se somavam mais umas corredeiras e uma cachoeirinha dando os três metros e pouco que precisava de “caimento”. Feito isso tinha que preparar a “cava” para a roda e aplainar o terreno para a instalação do cocho de moagem e das cavadeiras. E por cima de tido um galpãozinho de proteção. No dia que foi liberada a água na valeta nova foi uma festa, formou uma bela cachoeira na bica, só que deu um problema, com a água desviada não sobrou quantidade suficiente para bombear água da fonte pra casa. Mais uma obra se fez necessária, reforçar a barragem de contenção, açude, para aproveitar melhor a água do arroio.

Depois foi montada a roda d’água, o soque, o galpão e a indústria começou a produzir. Ele vinha de noite trazer erva para socar e carregar a erva, pois o trabalho não podia ser conhecido por terceiros. O soque funcionava o dia inteiro e no cair da noite chegava o Antoninho para descarregar a erva moída e reabastecer o cocho.

Terminaram as minhas férias e quando cheguei em casa novamente não tinha mais soque, até hoje não sei o que aconteceu…

… mas o bom de tudo isso é que ale ficou devendo favor pro pai e nas outras férias fizemos uma viagem em família par Nova Palma, na kombi do Antoninho, é claro.

Acho que a viagem dá outra história qualquer dia…

 

Encontro de família e a programação da máquina do tempo

Já se tornou um hábito achar um motivo para fazer uma reunião de família pelo umas duas vezes por ano. Pelo menos na dos descendentes do Lino e da Bazilides Piovesan. Os motivos, bem! Os motivos são pelo menos dois, tanto o pai como a mãe expressaram no leito de morte, o desejo que fizéssemos uma festa de família por ano, logo para satisfazer o desejo dos dois temos que fazer pelo menos duas. Nem sempre conseguimos reunir todos, mas quase sempre atingimos uma assiduidade da ordem de 94 a 97%, ou seja faltam apenas um ou dois descendentes. Além do motivo principal é claro tem os outros: se encontrar, por as histórias em dia, falar muito (esta é uma qualidade dos Piovesan), rir um pouco, fazer travessuras, rever os irmãos, primos, sobrinhos, etc., etc., etc…

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Para o aquecimento um futebolzinho

Eu já cheguei atrasado, o guarda do estacionamento só não me barrou porque eu era irmão do organizador da festa e cunhado da aniversariante. Ah! eu ia esquecendo este era mais um motivo para estarmos juntos. Bons dias, abraços, beijos, brincadeiras e já estava rolando um aperitivozinho, um tira gosto, degustação de butiás e jabuticabas da Leda, sem falsa modéstia, os butiás da casa dela são os melhores do mundo e ponto. Uma que outra criança aproveitava o campinho de futebol ao lado para correr atras de uma bola e eu absorto olhava a cena quando comecei a ouvir vozes…

  • Eu nunca fui bom jogador, nunca gostei muito de futebol…
  • Eu também não.
  • Eu joguei algum tempo de goleiro…
  • Eu gostava de ir aos torneios de caminhão…

Não me contive e me voltei para trás, de onde vinham as vozes e acrescentei;

  • Eu tinha posição fixa, era marrecão.
  • Marrecão tio! O que é isso?
  • É uma longa história, do tempo que os campos de futebol do interior ficavam nas várzeas perto de banhados…
  • É daí que vem a expressão futebol varzeano?
  • Sim! Mas esta é uma história muito longa que eu vou contar outro dia… <leia aqui>
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Escorregando no talude com um papelão

Dei corda na minha máquina do tempo, claro tenho que explicar o que é dar corda, a expressão significa carregar a bateria de energia mecânica que faz a máquina funcionar, pois bem! Dei corda na minha máquina do tempo e programei para retornar uns cinquenta anos. A programação da máquina é muito simples, instantânea, basta que uma imagem coincida com alguma guardada na memória e pronto. Além de instantânea a programação começa a vasculhar outras imagens do mesmo arquivo e pronto. Voltamos dez, vinte, cinquenta, ou até mais anos em uma fração de segundo. Eu mesmo já tenho voltado até mais de sessenta anos com esta máquina maravilhosa.

Voltei apenas cinquenta anos, acho que era o Ipiranga jogando com um time de Tiradentes. As moças de família gostavam de ir ver o futebol, pois naquela época era uma das poucas oportunidades de ver um rapaz de pernas de fora. Como eu não jogava nada não tinha este privilégio dos jogadores e por conseguinte não tinha a admiração das moças. Que chato! Mas eu era o marrecão, um piá levinho, magricelo, que conseguia correr por sobre os capins do banhado pra buscar a bola quando um fortão chutava um pouco mais forte e o goleiro não pegava. Lá ia o marrecão quase flutuando sobre o banhado e em alguns instantes a bola estava novamente em jogo. O bom da história é que lá no campo do Ipiranga o marrecão tinha uma vantagem: no banhado tinha muito guamirim e as moças gostavam de guamirim, só que depois de um ou dois jogos não havia mais nada ao alcance dos mortais comuns, só o marrecão conseguia chegar até as arvoretas com belos cachos de frutas maduras, aí as moças começavam a olhar para ele.

  • Bah! Não é pra esta história que eu queria voltar.
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… tinha que fazer uma ginástica para ficar sobre o papelinho.

É que no talude do campo de futebol algumas pessoas escorregavam com um papelão sobre a grama. Esta história é de uns cinquenta e cinco anos, como a chuva andava escassa a grama estava bastante seca e lisa e permitia um belo esporte, escorregar morro abaixo com uma casca de coqueiro, um pouco semelhante a brincadeira do talude, a lá fui eu. O papelão poderia ser grande o suficiente para uma criança de cinco ou seis anos, mas a máquina do tempo não nos

de carona com piloto experiente

de carona com piloto experiente

diminui, tive que me encolher o que deu para ficar sobre o papelão, mas a descida foi um sucesso. Em pouco tempo o número de crianças a escorregar aumentou que deu pra fazer fila, tinha piá dos dois aos sessenta e dois anos brincando, alguns mais inseguros andavam em duplas com um piloto experiente na frente, outros andavam em grupo, que tarde divertida!

Enquanto isso rolava uma partidinha de futebol dos sem camisa contra os com camisa, bem como naquela época, ao mesmo tempo alguns que não entraram nestas brincadeiras aproveitavam o tempo para o esporte preferido da família, contar histórias.

Além de todos os motivos citados acima num encontro como este descobrimos novos destinos para a nossa maravilhosa máquina do tempo.

O viajante já está dando corda, em breve partiremos para outros destinos…

O Trator

Dentre todas as maravilhas tecnológicas que povoaram a vida dos Piovesan certamente não pode faltar o Trator, aqui escrito em maiúscula por se tratar de um trator de verdade, não um tratorzinho qualquer.

O transporte de produtos, objetos pesados e pessoas sempre foi prerrogativa dos bois e da velha gaiota, quando precisava mais velocidade de deslocamento era a Lavareda, a égua tostada, que assumia a tarefa, quando precisava velocidade para um grupo de pessoas ou muitos objetos mais leves, a função era outorgada à carroça e aos cavalos tordilhos do Bôrtolo. Estes últimos, em geral eram os responsáveis pelas viagens de compras, outro assunto palpitante, mas hoje o assunto é o trator, que de certa forma veio substituir todos os outros com algumas vantagens.

O trator se transformou num faz tudo da sociedade. Aqui vemos ao fundo a moenda acionada pelo trator.

O trator se transformou num faz tudo da sociedade. Aqui vemos ao fundo a moenda acionada pelo trator.

A família já estava mecanizada, arar a terra e transportar pessoas e coisas agora já era tarefa do trator, que desenvolvia velocidades astronômicas.

A sociedade com o Marcelino Piovesan Dalbianco, primo distante e cunhado, melhorou bastante o trabalho e possibilitou desenvolvimento e mecanização ainda maiores. Foi comprada a colheitadeira automotriz John Deere (Jandira), (outra história para contar, a Reforma) para facilitar a colheita.

O trator fazendo a semeadura

O trator fazendo a semeadura

Hoje é o dia do trator, mas não pode ser contada esta sua história sem falar na colheitadeira, recém comprada, usada, caindo aos pedaços, mas trabalhando. Ela trabalhava um bocado de tempo e enchia o depósito graneleiro, aí se encostava o trator com o carroção do lado e se descarregava o soja que era ensacado para comercialização, mas tinha uns probleminhas. O descarregador do graneleiro não encaixava muito bem e tinha que alguém ficar segurando, isso não era problema pois não faltava mão de obra.

A John Deere (Jandira)

A John Deere (Jandira)

Normalmente no final do dia para facilitar a última carga do graneleiro era descarregada em casa, neste caso na casa do tio Marcelino. O trator e o carroção estavam a postos na frente da casa, no terreiro, o Léo, motorista da colheitadeira, já ia chegando quando o Lino, tratorista oficial, saltou do trator para ajudar a segurar o descarregador, o compadre Marcelino, do outro lado da colheitadeira, se preparava para segurar a alavanca do acionamento do descarregador.

Aqui precisa fazer um parênteses – O trator andava mal de bateria por isso ficou funcionando, travado é claro, ou não? – Veremos…

Três operavam na automotriz para o descarregamento enquanto o trator ficou sozinho, isso não era problema pois o terreiro era quase plano e o trator tinha freio. A operação descarga estava começando, motor do trator acionado em espera na lenta.

– Tup, tup, tup.

Motor da colheitaderia acelerado para fazer força.

– Brrrrrrrrrr!

– Clanc, clanc.

– Ok o carregador esta no ponto, acelera Léo, compadre pode acionar a alavanca!

– Grrrrr, ahhhhh!

Começou a cair o soja no carroção, que maravilha da tecnologia, o tempo da foicinha e da trilhadeira já eram parte do passado. Os grãos fluindo como uma cascata começam a formar uma pequena montanha no carroção, o trator avança um pouco para reposicionar o ponto de descarga…

– Compadre! Deu, senão o soja cai fora!

Espera aí! não tem ninguém no trator, e o Trator continua a se mover lentamente para frente.

– Pára compadre!

Nisso o Marcelino, que estava do outro lado da colheitadeira ouvindo aquela zoeira toda, ouviu a ordem e desativou a alavanca do carregamento. Os grãos pararam de fluir mas o trator não. Já começava a ganhar velocidade rumo ao potreiro e ao chiqueiro de porcos.

– Pára! Pára!

O trator não ouviu e seguiu seu caminho, os porcos que a esta altura já estavam pedindo comida vêem o trator se aproximar com uma carga de soja. O trator desobediente não ouve os gritos de – Páaaaare!  do tratorista e segue passando como um trator sobre o chiqueiro.

– Blam! Nhéééé! Crac! Tóiinn… – disseram o chiqueiro e o trator quando se encontraram.

– Quí, quíííí – gritaram os porcos correndo em direção ao banhado.

Vacinando o gado, ao fundo o açude e o banhado

Vacinando o gado, ao fundo o açude e o banhado

O trator ainda teve tempo de dizer cof! cof! antes de parar de vez.

Neste meio tempo a Jandira foi abandonada lá no terreiro e começou uma corrida de obstáculos. Léo, Marcelino, Lino, a tia e as crianças saíram em disparada para socorrer os porcos esparramados. Primeiro tinha que tirar o trator de lá, depois refazer as pressas o chiqueiro, depois catar os porcos esparramados. Alguns ainda corriam pelo potreiro, outros, os que foram em direção ao banhado estavam imobilizados pelo barro. Mas o mesmo barro que segurou os porcos também atolava os caçadores de porcos, foi uma aventura e já estava escurecendo…

Mas o pior de tudo é que depois, os porcos gritavam desesperados cada vez que ouviam o ruido do trator…

Se beber, NÃO!

Epílogo

O sol já estava quase no seu ocaso, as sombras compridas desenhavam riscos brancos e pretos no chão, no gramado da frente da casa, os palanques das velha cerca com suas sombras formavam um desenho simétrico e organizado, enquanto as sombras das árvores destoavam um pouco. O filho com a roçadeira ia emparelhando e endireitando as sombras que se projetavam sobre o gramado. O pai e a mãe que saíram para a vila logo após o meio dia ainda não voltaram, a espera é como todas as outras. Um ruído um pouco estranho, no entanto, quebra a monotonia daquele entardecer. O velho corcel que vem tossindo lomba acima dá seu último suspiro e morre ao subir a rampinha da entrada da morada. O Leonidas deita de lado a roçadeira e vai ao encontro do velho corcel ano 1972, parado, que traz em seu interior o pai e a mãe que retornam da Vila Trentin onde havia missa naquele sábado à tarde. O pai tenta mais uma vez dar partida, mas a bateria não carregou o suficiente, as luzes ainda ligadas ostentam um brilho amarelado pálido e se apagam a cada nova tentativa de partida.

– Lani dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco. – grita o pai com a cabeça fora da janela.

O Leonidas se aproxima do carro, olha para dentro, e não vendo a mãe pergunta?

– Pai, onde ficou a mãe?

Só então o pai olha para o banco do caroneiro e percebe que a Bazelides não está lá e responde:

– Não sei.

O Lani então espicha o olhar para a estrada que se perde na curva após o direitão do tio Luís, e lá vem a mãe, a pé, já quase de língua de fora…

 

Prólogo – é o que acontece antes da história.

Devido a escassez de padres cada paróquia, e Jaboticaba não era exceção, só tinha um padre, e como o número de capelas é grande, o vigário se vê obrigado a fazer suas visitas pastorais até mesmo fora do dia do Senhor, o domingo. Nestas circunstâncias a capela dos Três Mártires, exatamente neste dia, tinha sua missa semanal no sábado à tarde. Para os cristãos católicos isto não era um problema desde que a obrigação da missa dominical passou a ser considerada em qualquer dia da semana. E, por conta disso, o casal saíra após o meio dia do sábado para cumprir a obrigação dominical.

A missa, independentemente do dia da semana em que era celebrada, tinha uma conotação religiosa e social, pois estando os filhos de Deus reunidos para a missa não custava ficar mais um pouco após ela para celebrar o encontro, a vida social. Esta segunda celebração podia ser um encontro de comadres para visitar uma amiga enferma, conhecer o nenê de outra, tomar um chimarrão, visitar uma idosa, até algo mais profano como atualizar os assuntos do momento. Entre os marmanjos o mais comum para os mais jovens era jogar um futebolzinho e entre os mais experientes caia sempre bem um carteado, muitas vezes acompanhado de uma ou umas rodadas do liso de purinha, outras vezes de biter amargo com conhaque ou até mesmo de um garrafãozinho de vinho, tudo dependia das circunstâncias.

No nosso sábado em questão a missa foi celebrada às 13 horas, uma solicitação da comunidade para possibilitar o convívio social no restante da tarde. Depois disso algum tempo de conversa com os amigos, saudar aqueles que chegaram atrasados e partir para a socialização.  O bar do Mauri fica bem perto da capela, é fácil ir lá, para os que vêm de carro até dá para deixar estacionado no pátio da capela, é o destino daqueles que praticam o carteado, trissete, cinquilho, bisca, pife ou canastra. E é claro, para ser completo com um traguinho pra molhar a garganta. Os mais jovens desaparecem rumo ao campo de futebol e todos os carros cochilam sozinhos a espera de seus condutores no pátio da capela. Todos não, o corcel marrom ano 72 está de olhos bem abertos, digo os faróis acesos.

O seu Lino vai até o bar em companhia do Gregório, do Valdomiro, do Elso e mais uns amigos para umas rodadas de cartas. A Bazelides vai com algumas amigas e primas visitar a tia Santina, assim passa a tarde, depois da missa continua o preceito bíblico, “onde dois ou mais estiverem reunidos…” O sol já cansado daquele dia comprido de início de verão se esconde, as vezes, por traz das nuvens, mas reaparece de novo mais tarde. Finalmente se escondeu por um tempo por trás das copas dos timbós do pátio da capela e reapareceu de novo, vermelho de vergonha, por entre os troncos das árvores. É hora de ir para casa, dona Bazelides se despede das primas e da tia e se dirige ao estacionamento, não sem antes passar pelo bar do Mauri para chamar o “pai” que se entretém com o baralho espanhol e um liso de pura.

Ele é obediente a não espera a rainha do lar chamar duas vezes, termina a rodada e se levanta, ou melhor se põe de pé, vai até a porta, meio duro “das cadeiras” por ter ficado muito tempo sentado. Pelo menos é o que ele diz. Saem os dois abraçadinhos, que lindeza.

Dali até o carro não é muito longe e o ombro da esposa é uma escora e tanto para contrabalançar o desequilíbrio da cachacinha sorvida durante o jogo. A “mãe” abre o carro e ele se aboleta atrás da direção, ela também embarca à direita do “pai”.

– Guuu, cof, cof! – diz o corcel quando o motorista tenta dar a partida. Mais uma vez:
– Guuu, cof, cof! e nada, as luzes ligadas acabaram a bateria.
– Mãe! Dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco.

A mãe desce e se põe a empurrar o veículo ainda bem que é meio ladeira.

– Crank, gruuuu, gruuu, – diz o corcel desta vez, e se põe a caminho de casa.
– Lino! Liiiino! – grita a mãe.

Nem o corcel nem o Lino ouviram os gritos dela, já estão a caminho de casa. Sem alternativa ela se põe a caminho, desta vez a pé, é um belo quilômetro de caminhada.

 

Epílogo do epílogo

– Não sei… não sei mesmo Lani.
– Pai tu esqueceu a mãe la na vila!
– Ah! Ela foi empurrar o carro pra pegar no tranco e não embarcou depois.
– Pai, o que é isso? Andou bebendo e passou da conta.
– Não! Só foi uns traguinhos…

Casa com o paiol ao fundo.

Casa com o paiol ao fundo.

Nisso a mãe já está chegando, o Lani dá um empurrãozinho pro carro pegar e desta vez vai até o meio do pátio. O motorista desce, apesar da falta de equilíbrio e desta vez é novamente apoiado pela esposa dedicada, só que desta vez não é na direção da casa…
– Mãe! Esta é a direção errada.
– Não, a direção errada foi quando me deixou lá na vila, por causa disso hoje vai dormir no paiol.

“Dolci in scarcella” e a netinha

A tradição de carregar doces no bolso já é bastante conhecida na família, principalmente pelas crianças, era uma forma de agradar que o nono nunca negligenciou.

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O casal viajante, Elizabeth e Antônio Piovesan

O episódio de hoje já é dos anos 70, a Leda já estava com uns cinco aninhos, numa das raras viagens que o nono e a nona fizeram para Jaboticaba. Eu disse rara porque a nona Elisabeth raramente viajava, lembro de apenas uma visita dela. Nesta em particular eu não estava em casa eles vieram para fazer uma espécie de férias em Jaboticaba onde moravam os filhos Lino e Achiles e os irmãos dela o tio Atílio e tio Aurélio Zanon. Eles ficaram quase uma semana e como o Toni não ficava muito tempo longe de um traguinho teve que achar um método de levar o ingrediente consigo, só que tinha um probleminha, a nona não gostava muito deste hábito, até porque tinha uma outra história, que será contada oportunamente, de ajudá-lo a atravessar a pinguela quando voltava da missa devidamente batizado. Como ele iria ficar alguns dias deslocado de seu ambiente natural, e evidentemente do bar do Alessio, resolveu utilizar o método largamente conhecido nos filmes de faroeste de levar o combustível num vidro chato, organicamente curvado para se acomodar ao bolso sem despertar suspeita, um vidro de Biotônico Fontoura.
Na visita ao Lino enquanto a nona, a nora Bazilides e o Lino tomavam chimarrão na cozinha ele saiu dar uma volta para “ver as plantas”, aliás um hábito que eu também tenho, só que não era exatamente para ver as árvores, quando chegou aos fundos da casa levou a mão discretamente ao peito, pelo lado de dentro do casaco e sacou a arma, digo o vidro, e sorveu um belo trago.

A netinha inocente

A netinha inocente

Quando abaixou os olhos viu a netinha Leda, que brincava na terra. Aí bateu o pânico, tomar bebida alcoólica escondido da esposa, e pior, na frente de uma criança, e se ela falasse… por via das dúvidas era preciso fazer algo.
Ha! “i dolci” – lembrou das balas que estavam no bolso. Tirou um belo punhado e ofereceu para ela, mas com uma condição, que não falasse e a “cachacetta”.
A Leda que não sabia do que se tratava achou um bom negócio aceitar as balas para ficar quieta, até porque nem sabia de que se tratava aquilo que ele havia bebido.
Muitos anos depois, até porque nos outros protagonistas já faleceram, a menina resolveu confessar a travessura do nono. Agora ela sabe que não era exatamente Biotônico que o vô tomava escondido…

Visita surpresa

Colhida nas memorias da Silvia

Já era tradição, na época das férias de julho, esperar a prima que vinha de Porto Alegre para passar as férias comigo. A tia Odila, tendo se criado na roça, não queria que a filha perdesse as oportunidades de conviver com aquele estilo particular de vida, por isso dava um jeito de avisar o pai que a Fabíola estava chegando para mais umas férias, sempre com alguns dias de antecedência.
No entanto algo estranho começava a acontecer no mês de julho de 1992, a primeira semana já se passara e não havia chegado a comunicação para buscar a prima na rodoviária. De qualquer forma se ela vem darão um jeito de avisar ou na pior das hipóteses ela vai até o tio Pio e algum dos guris traz ela. Normalmente o recado vinha por algum conhecido no domingo durante a missa, alguém que tinha telefone, é claro, aí eu ou um dos guris ia até a rodoviária esperar o ônibus.
Como já ia quase para o fim da segunda semana eu estava começando a ficar preocupada. A minha missão, durante as férias, era de passar o tempo todo brincando com ela e defendendo ela dos monstros que tinha ao redor da casa como: porcos, galinhas, trator, vacas, grilos, formigas e terneiros.
– Ah! Eu ia me esquecendo. Ela tinha medo de tudo o que se mexia. Menos da água pois adorava tomar banho no rio, mas tinha medo de pegar os peixes na mão quando a gente ia pescar, e minhoca então nem pensar.
Enquanto isso, na cabeça da Fabíola no, auge de seus 12 anos, se passava “é hora de deixar de ser tratada como criança, chega de ficarem andando de lá pra cá por minha causa”. Fabíola este ano faria uma surpresa para Sílvia, para nona e para o tio Abel. Fez a mãe pensar que tinha mandado o recado de sua chegada mas não mandou dizer nada seria a “Visita surpresa”, se não tivesse polenta que chega azar, mas o gostinho de aprontar uma arte compensaria. Com a passagem comprada até Santa Maria, onde a prima Rosália tinha a incumbência de esperar na rodoviária e embarcá-la para Nova Palma, teve mais que tempo para planejar como iria concretizar a sua surpresa.
Com a chega prevista para as 14 horas dava mais que tempo para ir a pé tranquilamente até a casa da nona antes que escurecesse. Por que para a Fabíola em Nova Palma todas as pessoas eram boas, ao contrário da Capital, onde deveria tomar cuidados com estranhos. Ia ser uma surpresa e tanto, quase seis horas de viagem para planejar nos mínimos detalhes a chegada. O embarque foi tranquilo, a mãe recomendou ao motorista o cuidado com a filha e principalmente o cuidado de entregá-la a um parente em Santa Maria. Na cabeça da mãe, em Nova Palma, seria o Abel ou a Silvia ou, talvez, um dos guris, que a pegariam na Rodoviária. Na cabeça da filha, todo mundo me conhece na rodoviária e quase todos são parentes lá. Seria uma quebra de rotina, um dispeto, como diria o tio Lino, coerente com as tradições familiares.
– Ah! O gostinho de fazer uma arte. O plano. Chegando na rodoviária vou direto a Casa do Tio Pio, ter um dedo de prosa com a prima Janine, depois, como já sou mocinha, posso ir andando e daí é só caminhar tranquilamente até lá e… surpresa! Tempo para imaginar cada detalhe não faltou afinal foram quase seis horas sozinha naquele ônibus. A chegada a Nova Palma foi sem incidentes, eram quatorze e pouco, foi a casa do tio Pio e papeou com a prima Janine, que já estava de saída. Então falou para a Janine,que iria aproveitar a saída dela e iria andando. Vejo vocês na missa do domingo. E lá se foi pela estrada principal carregando a maleta.
– Não precisa caminhar muito depressa pois a ‘tarde ainda é criança’, tem muito tempo. Que legal poder caminhar curtindo a paisagem, a estrada deserta. Neste horário todo mundo estava na lavoura e como o tempo estava, bom tem que aproveitar principalmente para carpir as lavouras.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Toni (do Achiles) e Ana atravessando o rio pela pinguela improvisada enquanto a turma toma banho de rio.

Na época tinha dois caminhos para chegar na casa do tio Abel: seguindo pela estrada atravessando o rio na ponte nova e descendo de volta pela escola ou descendo pela trilha da estrada velha atravessando o rio pela pinguela improvisada, que era muito mais curto, só tinha o inconveniente da pinguela. É claro que a segunda opção foi a escolhida, até porque depois de uma caminhada destas qualquer metro a menos de estrada faz diferença. Já estamos quase lá é só passar a cerca caminhar uns duzentos metros pelo potreiro do Valdecir Rossato atravessar o rio e pronto… Surpresa! Chiii! a surpresa veio antes. Do outro lado da cerca estão passando pequenos monstros com chifres que fazem bééé. Meu Deus e agora? Passar rapidamente a cerca de volta e fazer a volta pela ponte. Mas é longe, dá mais de um quilômetro, a mala está pesada. Ainda bem que aquelas cabras malvadas estavam passando, daqui a pouco,elas se vão e eu posso ir tranquila.
O que a menina moça não contava é que as cabras estavam pastando e não passando, o que começou a aumentar significativamente o tempo de espera. Pelo menos, ali perto da cerca, tinha uma pedra grande que dava pra sentar. Mas já está ficando tarde e aqueles bichos perigosos não vão embora, será que estão esperando uma vítima? Eu é claro. O sol começava a se pôr e logo iria escurecer. As cabras pastantes, seguiram a sua trilha e liberaram o caminho para a Fabíola seguir viagem …
– Ah, que alívio! – Agora posso ir e tem que ser depressa antes que anoiteça.
Fabíola Imaginou que teriam se passado varias horas, mas apos o episodio ao olhar no relógio percebeu que somente havia transcorrido míseros 20 minutos.
A panela da polenta já está com a água quase fervendo, a mãe, o pai e a nona tomam chimarrão na cozinha. Um dos guris está tirando água do poço. Os cachorros começam a latir como quando fazem festa para algum conhecido. Ouvimos um grito desesperado:
– Siiiiilvia! vem me salvar destes monstros que estão me atacando! Surpresa! é a Fabíola que chegou sem avisar.

A enchente de 1984

História baseada nas memórias da Silvia

Maio em geral foi o mês dos grandes eventos da família, por diversas razões os grandes milagres também aconteceram neste mês. Exatamente no ano do centenário da imigração italiana na quarta colônia, quando a euforia pela saga dos italianos na região atingia seu auge o tempo se desenrolava com características peculiares. O ano prometia ser chuvoso, e maio em especial começou mostrando um comportamento peculiar. Muita coisa acontecia nos dias de chuva, a chuva era, por assim dizer, uma benção, irriga as plantações, abastece as fontes, e autoriza um dia de folga ou pescaria conforme já vimos ou veremos em eventos da família. Mas nosso assunto, neste momento, é a chuva de maio de 1984, o ano do centenário da imigração.
A chuva já cai por mais de uma semana sobre as terras do Bom Retiro, de Nova Palma, da região, do estado e do sul do país. Para os que vivem nas cidades, mesmo em Nova Palma, isso não muda muito a rotina de trabalho, a semana segue seu curso preestabelecido, no entanto para os agricultores significa uma quebra radical da rotina. No primeiro dia deixa chover, aproveita-se para fazer um dia de descanso para os que trabalham na lavoura, é claro, os guris Abel, Cláudio, Inácio e Bernardo. As meninas, Sílvia, Alice, Verônica e Letícia aproveitam para fazer uma grande faxina e organização da casa, com a ajuda da mãe e da nona. O segundo dia, se der uma estiada é propício para uma pescaria, vai pescar quem estiver de folga, alguem tem que ficar em casa pra fazer a comida. No terceiro dia… Bem! A partir do terceiro dia não tem mais nada pra fazer, o tempo começa passar muito devagar, é preciso encontrar alguma coisa pra fazer tipo, jogar trissete entre os homens e escutar a Verônica lendo as histórias do Naneto Pipeta. Quarto… quinto…. sexto… o tempo passa cada vez mais devagar… A chuva não passa, a medida que o tempo passa, as águas atingem o máximo que a terra pode absorver e começam a formar a enxurrada, atingem os rios e arroios e se precipitam em direção ao oceano, um dos caminhos é o Soturno.
O Soturno contorna quase toda a terra da família, começa a subir e, se continuar, vai deixar a família Piovesan ilhada. Já é o oitavo dia consecutivo de chuva todo o sul do país já apresenta sinais de enchente, milhares de desabrigados e desalojados desfilam nas imagens dos telejornais, as defesas civis dos municípios trabalham sem cessar, enquanto isso na casa de nossos personagens a rotina é outra. As meninas, Sílvia Alice e Letícia, continuam ouvindo as histórias do Naneto Pipeta, os guris e o pai jogam trissete, uma partida depois da outra.
O mundo lá fora, o da TV não existe para a família, não tem televisão, logo o mundo la fora é a chuva, o barulho da chuva e quando cai a noite… O Soturno “scumicia a rudare”, – diz a nona – (começa a roncar) o nível da água sobe assustadoramente. O chiqueiro é inundado e os porcos devem ser soltos para não morrerem afogados. As galinhas e frangos são levados para a casa velha. Pela experiência de anos anteriores a tensão começa a aumentar, o perigo de ficarem ilhados já é uma realidade. A água começa a subir pela estrada a barragem não dá mais passagem.
O então patriarca Abel, com toda sua calma e previsibilidade ordena as medidas para a noite de vigília. Engatar o reboque no trator e carregar os pertences básicos caso seja necessário deixar a casa e deixar o reboque em lugar estratégico. A família se abrigará na escola, sem saber estão fazendo como em todo o sul do país. Todos permanecerão acordados, os meninos jogando com ele e as meninas ouvindo a Verônica ler histórias. A mãe (Alzira) ao lado do fogão, pois faz muito frio, esfrega as mãos de nervosa e a mãe, (nona Isa) no quarto reza um terço após o outro, quando cansa de ficar ajoelhada no quarto dá uma volta nervosa pela casa com a corona (terço) na mão. Todos os outros devem manter a calma como convém aos Piovesan.
Cai a noite e o ruído da água do Soturno parece gritar espantando as pessoas e animais para que se afastem em vista do perigo que se aproxima. Na casa o silêncio é quebrado pela voz monótona e cadenciada da leitura de Naneto Pipeta. Vez por outra uma árvore que desce rio abaixo vem quebrando galhos e fazendo sons diferenciados. Os animais silenciosos aguardam apreensivos o desenrolar dos fatos. A chuva mansa canta uma canção assustadora, cadenciada pelo troar dos canhões dos raios e iluminada pelos flashes dos relâmpagos intermitentes. O Soturno ronca contra as pedras e barrancas com um som grave,carregado, sombrio, taciturno, tristonho, infunde pavor, parece fazer honrarias ao próprio nome. Dentro de casa família aguarda apreensiva, a mãe de vez em quando coloca mais uma acha de lenha no fogão para manter o fogo e a casa aquecida, os guris jogam com o pai e a nona reza. Os porcos assustados perambulam pela propriedade não entendendo o porque desta liberdade, que ao mesmo tempo amplia seus domínios, mas afasta-os de sua casa, agora tomada pela água. As galinhas, e frangos, que ocupam a casa velha sentem a situação como uma honraria estranha, os ruídos da noite não são de nenhum predador, mas mesmo assim assustam. A chuva acalma, já se assemelha a uma cantiga de ninar, no entanto o troar dos trovões e o ronco do rio destoam.

– Vou ver o nível da água na estrada – disse o pai. E lá se foi ele seguido pelos guris e pelas meninas mais curiosas. A água corria depressa pelo leito do rio e formava ondas que subiam pela estrada, a cada onda avançava um pouco mais evidenciando que o nível subia, e isso assustava. O pai resolveu então tomar uma decisão, demarcar o limite para saírem de casa.

Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa história.

Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa história.

Questo sasso. – Esta pedra é o limite, se a água passar dela temos que sair de casa senão ficaremos ilhados. Os guris continuam jogando cartas e ao fim de cada partida um vai até a estrada ver o nível da água. A mãe continua perto do fogão esfregando as mãos, as meninas ouvem a leitura da Verônica, enquanto a nona continua no quarto a rezar. Já foi um terço, dois, um inteiro (rosário), mais um e a rotina continua. A mãe é intimada a ir descansar, os outros continuarão a vigília. Já é madrugada e de repente um estrondo sinistro e assustador seguido de um aumento do volume dos sons do rio.
Maria Vergine! – gritou a nona – o que foi isso?
Um ruído de árvores arrastadas se aproxima da casa, o rio começa a roncar aliviado como se uma barreira tivesse sido eliminada. E foi… a pinguela que retinha galhos de árvores e até árvores inteiras, fazia uma barreira que dificultava o curso da água, até que ela, demonstrando sua força, rompeu os cabos de aço e levou abaixo aquele estorvo. Secretamente já havia levado a barragem da estrada, e levava abaixo tudo o que poderia dificultar seu caminho. Foi a pinguela, mas está escuro, não dá pra ver os detalhes o observador da pedra limite com guarda chuva e lanterna observa a água chegando, centímetro após centímetro conquistados pela água a cada onda. A água chega na pedra, algumas ondas já ultrapassam, mas a pedra ainda não está coberta. Alguma onda cobre a pedra, a tensão aumenta, as cartas ficam de lado e os observadores se juntam ao redor da pedra, as palavras do pai ecoam nas mentes.
– Se a água passar da pedra temos que sair de casa.
Uma onda um pouco maior cobre a pedra por completo e recua, outra onda avança e recua, as ondas passam a determinar o ritmo da respiração da família. Os avanços e recuos começam a ficar assimétricos, a água começa a recuar lentamente, começa a se distanciar, já não atinge mais a pedra. Todos respiram aliviados, as orações da nona alcançaram mais um milagre, como tantos outros na família, agora poderiam se recolher para a cama. Já é madrugada está quase na hora do galo cantar, mas o grupo familiar exausto se recolhe para a cama…
O ruído da água ainda alta no rio, mas agora correndo tranquila e baixando lentamente embala o sono da família, que não dura muito. São despertados ainda de madrugada, lá pelas 10 da madrugada, pelos gritos e assobios do Tarcísio e do Horácio, enviados especiais do tio Pio para ver como estava a mãe, o irmão e a família. Os dois foram direto para a pinguela, que não estava mais lá.
– Meu Deus! O tio e a nona estão ilhados. – fala o Horácio.
– Bem, Bem… mas eles tem o nosso caíque que esta guardado no galponeto deles – completou o Tarcísio.
– Mas parece que não tem ninguém em casa. Acho que foram se abrigar na escola.
– Acho que não. O trator ainda tá com o reboque na frente da casa…
– Então vamos gritar pra ver se acordamos eles…
E foi o que fizeram. Não tardou muito a turma começou a acordar com o gritedo. Aí eles disseram do caíque, e souberam que todos estavam bem. O caíque foi largamente utilizado pela comunidade como meio de passagem do rio por algum tempo já que a barragem e a pinguela tinham ido agua abaixo.

A mula que não queria rezar

O Carlos já estava se sentindo o máximo com a história de matar a catequese e foi aí que me caiu no colo outra história que coloca a dele no bolso, ele não foi o primeiro na família…
Não sei se o numero três é mágico, mas tem a ver com as aventuras ligadas a catequese na família. Foi lá pelo ano de 1909 (três vezes três), os três filhos mais velhos do Giovanni Marco já estavam na idade de frequentar a catequese, nesta época já moravam na costa do Portela no caminho de Linha Base. A moradia ficava uns três quilômetros da matriz, uma distância um pouco grande para ser percorrida a pé pelas crianças, daí a opção de ir à cavalo, ou melhor à mula. A “mussa vecchia” era o meio de transporte dos irmãos, Beppi, Ângelo e Toni. Logo após o meio dia os três montavam a “mussa” e rumavam para a igreja para as aulas de catequese.

A “mula velha” era um animal extremamente pacífico e tranquilo, cobria o trajeto em aproximadamente quarenta minutos, ou seja, um pouco mais devagar do que um adulto anda a pé. A viagem era muito tranquila e permitia a contemplação da natureza no decorrer da mesma. Depois de ir e vir muitas vezes, o caminho já decorado, começava a perder a graça e a catequese, bem a catequese era uma obrigação, um compromisso, e apesar da educação religiosa e rigorosa, às vezes batia aquela vontade travessa de fazer algo diferente aos domingos à tarde. Achar uma desculpa plausível e razoável para faltar a catequese passou a ser uma tarefa dos meninos.

Licéia, Lucidio e Léia montados na tostada do tio Marcelino, um arranjo comum desde a época do meu avô, andar três ou mais crianças no cavalo. No finalzinho do vídeo eu e a Licéia no alazão do tio Aquiles.

Licéia, Lucidio e Léia montados na tostada do tio Marcelino, um arranjo comum desde a época do meu avô, andar três ou mais crianças no cavalo. No finalzinho do vídeo eu e a Licéia no alazão do tio Aquiles.


Não demorou muito, na observação do comportamento da mula eles descobriram que ela não gostava de ser contrariada, como por exemplo, ser acelerada, qualquer forma de instigação para que andasse mais de pressa ela fazia o contrário, parava. Empacava, e a partir disso não se mexia mais e se batessem nela, baixava a cabeça, se ajoelhava com as patas da frente e derrubava a gurizada no chão. O método, para matar a catequese, passou a ser: apertar os calcanhares na barriga dela para que ela parasse e a partir daí continuar tentando fazer ela andar até que ela decidisse derrubar o grupo, preferencialmente num lugar com barro. Sujos não tinham outra roupa para vestir aí não poderiam ir para a catequese, culpa da mula que tinha a mania de se ajoelhar.