Se beber, NÃO!

Epílogo

O sol já estava quase no seu ocaso, as sombras compridas desenhavam riscos brancos e pretos no chão, no gramado da frente da casa, os palanques das velha cerca com suas sombras formavam um desenho simétrico e organizado, enquanto as sombras das árvores destoavam um pouco. O filho com a roçadeira ia emparelhando e endireitando as sombras que se projetavam sobre o gramado. O pai e a mãe que saíram para a vila logo após o meio dia ainda não voltaram, a espera é como todas as outras. Um ruído um pouco estranho, no entanto, quebra a monotonia daquele entardecer. O velho corcel que vem tossindo lomba acima dá seu último suspiro e morre ao subir a rampinha da entrada da morada. O Leonidas deita de lado a roçadeira e vai ao encontro do velho corcel ano 1972, parado, que traz em seu interior o pai e a mãe que retornam da Vila Trentin onde havia missa naquele sábado à tarde. O pai tenta mais uma vez dar partida, mas a bateria não carregou o suficiente, as luzes ainda ligadas ostentam um brilho amarelado pálido e se apagam a cada nova tentativa de partida.

– Lani dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco. – grita o pai com a cabeça fora da janela.

O Leonidas se aproxima do carro, olha para dentro, e não vendo a mãe pergunta?

– Pai, onde ficou a mãe?

Só então o pai olha para o banco do caroneiro e percebe que a Bazelides não está lá e responde:

– Não sei.

O Lani então espicha o olhar para a estrada que se perde na curva após o direitão do tio Luís, e lá vem a mãe, a pé, já quase de língua de fora…

 

Prólogo – é o que acontece antes da história.

Devido a escassez de padres cada paróquia, e Jaboticaba não era exceção, só tinha um padre, e como o número de capelas é grande, o vigário se vê obrigado a fazer suas visitas pastorais até mesmo fora do dia do Senhor, o domingo. Nestas circunstâncias a capela dos Três Mártires, exatamente neste dia, tinha sua missa semanal no sábado à tarde. Para os cristãos católicos isto não era um problema desde que a obrigação da missa dominical passou a ser considerada em qualquer dia da semana. E, por conta disso, o casal saíra após o meio dia do sábado para cumprir a obrigação dominical.

A missa, independentemente do dia da semana em que era celebrada, tinha uma conotação religiosa e social, pois estando os filhos de Deus reunidos para a missa não custava ficar mais um pouco após ela para celebrar o encontro, a vida social. Esta segunda celebração podia ser um encontro de comadres para visitar uma amiga enferma, conhecer o nenê de outra, tomar um chimarrão, visitar uma idosa, até algo mais profano como atualizar os assuntos do momento. Entre os marmanjos o mais comum para os mais jovens era jogar um futebolzinho e entre os mais experientes caia sempre bem um carteado, muitas vezes acompanhado de uma ou umas rodadas do liso de purinha, outras vezes de biter amargo com conhaque ou até mesmo de um garrafãozinho de vinho, tudo dependia das circunstâncias.

No nosso sábado em questão a missa foi celebrada às 13 horas, uma solicitação da comunidade para possibilitar o convívio social no restante da tarde. Depois disso algum tempo de conversa com os amigos, saudar aqueles que chegaram atrasados e partir para a socialização.  O bar do Mauri fica bem perto da capela, é fácil ir lá, para os que vêm de carro até dá para deixar estacionado no pátio da capela, é o destino daqueles que praticam o carteado, trissete, cinquilho, bisca, pife ou canastra. E é claro, para ser completo com um traguinho pra molhar a garganta. Os mais jovens desaparecem rumo ao campo de futebol e todos os carros cochilam sozinhos a espera de seus condutores no pátio da capela. Todos não, o corcel marrom ano 72 está de olhos bem abertos, digo os faróis acesos.

O seu Lino vai até o bar em companhia do Gregório, do Valdomiro, do Elso e mais uns amigos para umas rodadas de cartas. A Bazelides vai com algumas amigas e primas visitar a tia Santina, assim passa a tarde, depois da missa continua o preceito bíblico, “onde dois ou mais estiverem reunidos…” O sol já cansado daquele dia comprido de início de verão se esconde, as vezes, por traz das nuvens, mas reaparece de novo mais tarde. Finalmente se escondeu por um tempo por trás das copas dos timbós do pátio da capela e reapareceu de novo, vermelho de vergonha, por entre os troncos das árvores. É hora de ir para casa, dona Bazelides se despede das primas e da tia e se dirige ao estacionamento, não sem antes passar pelo bar do Mauri para chamar o “pai” que se entretém com o baralho espanhol e um liso de pura.

Ele é obediente a não espera a rainha do lar chamar duas vezes, termina a rodada e se levanta, ou melhor se põe de pé, vai até a porta, meio duro “das cadeiras” por ter ficado muito tempo sentado. Pelo menos é o que ele diz. Saem os dois abraçadinhos, que lindeza.

Dali até o carro não é muito longe e o ombro da esposa é uma escora e tanto para contrabalançar o desequilíbrio da cachacinha sorvida durante o jogo. A “mãe” abre o carro e ele se aboleta atrás da direção, ela também embarca à direita do “pai”.

– Guuu, cof, cof! – diz o corcel quando o motorista tenta dar a partida. Mais uma vez:
– Guuu, cof, cof! e nada, as luzes ligadas acabaram a bateria.
– Mãe! Dá um empurrãozinho para fazer pegar no tranco.

A mãe desce e se põe a empurrar o veículo ainda bem que é meio ladeira.

– Crank, gruuuu, gruuu, – diz o corcel desta vez, e se põe a caminho de casa.
– Lino! Liiiino! – grita a mãe.

Nem o corcel nem o Lino ouviram os gritos dela, já estão a caminho de casa. Sem alternativa ela se põe a caminho, desta vez a pé, é um belo quilômetro de caminhada.

 

Epílogo do epílogo

– Não sei… não sei mesmo Lani.
– Pai tu esqueceu a mãe la na vila!
– Ah! Ela foi empurrar o carro pra pegar no tranco e não embarcou depois.
– Pai, o que é isso? Andou bebendo e passou da conta.
– Não! Só foi uns traguinhos…

Casa com o paiol ao fundo.

Casa com o paiol ao fundo.

Nisso a mãe já está chegando, o Lani dá um empurrãozinho pro carro pegar e desta vez vai até o meio do pátio. O motorista desce, apesar da falta de equilíbrio e desta vez é novamente apoiado pela esposa dedicada, só que desta vez não é na direção da casa…
– Mãe! Esta é a direção errada.
– Não, a direção errada foi quando me deixou lá na vila, por causa disso hoje vai dormir no paiol.

Comentários encerrados.