O soque do Antoninho Frikes

Passando um pouco do erval, uma trilha a direita costeava a cerca do potreiro e depois serpenteava por entre as touceiras de branquilhos chegando em alguns trechos a ser quase um túnel verde que desembocava finalmente numa clareira de gramado. Ao norte cercada de branquilhos e ao sul demarcada pela curva do arroio do Papagaio, cortada ao meio por uma valeta que trazia a água em curva de nível do passo até a bica da roda d’água do soque de erva mate do Antoninho. Qual a razão para fazer um soque de erva escondido?

Bella Famiglia - Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Bella Famiglia – Graças a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.

Em plena época de ditadura qualquer atividade econômica era controlada rigorosamente e o que não estivesse exatamente dentro do que era preconizado pelos detentores do poder era passível de punição. O tio Luis tinha na época o moinho da vila mas não podia moer trigo, nem no modelo que era usado até então em que o agricultor levava o trigo e ele moia ficando com uma porcentagem. Acho que era até proibido moer o trigo em casa no pilão. Tinha que mandar tudo pra cooperativa e deixar lá reservado uma quantidade de farinha que podia ser retirada mensalmente. Se não me engano esta farinha não podia ser vendida.

– Bem! Deixa pra lá! Isto era coisa da ditadura e eu queria falar do soque do Antoninho.

– O Antoninho Frikes Vaz tinha um armazém, destes tipo boteco mesmo, em frente ao campo de futebol, hoje a praça da igreja da Vila Trentin, também tinha um bando de filhos pequenos, bocas pra dar comida, logo tinha que se virar para conseguir sustentar a família. Se virar em época de vacas magras significava ter que diversificar as atividades então ele comprou uma kombi velha e começou a fazer uma linha de transporte da vila até Palmeira para levar e trazer passageiros e mercadorias, era lá pelos anos setenta, se não me engano. Só que esta atividade era considerada ilegal mas ninguém denunciava porque o povo dependia dele pra se locomover, mas nem assim  ele estava conseguindo por comida nas bocas das crianças em quantidade suficiente. Foi aí que teve a ideia de montar um soque de erva mate. Esta atividade além de ilegal também tinha concorrentes que poderiam denunciá-lo, por isso tinha que ser feita com a maior discrição possível.

Não sei como ele chegou até meu pai, mas com certeza chegou no lugar certo pois o pai sempre teve um quê de revolucionário, daí até fazer alguma coisa que contrariasse o regime era um passo. Como já falei antes, na nossa terra tinha o lugar ideal, uma clareira na beira do arroio, toda cercada de mato, o acesso se poderia fazer pelo lado da casa, como isto chamaria a atenção, a opção dos dois foi fazer uma trilha que desembocava no travessão, dentro da picada de mato. Depois, a estrada que ia até o soque, era um verdadeiro labirinto aproveitando as trilhas do gado por entre os branquilhos espinhentos.

A água não era muita, mas o desnível até o pondo da roda era de uns três metros e oitenta centímetros, o que segundo cálculos teóricos do Tio Ângelo, o fazedor de rodas d’água, ia dar uns três cavalos de força, mais que suficiente para movimentar seis mãos de pilão. os dados de cálculo ele obteve teoricamente do tio pois ninguém podia ficar sabendo da indústria, na época tinha espião até dentro da própria família. Não seria umas grande indústria mas daria para abastecer o armazém com erva própria e mais barata o que aumentava a margem de lucro, ainda mais que alguns clientes da Palmeira começavam a aumentar o volume de encomendas, já que era boa e mais barata.

O empreendedor comprava a erva dos produtores que seria beneficiada, seca e moída, em algum soque autorizado e depois seria revendida no armazém. É claro que uma parte seguia o caminho legal, outra parte ele secava em algum barbaquá escondido e moia no dito soque, isto aumentava enormemente a margem de lucro, hoje diríamos aumentava o valor agregado.

Até hoje não sei bem quais as tratativas que fez com o tio Lino, o que lembro é que um dia apareceu lá em casa com a ideia e pronto para começar a obra. Primeiro tinha que desviar a valeta da roda de bombeamento de água por um canal, valeta, mais acima e ir abrindo a mesma té a clareira onde se somavam mais umas corredeiras e uma cachoeirinha dando os três metros e pouco que precisava de “caimento”. Feito isso tinha que preparar a “cava” para a roda e aplainar o terreno para a instalação do cocho de moagem e das cavadeiras. E por cima de tido um galpãozinho de proteção. No dia que foi liberada a água na valeta nova foi uma festa, formou uma bela cachoeira na bica, só que deu um problema, com a água desviada não sobrou quantidade suficiente para bombear água da fonte pra casa. Mais uma obra se fez necessária, reforçar a barragem de contenção, açude, para aproveitar melhor a água do arroio.

Depois foi montada a roda d’água, o soque, o galpão e a indústria começou a produzir. Ele vinha de noite trazer erva para socar e carregar a erva, pois o trabalho não podia ser conhecido por terceiros. O soque funcionava o dia inteiro e no cair da noite chegava o Antoninho para descarregar a erva moída e reabastecer o cocho.

Terminaram as minhas férias e quando cheguei em casa novamente não tinha mais soque, até hoje não sei o que aconteceu…

… mas o bom de tudo isso é que ale ficou devendo favor pro pai e nas outras férias fizemos uma viagem em família par Nova Palma, na kombi do Antoninho, é claro.

Acho que a viagem dá outra história qualquer dia…

 

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