Banho de rio

Lá pelos idos de 1957, na Vila Trentin, já tinha energia elétrica, mas ter água encanada ainda não era uma realidade. Há pouco fora cavado o poço que aliviou o trabalho de transporte da água desde a fonte, as caminhadas com baldes foram substituídas pelo girar da manivela do poço. A água para consumo e limpeza estava muito mais fácil, no entanto o banho ainda continuava complicado, era banho de bacia. Para lavar a roupa tinha o rio, com abundância de água, era só procurar um bom lugar para o lavador e pronto. O lugar, no lajeado do Moinho, era acima do passo do seu Facin (Fassini).

O caminho que saía entre a casa da nona e o casarão tinha uma ponte sobre a valeta que levava até o passo (lugar onde o arroio do Moinho podia se atravessado a pé) para ir até o seu Facin. Um pouco acima no arroio tinha um lajeado onde o arroio corria numa camada de água quase laminar que funcionava como um escorregador (hoje chamam isso de toboágua) só que este era proibido para as crianças porque terminava no poço do lavador de roupas, que diziam não ter fundo e ser muito perigoso. Lá sempre tinha um lavador de roupas que servia à comunidade antes de ser feito o tanque comunitário.

Era neste lugar que brincávamos enquanto a mãe ou alguma tia lavavam roupas. Passávamos muito tempo brincando lá, quando vinha a tia Rosa, vinham a Quida, a Zeca e a Meri e “nós” fazíamos companhia. Nós, aqui se refere à tia Mími, às vezes o Catarino, o Leo e eu. Quando vinha a tia Irene as companhias mudavam eram a Bena, a Zeca do tio Luís e o Selito. Às vezes vinha também o Narciso, a Maria Terezinha e a Erotildes, mas as presenças constantes eram a tia Mími, o Leo e eu. Como a gente brincava com a roupa, terminávamos o dia imundos, não raro no final da lavagem de roupa a mãe aproveitava para lavar a roupa molhada e dar banho na gurizada, arrematando o trabalho do dia. Quando não tinha roupa seca tocava os peladinhos pra casa onde eram vestidos.

Eu era um minguadinho curioso que estava sempre enchendo o saco de todo mundo, minha parceira preferida de artes era a Mariazinha, pois tínhamos praticamente a mesma idade e sempre dependíamos de algum dos maiores para participar das brincadeiras.

Cachoeira do moinho

Esta é a Cachoeira do Moinho, enumerada como a primeira da série, cai diretamente dentro de um poço circular de aproximadamente 2 metros de diâmetro e uns 70 cm de profundidade, observem a esquerda da cachoeira a pedra molhada com pouca água, com rio cheio era nosso toboagua.

Se tivesse algum dos maiores para fazer companhia, íamos escorregar na corredeira abaixo do poço do lavador, que descia ao lado da cachoeira do moinho. Lembro que tinha uma enorme madeira (enorme para meus padrões da época), encravada no barranco do rio, fazia parte da estrutura de suporte da roda d’água do antigo moinho, onde o vovô morou nos primeiros anos quando chegou. Quando tinha mais água era uma maravilha escorregar por aquela corredeira. E não tinha perigo de cair em nenhum poço sem fundo, pois ela terminava numa parte plana e rasa do rio.

Quando tinha menos água somente corria pela cachoeira e caia diretamente dentro do poço redondo que nestes casos era incrivelmente divertido brincar nele, pois não era fundo e tinha acachoeira que caia como um chuveiro. Os tios e o pai gostavam de tomar banho neste poço porque era bem prático. Uma banheira com um chuveiro natural, todo esculpido em rocha basáltica, limpinho, sem depósito de terra e sem limo. Já as tias e a mãe não usavam esta facilidade porque ficava muito exposto, era perto do passo e num lugar aberto. Como convinha na época elas usavam o poço e a cachoeira do perau.

É exatamente disso que falarei hoje, concordo que deveria ser muito chato passar a vida toda tomando banho de bacia e por isso, às vezes, a mãe e as tias iam banhar-se no rio, muito bem escondidas, é claro. No entanto um curioso – o bichinho carpinteiro – eu, quando tinha uns três ou quatro anos resolvi ir atrás do grupo que ia para o rio.
Eu não ficava sem companhia feminina, ou ficava com a tia Mími, com a nona ou com a mãe, naquele dia saíram todas e eu não encontrei a nona então resolvi segui-las. Apesar dos protestos, e de elas terem me corrido umas duas ou três vezes, esperei um pouco e fui atrás, elas tinham descido em direção ao seu Facin, fui naquela mesma direção e logo ouvi a algazarra, vindo da direção do poço do perau, era bastante perigoso chegar até lá, como a mãe havia dito – Vamos para um lugar perigoso demais para ti. Eu adorava brincar na água, mas já sabia o significado da palavra “perigoso”.

Cachoeira do perau

Cachoeira e poço do perau, vista de baixo. Esta é a segunda cachoeira do lajeado.

O caminho era bem conhecido, como descer rio abaixo, a partir do passo até chegar ao trecho plano que antecedia a dita cachoeira, lá não brincávamos porque era muito alta. Não lembro como cheguei até a parte de cima da cachoeira do perau, quando me aproximei o suficiente para ver as cabeças delas a mãe me viu e já gritou:
– Para! Não chegue mais perto que é perigoso.
Não me aproximei muito porque a tia Dona me alertou que se eu chegasse mais perto poderia cair e morrer, como morrer para mim significava algo pior do que picada de escorpião e eu nem queria pensar nisso, fiquei chorando lá em cima. Esperei o tempo todo do banho delas até que elas começaram subir a cachoeira e voltar para casa. Então a tia Mími me pegou pela mão e me levou para casa.

poço do perau

Poço do perau, visto de cima da cachoeira. Fotomontagem a partir de várias fotos em computador. Ao fundo onde parece que termina o rio começa a cachoeira dos degraus. Estas três cachoeiras, ficam acima do poço das corvetas e são desconhecidas da maioria dos visitantes da gruta.

Para mim o rio e a água sempre representaram um lugar de brincadeira, embora tenha passado episódios de minha vida onde ela significou perigo, que narrarei qualquer dia. Depois desse episódio, por muitos anos ainda, o banho de rio para se lavar era uma DSC05825abrincadeira de adultos que iam para o rio com sabão e toalha. Somente muitos anos depois, passei a compreender a facilidade que o rio representava, e suas vantagens com relação ao banho de bacia. Muita água vai rolar por estas páginas até antes de esgotar as minhas histórias.

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