O guardado do seu Chico

A grande Palmeira das Missões, hoje dividida numa dezena ou mais municípios sempre foi uma terra muito fértil, nela se encontravam riquezas como: gado, erva mate e ouro. Inicialmente era a barba de bode, Aristida pallens, que cobria os campos e fornecia alimento ao gado, principal riqueza da região. Em segundo lugar vinha a erva mate, Ilex paraguariensis, em especial a do talo amarelo, com as nervuras das folhas mais claras, que tinha fama de mais suave e que produzia mate mais gostoso. Sem contar com o ouro, este um pouco mais raro mas que também dava em abundância na região. Na mesma ordem que foram citados também ficava a ordem de facilidade de colheita.

O gado era necessário apenas andar a cavalo pelos campos o dia todo pastoreando e na época certa tropear para o abatedouro ou carnear, convenhamos, um processo simplificado e fácil de realizar.

Já a erva mate exigia mais trabalho, bastava ficar chimarreando à sombra por uns seis ou sete meses enquanto os galhos cresciam e depois… Depois é que começava o trabalho, desgalhar as árvores, sapecar a s folhas, enfeixar e levar para o barbaquá onde ficava secando por dez ou mais dias. Depois era cancheada, quebrada em pequenos pedaços, para finalmente ir para o soque onde era transformada em erva, o pó de folhas cheio de pequenos pauzinhos, que na região se chamam de paraguais. O gado se criava naturalmente nos campos, as vacas produziam bezerrinhos que cresciam pastando barba de bode e depois eram tropeados e vendidos. A erva mate era plantada pelos pássaros que comiam os frutos e depois espalhavam as sementes pelos matos já devidamente adubadas. Como vimos, a riqueza brotava das terras da Palmeira naturalmente.

– Ah! eu ia esquecendo o ouro.

O ouro é outra história. Reza a lenda que riquíssimos Jesuítas, que perambulavam pela província na época das revoluções e guerras, vendo-se ameaçados pelos revolucionários, tanto maragatos como chimangos, iam plantando, suas riquezas – ouro é claro – em lugares estratégicos que pudessem ser encontrados mais tarde quando as guerras findassem. Em geral estes guardados eram feitos próximo a alguma árvore ou outro acidente natural relevante ou ainda, plantavam uma árvore para demarcar o lugar. Segundo alguns historiadores, aqueles que contam histórias, além do ouro também era enterrado um escravo ou índio, cuja alma ficaria cuidando o tesouro para seu dono. Ainda segundo o Seu Florinal Novaes Rocha, um historiador com quem convivi na minha infância, eles deixavam em cada “guardado” um mapa com informações dos anteriores. Logo quem achasse um teria o roteiro para encontrar outros, os que foram guardados anteriormente. Assim um mapa destes poderia valer uma fortuna.

Outra corrente, a qual pertencia o seu Francisco Flores, vulgo Chico Flores, não eram os Jesuítas, mas “fazendeiros ricos que, com medo de serem assaltados pelos revolucionários, enterravam seus pertences de maior valor como jóias, talheres de ouro e prata e peças de arreios de prata como argolas, estribos e passadores de cordas e moedas é claro!” Outros ainda como o Zeriquinho, o velho Patrocínio e o Mimoso Louco contavam histórias em que fazendeiros ricos que se desgostavam com os filhos, vagabundos,  enterravam suas riquezas para evitar que eles gastassem as riquezas amealhadas com seu trabalho suado. Independente da fonte o certo é que havia muito ouro enterrado em Palmeira, bastava descobrir o local e cavar, tomando certas precauções, é claro.

Dois locais eram bastante cotados na região da Vila Trentin: a aroeira dos fundos da Escola Roque Gonzales e os camboatãs do seu Lino. Outros, menos prováveis, eram os camboatãs do seu Chico e a aroeira do potreiro do seu  Pompílio Pereira. Tanto camboatãs como aroeiras eram arvores relativamente raras na região o que aumentava a probabilidade de serem marcas de enterros de dinheiro. O local exato dos guardados se encontrava fazendo um certo número de cálculos e triangulações a partir das marcas e acidentes naturais significativos.

Vamos ao que interessa. Nos meses de maio ou junho sempre é propício para esta tarefa pois a queda das folhas de algumas árvores permite com mais facilidade traçar as linhas imaginárias dos triângulos que dão os pontos com precisão.  Para os conhecedores da região fica fácil de visualizar algumas destas referencias destas linhas. Vamos por partes: A grande figueira na casa dos crentes que moravam na curva da estrada da Jaboticaba, a aroeira do matinho da escola, a do potreiro de seu Pompílio e o coqueiro do seu Jardelino, que deu nome a Linha do Coqueiro, formavam uma linha quase reta. Tinha tudo pra ser um indicativo duas árvores não muitos comuns na região a figueira e um coqueiro anão bem no alto, duas aroeiras quase alinhadas a primeira 15 passos a oeste e a segunda 15 passos a leste da linha imaginária. Como estava dizendo no outono ou inverno quando os timbós derrubam as folhas dá pra ver a linha tanto do coqueiro como da estrada de Jaboticaba próximo a figueira. Os camboatãs do Lino e do Chico ficam fora, mas este é outro caso, a linha deles fecha com a tapera do finado Agenor com a do velho Germano. Nem o Lino nem o Chico acreditavam muito nestas riquezas por isso não tinha como acessar estes tesouros. Os que estavam mais fáceis eram exatamente os das aroeiras.

Na aroeira da escola tinha um foguinho que aparecia quando se olhava da estrada, quase em frente a escola, mas que desaparecia assim que alguém tentasse se aproximar. No potreiro do Pompílio as vacas gostavam de saltar e correr quando próximas da dita árvore, estes indícios eram mais que evidentes que havia algo de especial no local.  Foi assim  que…

Num cair de tarde frio de maio de… deve ter sido la pelo ano de 1971 ou 72… três… vamos chamar de amigos que batalhavam para encontrar o ouro se reuniram na encruzilhada próximo ao seu Germano para uma jornada de trabalho não muito regular. Eram o seu Pompílio, dono da propriedade, o Verceli, filho do seu Antonio Graminho, conhecido como Tatão e o Dionísio, conhecido por gostar de uma pinga e que tinha a mula que se ajoelhava para montar quando estava meio passado. Munidos de cavadeira, pá, picareta e evidentemente uma purinha pra espantar o frio. Ao cair da tarde rumaram para o local. Aqui é preciso ressaltar que várias precauções devem ser tomadas quando se procura ou se cava um guardado. 1 – Ninguém além dos escavadores pode ver o trabalho. 2 – Tem que ser sempre um número ímpar de cavadores pois um deve ser o parceiro da alma penada que guarda o tesouro, este deve ficar só olhando, sempre tem um número par trabalhando e uma pessoas observando. 3 – As medidas são sempre em passos ou braças, seguindo as direções dos pontos cardeais a partir das referências. 4 – Nunca se deve levar luz artificial, archote, lanterna ou qualquer coisa que o valha quando o serviço for feito à noite. 5 – Os horários mais indicados para libertar o espírito guardião são o meio dia e a meia noite. 6 – O achado não pode ser dividido no local, a divisão deve ser feita num cemitério, de preferencia em noite de lua cheia.

De posse destas informações nossos amigos rumaram para o potreiro onde começaram a fazer os cálculos a partir da aroeira, 15 passos exatamente a oeste. Cada um mediu os quinze passos e depois foi feita uma média para ter maior precisão do local onde deveria ser cavado. Decidido o local começou a tarefa que deveria ser concluída antes da meia noite, destapar a urna do tesouro que deve ser aberta exatamente a meia-noite e depois fechada novamente até a divisão, que pode ser feita na mesma noite ou noutra, num cemitério, desde que fique ao abrigo da luz do sol.

A noite é fria e úmida, mesmo sendo noite de lua, está escura devido às nuvens. O trabalho é cansativo, mas a recompensa promete. De vez em quando uma rodada no bico da garrafa reanima os cavadores que se revezam no uso das ferramentas. O bom é que a terra está úmida e a cavadeira rende bastante, em alguns momentos até com a pá dá pra cavar, a picareta foi desnecessária pois não tem pedra. Depois de mais de hora no trabalho de escavação, no turno do Dionízio ficar de parceiro do guardador, como ele era fumante resolveu acender um pito. Isso foi a ruína da empreitada.

Seu Chico, homem de sono leve que morava a uns trezentos metros do local, acordou com um barulho pouco habitual e foi até a porta da cozinha para ver o que era. O ruido vinha do potreiro do vizinho e exatamente neste momento o fumante dava uma tragada, sendo assim seu Chico viu uma luzinha. Ficou olhando e constatou que o piscar da luzinha se repetia mais ou menos regularmente. Vestiu-se para verificar o que era, quando chegou ao passo do arroio reconheceu os vizinhos e ficou observando a tarefa. Assim foram quebradas pelo menos três regras: mesmo que muito fraco o cigarro era uma luz, uma pessoas que não participava da escavação viu o trabalho e uma quarta pessoa presente quebra a regra do ímpar.

Chegou a meia noite e nem sinal da arca do tesouro, o fumante foi acusado de ter traído o grupo, acender o cigarro quebrou uma regra e o guardador deve ter confundido eles para que não achassem o tesouro. Uma pequena discussão quase que aos cochichos pôs fim a aventura, a equipe se dispersou mas a aventura ainda teria desdobramentos.

No outro dia

Seu Chico costumava levantar bem cedo, munido de uma velha ânfora de barro quebrada se dirigiu até o escavado. Na parede oeste do buraco, que tinha mais de metro de profundidade, cavou quase na superfície, um buraco mais ou menos com a forma da ânfora quebrada. Assentou a peça no buraco e pressionou bem para que ficasse bem marcado o lugar como se ela estivesse aí por muito tempo. Bateu com o cabo da cavadeira até quebrar a cerâmica e deixou os cacos caírem no fundo do buraco. Tudo isso enquanto a chaleira aquecia a água para o chimarrão. Voltou para casa e sentou-se na cozinha para cumprir o ritual de chimarrear até o nascer do sol como costumava fazer diariamente.  não sorvera ainda o segundo chimarrão quando uma visita interrompe a cerimônia, é o Verceli.

– Bom dia seu Chico.

– Bom dia! Veio chimarrear comigo?

– Na verdade vou até o armazém do seu Germano buscar açúcar pro café, mas acho que anda não abriu, é inverno. Sabe?

De fato seu Germano não costumava levantar muito cedo e muito menos nos dias frios, foi então que seu Chico sugeriu que poderia emprestar uma xícara ou duas de açúcar, mas o Verceli insistiu que iria até seu Germano. Tinha que comprar fumo e também outras coisinhas. Falava sempre olhando em direção à estrada ou melhor ao potreiro do vizinho onde podia se ver uma mancha avermelhada da terra cavada destacando-se do verde do gramado. Seu Chico já havia percebido que o rapaz queria descobrir se ele vira alguma coisa na noite anterior, mas se fez de desentendido, até que olhando para o potreiro exclamou:

– Nossa! Olha lá Verceli, parece que o Pompílio esta lavrando o potreiro.

O Verceli, que tinha uma visão mais jovem e melhor, completou:

– Acho que não é lavrado parece um buraco. Vamos lá ver o que é!

Era a deixa que ele queria para ir até lá com o rapaz, e se foram os dois. No caminho o Verceli questionava porque alguém iria querer fazer um buraco no potreiro. Seu Chico falou que poderia ser o Pascoal, o Florinal ou o Daciano que diziam que tinha por aí um enterro de dinheiro. E nessa conversa chegaram ao buraco…

Como chegaram pelo lado oeste não viram, num primeiro momento, a “casa” da ânfora, somente o buraco, que media mais ou menos um metro e meio por um metro e meio e uns seis ou sete palmos de profundidade. Chegando mais perto viram os caos de cerâmica no fundo do buraco e seu Chico então quebrou o silêncio:

– É, pelo jeito tiraram um guardado! Mas pelo que se pode ver não era dos maiores.

O Verceli tremia, o velhote entrou no buraco e começou a revirar os cacos de cerâmica de onde discretamente tirou um patacão de ouro que levara nas mãos.

– Olha aqui! Deixaram cair uma moeda.

o rapaz estendeu a mão para pegar, mas o Chico recuou:

– Esta estava destinada para mim, veja só. Vou mandar rezar uma missa para a alma do guardador.

Reviraram mais uma vez a cacaria de cerâmica e foram cada um pro seu lado.

O Rapazola que iria buscar açúcar no Germano foi direto a casa do parceiro de escavação para relatar o ocorrido, juntos fora ter com o Dionízio para ver que atitude tomariam a partir do evento. A esta altura já tinham certeza que o velho Chico tinha encontrado o ouro, só não tinham como provar. Decidiram que ficariam atentos a todo e qualquer movimento, e não deu outra. Na visita do vigário à capela dos Três Mártires seu Chico, que não era nem um pouco religioso, foi a missa e pediu orações nas intenções de sua família.

– Era esta a prova que faltava, tinha sido ele.- 

Passado algum tempo as crianças do Lino descobriram que o velho tinha alguns documentos antigos que ele mostrava de longe para as crianças mas não deixava tocar. Ele sabia que os guris do Lino brincavam com o Verceli e o irmão dele.

Alguns anos mais tarde eu soube que ele foi sondado se queria vender os documentos históricos que guardava, mas ele desconversou.

Esta é uma das muitas histórias que ouvi do velho Chico Flores numa das tardes que passávamos com ele admirando suas invenções, como o riacho que passava por dentro de sua cozinha.

Primórdios do CTG

Já passou há muito o tempo em que a gente se reunia na casa do vô para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho no rádio.  Até pouco tempo só o domingo era o dia de congraçamento e descanso. Depois da missa ou terço dominical o restante do dia era preenchido por um carteado no bar, para os homens casados. Visitas às comadres pelas senhoras, que sempre tem um motivo para visitar alguém. As crianças? Bem! As crianças andam soltas pelas redondezas, delas vou falar outro dia. Alguns jogam um futebolzinho, outros um futebolzão. Os jovens, nas intermináveis rodas de prenda na sombra dos timbós do patio da capela,  praticam jogos que facilitam a escolha dos futuros pares de namorados. Namorados que esperam ansiosos para o novo encontro no próximo domingo.

Nem é preciso dizer que cada uma das frases acima dá um livro se for contada nos detalhes. Mas a verdade é que durante a semana não havia motivos de encontro o que ficava limitado a algum serrão por motivos de aniversário ou outro qualquer em alguma casa ou as cantorias do tio Lino, alguma roda de viola dos Oliveira ou dos Cargnin, mas nada que desse motivo para a comunidade toda se reunir mais que um dia por semana.

Foi lá nos anos 60, a Vila Trentin, acho que por invenção do tio Miro, passou a ter mais uma oportunidade de convívio social na semana, a noite de CTG. Final de expediente na oficina, a serragem precisa ser removida, a oficina varrida, hoje é quarta-feira dia de se reunir para cantar dançar declamar e muito mais. Cada um apresentando seus talentos e com uma diferença de tudo mais. Uma grande diferença das reuniões dominicais, aqui todos se reúnem desde os patriarcas até as crianças, mais parece uma festa de família.

O povo janta cedo a começa a fluir em direção a oficina agora com o status de sede de convívio social, evidentemente que está sem poeira e bem iluminada, afinal energia não é problema para quem tem usina própria. O pessoal vai se acomodando como pode, bancos improvisados, uma serra circular ou uma aplainadeira agora promovidas a mesa e o espaço central de montagem de móveis agora é a pista de dança.  Vale tudo, desde uma gaita bem tocada pelo tio Ângelo, uma moda de viola com os irmãos Oliveira, uma performance dos irmãos Arcanjo e Domingos Cargnin com sua rabeca feita em casa até as cantorias em grupo das famílias do tio Lino e tio Luis.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Passado algum tempo o movimento social ganhou fama e começou a vir gente de outros povoados, no entanto a glória foi quando apareceu numa quarta feira o Padre Theodoro com um gravador. Uma das noitadas seria registrada em fita para mostrar na Alemanha, na próxima viagem de ferias que ele fizesse. A primeira vez não deu muito certo e na outra semana estava o vigário de novo na Vila. A noite de quarta-feira era única, era a oportunidade de ver reunidos os patriarcas, Bortolo Trentin, Antônio Trentin, Artur Oliveira, Pedro Dalbianco e Ângelo Fassini com suas senhoras. Os jovens casados com esposas e filhos e a juventude.

Tentando tornar viva esta história compus um xote, a música com dança que me encantava naqueles encontros, chamado “Baile dos Trentin” qualquer dia posto uma gravação decente do mesmo.