Sua excelência o marrecão

Desde os primórdios a Vila Trentin sempre primou por uma organização social bem desenvolvida, pela atuação em grupo e pela cooperação mútua. Como principal exemplo os Irmãos Trentin, Bortolo e Antônio, e a filharada se revezavam no uso do moinho, serraria e terras.  É claro que isso se refletia em inúmeros outros aspectos da vida econômica e social como a educação, recreação, comércio, trocas e escambos.

O marrecão ou marreca piadeira já não existia mais por aquelas bandas no entanto a figura persistia, rondando os banhados ao redor do campo do Ipiranga, campeão de futebol varzeano da região. A organização e a forma cooperativa de trabalho dos atletas dava um potencial excepcional ao time, maior que a soma das estrelas que formavam a equipe. No entanto não posso deixar de citar alguns destaques como o goleiro Sérgio Trentin, também conhecido como defunto a trote, devido a sua altura e magreza. O único goleiro que conheci que era capaz de defender todos os pênaltis. E tinha os Oliveira, os Zanon, os Fassini, os Dalla Nora, os Dallbianco e o marrecão.

Apesar do aspecto societário bastante desenvolvido a sociedade era um tanto conservadora e as oportunidades de encontro de rapazes e moças era bastante controlado pelos costumes, encontros na missa ou terço, encontros na quarta a noite para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho na casa do vovô ou mais tarde os bailes de CTG.

No domingo à tarde dois programas eram bastante comuns aos jovens: os jogos de prenda e o futebol do Ipiranga. Oportunamente falarei dos jogos de prenda, agora quero lembrar em especial o futebol e a minha posição no jogo, falar da importância dela tanto para os jogadores como para a plateia e em especial para mim.

Vamos por partes:

O futebol é jogado por duas equipes de rapazes, em geral uma é da casa e outra vem de fora, para jogar eles vestem calções e camiseta e correm atras de uma bola. O campo é uma parte de uma várzea plana e seca, que tem banhado ao redor, algumas árvores na beira do arroio onde fica a plateia(torcida). A torcida é formada quase que exclusivamente de moças jovens solteiras e ficam tanto as de um time como do outro sob a mesma sombra.

A várzea é um local plano naturalmente o que facilita enormemente a implantação de um campo de futebol

Que outro lugar elas poderiam ficar olhando para rapazes de pernas de fora sem serem censuradas? O banhado que cerca o campo tem duas espécies vegetais bastante comuns capim e guamirins. O capim forma uma camada razoavelmente espessa sobre a água que não é capaz de sustentar muito peso e os guamirins crescem em ilhas, por assim dizer, mais secas e dão grandes cachos de frutinhas pretas e doces. Tem guamirim também ao redor do campo, mas as frutas destes são colhidas rapidamente pela numerosa torcida que fica se deliciando com o doce das frutas e a visão dos jogadores. Eu ia esquecendo a bola, que é chutada fortemente de um lado para outro visando o gol. Se a bola for em direção ao gol e se o goleiro for o Sérgio não tem problema, mas se for fora ou o goleiro for outro é comum que ele vá parar no meio do banhado, aí que eu entro.

O marrecão:

Grande parte das vezes quem chutou a bola fica responsável por buscar a menos que o banhado não permita, ou seja, um atleta um pouco mais fortinho afunda no banhado com capim e tudo. Agora imaginem um piazote magricelo, que não tem grandes atrativos para as moças, não joga nada de futebol, por isso não fica de calção mostrando as pernas, o que fazer para se fazer notado? Só atuando na mais importante posição fora do campo: a de marrecão. Magricelo, portanto leve, ágil, e querendo aparecer, ele corre sobre os capins do banhado pega a bola e chuta de volta para o campo. Como não tem bola substituta neste tempo o marrecão é o centro de todos os olhares.

Muitos campos eram cercados de banhado, com sua fauna e flora típicas

Vinte e dois jogadores, juiz, bandeirinha e toda uma torcida dependendo dele, é ou não um momento de glória? Sem contar que os guamirins do centro do banhado tem grandes cachos de frutas, que podem ser colhidos exclusivamente por aquele que tem as qualidades de marrecão. Ele colhe e retorna para a torcida com seu troféu que é disputados pelas moças. Assim o marrecão vai conquistando corações mesmo sem ser um atleta do futebol.

Assim transcorriam os domingos a tarde na vila lá pelos idos de mil novecentos e sessenta e la vai pedradas. Depois os campos evoluíram, com a vinda das patrolas que possibilitaram o aplainamento dos morros muitos campos se distanciaram dos banhados. As bolas ficaram cada vez mais acessíveis e passou a ser comum ter uma ou mais bolas de reserva e com isso o glamour do marrecão, agora promovido ao status de gandula, perdeu sua importância o que contribuiu significativamente para sua extinção.

 

O cinquilho

Um domingo típico na Vila Trentin nos anos 60 incluía um cerimonial bastante complicado, algumas rotinas e muita criatividade.

O banho era tomado no sábado ao fim da tarde. A bacia, apesar de grande, somente comportava um de cada vez o que causava por vezes atritos, gritos e varadas da parte da matriarca. Depois janta, oração da noite e ir dormir. Por vezes o sono demorava, mas era importante para estar pronto para o Domingo, que começava com um chá de mate com leite, para os que ainda não tinham feito a primeira comunhão, os outros iam em jejum para a missa.

Saltar da cama num domingo era algo muito mais emocionante do que qualquer outro dia, mesmo tendo que levantar mais cedo do que em dias de aula. Os meninos, cheirosos do banho do dia anterior, vestiam a roupa de missa e estavam prontos pra sair. Os três caminhavam mais ou menos um quilômetro até a vila. A missa não era na vila, lá somente se encontravam com os primos e primas do tio Luiz e do tio Ângelo, os do seu Artur Oliveira mais algum vizinho ou parente e o grupo fazia mais um trecho de caminhada até a encruzilhada do velho João Pegoraro, perto da figueira dos crentes, onde esperavam a carona que os levaria a missa em Jaboticaba. Quando o tempo era bom vinham os do seu Pedro e os Cargnin. A carona era, na maioria das vezes, o caminhão do Maximino Rigon, que já vinha com os Santi e os Dalla Nora na carroceria.

– Nosso ônibus, um pouco adiante, fazia nova parada onde embarcavam os Turra, os Boton e os Manfio, dali pra diante o pessoal ia a pé mesmo ou a cavalo. O Pai ia quase sempre a cavalo para cantar na segunda missa com o tio Atílio e tio Aurélio que participavam das duas missas. Na época eu era um guri, mas com certeza o caminhão tem muitas histórias de amor pra contar pois, é claro, que era também um lugar de encontro de rapazes e moças que tinham oportunidade de estarem próximos e se conhecer. Na missa ficavam separados mulheres à esquerda da igreja e homens à direita, isso até o padre Paulo vir com aquelas ideias, que trouxe da Alemanha, de juntar as famílias, aí misturou tudo, ainda assim o caminhão era o lugar onde os estranhos e estranhas conseguiam a maior proximidade. E á claro que as vezes tinha que segurar a moça para não cair num solavanco maior do caminhão. E assim tudo ia correndo naturalmente. 

Domingo à tarde a gente ia pra vila. Este costume continuou por muitos anos, aqui uns 15 anos mais tarde a Leda, a Catia, a mãe, a Sirlene e o Leo com a Leia no colo indo pra vila.

A volta era outra festa, todo mundo no caminhão mais animado e fazendo planos para o domingo à tarde, os da vila ainda tinham uns bons 15 minutos de caminhada para fazerem juntos e aí alguns casais já se arriscavam a fazer o trajeto de mãos dadas. A piazada combinava uma caçada, pescaria ou ir até algum mato que tivesse frutas maduras isso incluía cerejas nos matos dos Cargnin ou do seu Pedro Dalbianco, guabirobas na beira do arroio nos fundos das terras do seu Donato Rodrigues, ingás nos matos abaixo da gruta, goiabinha do campo e araçá rasteiro nos campos do Lalo Franco, pinhão nos matos do Dalla Nora, gravatá na tapera do finado Agenor, guaimbê nos matos do Jango e muito mais coisas que só dando corda na máquina do tempo pra me lembrar. E as pescarias, mas isso é uma outra história…

– E quando não tinha nada disso pra fazer a gente ficava na vila mesmo na sombra dos timbós da igreja vendo os mais velhos jogar “prenda” ou brincando de pegar ou esconde esconde. Outro programa muito comum eram os jogos do Ipiranga, terei que escrever algumas histórias sobre isso.

Os casados se reuniam no bar do tio Vtelio Casarin ou no do Hercules Zanon para um carteado que, em geral, durava a tarde toda. Os jogos mais populares eram pife, canastra e pontinho para os mais jovens. os de meia idade jogavam bisca e trissete e os patriarcas gostavam mesmo de um cinquilho. Isso era o programa dos italianos, que eram o seu Pedro, o seu Fassini, o tio Antônio e o Vovô Bortolo, para os atentos já puderam notar que eram só quatro e o jogo exige cinco. Para isso eles precisavam de um parceiro que nem sempre era conseguido dentre os casados mais velhos. Algumas vezes o tio Gervásio completava o quinteto outras vezes eu ocupava o lugar. Não que eu fosse velho ou casado, eu jogava com eles pois sempre saia ganhando…

Nunca fui grande jogador de futebol minha posição oficial era de marrecão, claro que isso tinha lá seu “glamour”, mas participar a tarde toda de uma mesa de cinquilho tinha suas recompensas. No começo da tarde começava o jogo com dez balas cada um, o vovô comprava as minhas e a gente ia jogando a tarde toda e eu terminava o dia sempre com cinquenta balas ou mais. – Não eu não era um jogador muito bom, mas no jogo onde não tem parceiro fixo e sempre se joga dois contra três as balas iam mudando de mão a cada rodada, quando alguém terminava as balas ou pedia emprestado para um parceiro ou comprava mais algumas. No final do dia não importava quem tinha ganhado ou perdido todas as balas acabavam no meu bolso, eu era a única criança que estava por aí.

– Eu voltava pra casa faceiro e com “i dolci in scarcella”.

Isso era a melhor parte do jogo.