Ir para as pitangas (cerejas)

Esta história se passa no tempo em que o tio Miro estava a namorar e aconteceu na época de cerejas maduras, ou seja, lá pelo fim de setembro ou início de outubro. Como não tinha cerejeiras nos matos próximos da vila a gente tinha que fazer uma bela caminhada para se deliciar com as ditas frutas, de lambuja se fazia uma bela corrida de carro de lomba e bicicleta de pau. A bicicleta de pau era um artigo corrente entre os Trentin também tinha os carros de lomba que ofereciam algumas sofisticações com relação aos carros tradicionais de todos os outros meninos da época. Aqui precisa ser feito um parêntesis para deixar claro que a família tinha dois inventores que sempre achavam um jeito de sofisticar os brinquedos e acrescentar novas funcionalidades. Carro de lomba era a especialidade do tio Miro e bicicletas era com o to Anjo.

A bicicleta é um charme, esta foi feita para mim pelo tio Anjo, mas o carro do tio Miro era quase uma limousine.

A bicicleta é um charme, esta foi feita para mim pelo tio Anjo, mas o carro do tio Miro era quase uma limousine.

Na época ainda morávamos no casarão, o tio Luís acabara de se mudar para a casa própria, o tio Anjo morava um pouco adiante quase em frente o tio Antônio (meu tio-avô) Logo depois vinha a tia Santina (tia avó), mas não é pra contar isso que comecei a história e sim para falar da aventura de comer cerejas. Pois bem, era domingo e tinha cereja madura no mato do seu Pedro aí aproveitando que o tio Miro ia namorar a gente foi junto e para levar toda a criançada não dava pra ir num carrinho de lomba mixuruca, por isso e tio fez um reboque pro carro dele. O carro tinha assento com encosto e direção para dirigir com as mãos e freio de pé, observem que isso não combina nem um pouco com carro de lomba tradicional que se dirige com os pés e se freia com a alavanca de mão. Pena que não tenho foto do carro porque era algo a ser relembrado. Mas eu estava dizendo que para levar a criançada não dava pra levar num carrinho, então o tio acrescentou um reboque. Era feito com uma tábua de uns três metros e com um rodado numa ponta e apoiado com um pino no carro na outra ponta, cabia uns seis piás nele.
Não lembro quem formava o time de piás naquela vez lembro do Leo, meu guardião e do Pascoal, do tio Antônio, que era o encarregado de empurrar lomba acima o reboque. O tio Miro conduzia o carro o tempo todo. A gente ia comer cerejas e brincar de carro de lomba enquanto o tio namorava, acho que ele levava os sobrinhos para distrair os cunhados, Milvo, Minervino e Mauri, para que eles não ficassem enchendo o saco.
Logo que a gente chegava ia direto pras pitangas, digo pras cerejas, que ficavam perto do rio na várzea do potreiro. Depois que enchia a barriga de cerejas a gente voltava pra casa aí o tio ia namorara e nós ficávamos brincando na lomba que tinha na frente da casa, as vezes empurrava o carro e o reboque até perto do Otacílio, lomba acima e depois de lotar o coletivo descíamos a toda velocidade em direção à casa, as vezes a gente ia até quase o rio. Outras vezes brincávamos no potreiro, mas sempre o carro era nosso enquanto o tio namorava, depois ele se apossava de novo do carro e íamos para casa. Algumas vezes também se reuniam o Arcângelo e o Domingos Carnin, que também tinham carros sofisticados e bicicletas de pau.
Assim um domingo típico da gurizada era sempre uma aventura. Como hoje colhi minhas cerejas fiquei rememorando estas histórias, acho que a próxima vai ser dos guabijús.