Rede: um local para se sentir seguro.

Uma das mais belas figuras para ilustrar a forma de nossa convivência humana é a rede, é claro que deitar numa rede à sobra no verão é uma excelente ideia, uma rede é uma estrutura que nos acolhe e nos sustenta, por isso nos sentimos seguros nela.

Rede: lugar confortável e seguro

Rede: lugar confortável e seguro

Vou continuar a pensar nela, só que queria falar de uma rede tipo rede de pesca, onde os fios ligam os nós a outros nós, e para continuar cada um de nós é um nó.

Os primeiros fios, são as relações que nos ligam a nossos pais, nossos irmãos, nossos filhos, são fios de nossa geração, eles nos ligam a nossos antepassados e a nossos descendentes, são as linhas biológicas. Estas relações são fechadas e imutáveis. Quando fazemos um encontro de família estamos buscando conhecer e estudar esta relação, a que nos liga a nossos parentes. Podemos até calcular o grau de parentesco, é muito fácil, basta contar todos os nós que nos separam do parente e diminuir dois aí temos o grau, vou usar como exemplo o meu primo Joel, isso vale para todos os outros primos do mesmo grau dele. Vejamos: Eu, minha mãe, o vô Bôrtolo, o tio Luiz, o Joel; três nós me separam dele: Bazilides, Bôrtolo e Luiz menos dois igual a um, logo somos parentes de primeiro grau. O cálculo feito para a Ana, do Toni, seria: Eu, minha mãe, o vô Bôrtolo, o bisavô Serafim, o tio-avô João, a Ana; quatro nós me separam dela, menos dois igual a dois, logo somos parentes de segundo grau, e assim por diante podemos calcular estas relações matematicamente, é uma relação exata, limitada pela relação biológica. No entanto desenvolvemos em nossas vidas outras relações.

Provavelmente o segundo nível de relações, ligações, que desenvolvemos são as amizades, começamos pelos amigos de infância, aqueles que brincavam juntos quando começávamos a nos conhecer e aprender as regras de convivência social. Alguém já tentou jogar futebol sozinho? – Não dá né! E sem regras? – Também não! Assim vamos criando laços, ligações fios que são de outro nível, não é mais biológico e nem lógico. Estas relações podem pular por cima de vários nós e nos conectar diretamente a outra pessoa que está em nossa rede biológica ou em outra rede. Pode ser um laço curto ou longo. Não é mais a matemática que decide a distância, somos nós.

Outra camada que desenvolvemos é a do conhecimento, aprendemos com os outros e ensinamos os outros, estes são laços de duas vias, ensino-aprendizagem. Nesta rede minhas primeiras ligações foram com a professora Izene e a professora, tia, Iria. Na saudosa Escola Roque Gonzales, ainda no tempo que era apenas uma salinha de aula onde de manhã tinham aulas o primeiro, terceiro e quinto anos com a professora Izene e à tarde o segundo e o quarto com a professora Iria. Estes laços são de duas vias porque é impossível que alguém apreenda alguma coisa sem influenciar quem ensina. Assim os laços de ensino-aprendizagem são de mão dupla, por isso são muito fortes.  O problema é que quando sintonizo alguma coisa me dá uma vontade louca de dar corda na minha máquina do tempo e voar pra lá, vou usar a escola como base de meus voos, nos primeiros tempos de aula eu chegava lá as oito da manhã…

A escola

Quase sempre chegávamos, o Léo e eu, em cima da hora a campainha já tinha tocado e a turma subia a escada, cada um tomando seu lugar, eu sentava na segunda fila das classes do lado direito de que entrava. Deste lado ficavam os alunos do primeiro ano, do outro ficavam as classes dos do terceiro e quinto anos, aquelas eram maiores e mais

A escola recebeu classes usadas.

A escola recebeu classes usadas.

rústicas com bancos para três ou quatro alunos. As classes do primeiro ano eram daquelas duplas, a da frente só tinha a mesa e as demais eram um banco com a mesa da fila de trás acoplada e assim por diante. Naquele ano a escola recebera classes com pernas de ferro, vindas de alguma escola que fora reformada. O quadro era feito de três tábuas aplainadas de uns trinta centímetros de largura, pintadas com tinta feita de casca de jabuticaba pelo vovô. (Um dia destes vou falar das químicas do vovô). A escada era enorme, para mim pelo menos, tinha uns três ou quatro degraus e a gente usava como palco para declamar poesias em dias comemorativos, dia das mães, dos pais, da independência entre outros. Na parede do quadro tinha duas janelas, uma de cada lado, onde a professora botava os “de castigo” quando não sabiam a lição. O Léo e a Zélia eram clientes frequentes de ficar de pé junto a janela lendo o livro. Lembro de uma vez que o Léo foi de castigo e deixou cair o livro para fora, a professora mandou ele buscar, ele saiu para buscar o livro e fugiu. Me esperou no caminho e me ameaçou caso eu contasse em casa.

A base da construção era feita de enormes, sempre na minha visão, tocos de madeira(cepos). Eu passava de pé folgado por baixo do assoalho, lembro bem que tinha muito “tatuzinho” (formiga leão)

Armadilha_Formiga-leão

Armadilha da formiga leão – tinha muito disso debaixo do assoalho da escola.

no pó em baixo da escola e a gente costumava brincar com eles derrubando alguma coisa no cone da armadilha para ver ela sair, ou assoprava o pó até descobri-la. Acho que teremos que reunir os alunos daquele tempo para escrever um livro…

Foi a escola que criou os primeiros e mais sólidos laços de conhecimento de minha vida. Foi a ligação do apreendido na escola com o vivido e experimentado em casa que me deram uma visão de mundo única e exclusiva. Isso não é nenhuma novidade, pois cada um tem sua visão única de mundo, mas a minha se constituiu num universo de informações, vivências e experiências que vou compartilhando para  que outros possam compreender como funciona o universo formativo que me acompanhou e me acompanha. Muita coisa que vi e vivi ou ouvi somente se tornou conhecimento muitos anos mais tarde quando outra informação possibilitou que ela se ligasse de forma lógica no universo de meu conhecimento. A rede do conhecimento vai se formando a medida que uma informação é compreendida e se liga a outra já dominada pelo indivíduo, por isso, plagiando Piaget, a rede do conhecimento é certamente a mais sólida porque para “cada ponto tem um ou mais nós e cada nó tem muitos pontos”. É a rede mais complexa porque não basta a informação, ela tem que estar ligada a uma vivencia anterior. Por isso a minha máquina do tempo funciona sem parar…

PS.: Alunos da Escola Roque Gonzales, uni-vos!