Bodas de ouro – Osvaldo e Cacildes

Alguns anos antes de falecer a minha mãe deixou claro que queria que a gente “se reunisse ao menos uma vez por ano para fazer uma festa”. Alguns anos depois o pai também disse a mesma coisa algum tempo antes de falecer. Por isso temos o compromisso moral de fazer pelo menos duas festas por ano para satisfazer seus últimos desejos.

Para fazer uma festa tem que ter um motivo nem que seja o aniversário do papagaio, assim a gente procura não faltar em nenhuma festa, e sempre que possível a gente vai nas festas dos tios e primos, muitas vezes até mesmo sem ser convidado. Assim…

Recebendo um trato para a festa

Casualmente? Estávamos na vila visitando os parentes e como sempre não poderíamos deixar de visitar o tio Osvaldo, chegamos na casa dele na sexta-feira justamente na hora que ele estava se arrumando pra festa. Claro! No outro dia era a festa de bodas de ouro, conversa vai conversa vem… os sobrinhos que vieram de longe também estavam convidados.

Oportunamente fomos visitar o tio Osvaldo e a tia Cacildes

Chegou o grande dia, estávamos hospedados no Quida&Milvo Hotel, de manhã fomos ver a tia Rosa e o tio Ângelo, ela já estava com problemas de memória, se apagando como uma vela que alumiou a vida toda. Apesar do amorzinho (tio Ângelo) tentar convencê-la a ir à festa ela se recusava pois não queria ir em festa de estranhos (a irmã e o cunhado). Estávamos quase todos prontos e a tia Rosa se recusava a ir à festa e o tio Ângelo não iria sozinho, não podia deixar a Rosa. Numa conversa com os dois a Catia conseguiu descobrir uma coisa que ela gostava…

Tia Rosa

– Tia vamos dançar, vai ter baile!
– Se é assim eu vou… e começou a cantarolar uma musica de seu tempo de juventude.

Estava resolvido iriamos todos à festa. Mas a história estava apenas começando…

Levamos o tio e a tia no nosso carro e as crianças foram com outras caronas. Ao chegar no salão teríamos que levar ela meio carregada pois não conseguia dar mais que alguns passos. Um dos primos acho que foi o Euclésio trouxe uma cadeira para ela sentar e carregaríamos a cadeira. Foi aí que tivemos a primeira grande surpresa. Ela recusou a cadeira e disse:
– Eu não vou entrar num baile carregada. – e entrou andando.

A segunda surpresa foi quando chegamos perto da mesa da família, ela não reconhecia ninguém, mas ao ver um casal sentado próximo a ponta da mesa ela exclamou:
– José rato! Então você tá aqui! – e abraçou efusivamente o cunhado.
Todos ficaram surpresos porque a memoria dela vinha falhando, mas lembrou dele e de uma série de coisas e fatos ligados a ele no passado. Pouco tempo depois estava se sentindo em casa, depois de apresentada a várias pessoas pelo José rato. E a festa continuou…
O jantar estava magnífico, o amorzinho se desdobrando em cuidados pela sua mais linda flor a Rosa até que o pessoal resolveu começar a dançar e aí a Rosa estava cansada e não quis dançar, então o Tio Ângelo convidou a Licéia, minha filha e foram dançar. Não demorou muito e a tia estava excomungando aquela gasguita que dançava com o amorzinho, e mais, ia dar uma surra de guarda-chuva nela, felizmente no ouro dia não lembrava mais de nada.

Mas as surpresas da festa não pararam por aí, alguém desafiou um casal, de uma certa idade, que não eram os noivos, a dar um beijo em público e aí começou a gritaria de Beija! Beija! e foi então que fomos brindados com um beijo cinematográfico…

Beijo cinematográfico

do tio José e da tia Ercília

PS.: Isso foi só um resumo da festa.
PS2.: Se quiserem baixar as fotos com mais resolução é só clicar na miniatura abrir a foto e clicar com o botão da direita e salvar como.

PR-π-poca

Prefixo de rádio normalmente usa três letras e alguns números desde uma convenção em 1947 as emissoras brasileiras tem como primeira letra o Z, PY e PX são prefixos para radioamadores e radioescutas. Não sei de onde o tio Miro se inspirou para o prefixo da rádio dele a “PRπpoca”, só sei que fui na inauguração como convidado de honra. Mais tarde também fui operador, ah! querem saber quando?…

Corria o ano de 1963 eu estava já com quase dez anos e era curioso pra mais de metro, vivia fuçando em tudo. Era tido como um pequeno gênio, na pratica, nunca fui muito inteligente o que eu era? observador, detalhista e curioso… Bem mas vamos ao que interessa.

Se eu estou certo era no domingo dia 15 de setembro de 1963, estão duvidando de minha memória? querem saber como me lembro da data? foi no domingo antes do nascimento do meu irmão Laudelino.

Na foto a tia Iria com o Léo no colo. Em primeiro plano o boi Pintor da junta Mansinho e Pintor. No fundo a casa do seu Orêncio, local onde mais tarde o Tio Argemiro construiria sua morada. Atualmente mora no local o Osmar Fassini

O tio Argemiro tinha se mudado há pouco tempo para o outro lado do rio, perto do to Osvaldo. Construiu a casa no lugar da antiga tapera do seu Orêncio ao lado do erval. O lugar era privilegiado pois tinha eletricidade apesar de ser fora da vila.

Mas vamos ao assunto: Ele estava terminando o curso por correspondência de rádio reparação do Instituto Radio Técnico Monitor e no kit de práticas tinha uma série de componentes que possibilitavam a montagem de um transmissor de Amplitude Modulada – AM (naquele tempo ainda não tinha sido inventada a Freqüência Modulada – FM). O transmissor era baseado num conjunto de válvulas muito populares na época, a retificadora 35W4 e a amplificadora, osciladora, moduladora 50C5. tantas funções numa válvula me fazem pensar numa ancestral do circuito integrado. Mas não é para falar de eletrônica que escrevo este poster e sim para falar da inauguração da rádio do tio Miro.

Então logo após a missa voltamos de Jaboticaba de carona no caminhão do Rigon da Boa Vista e descemos a pé até a vila passando pela picada que ia desde a faixa de Boa Vista a Jaboticaba até a morada do Joãozinho Pegoraro. Neste dia não fui direto pra casa mas sim fui pra casa do tio Miro conhecer a traquitana. Num chassi de ferro tinha um alto falante, que funcionava como microfone e logo atrás duas válvulas com aquela luzinha avermelhada e mais uma resistência também avermelhada que dissipava um calor danado. Estava tudo sobre uma mesinha no centro da sala. Chegamos e o tio foi logo ligando o equipamento para esquentar, também ligou o rádio receptor e ficamos aguardando o aquecimento. Findos alguns minutos e feitos alguns ajustes no transmissor era hora de sintonizar o receptor e em alguns instantes começou uma microfonia danada, era preciso levar o receptor pra mais longe. Feito isso até o receptor estar o mais longe que pudemos começou-se a transmissão. Passávamos músicas de um rádio sintonizado em outra emissora e falávamos qualquer coisa nos intervalos. Do outro lado do vale, na cancha de toras da serraria, perto do barbaquá que incendiou alguns anos depois, (essa é outra historia pra contar) tinha alguém com uma bandeira acenando para dar retorno que o rádio do vovô estava sintonizando corretamente.

Considerada inaugurada a rádio PRpipoca fomos para casa o próximo passo seria dar uso prático ao invento, isso ocorreu pouco tempo depois na festa dos padroeiros. Em breve terei que contar também esta história.

Mãos mágicas

Janeiro já estava quase findando, como todos os anos, eu e a minha família estávamos perambulando de casa em casa em Jaboticaba e na Vila Trentin. Porque perambular? – diriam alguns – Muito simples – responderia eu. Porque temos pouco tempo e queremos dar pelo menos uma passadinha em casa de cada tio.

Este costume de visitar os mais velhos já vem de alguns anos, esta prática reforça o conteúdo da memória, reaviva histórias e cria link novos, desta forma me mantenho ligado ao passado que me constituiu como pessoa. E o melhor, muitas vezes alguma história ouvida de um ancestral reaviva imagens esquecidas no cérebro recriando um caminho de aceso a memórias perdidas, não poucas vezes alguma palavra foi capaz de trazer de volta belíssimas histórias perdidas nos labirintos da memória. Outras vezes a graça e a riqueza de detalhes de uma história possibilitam compreender as práticas e os pequenos milagres das tecnologias ancestrais ou retomar práticas perdidas no tempo.

Um dia destes eu queria aprender como se fazem as tranças de palha de trigo, não só aquelas tradicionais, mas também aquelas de bico que se colocavam na borda do chapéu como enfeite. Quem era a professora? A tia Angelina. Já passados de longe os 80, fala mansa mas muito animada, ela ia mostrando passo a passo como se faz cada tipo de trança enquanto a Licéia com a câmara ia registrando os detalhes em vídeo. Eu feito um babaca escutava as histórias que fluíam da sua boca. As mãos ágeis trançavam freneticamente, mas com precisão, de quando em quando ela olhava para a Licéia e explicava algum detalhe da trança e depois, sem olhar o que as mãos faziam, continuava a me encantar com suas palavras. Era muito difícil de compreender como aquelas mãos funcionavam de forma mágica enquanto a boca me contava as histórias de parteira, já passados cinquenta anos ou mais dos eventos relatados.

Eu nunca estive na casa do tio Garibaldi e da tia Angelina, ela visitava, as vezes, o vovô Bortolo, no entanto todas as vezes que a gente ia visitar o tio Aquiles, ou ia no Mario Schiavinato via a casa do outro lado do vale um pouco acima da do João Aires. Esta foi a referência que sobrou em minha memória. Depois fiquei muitos anos fora, teve até um tempo que o Dega foi colega de seminário mas isto passou e finalmente, já com minha família um pouco crescida comecei a voltar às raízes e cada vez que ia para a vila de férias ou mesmo num passeio de fim de semana fazia questão de visitar os tios e tias mais velhos para ouvir um pouco do passado e tentar descobrir alguma imagem que estava adormecida nos porões empoeirados do cérebro. Assim foi naquele fim de verão de 2004, se não me engano. Eu estava como aquele que tenta chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.

Eu sei que ela está nesta foto, mas não saberia identificá-la

Um par de mãos me encantavam com a precisão dos movimentos ritmados na confecção da trança, de quando em quando uma palha nova ia até a boca para ser umedecida e entrava no ritmo do trabalho. A boca ia desfilando histórias das andanças de parteira pela região quando de repente uma frase marcou, o ritmo mudou.
– Nunca uma criança faleceu em munhas mãos, é claro que fiz partos de crianças que já estavam mortas, mas as vivas vieram ao mundo vivas.
A Catia que ouvia tudo encantada, como eu, não resistiu uma pergunta:
– Mas… houve algum parto onde a senhora realmente teve medo de não conseguir? 
– Sim! Eu tinha ficado dois dias fora de casa atendendo partos pras bandas do Rodeio Bonito. Já bastante cansada e sem dormir estava chegando em casa mais cansada que o cavalo, que me carregava por tudo e que estava quase dois dias sem parar. Quando vi a casa estava o Garibaldi e um outro homem me esperando com dois cavalos selados. Passou um filme pela minha cabeça, não era a primeira vez que eu chegava e tinha que sair imediatamente para atender outra parturiente, só tomava um banho, comia alguma coisa e saia de novo. Quando parei o cavalo na frente de casa o Garibaldi chegou e disse: – Troca de cavalo que o teu deve estar cansado, é um caso urgente, a dona esta em trabalho de parto desde ontem á noite. – Eles tinham preparado um lanche de pão e salame para que eu pudesse comer durante a viagem. Saímos imediatamente nem vi os filhos, na época tinha dois. O pai da criança que me acompanhava chorava, mas com a voz entrecortada foi me contando a situação, a mãe tinha as contrações, parecia tudo normal mas a criança estava fora de posição, vinha nascendo sentada. Uma vizinha tentou ajudar mas não tinha prática, aí ela ficou cuidando da mãe enquanto o pai foi buscar recurso, a casa deles ficava perto do Varejão, uns vinte quilômetros quase. Ouvindo a história insisti que deveríamos apressar os cavalos pois cada minuto é precioso num parto. Já caia a tarde quando chegamos, a mãe estava quase desfalecida e a vizinha apavorada. Examinei a criança e ainda estava viva, mas a água da bolsa tinha saído toda, um parto seco com a criança na posição é difícil, imagine com a criança sentada, pedi banha morninha para lubrificar e tentei ajeitar a criança, não tinha como, ela estava encaixada demais. – Rezei. Rezei  muito para ter uma luz. Com muito jeito consegui enroscar meus dedos médios na virilha do nenê, mas não tinha força para puxar. Pedi ajuda para o pai da criança que me segurou por baixo dos braços para ajudar no esforço, enquanto a vizinha segurava a mãe, foram uns minutos eternos, consegui retirar o corpo e ai vinha a pior parte, tinha que tirar a cabeça sem puxar, pois corria o risco de desnucar a criança, e se demorasse ia faltar oxigênio pois o cordão umbilical estava esmagado. Felizmente tenho os dedos compridos e finos só que algo estava errado com minha mão esquerda, no esforço tinha quebrado o dedo médio. Mas naquela hora não tinha tempo para para a dor tinha que salvar aquela criança. Mais alguns minutos o gurizinho chorou! Felizmente não era uma criança muito grande e a mãe era corpulenta o que ajudou muito. Terminado o parto caí exausta quase desmaiada como a mãe, felizmente outras pessoas fizeram o resto do trabalho. Este foi um parto dos que eu chamo difícil – arrematou ela.

Só então reparei melhor nas mãos que não tinham parado de trançar palhas o dedo dedo torto das mãos mágicas continuava lá agora fazendo uma magia muito mais simples, tecendo palha para encantar os olhos de um sobrinho-neto e sua filha que queriam aprender a fazer  chapéus de palha.

Tenho o vídeo da cena, mas está em fita magnética, pode ser que um dia destes eu digitalize.

 

 

A oficina e as manifestações culturais

A arte de trabalhar a madeira está no sangue da família desde muitas gerações. Desde a Itália a família Trentin teve grandes artesãos e a tradição chegou evidentemente à Vila Trentin. Assim de uma pequena oficina que o vô Bortolo tinha ao lado da casa da nona a evolução se transformou numa bela fábrica de móveis, que dentre outras coisas ainda fazia pipas e tinas nos moldes de antigamente.

Depois do falecimento do vovô a oficina ficou com o tio Argemiro nem por isso deixou de ser um centro de trabalho e arte. Mas por falar em arte…

Talvez por ter herdado uma Kodak caixote do pai não é que o Liceo começou a se interessar por fotografia, um dia destes temos que desenterrar algumas lembranças dele quando impregnava papel com água de bananeira para tentar fazer fotos. Claro que estes desejos infantis evoluíram e agora que ele estava estudando em Porto Alegre aparecia nas férias com uma Kodak Instamatic, e agora até com filme colorido. Claro! Era o fotógrafo de ocasião, por exemplo é dele a foto do Darci Corote com a família, os vinte e quatro filhos e as esposas. Da família do tio Miro carpindo o soja… na verdade cada foto rende uma história.

Não era diferente na oficina, a turma aproveitava a ausência do patrão para exercitar os dotes teatrais, se bem que, por amar a arte, acho que ele nem se importaria. Já estavam quase no fim as férias do nosso fotógrafo quando ele foi convidado a fotografar uma performance do grupo de marceneiros. Uma cena no mínimo um pouco chocante para aqueles pacatos trabalhadores.

– Mas o que não se faz por amor à arte?

O cenário foi um tanto improvisado, pois o galho do pé de ariticum não suportaria o peso do condenado – Mas arte é arte. O padre e o coroinha também não estavam caracterizados a rigor – Mas o que importa é a atuação. A metralhadora mais parece uma furadeira, mais uma vez tudo em nome da arte. E para não ficar dúvida nenhuma que a sentença seria cumprida o condenado deveria ser enforcado e fuzilado e pronto.

O resultado é uma cena digna de Oscar, um pouco atrasado, é claro, mas convenhamos, – Eles merecem o premio mesmo que reconhecido apenas alguns meses,  na verdade, apenas 517 meses mais tarde.

Saggioratto – no papel de carrasco, Noerci – no de condenado, Aires – carrasco2, Moisés – o coroinha e Daciano – o padre. Todos merecedores do prêmio de melhor ator.

Muitas felicidades!

Depois de 1965 saí da vila e não sei se a tradição continuou. Primos por favor! Me ajudem…

O dia nem bem amanhecia, as crianças já estavam de pé se arrumando para espalhar felicidades pela vila. (Isso é de quando ainda morávamos com o vovô.) Primeiro acordavam os moradores do casarão: os pais, os tios, o vô e a vó. Em alguns momentos chegavam os do tio Luiz: a Bena, a Zeca, o Selo e o Dimas, a gente formava um pequeno time e saia para acordar a vizinhança. Muito cedo, rezava a tradição, os primeiros a chegar ganhavam os melhores doces. O nosso grupo era quase sempre o primeiro a chegar no seu Fassini, que não tinha crianças e por isso tinha bastante doces para os primeiros. Depois a gente continuava até o tio Antônio, mas lá a gente sempre chegava atrasado, pois outro time, os do tio Ângelo: Quida, Zeca, Meri e Tade e tio Gervásio: Tarcísio, Maria Terezinha, Tide, Quinho e Remi chegavam primeiro…

Cassa do seu Facin (Ângelo Pio Isaías José Fassini e Olinda Fassini) no dia do casamento da tia Cacildes com o tio Osvaldo. Vários dos primos citados no texto estão na foto.

No caminho íamos encontrando os grupinhos que passavam de casa em casa, começávamos sempre no núcleo da vila e depois íamos cada vez mais longe até onde as pernas suportassem. Era preciso visitar o maior número possível de casas para distribuir as felicidades de um ano novo ao maior número possível de gentes. E depois esperar mais um longo ano para ter de novo uma oportunidade como esta de desejar felicidades e ganhar doces de novo.

Depois de 1965 saí da vila e não sei se a tradição continuou. Primos por favor! Me ajudem a resgatar as nossas tradições e aventuras, basta me passar uma ideia, algum detalhe, que eu escrevo e ponho neste blog para que no futuro as pessoas possam saber como era a nossa vida, o que foi nossa infância.

Sua excelência o marrecão

Desde os primórdios a Vila Trentin sempre primou por uma organização social bem desenvolvida, pela atuação em grupo e pela cooperação mútua. Como principal exemplo os Irmãos Trentin, Bortolo e Antônio, e a filharada se revezavam no uso do moinho, serraria e terras.  É claro que isso se refletia em inúmeros outros aspectos da vida econômica e social como a educação, recreação, comércio, trocas e escambos.

O marrecão ou marreca piadeira já não existia mais por aquelas bandas no entanto a figura persistia, rondando os banhados ao redor do campo do Ipiranga, campeão de futebol varzeano da região. A organização e a forma cooperativa de trabalho dos atletas dava um potencial excepcional ao time, maior que a soma das estrelas que formavam a equipe. No entanto não posso deixar de citar alguns destaques como o goleiro Sérgio Trentin, também conhecido como defunto a trote, devido a sua altura e magreza. O único goleiro que conheci que era capaz de defender todos os pênaltis. E tinha os Oliveira, os Zanon, os Fassini, os Dalla Nora, os Dallbianco e o marrecão.

Apesar do aspecto societário bastante desenvolvido a sociedade era um tanto conservadora e as oportunidades de encontro de rapazes e moças era bastante controlado pelos costumes, encontros na missa ou terço, encontros na quarta a noite para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho na casa do vovô ou mais tarde os bailes de CTG.

No domingo à tarde dois programas eram bastante comuns aos jovens: os jogos de prenda e o futebol do Ipiranga. Oportunamente falarei dos jogos de prenda, agora quero lembrar em especial o futebol e a minha posição no jogo, falar da importância dela tanto para os jogadores como para a plateia e em especial para mim.

Vamos por partes:

O futebol é jogado por duas equipes de rapazes, em geral uma é da casa e outra vem de fora, para jogar eles vestem calções e camiseta e correm atras de uma bola. O campo é uma parte de uma várzea plana e seca, que tem banhado ao redor, algumas árvores na beira do arroio onde fica a plateia(torcida). A torcida é formada quase que exclusivamente de moças jovens solteiras e ficam tanto as de um time como do outro sob a mesma sombra.

A várzea é um local plano naturalmente o que facilita enormemente a implantação de um campo de futebol

Que outro lugar elas poderiam ficar olhando para rapazes de pernas de fora sem serem censuradas? O banhado que cerca o campo tem duas espécies vegetais bastante comuns capim e guamirins. O capim forma uma camada razoavelmente espessa sobre a água que não é capaz de sustentar muito peso e os guamirins crescem em ilhas, por assim dizer, mais secas e dão grandes cachos de frutinhas pretas e doces. Tem guamirim também ao redor do campo, mas as frutas destes são colhidas rapidamente pela numerosa torcida que fica se deliciando com o doce das frutas e a visão dos jogadores. Eu ia esquecendo a bola, que é chutada fortemente de um lado para outro visando o gol. Se a bola for em direção ao gol e se o goleiro for o Sérgio não tem problema, mas se for fora ou o goleiro for outro é comum que ele vá parar no meio do banhado, aí que eu entro.

O marrecão:

Grande parte das vezes quem chutou a bola fica responsável por buscar a menos que o banhado não permita, ou seja, um atleta um pouco mais fortinho afunda no banhado com capim e tudo. Agora imaginem um piazote magricelo, que não tem grandes atrativos para as moças, não joga nada de futebol, por isso não fica de calção mostrando as pernas, o que fazer para se fazer notado? Só atuando na mais importante posição fora do campo: a de marrecão. Magricelo, portanto leve, ágil, e querendo aparecer, ele corre sobre os capins do banhado pega a bola e chuta de volta para o campo. Como não tem bola substituta neste tempo o marrecão é o centro de todos os olhares.

Muitos campos eram cercados de banhado, com sua fauna e flora típicas

Vinte e dois jogadores, juiz, bandeirinha e toda uma torcida dependendo dele, é ou não um momento de glória? Sem contar que os guamirins do centro do banhado tem grandes cachos de frutas, que podem ser colhidos exclusivamente por aquele que tem as qualidades de marrecão. Ele colhe e retorna para a torcida com seu troféu que é disputados pelas moças. Assim o marrecão vai conquistando corações mesmo sem ser um atleta do futebol.

Assim transcorriam os domingos a tarde na vila lá pelos idos de mil novecentos e sessenta e la vai pedradas. Depois os campos evoluíram, com a vinda das patrolas que possibilitaram o aplainamento dos morros muitos campos se distanciaram dos banhados. As bolas ficaram cada vez mais acessíveis e passou a ser comum ter uma ou mais bolas de reserva e com isso o glamour do marrecão, agora promovido ao status de gandula, perdeu sua importância o que contribuiu significativamente para sua extinção.

 

O cinquilho

Um domingo típico na Vila Trentin nos anos 60 incluía um cerimonial bastante complicado, algumas rotinas e muita criatividade.

O banho era tomado no sábado ao fim da tarde. A bacia, apesar de grande, somente comportava um de cada vez o que causava por vezes atritos, gritos e varadas da parte da matriarca. Depois janta, oração da noite e ir dormir. Por vezes o sono demorava, mas era importante para estar pronto para o Domingo, que começava com um chá de mate com leite, para os que ainda não tinham feito a primeira comunhão, os outros iam em jejum para a missa.

Saltar da cama num domingo era algo muito mais emocionante do que qualquer outro dia, mesmo tendo que levantar mais cedo do que em dias de aula. Os meninos, cheirosos do banho do dia anterior, vestiam a roupa de missa e estavam prontos pra sair. Os três caminhavam mais ou menos um quilômetro até a vila. A missa não era na vila, lá somente se encontravam com os primos e primas do tio Luiz e do tio Ângelo, os do seu Artur Oliveira mais algum vizinho ou parente e o grupo fazia mais um trecho de caminhada até a encruzilhada do velho João Pegoraro, perto da figueira dos crentes, onde esperavam a carona que os levaria a missa em Jaboticaba. Quando o tempo era bom vinham os do seu Pedro e os Cargnin. A carona era, na maioria das vezes, o caminhão do Maximino Rigon, que já vinha com os Santi e os Dalla Nora na carroceria.

– Nosso ônibus, um pouco adiante, fazia nova parada onde embarcavam os Turra, os Boton e os Manfio, dali pra diante o pessoal ia a pé mesmo ou a cavalo. O Pai ia quase sempre a cavalo para cantar na segunda missa com o tio Atílio e tio Aurélio que participavam das duas missas. Na época eu era um guri, mas com certeza o caminhão tem muitas histórias de amor pra contar pois, é claro, que era também um lugar de encontro de rapazes e moças que tinham oportunidade de estarem próximos e se conhecer. Na missa ficavam separados mulheres à esquerda da igreja e homens à direita, isso até o padre Paulo vir com aquelas ideias, que trouxe da Alemanha, de juntar as famílias, aí misturou tudo, ainda assim o caminhão era o lugar onde os estranhos e estranhas conseguiam a maior proximidade. E á claro que as vezes tinha que segurar a moça para não cair num solavanco maior do caminhão. E assim tudo ia correndo naturalmente. 

Domingo à tarde a gente ia pra vila. Este costume continuou por muitos anos, aqui uns 15 anos mais tarde a Leda, a Catia, a mãe, a Sirlene e o Leo com a Leia no colo indo pra vila.

A volta era outra festa, todo mundo no caminhão mais animado e fazendo planos para o domingo à tarde, os da vila ainda tinham uns bons 15 minutos de caminhada para fazerem juntos e aí alguns casais já se arriscavam a fazer o trajeto de mãos dadas. A piazada combinava uma caçada, pescaria ou ir até algum mato que tivesse frutas maduras isso incluía cerejas nos matos dos Cargnin ou do seu Pedro Dalbianco, guabirobas na beira do arroio nos fundos das terras do seu Donato Rodrigues, ingás nos matos abaixo da gruta, goiabinha do campo e araçá rasteiro nos campos do Lalo Franco, pinhão nos matos do Dalla Nora, gravatá na tapera do finado Agenor, guaimbê nos matos do Jango e muito mais coisas que só dando corda na máquina do tempo pra me lembrar. E as pescarias, mas isso é uma outra história…

– E quando não tinha nada disso pra fazer a gente ficava na vila mesmo na sombra dos timbós da igreja vendo os mais velhos jogar “prenda” ou brincando de pegar ou esconde esconde. Outro programa muito comum eram os jogos do Ipiranga, terei que escrever algumas histórias sobre isso.

Os casados se reuniam no bar do tio Vtelio Casarin ou no do Hercules Zanon para um carteado que, em geral, durava a tarde toda. Os jogos mais populares eram pife, canastra e pontinho para os mais jovens. os de meia idade jogavam bisca e trissete e os patriarcas gostavam mesmo de um cinquilho. Isso era o programa dos italianos, que eram o seu Pedro, o seu Fassini, o tio Antônio e o Vovô Bortolo, para os atentos já puderam notar que eram só quatro e o jogo exige cinco. Para isso eles precisavam de um parceiro que nem sempre era conseguido dentre os casados mais velhos. Algumas vezes o tio Gervásio completava o quinteto outras vezes eu ocupava o lugar. Não que eu fosse velho ou casado, eu jogava com eles pois sempre saia ganhando…

Nunca fui grande jogador de futebol minha posição oficial era de marrecão, claro que isso tinha lá seu “glamour”, mas participar a tarde toda de uma mesa de cinquilho tinha suas recompensas. No começo da tarde começava o jogo com dez balas cada um, o vovô comprava as minhas e a gente ia jogando a tarde toda e eu terminava o dia sempre com cinquenta balas ou mais. – Não eu não era um jogador muito bom, mas no jogo onde não tem parceiro fixo e sempre se joga dois contra três as balas iam mudando de mão a cada rodada, quando alguém terminava as balas ou pedia emprestado para um parceiro ou comprava mais algumas. No final do dia não importava quem tinha ganhado ou perdido todas as balas acabavam no meu bolso, eu era a única criança que estava por aí.

– Eu voltava pra casa faceiro e com “i dolci in scarcella”.

Isso era a melhor parte do jogo.

O Oméga ferradura do seu Domingos

Eu gosto de ouvir histórias…

“Muitas pessoas contam histórias, nem todas são ouvidas, e muitas vezes histórias passam sem ter o devido crédito, ou por sua inverossimilhança ou por falta de dados comprobatórios. Sempre que uma história contada tem algo de extraordinário logo é taxada de mentira e não se fala mais nisso. Por isso a função do contador de histórias é buscar nos fatos ocorridos o que de mais fundamental e básico dá credibilidade a uma história e depois apresentar estes dados com coerência e propriedade.”

Na vila Trentin e arredores  havia muitos contadores de histórias nem sempre acreditados, muitas vezes injustiçados e até mesmo desprezados por aqueles que se julgavam mais sérios ou mais científicos.

Uma destas vítimas era o seu Domingos Lereno, muitas vezes ouvi senhores de respeito taxando-o de mentiroso, mesmo que suas histórias tivessem fundamento lógico. Eu mesmo ouvi algumas, sempre de terceira mão bastante difíceis de crer, mas a do relógio me deixou intrigado.

O velho Rocha e seu filho, Florinal, depois de aprontar alguma coisa que nunca descobri o que foi, foram obrigados a se exilar voluntariamente na Argentina sob pena de cumprimento de uma ameaça de morte. Passados alguns anos o Florinal voltou, e para evidenciar a prosperidade no país vizinho, voltou ostentando um belo exemplar de relógio, não um destes de bolso comuns como os Tissot que alguns fazendeiros da região tinham, mas um autêntico “Omega ferradura” de pulso. Já imaginaram que maravilha, poder olhar as horas sem levar a mão no bolso. Principalmente para um campeiro que quando ia laçar ficava com as duas mão ocupadas uma nas rédeas de cavalo e a outra no laço, bastava dar uma viradinha no pulso e podia olhar as horas sem interromper o trabalho.

Negócio vai negócio vem, o dito relógio foi parar nas mãos do seu Domingos, ou melhor no pulso. Só que tinha um probleminha, ele era canhoto e o relógio ficava justamente no pulso da mão mais usada com o laço e o roçar do laço na pulseira acabava desgastando a dita, ainda bem que pertinho dali, umas duas horas a cavalo, tinha o seu Sestilio Zandoná, que além de boas botas fazia pulseiras novas, idênticas a original.

Mas como o correr dos anos é implacável, seu Domingos, já beirando os noventa anos não tinha mais como enfrentar a cavalgada para fazer nova pulseira e o relógio ficou aposentado numa gaveta, foi nesta época que eu e o Geraldinho ouvimos uma das histórias mais incríveis de nossas vidas. Foi numas férias de junho, 1977 se não me engano, quase no final do mês quando decidimos fazer uma caçada, munidos de bodoque e de uma espingarda de pressão, saímos meio sem rumo em direção dos campos para ver se caçávamos alguma perdiz. É claro que não caçamos nada, mas no caminho encontramos o feliz proprietário do Omega ferradura.

– Boa tarde seu Domingos. – disse eu.

– Boa tarde, vejo que estão tentando caçar perdiz.

– Sim! Só que ainda não vimos nenhuma…

– Vocês estão no lugar errado meus filhos, perdiz a vontade pra caçar só tem na fazenda  do Medeiros ou na do Lalo.

– Mas e como se faz pra chegar lá? – perguntou o Geraldinho.

– Podem atravessar a minha fazenda e depois daquele capão de timbó tem um banhadinho, atravessando ele já estão nos campos do Medeiros, depois da faixa fica a do Lalo, costeando por umas duas léguas o rio Fortaleza. Mas tomem cuidado com as cobras porque nestes campos tem muitas das grandes. (Um pequeno parêntesis é necessário. Preciso esclarecer, que na região, se chama fazenda uma propriedade de umas dez ou mais quadras de campo. Nem a do seu Domingos nem a do Medeiros tinham este tamanho, mas se perdoa sempre um pequeno exagero, principalmente diante de dois estudantes da cidade.)

Já íamos tomando nosso rumo quando ele chamou: – Será que não querem tomar um chimarrão lá em casa?

Em função da solicitude dele e do respeito pelos seus cabelos brancos aceitamos e lá fomos nós. Chegamos na casa e a chaleira jé estava chiando, ele encilhou o mate ¹) e arrastou mais um banco de três pernas pra frente da casa e a nossa caçada terminou por aí. Ele tinha nos identificado por alto, sabia que eu era filho do Lino, o veterinário, mas queria saber do Geraldinho, do pai dele, e muito mais… Aí ele lembrou que gostava deveras de ouvir as histórias do meu pai, do Ernesto Lorenzetti, do seu Chico Flores, do seu Osvaldo, do Jardelino… e foi contando uma infinidade de histórias, muitas  que eu já ouvira em tom jocoso de outras pessoas, mas ouvir dele com toda a pompa de linguagem e seriedade que era devida dava outro colorido. Até que finalmente ele lembrou de uma história de doma do Florinal… e por sinal ele tinha um relógio que tinha ganho do Florinal numa carreirada, ele apostou na égua do Zeriquinho do Prado e venceu. Por sinal o relógio era uma verdadeira joia, um “Oméga ferradura” ²) – fez questão de carregar bem o “é” do Oméga – e tinha uma história bem interessante:

O Omega ferradura da história, que a partir de hoje guardo com mais carinho ainda.

“Eu sempre gostei muito do relógio, acabei dando o meu de bolso pro Florinal, pois ele ficou sem. Vocês que estão acostumados com relógios de pulso não sabem o significado que ele tem pra quem lida no campo. – Disse olhando pro meu Orient de aço inoxidável e fundo azul. – Pensem comigo, você tá na lida, digamos tem que laçar uma rês, uma mão está na rédea do cavalo e a outra no laço, não tem como ver as horas num relógio de bolso. – tivemos que concordar com ele – Pois foi exatamente numa destas campereadas que me aconteceu uma cousa muito estrambólica, quando eu tava rodando o laço ele roçou na pulseira, de couro legítimo, do relógio que se desprendeu, mas eu tinha que pegar aquele novilho taurino e pensei comigo mesmo – Deixa o relógio cair depois eu volto e pego ele – mas não perdi o tiro de laço. 

Pois e não é que eu me distrai com o rebelde e olvidei o relógio. Dali um tempo quando fui conferir as horas, pra saber se tava na hora do almoço, é que me dei conta. Aí fiquei desesperado e voltei pra campear o relógio, mas não lembrava mais do lugar, tentei triangular ³) de memória a posição, mas não pude achar, olha, me acreditem! – Dizem que homem não chora mas naquele dia quase chorei, aquela joia era quase como um filho. Fiquei desconsolado, – Não é minha véia? disse se referindo a alguém que estava dentro de casa. – Éééé… – veio uma voz lá de dentro.

A estas alturas já estávamos ficando curiosos…

Pois eu voltei umas seis ou sete vezes a procurar o relógio, esquadrinhei o campo,  e nada. Até que desisti, o campo tinha sido queimado há pouco e tinha aquela camada grossa de carvão de barba-de-bode, voltei depois de uma chuva e nada. 

Pois e não é que o melhor da história ainda estava por acontecer. Eu continuei a camperear mas não lacei mais, quando erguia o braço e não sentia o relógio me dava uma gastura e eu não conseguia soltar o laço. – Você me entende? Perguntou se dirigindo ao Geraldinho que concordou com o bloqueio psicológico. Mas como eu tava dizendo eu continuei a camperear e já fazia um ano que não laçava mais. Numa manhã bem cedinho no despontar do sol eu tava saindo tranquilito no meu baio pra ver o campo que tinha recém sido queimado, pra ver se tinha queimado parelho, você me entende? Nesta vez se dirigiu a mim. Concordei é claro! Quando vi um lampejo de um reflexo do sol distante uns trezentos metros e fui ver o que era. Pasmem! Quando cheguei perto quase morri do coração era o meu relógio, quase caí do cavalo de tanta vontade que tinha de pegar ele, mas quando cheguei mais perto dei um passo atrás, não poderia ser verdade, ele tava funcionando. 

Fiquei encafifado! Já imaginaram se eu saio por aí contando uma história destas vão me chamar de mentiroso. Fiquei em estado de choque, ali parado olhando. Pra funcionar tinha que dar corda todos os dias, eu não podia acreditar que tivesse algum fantasma ou coisa parecida que dava corda. Pelo sim pelo não fiquei aí parado olhando quando tive mais uma baita surpresa, Uma baita cobra passou pelo meio de minhas pernas e foi em direção ao relógio, quando eu ia puxar o revolver pra matar a dita percebi que ela deslizava por cima do pininho de dar corda, o relógio estava no caminho dela, e ela devia sair todo dia da toca. 

Não imaginam o meu alívio, tava explicado como o relógio ficou um ano funcionando. Pena que eu não chamei o teu pai pra bater um retrato – disse voltado pra mim – pois aí eu teria como provar o que tinha visto. O Oméga tava meio desgastado e a pulseira totalmente podre, aí como eu não tinha mais como ir até o Zandoná pra fazer outra resolvi guardar numa gaveta, mas continuo dando corda todos os dias e ele continua ainda com a hora certa. “

Nisto ele se dirigiu para om interior da casa e em seguida voltou com o relógio. O Geraldinho olhou a hora e comparou com o meu e brincou: – Tá um minuto atrasado. Quase apanhamos. Não era o dele que estava atrasado era o meu que estava adiantado. Depois das devidas desculpas falei do meu relógio que não tinha a mesma precisão certamente, mas que se dava corda sozinho com o balançar do braço. Ele ficou encantado e eu já estava de olho no Omega sugeri uma troca, já que o meu tinha até pulseira de aço. Foi uma segunda ofensa o meu não chegava aos pés do omega, e ficou por isso. Mais uma vez ele nos advertiu das cobras, grandes cobras, e fomos fazer nossa caçada.

O medo das cobras e a noite se avizinhando resolvemos voltar pra casa e mais uma vez passamos na casa de seu Domingos.

Quando nos avistou a esposa dele pediu que esperássemos pois ele queria falar conosco, ele tinha ido até a fonte buscar água. Ficamos meio assustados pois ele tinha se ofendido bastante com as nossas duas últimas intervenções sobre o relógio. Mas para nossa surpresa ele veio muito sorridente, nos convidou pra sentar e se dirigiu a mim com uma expressão muito carinhosa:

– Filho! Você é que é o seminarista?

– Sim sou eu!

– Pois olha, devo confessar uma coisa. Eu vi quando tu olhou pro meu relógio e gostou dele, e eu fiquei pensando, – dos meus filhos provavelmente nenhum vai dar o valor sentimental que ele tem pra mim, tu queres ele? Eu te dou de presente. Mas é claro que não posso ficar sem relógio, por causa das horas dos remédios da Chica, aí tu me dá o teu. Mas promete que vai cuidar com carinho e dar o valor que ele merece.

Prometi por São Jorge, São Judas Tadeu e mais uma infinidade de santos que cuidaria com muito amor aquele relíquia e fui pra casa com o relógio velho em troca do meu Orient, que tinha me custado uma grana.

Usei por uns tempos e esqueci numa gaveta…

PS.: Passados quase quarenta anos, fazendo limpeza nas tralhas pra jogar fora achei o velho relógio e a história veio a tona. Fui buscar informações: pelo numero de série o relógio foi fabricado em 1937, caixa de aço inoxidável folheado a ouro, ainda apresenta uma precisão incrível, mas precisa ser alimentado com corda a cada 30 horas. Quando ele contou a história ele disse que o relógio estava com a hora certa. Resolvi fazer alguns teste deslizando uma mangueira plástica de 1,20 metros , cheia de areia,  para ficar com o tamanho peso aproximado da cobra descrita, sobre o pino da corda e ele não chega a dar corda suficiente para um dia, neste caso a cobra deveria passar mais que uma vez sobre o relógio ou foi coincidência a hora do achado ele estar com a hora certa… Eu já tinha ouvido muita troça das histórias dele, muitos não acreditavam, mas esta me deixou encafifado, para usar uma expressão dele, pela vero semelhança.

¹): Encilhar o mate é colocar mais um pouco de erva mate num mate lavado deixando cair uma porção de erva nova para o fundo da cuia e trazendo a erva lavada para cima. Podem ver no vídeo do post Guardado do seu Chico a partir de 2min e 6seg meu pai encilhando o mate.

Encilhando o mate – pode-se ver o vídeo no post citado acima.

²): Omega ferradura vem duma leitura campeira do símbolo a letra ômega, que parece uma ferradura.

³): A triangulação é um método de buscar algumas referencias, como árvores, montanhas, pedras ou qualquer outra coisa fixa para precisar um ponto. Muito usado na determinação de enterros de dinheiro, ou melhor “guardados”.

O guardado do seu Chico

A grande Palmeira das Missões, hoje dividida numa dezena ou mais municípios sempre foi uma terra muito fértil, nela se encontravam riquezas como: gado, erva mate e ouro. Inicialmente era a barba de bode, Aristida pallens, que cobria os campos e fornecia alimento ao gado, principal riqueza da região. Em segundo lugar vinha a erva mate, Ilex paraguariensis, em especial a do talo amarelo, com as nervuras das folhas mais claras, que tinha fama de mais suave e que produzia mate mais gostoso. Sem contar com o ouro, este um pouco mais raro mas que também dava em abundância na região. Na mesma ordem que foram citados também ficava a ordem de facilidade de colheita.

O gado era necessário apenas andar a cavalo pelos campos o dia todo pastoreando e na época certa tropear para o abatedouro ou carnear, convenhamos, um processo simplificado e fácil de realizar.

Já a erva mate exigia mais trabalho, bastava ficar chimarreando à sombra por uns seis ou sete meses enquanto os galhos cresciam e depois… Depois é que começava o trabalho, desgalhar as árvores, sapecar a s folhas, enfeixar e levar para o barbaquá onde ficava secando por dez ou mais dias. Depois era cancheada, quebrada em pequenos pedaços, para finalmente ir para o soque onde era transformada em erva, o pó de folhas cheio de pequenos pauzinhos, que na região se chamam de paraguais. O gado se criava naturalmente nos campos, as vacas produziam bezerrinhos que cresciam pastando barba de bode e depois eram tropeados e vendidos. A erva mate era plantada pelos pássaros que comiam os frutos e depois espalhavam as sementes pelos matos já devidamente adubadas. Como vimos, a riqueza brotava das terras da Palmeira naturalmente.

– Ah! eu ia esquecendo o ouro.

O ouro é outra história. Reza a lenda que riquíssimos Jesuítas, que perambulavam pela província na época das revoluções e guerras, vendo-se ameaçados pelos revolucionários, tanto maragatos como chimangos, iam plantando, suas riquezas – ouro é claro – em lugares estratégicos que pudessem ser encontrados mais tarde quando as guerras findassem. Em geral estes guardados eram feitos próximo a alguma árvore ou outro acidente natural relevante ou ainda, plantavam uma árvore para demarcar o lugar. Segundo alguns historiadores, aqueles que contam histórias, além do ouro também era enterrado um escravo ou índio, cuja alma ficaria cuidando o tesouro para seu dono. Ainda segundo o Seu Florinal Novaes Rocha, um historiador com quem convivi na minha infância, eles deixavam em cada “guardado” um mapa com informações dos anteriores. Logo quem achasse um teria o roteiro para encontrar outros, os que foram guardados anteriormente. Assim um mapa destes poderia valer uma fortuna.

Outra corrente, a qual pertencia o seu Francisco Flores, vulgo Chico Flores, não eram os Jesuítas, mas “fazendeiros ricos que, com medo de serem assaltados pelos revolucionários, enterravam seus pertences de maior valor como jóias, talheres de ouro e prata e peças de arreios de prata como argolas, estribos e passadores de cordas e moedas é claro!” Outros ainda como o Zeriquinho, o velho Patrocínio e o Mimoso Louco contavam histórias em que fazendeiros ricos que se desgostavam com os filhos, vagabundos,  enterravam suas riquezas para evitar que eles gastassem as riquezas amealhadas com seu trabalho suado. Independente da fonte o certo é que havia muito ouro enterrado em Palmeira, bastava descobrir o local e cavar, tomando certas precauções, é claro.

Dois locais eram bastante cotados na região da Vila Trentin: a aroeira dos fundos da Escola Roque Gonzales e os camboatãs do seu Lino. Outros, menos prováveis, eram os camboatãs do seu Chico e a aroeira do potreiro do seu  Pompílio Pereira. Tanto camboatãs como aroeiras eram arvores relativamente raras na região o que aumentava a probabilidade de serem marcas de enterros de dinheiro. O local exato dos guardados se encontrava fazendo um certo número de cálculos e triangulações a partir das marcas e acidentes naturais significativos.

Vamos ao que interessa. Nos meses de maio ou junho sempre é propício para esta tarefa pois a queda das folhas de algumas árvores permite com mais facilidade traçar as linhas imaginárias dos triângulos que dão os pontos com precisão.  Para os conhecedores da região fica fácil de visualizar algumas destas referencias destas linhas. Vamos por partes: A grande figueira na casa dos crentes que moravam na curva da estrada da Jaboticaba, a aroeira do matinho da escola, a do potreiro de seu Pompílio e o coqueiro do seu Jardelino, que deu nome a Linha do Coqueiro, formavam uma linha quase reta. Tinha tudo pra ser um indicativo duas árvores não muitos comuns na região a figueira e um coqueiro anão bem no alto, duas aroeiras quase alinhadas a primeira 15 passos a oeste e a segunda 15 passos a leste da linha imaginária. Como estava dizendo no outono ou inverno quando os timbós derrubam as folhas dá pra ver a linha tanto do coqueiro como da estrada de Jaboticaba próximo a figueira. Os camboatãs do Lino e do Chico ficam fora, mas este é outro caso, a linha deles fecha com a tapera do finado Agenor com a do velho Germano. Nem o Lino nem o Chico acreditavam muito nestas riquezas por isso não tinha como acessar estes tesouros. Os que estavam mais fáceis eram exatamente os das aroeiras.

Na aroeira da escola tinha um foguinho que aparecia quando se olhava da estrada, quase em frente a escola, mas que desaparecia assim que alguém tentasse se aproximar. No potreiro do Pompílio as vacas gostavam de saltar e correr quando próximas da dita árvore, estes indícios eram mais que evidentes que havia algo de especial no local.  Foi assim  que…

Num cair de tarde frio de maio de… deve ter sido la pelo ano de 1971 ou 72… três… vamos chamar de amigos que batalhavam para encontrar o ouro se reuniram na encruzilhada próximo ao seu Germano para uma jornada de trabalho não muito regular. Eram o seu Pompílio, dono da propriedade, o Verceli, filho do seu Antonio Graminho, conhecido como Tatão e o Dionísio, conhecido por gostar de uma pinga e que tinha a mula que se ajoelhava para montar quando estava meio passado. Munidos de cavadeira, pá, picareta e evidentemente uma purinha pra espantar o frio. Ao cair da tarde rumaram para o local. Aqui é preciso ressaltar que várias precauções devem ser tomadas quando se procura ou se cava um guardado. 1 – Ninguém além dos escavadores pode ver o trabalho. 2 – Tem que ser sempre um número ímpar de cavadores pois um deve ser o parceiro da alma penada que guarda o tesouro, este deve ficar só olhando, sempre tem um número par trabalhando e uma pessoas observando. 3 – As medidas são sempre em passos ou braças, seguindo as direções dos pontos cardeais a partir das referências. 4 – Nunca se deve levar luz artificial, archote, lanterna ou qualquer coisa que o valha quando o serviço for feito à noite. 5 – Os horários mais indicados para libertar o espírito guardião são o meio dia e a meia noite. 6 – O achado não pode ser dividido no local, a divisão deve ser feita num cemitério, de preferencia em noite de lua cheia.

De posse destas informações nossos amigos rumaram para o potreiro onde começaram a fazer os cálculos a partir da aroeira, 15 passos exatamente a oeste. Cada um mediu os quinze passos e depois foi feita uma média para ter maior precisão do local onde deveria ser cavado. Decidido o local começou a tarefa que deveria ser concluída antes da meia noite, destapar a urna do tesouro que deve ser aberta exatamente a meia-noite e depois fechada novamente até a divisão, que pode ser feita na mesma noite ou noutra, num cemitério, desde que fique ao abrigo da luz do sol.

A noite é fria e úmida, mesmo sendo noite de lua, está escura devido às nuvens. O trabalho é cansativo, mas a recompensa promete. De vez em quando uma rodada no bico da garrafa reanima os cavadores que se revezam no uso das ferramentas. O bom é que a terra está úmida e a cavadeira rende bastante, em alguns momentos até com a pá dá pra cavar, a picareta foi desnecessária pois não tem pedra. Depois de mais de hora no trabalho de escavação, no turno do Dionízio ficar de parceiro do guardador, como ele era fumante resolveu acender um pito. Isso foi a ruína da empreitada.

Seu Chico, homem de sono leve que morava a uns trezentos metros do local, acordou com um barulho pouco habitual e foi até a porta da cozinha para ver o que era. O ruido vinha do potreiro do vizinho e exatamente neste momento o fumante dava uma tragada, sendo assim seu Chico viu uma luzinha. Ficou olhando e constatou que o piscar da luzinha se repetia mais ou menos regularmente. Vestiu-se para verificar o que era, quando chegou ao passo do arroio reconheceu os vizinhos e ficou observando a tarefa. Assim foram quebradas pelo menos três regras: mesmo que muito fraco o cigarro era uma luz, uma pessoas que não participava da escavação viu o trabalho e uma quarta pessoa presente quebra a regra do ímpar.

Chegou a meia noite e nem sinal da arca do tesouro, o fumante foi acusado de ter traído o grupo, acender o cigarro quebrou uma regra e o guardador deve ter confundido eles para que não achassem o tesouro. Uma pequena discussão quase que aos cochichos pôs fim a aventura, a equipe se dispersou mas a aventura ainda teria desdobramentos.

No outro dia

Seu Chico costumava levantar bem cedo, munido de uma velha ânfora de barro quebrada se dirigiu até o escavado. Na parede oeste do buraco, que tinha mais de metro de profundidade, cavou quase na superfície, um buraco mais ou menos com a forma da ânfora quebrada. Assentou a peça no buraco e pressionou bem para que ficasse bem marcado o lugar como se ela estivesse aí por muito tempo. Bateu com o cabo da cavadeira até quebrar a cerâmica e deixou os cacos caírem no fundo do buraco. Tudo isso enquanto a chaleira aquecia a água para o chimarrão. Voltou para casa e sentou-se na cozinha para cumprir o ritual de chimarrear até o nascer do sol como costumava fazer diariamente.  não sorvera ainda o segundo chimarrão quando uma visita interrompe a cerimônia, é o Verceli.

– Bom dia seu Chico.

– Bom dia! Veio chimarrear comigo?

– Na verdade vou até o armazém do seu Germano buscar açúcar pro café, mas acho que anda não abriu, é inverno. Sabe?

De fato seu Germano não costumava levantar muito cedo e muito menos nos dias frios, foi então que seu Chico sugeriu que poderia emprestar uma xícara ou duas de açúcar, mas o Verceli insistiu que iria até seu Germano. Tinha que comprar fumo e também outras coisinhas. Falava sempre olhando em direção à estrada ou melhor ao potreiro do vizinho onde podia se ver uma mancha avermelhada da terra cavada destacando-se do verde do gramado. Seu Chico já havia percebido que o rapaz queria descobrir se ele vira alguma coisa na noite anterior, mas se fez de desentendido, até que olhando para o potreiro exclamou:

– Nossa! Olha lá Verceli, parece que o Pompílio esta lavrando o potreiro.

O Verceli, que tinha uma visão mais jovem e melhor, completou:

– Acho que não é lavrado parece um buraco. Vamos lá ver o que é!

Era a deixa que ele queria para ir até lá com o rapaz, e se foram os dois. No caminho o Verceli questionava porque alguém iria querer fazer um buraco no potreiro. Seu Chico falou que poderia ser o Pascoal, o Florinal ou o Daciano que diziam que tinha por aí um enterro de dinheiro. E nessa conversa chegaram ao buraco…

Como chegaram pelo lado oeste não viram, num primeiro momento, a “casa” da ânfora, somente o buraco, que media mais ou menos um metro e meio por um metro e meio e uns seis ou sete palmos de profundidade. Chegando mais perto viram os caos de cerâmica no fundo do buraco e seu Chico então quebrou o silêncio:

– É, pelo jeito tiraram um guardado! Mas pelo que se pode ver não era dos maiores.

O Verceli tremia, o velhote entrou no buraco e começou a revirar os cacos de cerâmica de onde discretamente tirou um patacão de ouro que levara nas mãos.

– Olha aqui! Deixaram cair uma moeda.

o rapaz estendeu a mão para pegar, mas o Chico recuou:

– Esta estava destinada para mim, veja só. Vou mandar rezar uma missa para a alma do guardador.

Reviraram mais uma vez a cacaria de cerâmica e foram cada um pro seu lado.

O Rapazola que iria buscar açúcar no Germano foi direto a casa do parceiro de escavação para relatar o ocorrido, juntos fora ter com o Dionízio para ver que atitude tomariam a partir do evento. A esta altura já tinham certeza que o velho Chico tinha encontrado o ouro, só não tinham como provar. Decidiram que ficariam atentos a todo e qualquer movimento, e não deu outra. Na visita do vigário à capela dos Três Mártires seu Chico, que não era nem um pouco religioso, foi a missa e pediu orações nas intenções de sua família.

– Era esta a prova que faltava, tinha sido ele.- 

Passado algum tempo as crianças do Lino descobriram que o velho tinha alguns documentos antigos que ele mostrava de longe para as crianças mas não deixava tocar. Ele sabia que os guris do Lino brincavam com o Verceli e o irmão dele.

Alguns anos mais tarde eu soube que ele foi sondado se queria vender os documentos históricos que guardava, mas ele desconversou.

Esta é uma das muitas histórias que ouvi do velho Chico Flores numa das tardes que passávamos com ele admirando suas invenções, como o riacho que passava por dentro de sua cozinha.

Primórdios do CTG

Já passou há muito o tempo em que a gente se reunia na casa do vô para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho no rádio.  Até pouco tempo só o domingo era o dia de congraçamento e descanso. Depois da missa ou terço dominical o restante do dia era preenchido por um carteado no bar, para os homens casados. Visitas às comadres pelas senhoras, que sempre tem um motivo para visitar alguém. As crianças? Bem! As crianças andam soltas pelas redondezas, delas vou falar outro dia. Alguns jogam um futebolzinho, outros um futebolzão. Os jovens, nas intermináveis rodas de prenda na sombra dos timbós do patio da capela,  praticam jogos que facilitam a escolha dos futuros pares de namorados. Namorados que esperam ansiosos para o novo encontro no próximo domingo.

Nem é preciso dizer que cada uma das frases acima dá um livro se for contada nos detalhes. Mas a verdade é que durante a semana não havia motivos de encontro o que ficava limitado a algum serrão por motivos de aniversário ou outro qualquer em alguma casa ou as cantorias do tio Lino, alguma roda de viola dos Oliveira ou dos Cargnin, mas nada que desse motivo para a comunidade toda se reunir mais que um dia por semana.

Foi lá nos anos 60, a Vila Trentin, acho que por invenção do tio Miro, passou a ter mais uma oportunidade de convívio social na semana, a noite de CTG. Final de expediente na oficina, a serragem precisa ser removida, a oficina varrida, hoje é quarta-feira dia de se reunir para cantar dançar declamar e muito mais. Cada um apresentando seus talentos e com uma diferença de tudo mais. Uma grande diferença das reuniões dominicais, aqui todos se reúnem desde os patriarcas até as crianças, mais parece uma festa de família.

O povo janta cedo a começa a fluir em direção a oficina agora com o status de sede de convívio social, evidentemente que está sem poeira e bem iluminada, afinal energia não é problema para quem tem usina própria. O pessoal vai se acomodando como pode, bancos improvisados, uma serra circular ou uma aplainadeira agora promovidas a mesa e o espaço central de montagem de móveis agora é a pista de dança.  Vale tudo, desde uma gaita bem tocada pelo tio Ângelo, uma moda de viola com os irmãos Oliveira, uma performance dos irmãos Arcanjo e Domingos Cargnin com sua rabeca feita em casa até as cantorias em grupo das famílias do tio Lino e tio Luis.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Passado algum tempo o movimento social ganhou fama e começou a vir gente de outros povoados, no entanto a glória foi quando apareceu numa quarta feira o Padre Theodoro com um gravador. Uma das noitadas seria registrada em fita para mostrar na Alemanha, na próxima viagem de ferias que ele fizesse. A primeira vez não deu muito certo e na outra semana estava o vigário de novo na Vila. A noite de quarta-feira era única, era a oportunidade de ver reunidos os patriarcas, Bortolo Trentin, Antônio Trentin, Artur Oliveira, Pedro Dalbianco e Ângelo Fassini com suas senhoras. Os jovens casados com esposas e filhos e a juventude.

Tentando tornar viva esta história compus um xote, a música com dança que me encantava naqueles encontros, chamado “Baile dos Trentin” qualquer dia posto uma gravação decente do mesmo.