Mãos mágicas

Janeiro já estava quase findando, como todos os anos, eu e a minha família estávamos perambulando de casa em casa em Jaboticaba e na Vila Trentin. Porque perambular? – diriam alguns – Muito simples – responderia eu. Porque temos pouco tempo e queremos dar pelo menos uma passadinha em casa de cada tio.

Este costume de visitar os mais velhos já vem de alguns anos, esta prática reforça o conteúdo da memória, reaviva histórias e cria link novos, desta forma me mantenho ligado ao passado que me constituiu como pessoa. E o melhor, muitas vezes alguma história ouvida de um ancestral reaviva imagens esquecidas no cérebro recriando um caminho de aceso a memórias perdidas, não poucas vezes alguma palavra foi capaz de trazer de volta belíssimas histórias perdidas nos labirintos da memória. Outras vezes a graça e a riqueza de detalhes de uma história possibilitam compreender as práticas e os pequenos milagres das tecnologias ancestrais ou retomar práticas perdidas no tempo.

Um dia destes eu queria aprender como se fazem as tranças de palha de trigo, não só aquelas tradicionais, mas também aquelas de bico que se colocavam na borda do chapéu como enfeite. Quem era a professora? A tia Angelina. Já passados de longe os 80, fala mansa mas muito animada, ela ia mostrando passo a passo como se faz cada tipo de trança enquanto a Licéia com a câmara ia registrando os detalhes em vídeo. Eu feito um babaca escutava as histórias que fluíam da sua boca. As mãos ágeis trançavam freneticamente, mas com precisão, de quando em quando ela olhava para a Licéia e explicava algum detalhe da trança e depois, sem olhar o que as mãos faziam, continuava a me encantar com suas palavras. Era muito difícil de compreender como aquelas mãos funcionavam de forma mágica enquanto a boca me contava as histórias de parteira, já passados cinquenta anos ou mais dos eventos relatados.

Eu nunca estive na casa do tio Garibaldi e da tia Angelina, ela visitava, as vezes, o vovô Bortolo, no entanto todas as vezes que a gente ia visitar o tio Aquiles, ou ia no Mario Schiavinato via a casa do outro lado do vale um pouco acima da do João Aires. Esta foi a referência que sobrou em minha memória. Depois fiquei muitos anos fora, teve até um tempo que o Dega foi colega de seminário mas isto passou e finalmente, já com minha família um pouco crescida comecei a voltar às raízes e cada vez que ia para a vila de férias ou mesmo num passeio de fim de semana fazia questão de visitar os tios e tias mais velhos para ouvir um pouco do passado e tentar descobrir alguma imagem que estava adormecida nos porões empoeirados do cérebro. Assim foi naquele fim de verão de 2004, se não me engano. Eu estava como aquele que tenta chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.

Eu sei que ela está nesta foto, mas não saberia identificá-la

Um par de mãos me encantavam com a precisão dos movimentos ritmados na confecção da trança, de quando em quando uma palha nova ia até a boca para ser umedecida e entrava no ritmo do trabalho. A boca ia desfilando histórias das andanças de parteira pela região quando de repente uma frase marcou, o ritmo mudou.
– Nunca uma criança faleceu em munhas mãos, é claro que fiz partos de crianças que já estavam mortas, mas as vivas vieram ao mundo vivas.
A Catia que ouvia tudo encantada, como eu, não resistiu uma pergunta:
– Mas… houve algum parto onde a senhora realmente teve medo de não conseguir? 
– Sim! Eu tinha ficado dois dias fora de casa atendendo partos pras bandas do Rodeio Bonito. Já bastante cansada e sem dormir estava chegando em casa mais cansada que o cavalo, que me carregava por tudo e que estava quase dois dias sem parar. Quando vi a casa estava o Garibaldi e um outro homem me esperando com dois cavalos selados. Passou um filme pela minha cabeça, não era a primeira vez que eu chegava e tinha que sair imediatamente para atender outra parturiente, só tomava um banho, comia alguma coisa e saia de novo. Quando parei o cavalo na frente de casa o Garibaldi chegou e disse: – Troca de cavalo que o teu deve estar cansado, é um caso urgente, a dona esta em trabalho de parto desde ontem á noite. – Eles tinham preparado um lanche de pão e salame para que eu pudesse comer durante a viagem. Saímos imediatamente nem vi os filhos, na época tinha dois. O pai da criança que me acompanhava chorava, mas com a voz entrecortada foi me contando a situação, a mãe tinha as contrações, parecia tudo normal mas a criança estava fora de posição, vinha nascendo sentada. Uma vizinha tentou ajudar mas não tinha prática, aí ela ficou cuidando da mãe enquanto o pai foi buscar recurso, a casa deles ficava perto do Varejão, uns vinte quilômetros quase. Ouvindo a história insisti que deveríamos apressar os cavalos pois cada minuto é precioso num parto. Já caia a tarde quando chegamos, a mãe estava quase desfalecida e a vizinha apavorada. Examinei a criança e ainda estava viva, mas a água da bolsa tinha saído toda, um parto seco com a criança na posição é difícil, imagine com a criança sentada, pedi banha morninha para lubrificar e tentei ajeitar a criança, não tinha como, ela estava encaixada demais. – Rezei. Rezei  muito para ter uma luz. Com muito jeito consegui enroscar meus dedos médios na virilha do nenê, mas não tinha força para puxar. Pedi ajuda para o pai da criança que me segurou por baixo dos braços para ajudar no esforço, enquanto a vizinha segurava a mãe, foram uns minutos eternos, consegui retirar o corpo e ai vinha a pior parte, tinha que tirar a cabeça sem puxar, pois corria o risco de desnucar a criança, e se demorasse ia faltar oxigênio pois o cordão umbilical estava esmagado. Felizmente tenho os dedos compridos e finos só que algo estava errado com minha mão esquerda, no esforço tinha quebrado o dedo médio. Mas naquela hora não tinha tempo para para a dor tinha que salvar aquela criança. Mais alguns minutos o gurizinho chorou! Felizmente não era uma criança muito grande e a mãe era corpulenta o que ajudou muito. Terminado o parto caí exausta quase desmaiada como a mãe, felizmente outras pessoas fizeram o resto do trabalho. Este foi um parto dos que eu chamo difícil – arrematou ela.

Só então reparei melhor nas mãos que não tinham parado de trançar palhas o dedo dedo torto das mãos mágicas continuava lá agora fazendo uma magia muito mais simples, tecendo palha para encantar os olhos de um sobrinho-neto e sua filha que queriam aprender a fazer  chapéus de palha.

Tenho o vídeo da cena, mas está em fita magnética, pode ser que um dia destes eu digitalize.