A pitangueira

Pessoal os escritos em azul são links para mais histórias complementares. Para entender a história é bom lê-las.

Vamos começar pela história que conheço. Quando conheci “a pitangueira” ela já era adulta e eu era ainda uma criança. A minha primeira referência é que a pitangueira era tão alta que eu não alcançava nos galhos por isso dependia dos maiores como o Pascoal, o Catarino ou algum outro que se dignasse a alcançar algumas frutas ou a me puxar para cima onde ficava encarapitado nos galhos comendo até as pitangas amarelas, porque as vermelhas eram colhidas primeiro pelos maiores. Talvez poucos saibam mas ela nem sempre esteva ao lado da capela, ela ficava ao lado da casa queimada. Não! Ela não mudou de lugar. Na época não tinha capela, a nossa capela era na Esquina Boa Vista, hoje Boa Vista das Missões, o terreno, que hoje é da escola mais o da capela já estavam reservados desde a época que queimou a casa do Beppi e da Pierina, nosso parente filho do tio Jorge Trentin, irmão do Antério. Acho que pode ter sido ele que plantou, pois não tinha nenhuma pitangueira nas redondezas. Na época tinha a escola a antiga que tinha os cepos altos e criava tatuzinho em baixo do assoalho, recém construída, um gramadão, no final a pitangueira e depois a casa queimada. Esta era a referência para localizar a pitangueira. Fora dali só tinha pitangueira e cerejeiras lá pras bandas do seu Pedro e dos Cargnin, da gruta pára baixo. Como eu ainda não ia para a escola, tinha uns cinco ou seis anos, a pitangueira era somente uma referencia casual. Em 1959 nos mudamos para a morada nova, longe da vila e somente em 1961 comecei a frequentar a escola, já com 8 anos na época, aí é que começou a verdadeira história de amor pela pitangueira.

Nossa casa nova tendo em primeiro plano a Mãe, Bazilides, gravida da Luisa, e os três mosqueteiros o Léo, eu e o Leonildo.

Nesta época foi construída a capela, tendo como referência a pitangueira, do outro lado da casa queimada. Ah! e tinha também um poço, que depois foi aterrado para evitar algum acidente já que estava abandonado. Bem! Mas a construção da capela separou a pitangueira da escola, isso teve pelo menos duas consequências: a professora não podia nos controlar no recreio e a gente chegava atrasado na escola por não ouvir a sineta. Para nós, os lá de casa, os filhos do seu Tatão, o Verceli e o Jorge, os do seu Pedro, na época; Milvo, Minervino e Mauri e os Cargnin, Arcangelo e Domingos, mais tarde os do seu Julio Ferreira, e os do seu Alduino Casarin que morávamos daquele lado sempre possibilitava comer umas pitangas cedinho antes da aula.

Mas as verdadeiras história da pitangueira que as meninas se referem talvez sejam as que aconteciam durante o recreio ou depois do terço de domingo à tarde. Nesta época todos tínhamos tamanho suficiente para subir na árvore. Grande parte dos meninos formava dois times para jogar bola, um era o Pascoal mais um goleiro e um jogador, contra o resto. As meninas que ficavam sem pátio para brincar de roda, de caçador, de rico e pobre de maré. maré. maré ou outro brinquedo, e se fosse época de pitanga iam para a pitangueira atrás da igreja, a bem da verdade do lado, mas com relação a professora atrás. Aí elas subiam na pitangueira e algum moleque safado ficava em baixo tentando ver aquilo que não devia. Por isso uma tinha que ficar espantando “os piá”. É claro que muitas vezes ia todo mundo misturado e aí ninguém ligava pra isso. O problema é que quando tocava a campainha as vezes não se ouvia e aí vinha xingão e castigo para os atrasados. Depois a gente cresceu e a pitangueira também, pelos meus cálculos ela está com aproximadamente 65 anos, é claro! Ela deve ter nascido num ano abençoado como 1953, já que gosta tanto de história e histórias.

A pitangueira de minha infância

Obrigado tia Tarcila por me lembrar do Beppi e da Pierina, eu não lembrava mais dos nomes deles. Um dia destes temos que conversar sobre os jogos de prenda, para escrever mais alguma história da vila.

A capelinha visita o Seu Generoso

Atualmente recebo em meus perfis no Facebook e no Whatsapp inúmeras visitas, em vídeo ou imagens piscantes, de Santos, Anjos Milagreiros e até o próprio Deus, que vem enviados por amigos, alguns que mal conheço. Devo confessar que nenhum deles me desperta nem um milésimo da emoção despertada pela capelinha de Nossa Senhora que visitava a família na minha infância. Até que nestes dias a Inezinha, sem imagens, sem luzes, sem musiquinha, sem milagres, ligou uma lembrança na minha memória “A visita da Capelinha na casa do Seu Generoso”. Ela visitava todas as casas, mas vou trabalhar com a dele por duas razões: veio da memória da Inezinha, que era um personagem local, e não tenho tempo para descrever todas, por isso é possível que alguns detalhes sejam de outras casas.

A tarefa da capelinha era visitar as famílias e permanecer um dia em cada casa. O roteiro da visita era quase sempre o mesmo, ela chegava ao cair da tarde e logo depois da janta a gente se reunia na casa com as famílias anteriores e posteriores à visita para rezar o terço. O terço dava uns 15 minutos desde o sinal da cruz inicial até o final, com isso podemos dizer que a oração formal era insignificante, não que eu esteja a desprezar a oração formal, mas é justamente para lembrar que ninguém vai a casa do vizinho, com a família toda para rezar 15 minutos, então porque a visita da capelinha era tão importante?

Esta era a capelinha nova.

A metodologia
O processo consistia em receber a capelinha num dia e levar a capelinha na casa do vizinho no dia seguinte, na casa onde estivesse a capelinha se rezava o terço depois do jantar. Cada capelinha tinha um grupo de mais ou menos trinta famílias ou, se o número fosse muito grande tinha duas capelinhas, como era o caso da Vila Trentin, a capela dos Três Mártires Riograndenses. Assim a visita da capelinha dava mais ou menos um mês.
A prática
No dia que a capelinha chegava na casa da família que antecedia a da gente, a gente ia no terço. No outro dia o terço era na casa da gente e no dia seguinte a gente ia na casa do próximo vizinho, assim sempre tinha três famílias reunidas a cada noite. Assim se provocava a presença de Deus entre nós de acordo com Mateus 18:20 “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Isso valia para os adultos, porque para as crianças quem tinha que estar presente era o Anjo da Guarda.

A sequência próxima de casa era o Modesto Dalbianco, Seu Batistinha (Grilo), o Jango (Forquilha), a dona Leila, o Florianinho, lá em casa depois seu Luiz Moreira, o outro Jango (Mogango Branco), seu Generoso e tio Valdomiro e depois continuava. Depois que seu Luis Moreira foi embora, seu Jango saiu do grupo e nós levávamos lá no seu Generoso. PS1.: Entre parêntesis os apelidos, não havia bullying na época.
Como vários vizinhos não sabiam puxar o terço o pai e um de nós ia, muitas vezes, em muitas casas desde o Batistinha até seu Generoso. Vou relatar as minhas memórias de uma destas noites.

Os fatos e a história
Acho que era quarta-feira, sempre fica melhor um encontro no meio da semana, era janeiro ou fevereiro, tempo quente e seco e tinha lua cheia, ou melhor era o segundo ou terceiro dia da lua cheia, quando o início da noite é escuro e depois vem aquela lua maravilhosa para brincar ao luar. Eu estava no terceiro ano, aquele que tinha a caveira no livro, por isso eu não queria ir pro terceiro ano, um dia eu conto porque, então era o ano de 1961. O tio Valdomiro recém tinha se mudado para a antiga tapera da finada Balbina, aquela que assombrava os caminhantes noturnos, dela também tenho algumas história pra contar.
O caminho para ir la de casa até seu Generoso…
Primeiro um resumo da biografia do seu Generoso. Conheci ele ainda quando morávamos lá na vó, ele tinha feito uma cirurgia e precisava de cuidados então ficou uns tempos hospedado lá. Depois quando fomos morar na nossa morada ele ficou nosso vizinho, nesta época ele morava com uma senhora viúva que não lembro o nome, que tinha uma filha, a Otília, que chamávamos de “Lesma Coalhada” (nada de bullying) que tinha dois filhos o João e o Laureano. Quando a senhora faleceu, a Otília e os meninos foram embora e nunca mais soubemos deles. E o Seu Generoso ficou sozinho até que ele encontrou uma senhora viúva, lá pras bandas da Jaboticaba Velha e casou-se com ela dentro dos mais restritos ritos da Santa Madre Igreja. Trouxe para casa a esposa, a Alzira , a Delvíria e o Oscar para nossa alegria, mais crianças para brincar.
… ah! o caminho. Bem! O caminho que fazíamos para chegar lá era descer um pouco pela estrada da vila depois entravamos no potreiro do tio Luis atravessávamos a sanga e voilá, estávamos na casa dele. Para atravessar a sanga tinha uma pinguela feita com uma árvore de angico que caíra no barranco e cujos galhos foram parar do outro lado, o único inconveniente para as crianças é que o corrimão de taquara ficava meio alto, e de noite precisava uma iluminação, – Não! lanterna não tinha. Quando não tinha lua (luz do luar) o pai costumava levar um tição de lenha de angico ou camboatã bem acesso, aí quando sacudia ele o ar avivava as brasas dando uma luzinha mixuruca mas suficiente para não tropeçar e/ou para atravessar a pinguela em segurança. Os do tio Valdomiro não tinham pinguela pra atravessar mesmo assim precisavam luz para não tropeçar. O tio costumava vir com um lampiãozinho mas a gurizada vinha correndo. – Gurizada na época era o Cláudio, a Inês (Inezinha) e a Cecília, lá de casa o Léo, o Leonildo, a Luísa e eu. Naquele dia parece que foi combinado. Nós, lá de casa, resolvemos inovar na iluminação e pegamos um vidro acho que era de um remédio chamado Polyascorb, nome comercial para a vitamina C na época, e enchemos de vaga-lumes, daquelas sempre acesas, tinha os pirilampos, aqueles que ficam piscando mas não serviam para nosso propósito. Do outro lado os do tio Valdomiro fizeram a mesma coisa só não sei do que era o vidro. Os vaga-lumes até que davam uma luz interessante, só que quando ficavam parados apagavam a luz, acho que era pra não gastar energia, aí a gente sacudia o vidro e eles acendiam de novo. E assim chegamos à casa do seu Generoso.

Os adultos entraram e sentaram na sala para conversar e tomar chimarrão, as crianças, com os lampiões improvisados esperavam o despontar da lua. Começava uma lasquinha de luz no horizonte que ia brotando e crescendo, dava uns quatro minutos até ficar completa. Este era um tempo de meditação e contemplação, ficávamos todos em silencio, admirando aquela lua maravilhosa que despontava, uns minutos mais e tínhamos a luz do luar para brincar um pouco.
A brincadeira preferida era o esconde esconde que a luz do luar fica ainda mais emocionante porque qualquer sombra poderia ser um esconderijo. O ferrolho ficava bem visível, era um palanque de atar cavalo que ficava no centro do facho de luz do lampião que se projetava no gramado. Enquanto os adultos reunidos contavam causos e sorviam o chimarrão, as crianças corriam como loucos contando, se escondendo, batendo no ferrolho (ou seguro) para se salvar, tropeçando, caindo dando cabeçada, enfim sendo crianças.

Os adultos, conforme Mateus 18:20, reunidos com o intuito de rezar traziam para a sua companhia o próprio Filho de Deus, enquanto a criançada deveria ter uma centena de Anjos da guarda cuidando para não se quebrarem…

Depois a gente rezava o terço e ia para casa, e cansados dormíamos como anjinhos…

Para aqueles que gostam de relembrar como era o fim de tarde fiz uma cantiga de ninar para minha sobrinha com o tema. Foi gravada pelo Ernesto Piovesan, filho da Luisa. O link é para baixar o arquivo Dorme Isabela

Colhendo pinhão de caminhão – Perdidos

O mês de junho sempre reservava surpresas para a gurizada muitas atividades divertidas se faziam no inverno. Dentre as mais esperadas tinha a arrancação da mandioca, pelar cana e a fazeção de açúcar e chimia, a feitura da farinha de mandioca, a lavação do polvilho (temas para escrever)  e colher pinhões no mato da tia Santina, atualmente dos Dalla Nora. Naquele ano foi especial acho que foi no ano de 1959 ou 60, especial porque naquele ano veio o Tio José rato de caminhão, aproveitando as férias de junho, e trouxe o Evaldo e o Dirceu, e fomos todos juntos colher pinhões. Foram juntos também o Catarino e, se não me engano, o Tarcísio e o Narciso do tio Gervásio, o Léo e eu, é claro. Eu era o menorzinho, deixamos o caminhão na estrada em cima da lomba pois não tinha arranque e fazer pegar no frio de manivela era difícil, e lá fomos nós. Uns duzentos metros adiante de onde hoje é a casa dos Dalla Nora tinha um pinheiro com forquilha, o único que conheci, quase na borda do mato. Em poucos minutos os grandes, adultos entraram no mato e voltaram com cipós e taquaras para envarar e subir.

Esta foto do Caminhão do tio José é da época. Na cadeira o Aires, que era ainda muito pequeno e não participou da aventura.

Envarar consiste em atar uma taquara com cipó no tronco do pinheiro com ataduras a cada 60 ou 80 centímetros de forma que os cipós sirvam de apoio para um bastão que serve de degrau e a taquara fica como um corrimão único que facilita a subida. Em poucos minutos o pai já estava lá na copa derrubando pinhas com uma taquara. Não tenho nem ideia de quantas pinhas foram derrubadas mas sei que dava um monte da minha altura, provavelmente não era grande coisa pois eu era bem baixinho. Terminada a derrubada um dos tis começou a quebrar as pinhas dando uma paulada em cada uma e depois nós debulhávamos e íamos colocando os pinhões no saco. Os adultos foram mato adentro procurar outros pinheiros e nós ficamos debulhado. Apesar de pequenos tínhamos prática de debulhar milho e o trabalho terminou rapidinho, foi aí que tivemos a ideia de procurar os adultos. Eles entraram no mato e seguiram a direção leste, nós entramos no mesmo lugar mas pegamos o rumo norte, enquanto eles percorrendo uns trezentos metros atravessavam o mato nós fizemos mais de um quilometro mato afora e não os encontramos. Depois de algumas horas de caminhada achamos o outro lado do mato enquanto isso…
– Alguém busca um saco vazio que este tá carregado – foi o grito que se ouviu de cima do pinheiro.
O tio Luiz voltou e achou os pinhões ensacados, os sacos vazios mas cadê as crianças?
Voltou desesperado que as crianças tinham se perdido no mato.

Se dividiram de dois em dois e saíram a nossa procura, esqueceram os pinheiros, pinhas e pinhões, era preciso achar as crianças. E começaram a vasculhar o mato. Umas duas horas de busca e nada.

Neste meio tempo o grupo dos pequenos saia do outro lado do mato ao norte bem longe do ponto de entrada. Não muito longe tinha uma casa desconhecida dos meninos, mas era preciso criar coragem e chegar para pedir informações, e assim foi feito.
Primeiro batemos palmas em quantia logo depois apareceu uma senhora:
-Boa tarde,cosa vuto?- pediu a senhora.
– Acho que estamos perdidos – explicou o Catarino, ela não entendeu nada.
Nós não conhecíamos a senhora e estávamos muito intimidados até que saiu do galpão um senhor sorridente que veio pro nosso lado perguntando:
– Como chegaram aqui tutti soli?
Era o seu Luiz Marion, ele conhecia alguns de nós e em especial o Catarino que sempre estava la pelo moinho quando ele levava o milho para a moagem.
Tentamos explicar que a gente tinha se perdido no mato enquanto estava procurando os tios que foram derrubar pinhas. Neste meio tempo apareceu um gurizote curioso que ficou nos observando e dentro de alguns minutos a senhora voltou:
Luiiiigi mi cato que lori ga fame. (Luiz eu acho que eles estão com fome) – Pelo sim pelo não ele concordou e nos fez entrar na cozinha onde tinha uma mesa cheia com bolachas e chá de mate com leite.
Até aí tudo estava saindo melhor que a encomenda, nós nem pensávamos em um lanche e estávamos tomando um “chá das quatro” ao estilo da nona Rosa. Enquanto isso o seu Luiz mandou o Tchéo, o filho, atrelar os cavalos na carroça para nos levar de volta pra casa, ou melhor para o caminhão. Mais alguns minutos e estávamos de barriga cheia e fazendo a maior algazarra na carroça com o Tchéo. A gente ia fazendo piruetas para ver a sombra projetada no barranco da estrada.

O sol já se punha no horizonte deixando as sombras compridas e dentro de poucos instantes ia escurecer. O bando de crianças capitaneados pelo Catarino que tinha então uns 13 ou 14 anos ficaria a mercê das feras noturnas, jaguatiricas, graxains, cobras, morcegos, corujas, meu Deus será que vão sobreviver? De noite não tem como procurar, eles devem estar famintos e desarmados. Com exceção do tio Miro todos tinham filhos no grupo e o desespero começou a tomar conta dos grandes.
Mais alguns minutos e não seria mais possível procurar, a escuridão tomaria conta.

Felizmente ainda estava claro quando chegamos ao caminhão e então, capitaneados pelo Tchéo, fomos ao encontro dos adultos, primeiro encontramos o tio Miro e o tio José, que voltavam ao caminhão na esperança de fazer pegar e buzinar muito para nos atrair. Fizeram a gente ficar na carroceria do caminhão enquanto iam procurar os outros, neste meio tempo dispensaram o carroceiro para voltar pra casa e se foram aos gritos tentando atrair os demais adultos.

O sol se pôs e começou a esfriar muito, felizmente não demoraram os adultos a chegar já aliviados apesar de terem colhido uma pequena quantia de pinhões. Mas aí é que começou a verdadeira história ou pelo menos a parte que para nós foi a mais divertida.

O caminhão tinha ficado na lombinha saindo da Vila em direção a Esquina (Boa Vista) um pouco antes da casa do seu Antônio Santi. Como a partida era à manivela não dava pra arriscar depender só dela em dia frio, e assim foi feito. O tio José fez o contato e começaram um a um os adultos a dar manivela, mas o motos só fazia vru e parava. A segunda opção de arranque era fazer pegar no tranco lomba abaixo, era só dar um empurrãozinho, pular na carroceria e aguardar o tio soltar a embreagem para o motor pegar. Ai tudo mudou de figura, os adultos empurraram e pularam na carroceria, o caminhão pegou velocidade e depois de um tranco ouvimos vru, vruuuuuuuu, póf póff chegamos ao fim da ladeira e o motor não pegou. Mais umas tentativas de manivela e a decisão unanime empurrar de volta lomba acima o caminhão para nova tentativa. As crianças teriam que descer para aliviar o peso, descemos e fomos a pé lomba acima, com a certeza que desceríamos a lomba novamente. Não deu outra, embarcamos no caminhão que agora estava freado já em posição de descer sem o empurrãozinho, e na maior algazarra descemos a lomba de novo, o barulho era tanto que nem conseguimos ouvir o vrrrrruuuuuu póf póf de novo, só nos demos conta quando nos mandaram descer de novo para repetir a operação.
… E repetir a operação… … E repetir a operação… … E repetir a operação… Não sei quantas vezes até que o vrruu ficou permanente e o caminhão abriu os olhos (acendeu as luzes) pois já era noite.
Aí o tio manobrou, e voltamos pela picada, que tinha fama de mal assombrada, da qual tenho que contar algumas histórias. Finalmente chegamos em casa já na hora da polenta…

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Peixe com polenta

Naquele tempo… – Assim começava a leitura do evangelho na missa do padre Guilherme brabo, o alemão, que veio rezar a missa da festa da gruta.
Bem! naquele tempo a festa da gruta era pouco mais que uma festa familiar dos moradores da Vila Trentin, eu disse familiar porque além dos Trentin, dos Fassini, dos Oliveira, dos Dalbianco e dos Casarin, que tinham cruzamentos de parentesco e casamento com todos entre si só tinha uma ou duas famílias como a do João Roberval Ramos, o João Rube,  e os Saul e os Kovalewski que vinham pra festa. O que importa é que era uma bela festa, vinha um que outro forasteiro que aproveitava a oportunidade para conhecer as moças e, quem sabe, arranjar um namorado ou namorada. E a criançada se divertia a beça pelos matos ao redor da gruta.

Naquele tempo, quer dizer naquele dia, tudo foi mais ou menos igual a todas as outras com uma pequena diferença, normalmente as crianças combinavam as aventuras depois da missa, mas como a turma não se separou depois da missa a combinação ficou para o fim da tarde e o diferencial é que dois adultos, acho que dá pra chamar assim, iam participar da brincadeira.

Segundo domingo de fevereiro, se não estou errado de 1966, eram as minhas primeiras férias de seminarista e neste tempo o Clésio, o Leonildo, o Dimas e o Tadeu estavam pensando em ir para o seminário, daí era natural a turma ficar mais unida para saber das novidades. Além de ser fevereiro, quente, tempo bom era dia de lua cheia. Mas chega de enrolação, vamos a história.

Neste dia histórico, no final da tarde cinco primos se desgarraram discretamente do bando de primos que estavam na festa. O capitão era o mais velho, o Léo, com os primos Clésio e Dito e os irmãos Liceo (eu) e o Leonildo. A atividade do fim de tarde arranjar as pedras nas corredeiras do rio em vê, desde a gruta até a divisa do seu Pedro. Não era só brincadeira, era para uma atividade mais do que séria – Fazer uma mega janta de peixe com polenta na casa do tio Osvaldo e da tia Cacildes. Os pais tinham concordado com a aventura. E iam supervisionar de perto a ação.

A pesca com o “juquiá” ou “jequi” é uma tecnologia desenvolvidas pelos indígenas, mas na vila não era conhecida, quem trouxe a novidade foi o famoso tio Lino, que praticava esta modalidade quando solteiro no rio Soturno. Ele fez o juquiá e passou detalhadamente a técnica para a gurizada de como arrumar as pedras de forma que a corredeira fosse se afunilando e terminasse numa abertura de um passo. Para pescar se usa uma técnica conhecida como “tropear os peixes” e fazer com que entrem no brete, o juquiá que é colocado no canal da corredeira. Tropear os peixes é assustá-los para que tentem fugir rio abaixo e acabem presos na armadilha. A armadilha é um cesto comprido, de uns dois ou três metros feita de taquara e cipó com uma abertura numa ponta, assim esta ponta é colocada na corredeira e os peixes tropeados entram nela e não conseguem voltar pela força da água, como tem frestas relativamente grandes só pega os maiores deixando os filhotes para irem se criando. – Além de tudo é ecológica. – Aí quando os tropeiros chegam se levanta a armadilha e se tira da água vai até o barranco e despeja os peixes no saco, no nosso caso era uma lata de querosene. Tropear, é descer rio abaixo, a noite, com uma tocha acesa e fazendo muito barulho para assustar os peixes.

Preparadas todas as corredeiras pela equipe, os do tio Lino foram pra casa buscar o artefato e os do tio Osvaldo foram preparar as coisas pra janta. A pescaria seria muito rápida, o tempo que a tia levaria para fazer a polenta, rodeada dos menores, que protestavam por não poder participara da aventura, seria suficiente para passar pelos cinco pontos de captura. Além da piazada foram os dois adultos, Lino e Osvaldo, pois não era prudente deixar as crianças fazer isso a noite sozinhos. O primeiro ponto perto da antiga tafona do seu Facin, teve uma aula de como colocar o juquiá e fechar de pedras as laterais para que os peixes não escapassem, com o especialista, o Lino, a armadilha foi instalada com a tocha acesa para ficarem claros os detalhes. Eu fiquei cuidando o juquiá e a turma subiu uns 50 metros rio acima e veio fazendo uma alauza de fazer inveja, barulho d’água, pedras batendo gritos e o clarão da tocha. Resultado um bom punhado de peixes pegos e… vamos pro segundo ponto. Eu era muito fraquinho pra levar o Juquiá sozinho por isso precisei de ajuda, o próximo ponto ficava no inicio do grande poço da curva onde a gente tomava banho. Armado o juquiá gritamos pros tropeiros e lá vieram eles com o cardume rio abaixo, levantado o artefato tinha uns dois quilogramas de peixe, a turma estava entusiasmada, até porque a próxima etapa prometia por ser abaixo do grande poço.
O Léo foi até lá com o equipamento, armou e gritou: – Venham! Lá íamos nós rio abaixo como uns loucos, mas… o poço era fundo, dava acima do joelho, e a gente foi arremangando as calças até não dar mais. O mesmo foram fazendo os dois supervisores até que o Osvaldo arrepiou:
– Eu vou voltar.
O Lino respondeu:
– Então volta no escuro porque a tocha vai com nóis.
Meio apalpando o Osvaldo voltou e saiu do rio, o Lino continuou, só que a água em alguns pontos dava quase pela cintura, acabamos molhando a roupa, mas tudo fazia parte da aventura. No final da tropeada estavam o Léo e o tio Osvaldo esperando os peixes que  de tantos muitos pulavam pela taipa de pedras, mas quando os dois levantaram o juquiá a surpresa foi das mais agradáveis, quase uma lata de peixes. Daí por diante só alegria, tinha ainda mais dois pontos e com eles terminamos de encher duas latas de peixes.
Paramos pra descansar no finalzinho da várzea antes de voltarmos para casa para fritar os peixes e provar a polenta da tia Cacildes.

Aí é que aconteceu a parte mais divertida da noite.
Enquanto juntávamos as tralhas de pesca e os peixes o pai (Lino) puxou o facão da cinta, ele sempre andava de facão, e falou:
– Bem! Bem! Vao farme un cigro… (vou fazer um cigarro), neste caso era um palheiro que se faz com um pedaço de fumo que é picado na hora, com brítola, aquele canivete em forma de foice que os italianos usam, ou no caso com o facão, e enrolado numa palha de milho.
Pôs a mão no bolso pra pegar as palhas e o fumo e… estava tudo encharcado de água, o fumo virado numa massa golesmenta e grudenta.
– Porca miséria – disse o fumante.
Foi então que o tio Osvaldo deu uma gargalhada que chegou a dar eco no perau.
Acho que esta foi uma das pescarias mais divertidas de minha vida.

Bodas de ouro – Osvaldo e Cacildes

Alguns anos antes de falecer a minha mãe deixou claro que queria que a gente “se reunisse ao menos uma vez por ano para fazer uma festa”. Alguns anos depois o pai também disse a mesma coisa algum tempo antes de falecer. Por isso temos o compromisso moral de fazer pelo menos duas festas por ano para satisfazer seus últimos desejos.

Para fazer uma festa tem que ter um motivo nem que seja o aniversário do papagaio, assim a gente procura não faltar em nenhuma festa, e sempre que possível a gente vai nas festas dos tios e primos, muitas vezes até mesmo sem ser convidado. Assim…

Recebendo um trato para a festa

Casualmente? Estávamos na vila visitando os parentes e como sempre não poderíamos deixar de visitar o tio Osvaldo, chegamos na casa dele na sexta-feira justamente na hora que ele estava se arrumando pra festa. Claro! No outro dia era a festa de bodas de ouro, conversa vai conversa vem… os sobrinhos que vieram de longe também estavam convidados.

Oportunamente fomos visitar o tio Osvaldo e a tia Cacildes

Chegou o grande dia, estávamos hospedados no Quida&Milvo Hotel, de manhã fomos ver a tia Rosa e o tio Ângelo, ela já estava com problemas de memória, se apagando como uma vela que alumiou a vida toda. Apesar do amorzinho (tio Ângelo) tentar convencê-la a ir à festa ela se recusava pois não queria ir em festa de estranhos (a irmã e o cunhado). Estávamos quase todos prontos e a tia Rosa se recusava a ir à festa e o tio Ângelo não iria sozinho, não podia deixar a Rosa. Numa conversa com os dois a Catia conseguiu descobrir uma coisa que ela gostava…

Tia Rosa

– Tia vamos dançar, vai ter baile!
– Se é assim eu vou… e começou a cantarolar uma musica de seu tempo de juventude.

Estava resolvido iriamos todos à festa. Mas a história estava apenas começando…

Levamos o tio e a tia no nosso carro e as crianças foram com outras caronas. Ao chegar no salão teríamos que levar ela meio carregada pois não conseguia dar mais que alguns passos. Um dos primos acho que foi o Euclésio trouxe uma cadeira para ela sentar e carregaríamos a cadeira. Foi aí que tivemos a primeira grande surpresa. Ela recusou a cadeira e disse:
– Eu não vou entrar num baile carregada. – e entrou andando.

A segunda surpresa foi quando chegamos perto da mesa da família, ela não reconhecia ninguém, mas ao ver um casal sentado próximo a ponta da mesa ela exclamou:
– José rato! Então você tá aqui! – e abraçou efusivamente o cunhado.
Todos ficaram surpresos porque a memoria dela vinha falhando, mas lembrou dele e de uma série de coisas e fatos ligados a ele no passado. Pouco tempo depois estava se sentindo em casa, depois de apresentada a várias pessoas pelo José rato. E a festa continuou…
O jantar estava magnífico, o amorzinho se desdobrando em cuidados pela sua mais linda flor a Rosa até que o pessoal resolveu começar a dançar e aí a Rosa estava cansada e não quis dançar, então o Tio Ângelo convidou a Licéia, minha filha e foram dançar. Não demorou muito e a tia estava excomungando aquela gasguita que dançava com o amorzinho, e mais, ia dar uma surra de guarda-chuva nela, felizmente no ouro dia não lembrava mais de nada.

Mas as surpresas da festa não pararam por aí, alguém desafiou um casal, de uma certa idade, que não eram os noivos, a dar um beijo em público e aí começou a gritaria de Beija! Beija! e foi então que fomos brindados com um beijo cinematográfico…

Beijo cinematográfico

do tio José e da tia Ercília

PS.: Isso foi só um resumo da festa.
PS2.: Se quiserem baixar as fotos com mais resolução é só clicar na miniatura abrir a foto e clicar com o botão da direita e salvar como.

PR-π-poca

Prefixo de rádio normalmente usa três letras e alguns números desde uma convenção em 1947 as emissoras brasileiras tem como primeira letra o Z, PY e PX são prefixos para radioamadores e radioescutas. Não sei de onde o tio Miro se inspirou para o prefixo da rádio dele a “PRπpoca”, só sei que fui na inauguração como convidado de honra. Mais tarde também fui operador, ah! querem saber quando?…

Corria o ano de 1963 eu estava já com quase dez anos e era curioso pra mais de metro, vivia fuçando em tudo. Era tido como um pequeno gênio, na pratica, nunca fui muito inteligente o que eu era? observador, detalhista e curioso… Bem mas vamos ao que interessa.

Se eu estou certo era no domingo dia 15 de setembro de 1963, estão duvidando de minha memória? querem saber como me lembro da data? foi no domingo antes do nascimento do meu irmão Laudelino.

Na foto a tia Iria com o Léo no colo. Em primeiro plano o boi Pintor da junta Mansinho e Pintor. No fundo a casa do seu Orêncio, local onde mais tarde o Tio Argemiro construiria sua morada. Atualmente mora no local o Osmar Fassini

O tio Argemiro tinha se mudado há pouco tempo para o outro lado do rio, perto do to Osvaldo. Construiu a casa no lugar da antiga tapera do seu Orêncio ao lado do erval. O lugar era privilegiado pois tinha eletricidade apesar de ser fora da vila.

Mas vamos ao assunto: Ele estava terminando o curso por correspondência de rádio reparação do Instituto Radio Técnico Monitor e no kit de práticas tinha uma série de componentes que possibilitavam a montagem de um transmissor de Amplitude Modulada – AM (naquele tempo ainda não tinha sido inventada a Freqüência Modulada – FM). O transmissor era baseado num conjunto de válvulas muito populares na época, a retificadora 35W4 e a amplificadora, osciladora, moduladora 50C5. tantas funções numa válvula me fazem pensar numa ancestral do circuito integrado. Mas não é para falar de eletrônica que escrevo este poster e sim para falar da inauguração da rádio do tio Miro.

Então logo após a missa voltamos de Jaboticaba de carona no caminhão do Rigon da Boa Vista e descemos a pé até a vila passando pela picada que ia desde a faixa de Boa Vista a Jaboticaba até a morada do Joãozinho Pegoraro. Neste dia não fui direto pra casa mas sim fui pra casa do tio Miro conhecer a traquitana. Num chassi de ferro tinha um alto falante, que funcionava como microfone e logo atrás duas válvulas com aquela luzinha avermelhada e mais uma resistência também avermelhada que dissipava um calor danado. Estava tudo sobre uma mesinha no centro da sala. Chegamos e o tio foi logo ligando o equipamento para esquentar, também ligou o rádio receptor e ficamos aguardando o aquecimento. Findos alguns minutos e feitos alguns ajustes no transmissor era hora de sintonizar o receptor e em alguns instantes começou uma microfonia danada, era preciso levar o receptor pra mais longe. Feito isso até o receptor estar o mais longe que pudemos começou-se a transmissão. Passávamos músicas de um rádio sintonizado em outra emissora e falávamos qualquer coisa nos intervalos. Do outro lado do vale, na cancha de toras da serraria, perto do barbaquá que incendiou alguns anos depois, (essa é outra historia pra contar) tinha alguém com uma bandeira acenando para dar retorno que o rádio do vovô estava sintonizando corretamente.

Considerada inaugurada a rádio PRpipoca fomos para casa o próximo passo seria dar uso prático ao invento, isso ocorreu pouco tempo depois na festa dos padroeiros. Em breve terei que contar também esta história.

Mãos mágicas

Janeiro já estava quase findando, como todos os anos, eu e a minha família estávamos perambulando de casa em casa em Jaboticaba e na Vila Trentin. Porque perambular? – diriam alguns – Muito simples – responderia eu. Porque temos pouco tempo e queremos dar pelo menos uma passadinha em casa de cada tio.

Este costume de visitar os mais velhos já vem de alguns anos, esta prática reforça o conteúdo da memória, reaviva histórias e cria link novos, desta forma me mantenho ligado ao passado que me constituiu como pessoa. E o melhor, muitas vezes alguma história ouvida de um ancestral reaviva imagens esquecidas no cérebro recriando um caminho de aceso a memórias perdidas, não poucas vezes alguma palavra foi capaz de trazer de volta belíssimas histórias perdidas nos labirintos da memória. Outras vezes a graça e a riqueza de detalhes de uma história possibilitam compreender as práticas e os pequenos milagres das tecnologias ancestrais ou retomar práticas perdidas no tempo.

Um dia destes eu queria aprender como se fazem as tranças de palha de trigo, não só aquelas tradicionais, mas também aquelas de bico que se colocavam na borda do chapéu como enfeite. Quem era a professora? A tia Angelina. Já passados de longe os 80, fala mansa mas muito animada, ela ia mostrando passo a passo como se faz cada tipo de trança enquanto a Licéia com a câmara ia registrando os detalhes em vídeo. Eu feito um babaca escutava as histórias que fluíam da sua boca. As mãos ágeis trançavam freneticamente, mas com precisão, de quando em quando ela olhava para a Licéia e explicava algum detalhe da trança e depois, sem olhar o que as mãos faziam, continuava a me encantar com suas palavras. Era muito difícil de compreender como aquelas mãos funcionavam de forma mágica enquanto a boca me contava as histórias de parteira, já passados cinquenta anos ou mais dos eventos relatados.

Eu nunca estive na casa do tio Garibaldi e da tia Angelina, ela visitava, as vezes, o vovô Bortolo, no entanto todas as vezes que a gente ia visitar o tio Aquiles, ou ia no Mario Schiavinato via a casa do outro lado do vale um pouco acima da do João Aires. Esta foi a referência que sobrou em minha memória. Depois fiquei muitos anos fora, teve até um tempo que o Dega foi colega de seminário mas isto passou e finalmente, já com minha família um pouco crescida comecei a voltar às raízes e cada vez que ia para a vila de férias ou mesmo num passeio de fim de semana fazia questão de visitar os tios e tias mais velhos para ouvir um pouco do passado e tentar descobrir alguma imagem que estava adormecida nos porões empoeirados do cérebro. Assim foi naquele fim de verão de 2004, se não me engano. Eu estava como aquele que tenta chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.

Eu sei que ela está nesta foto, mas não saberia identificá-la

Um par de mãos me encantavam com a precisão dos movimentos ritmados na confecção da trança, de quando em quando uma palha nova ia até a boca para ser umedecida e entrava no ritmo do trabalho. A boca ia desfilando histórias das andanças de parteira pela região quando de repente uma frase marcou, o ritmo mudou.
– Nunca uma criança faleceu em munhas mãos, é claro que fiz partos de crianças que já estavam mortas, mas as vivas vieram ao mundo vivas.
A Catia que ouvia tudo encantada, como eu, não resistiu uma pergunta:
– Mas… houve algum parto onde a senhora realmente teve medo de não conseguir? 
– Sim! Eu tinha ficado dois dias fora de casa atendendo partos pras bandas do Rodeio Bonito. Já bastante cansada e sem dormir estava chegando em casa mais cansada que o cavalo, que me carregava por tudo e que estava quase dois dias sem parar. Quando vi a casa estava o Garibaldi e um outro homem me esperando com dois cavalos selados. Passou um filme pela minha cabeça, não era a primeira vez que eu chegava e tinha que sair imediatamente para atender outra parturiente, só tomava um banho, comia alguma coisa e saia de novo. Quando parei o cavalo na frente de casa o Garibaldi chegou e disse: – Troca de cavalo que o teu deve estar cansado, é um caso urgente, a dona esta em trabalho de parto desde ontem á noite. – Eles tinham preparado um lanche de pão e salame para que eu pudesse comer durante a viagem. Saímos imediatamente nem vi os filhos, na época tinha dois. O pai da criança que me acompanhava chorava, mas com a voz entrecortada foi me contando a situação, a mãe tinha as contrações, parecia tudo normal mas a criança estava fora de posição, vinha nascendo sentada. Uma vizinha tentou ajudar mas não tinha prática, aí ela ficou cuidando da mãe enquanto o pai foi buscar recurso, a casa deles ficava perto do Varejão, uns vinte quilômetros quase. Ouvindo a história insisti que deveríamos apressar os cavalos pois cada minuto é precioso num parto. Já caia a tarde quando chegamos, a mãe estava quase desfalecida e a vizinha apavorada. Examinei a criança e ainda estava viva, mas a água da bolsa tinha saído toda, um parto seco com a criança na posição é difícil, imagine com a criança sentada, pedi banha morninha para lubrificar e tentei ajeitar a criança, não tinha como, ela estava encaixada demais. – Rezei. Rezei  muito para ter uma luz. Com muito jeito consegui enroscar meus dedos médios na virilha do nenê, mas não tinha força para puxar. Pedi ajuda para o pai da criança que me segurou por baixo dos braços para ajudar no esforço, enquanto a vizinha segurava a mãe, foram uns minutos eternos, consegui retirar o corpo e ai vinha a pior parte, tinha que tirar a cabeça sem puxar, pois corria o risco de desnucar a criança, e se demorasse ia faltar oxigênio pois o cordão umbilical estava esmagado. Felizmente tenho os dedos compridos e finos só que algo estava errado com minha mão esquerda, no esforço tinha quebrado o dedo médio. Mas naquela hora não tinha tempo para para a dor tinha que salvar aquela criança. Mais alguns minutos o gurizinho chorou! Felizmente não era uma criança muito grande e a mãe era corpulenta o que ajudou muito. Terminado o parto caí exausta quase desmaiada como a mãe, felizmente outras pessoas fizeram o resto do trabalho. Este foi um parto dos que eu chamo difícil – arrematou ela.

Só então reparei melhor nas mãos que não tinham parado de trançar palhas o dedo dedo torto das mãos mágicas continuava lá agora fazendo uma magia muito mais simples, tecendo palha para encantar os olhos de um sobrinho-neto e sua filha que queriam aprender a fazer  chapéus de palha.

Tenho o vídeo da cena, mas está em fita magnética, pode ser que um dia destes eu digitalize.

 

 

A oficina e as manifestações culturais

A arte de trabalhar a madeira está no sangue da família desde muitas gerações. Desde a Itália a família Trentin teve grandes artesãos e a tradição chegou evidentemente à Vila Trentin. Assim de uma pequena oficina que o vô Bortolo tinha ao lado da casa da nona a evolução se transformou numa bela fábrica de móveis, que dentre outras coisas ainda fazia pipas e tinas nos moldes de antigamente.

Depois do falecimento do vovô a oficina ficou com o tio Argemiro nem por isso deixou de ser um centro de trabalho e arte. Mas por falar em arte…

Talvez por ter herdado uma Kodak caixote do pai não é que o Liceo começou a se interessar por fotografia, um dia destes temos que desenterrar algumas lembranças dele quando impregnava papel com água de bananeira para tentar fazer fotos. Claro que estes desejos infantis evoluíram e agora que ele estava estudando em Porto Alegre aparecia nas férias com uma Kodak Instamatic, e agora até com filme colorido. Claro! Era o fotógrafo de ocasião, por exemplo é dele a foto do Darci Corote com a família, os vinte e quatro filhos e as esposas. Da família do tio Miro carpindo o soja… na verdade cada foto rende uma história.

Não era diferente na oficina, a turma aproveitava a ausência do patrão para exercitar os dotes teatrais, se bem que, por amar a arte, acho que ele nem se importaria. Já estavam quase no fim as férias do nosso fotógrafo quando ele foi convidado a fotografar uma performance do grupo de marceneiros. Uma cena no mínimo um pouco chocante para aqueles pacatos trabalhadores.

– Mas o que não se faz por amor à arte?

O cenário foi um tanto improvisado, pois o galho do pé de ariticum não suportaria o peso do condenado – Mas arte é arte. O padre e o coroinha também não estavam caracterizados a rigor – Mas o que importa é a atuação. A metralhadora mais parece uma furadeira, mais uma vez tudo em nome da arte. E para não ficar dúvida nenhuma que a sentença seria cumprida o condenado deveria ser enforcado e fuzilado e pronto.

O resultado é uma cena digna de Oscar, um pouco atrasado, é claro, mas convenhamos, – Eles merecem o premio mesmo que reconhecido apenas alguns meses,  na verdade, apenas 517 meses mais tarde.

Saggioratto – no papel de carrasco, Noerci – no de condenado, Aires – carrasco2, Moisés – o coroinha e Daciano – o padre. Todos merecedores do prêmio de melhor ator.

Muitas felicidades!

Depois de 1965 saí da vila e não sei se a tradição continuou. Primos por favor! Me ajudem…

O dia nem bem amanhecia, as crianças já estavam de pé se arrumando para espalhar felicidades pela vila. (Isso é de quando ainda morávamos com o vovô.) Primeiro acordavam os moradores do casarão: os pais, os tios, o vô e a vó. Em alguns momentos chegavam os do tio Luiz: a Bena, a Zeca, o Selo e o Dimas, a gente formava um pequeno time e saia para acordar a vizinhança. Muito cedo, rezava a tradição, os primeiros a chegar ganhavam os melhores doces. O nosso grupo era quase sempre o primeiro a chegar no seu Fassini, que não tinha crianças e por isso tinha bastante doces para os primeiros. Depois a gente continuava até o tio Antônio, mas lá a gente sempre chegava atrasado, pois outro time, os do tio Ângelo: Quida, Zeca, Meri e Tade e tio Gervásio: Tarcísio, Maria Terezinha, Tide, Quinho e Remi chegavam primeiro…

Cassa do seu Facin (Ângelo Pio Isaías José Fassini e Olinda Fassini) no dia do casamento da tia Cacildes com o tio Osvaldo. Vários dos primos citados no texto estão na foto.

No caminho íamos encontrando os grupinhos que passavam de casa em casa, começávamos sempre no núcleo da vila e depois íamos cada vez mais longe até onde as pernas suportassem. Era preciso visitar o maior número possível de casas para distribuir as felicidades de um ano novo ao maior número possível de gentes. E depois esperar mais um longo ano para ter de novo uma oportunidade como esta de desejar felicidades e ganhar doces de novo.

Depois de 1965 saí da vila e não sei se a tradição continuou. Primos por favor! Me ajudem a resgatar as nossas tradições e aventuras, basta me passar uma ideia, algum detalhe, que eu escrevo e ponho neste blog para que no futuro as pessoas possam saber como era a nossa vida, o que foi nossa infância.

Sua excelência o marrecão

Desde os primórdios a Vila Trentin sempre primou por uma organização social bem desenvolvida, pela atuação em grupo e pela cooperação mútua. Como principal exemplo os Irmãos Trentin, Bortolo e Antônio, e a filharada se revezavam no uso do moinho, serraria e terras.  É claro que isso se refletia em inúmeros outros aspectos da vida econômica e social como a educação, recreação, comércio, trocas e escambos.

O marrecão ou marreca piadeira já não existia mais por aquelas bandas no entanto a figura persistia, rondando os banhados ao redor do campo do Ipiranga, campeão de futebol varzeano da região. A organização e a forma cooperativa de trabalho dos atletas dava um potencial excepcional ao time, maior que a soma das estrelas que formavam a equipe. No entanto não posso deixar de citar alguns destaques como o goleiro Sérgio Trentin, também conhecido como defunto a trote, devido a sua altura e magreza. O único goleiro que conheci que era capaz de defender todos os pênaltis. E tinha os Oliveira, os Zanon, os Fassini, os Dalla Nora, os Dallbianco e o marrecão.

Apesar do aspecto societário bastante desenvolvido a sociedade era um tanto conservadora e as oportunidades de encontro de rapazes e moças era bastante controlado pelos costumes, encontros na missa ou terço, encontros na quarta a noite para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho na casa do vovô ou mais tarde os bailes de CTG.

No domingo à tarde dois programas eram bastante comuns aos jovens: os jogos de prenda e o futebol do Ipiranga. Oportunamente falarei dos jogos de prenda, agora quero lembrar em especial o futebol e a minha posição no jogo, falar da importância dela tanto para os jogadores como para a plateia e em especial para mim.

Vamos por partes:

O futebol é jogado por duas equipes de rapazes, em geral uma é da casa e outra vem de fora, para jogar eles vestem calções e camiseta e correm atras de uma bola. O campo é uma parte de uma várzea plana e seca, que tem banhado ao redor, algumas árvores na beira do arroio onde fica a plateia(torcida). A torcida é formada quase que exclusivamente de moças jovens solteiras e ficam tanto as de um time como do outro sob a mesma sombra.

A várzea é um local plano naturalmente o que facilita enormemente a implantação de um campo de futebol

Que outro lugar elas poderiam ficar olhando para rapazes de pernas de fora sem serem censuradas? O banhado que cerca o campo tem duas espécies vegetais bastante comuns capim e guamirins. O capim forma uma camada razoavelmente espessa sobre a água que não é capaz de sustentar muito peso e os guamirins crescem em ilhas, por assim dizer, mais secas e dão grandes cachos de frutinhas pretas e doces. Tem guamirim também ao redor do campo, mas as frutas destes são colhidas rapidamente pela numerosa torcida que fica se deliciando com o doce das frutas e a visão dos jogadores. Eu ia esquecendo a bola, que é chutada fortemente de um lado para outro visando o gol. Se a bola for em direção ao gol e se o goleiro for o Sérgio não tem problema, mas se for fora ou o goleiro for outro é comum que ele vá parar no meio do banhado, aí que eu entro.

O marrecão:

Grande parte das vezes quem chutou a bola fica responsável por buscar a menos que o banhado não permita, ou seja, um atleta um pouco mais fortinho afunda no banhado com capim e tudo. Agora imaginem um piazote magricelo, que não tem grandes atrativos para as moças, não joga nada de futebol, por isso não fica de calção mostrando as pernas, o que fazer para se fazer notado? Só atuando na mais importante posição fora do campo: a de marrecão. Magricelo, portanto leve, ágil, e querendo aparecer, ele corre sobre os capins do banhado pega a bola e chuta de volta para o campo. Como não tem bola substituta neste tempo o marrecão é o centro de todos os olhares.

Muitos campos eram cercados de banhado, com sua fauna e flora típicas

Vinte e dois jogadores, juiz, bandeirinha e toda uma torcida dependendo dele, é ou não um momento de glória? Sem contar que os guamirins do centro do banhado tem grandes cachos de frutas, que podem ser colhidos exclusivamente por aquele que tem as qualidades de marrecão. Ele colhe e retorna para a torcida com seu troféu que é disputados pelas moças. Assim o marrecão vai conquistando corações mesmo sem ser um atleta do futebol.

Assim transcorriam os domingos a tarde na vila lá pelos idos de mil novecentos e sessenta e la vai pedradas. Depois os campos evoluíram, com a vinda das patrolas que possibilitaram o aplainamento dos morros muitos campos se distanciaram dos banhados. As bolas ficaram cada vez mais acessíveis e passou a ser comum ter uma ou mais bolas de reserva e com isso o glamour do marrecão, agora promovido ao status de gandula, perdeu sua importância o que contribuiu significativamente para sua extinção.