Peixe com polenta

Naquele tempo… – Assim começava a leitura do evangelho na missa do padre Guilherme brabo, o alemão, que veio rezar a missa da festa da gruta.
Bem! naquele tempo a festa da gruta era pouco mais que uma festa familiar dos moradores da Vila Trentin, eu disse familiar porque além dos Trentin, dos Fassini, dos Oliveira, dos Dalbianco e dos Casarin, que tinham cruzamentos de parentesco e casamento com todos entre si só tinha uma ou duas famílias como a do João Roberval Ramos, o João Rube,  e os Saul e os Kovalewski que vinham pra festa. O que importa é que era uma bela festa, vinha um que outro forasteiro que aproveitava a oportunidade para conhecer as moças e, quem sabe, arranjar um namorado ou namorada. E a criançada se divertia a beça pelos matos ao redor da gruta.

Naquele tempo, quer dizer naquele dia, tudo foi mais ou menos igual a todas as outras com uma pequena diferença, normalmente as crianças combinavam as aventuras depois da missa, mas como a turma não se separou depois da missa a combinação ficou para o fim da tarde e o diferencial é que dois adultos, acho que dá pra chamar assim, iam participar da brincadeira.

Segundo domingo de fevereiro, se não estou errado de 1966, eram as minhas primeiras férias de seminarista e neste tempo o Clésio, o Leonildo, o Dimas e o Tadeu estavam pensando em ir para o seminário, daí era natural a turma ficar mais unida para saber das novidades. Além de ser fevereiro, quente, tempo bom era dia de lua cheia. Mas chega de enrolação, vamos a história.

Neste dia histórico, no final da tarde cinco primos se desgarraram discretamente do bando de primos que estavam na festa. O capitão era o mais velho, o Léo, com os primos Clésio e Dito e os irmãos Liceo (eu) e o Leonildo. A atividade do fim de tarde arranjar as pedras nas corredeiras do rio em vê, desde a gruta até a divisa do seu Pedro. Não era só brincadeira, era para uma atividade mais do que séria – Fazer uma mega janta de peixe com polenta na casa do tio Osvaldo e da tia Cacildes. Os pais tinham concordado com a aventura. E iam supervisionar de perto a ação.

A pesca com o “juquiá” ou “jequi” é uma tecnologia desenvolvidas pelos indígenas, mas na vila não era conhecida, quem trouxe a novidade foi o famoso tio Lino, que praticava esta modalidade quando solteiro no rio Soturno. Ele fez o juquiá e passou detalhadamente a técnica para a gurizada de como arrumar as pedras de forma que a corredeira fosse se afunilando e terminasse numa abertura de um passo. Para pescar se usa uma técnica conhecida como “tropear os peixes” e fazer com que entrem no brete, o juquiá que é colocado no canal da corredeira. Tropear os peixes é assustá-los para que tentem fugir rio abaixo e acabem presos na armadilha. A armadilha é um cesto comprido, de uns dois ou três metros feita de taquara e cipó com uma abertura numa ponta, assim esta ponta é colocada na corredeira e os peixes tropeados entram nela e não conseguem voltar pela força da água, como tem frestas relativamente grandes só pega os maiores deixando os filhotes para irem se criando. – Além de tudo é ecológica. – Aí quando os tropeiros chegam se levanta a armadilha e se tira da água vai até o barranco e despeja os peixes no saco, no nosso caso era uma lata de querosene. Tropear, é descer rio abaixo, a noite, com uma tocha acesa e fazendo muito barulho para assustar os peixes.

Preparadas todas as corredeiras pela equipe, os do tio Lino foram pra casa buscar o artefato e os do tio Osvaldo foram preparar as coisas pra janta. A pescaria seria muito rápida, o tempo que a tia levaria para fazer a polenta, rodeada dos menores, que protestavam por não poder participara da aventura, seria suficiente para passar pelos cinco pontos de captura. Além da piazada foram os dois adultos, Lino e Osvaldo, pois não era prudente deixar as crianças fazer isso a noite sozinhos. O primeiro ponto perto da antiga tafona do seu Facin, teve uma aula de como colocar o juquiá e fechar de pedras as laterais para que os peixes não escapassem, com o especialista, o Lino, a armadilha foi instalada com a tocha acesa para ficarem claros os detalhes. Eu fiquei cuidando o juquiá e a turma subiu uns 50 metros rio acima e veio fazendo uma alauza de fazer inveja, barulho d’água, pedras batendo gritos e o clarão da tocha. Resultado um bom punhado de peixes pegos e… vamos pro segundo ponto. Eu era muito fraquinho pra levar o Juquiá sozinho por isso precisei de ajuda, o próximo ponto ficava no inicio do grande poço da curva onde a gente tomava banho. Armado o juquiá gritamos pros tropeiros e lá vieram eles com o cardume rio abaixo, levantado o artefato tinha uns dois quilogramas de peixe, a turma estava entusiasmada, até porque a próxima etapa prometia por ser abaixo do grande poço.
O Léo foi até lá com o equipamento, armou e gritou: – Venham! Lá íamos nós rio abaixo como uns loucos, mas… o poço era fundo, dava acima do joelho, e a gente foi arremangando as calças até não dar mais. O mesmo foram fazendo os dois supervisores até que o Osvaldo arrepiou:
– Eu vou voltar.
O Lino respondeu:
– Então volta no escuro porque a tocha vai com nóis.
Meio apalpando o Osvaldo voltou e saiu do rio, o Lino continuou, só que a água em alguns pontos dava quase pela cintura, acabamos molhando a roupa, mas tudo fazia parte da aventura. No final da tropeada estavam o Léo e o tio Osvaldo esperando os peixes que  de tantos muitos pulavam pela taipa de pedras, mas quando os dois levantaram o juquiá a surpresa foi das mais agradáveis, quase uma lata de peixes. Daí por diante só alegria, tinha ainda mais dois pontos e com eles terminamos de encher duas latas de peixes.
Paramos pra descansar no finalzinho da várzea antes de voltarmos para casa para fritar os peixes e provar a polenta da tia Cacildes.

Aí é que aconteceu a parte mais divertida da noite.
Enquanto juntávamos as tralhas de pesca e os peixes o pai (Lino) puxou o facão da cinta, ele sempre andava de facão, e falou:
– Bem! Bem! Vao farme un cigro… (vou fazer um cigarro), neste caso era um palheiro que se faz com um pedaço de fumo que é picado na hora, com brítola, aquele canivete em forma de foice que os italianos usam, ou no caso com o facão, e enrolado numa palha de milho.
Pôs a mão no bolso pra pegar as palhas e o fumo e… estava tudo encharcado de água, o fumo virado numa massa golesmenta e grudenta.
– Porca miséria – disse o fumante.
Foi então que o tio Osvaldo deu uma gargalhada que chegou a dar eco no perau.
Acho que esta foi uma das pescarias mais divertidas de minha vida.