A tia malvada

Desde a mais tenra infância começamos a classificar as pessoas de acordo com o que elas representam na nossa vida.

Em 1955 minha compreensão de mundo era ainda bastante limitada, há pouco tinha terminado a época de fazer açúcar, acho que era no mês de agosto porque muitas árvores ainda estavam desfolhadas, eu tinha então um ano e seis ou sete meses. A tia Mími, que não era má, estava fazendo carrinhos para as crianças, Léo, Bena, Zeca da tia Rosa, Zeca do tio Luís e outros que não lembro, todos maiores que eu evidentemente, e eu estava enchendo o saco que também queria um. Os ditos carrinhos eram confeccionados com latas de sardinha, rodinhas de carretel cortado ao meio e um eixinho mais ou menos da grossura de um lápis que atravessava a latinha e ligava as rodas. Eu já disse que eu queria um também, mas acho que a tia não estava muito afim de fazer o meu, ela estava fazendo para os maiores primeiro então como desculpa para a demora do meu foi que ela não tinha madeira para o eixinho.

Desde esta época eu já tinha disposição para resolver meus próprios problemas, e é claro, também sempre estive pronto para ajudar, ainda mais quando era para ajudar a fazer meu carrinho de lata de sardinha. Como não tinha eixo a saída era procurar o material, fui então até agaveta dos talheres da cozinha da vó e peguei uma faca de mesa, daquelas com cabo metálico de ponta redonda e bem pesada, pelo menos para meu tamanho era pesada, e fui a cata do material.

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as  tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Saí entre o galpão e os fundos do moinho, passei pelo galpãozinho dos tachos, pelo engenho de moer cana e encontrei uma árvore com as características desejadas atrás do engenho (serraria) perto da passagem de levar a serragem pro outro lado da valeta. A árvore que eu estava tentando cortar, não lembro muito bem só que estava sem folhas. Ao lado de uma pata de vaca que tinha folhas…

… a cena termina aqui. De agora em diante é o que me contaram…

Um dos filhos do tio Antônio que estava na serraria me ouviu gritar e foi em meu socorro, eu fora picado por um bicho venenoso. Me levaram para casa e me acudiram com as poções mágicas que o vovô Bôrtolo sabia muito bem preparar e foram procurar o animal que tinha me picado. Acharam nas imediações um escorpião que foi o acusado da tragédia. Fui medicado e graças aos cuidados com as ervas e misturas milagrosas sobrevivi, apesar de dizerem que um escorpião é capaz de matar uma criança do meu tamanho.

… passaram mais alguns dias e minha memória está de volta…

Estou no colo da nona Rosa, minha bisavó, que fazia questão de andar pra lá e pra cá comigo no colo. Eu não consigo dormir por causa da dor no polegar direito, enormemente inchado. Não bastasse a dor, meu polegar era a minha chupeta e eu até que queria chupar o dedo mas…

A tia malvada, a tia Dona, com a cara mais séria do mundo me alertava.

  • Se tu chupar este dedo envenenado vai morrer.

Eu não tinha nem ideia do que significava morrer, mas certamente seria algo bem pior do que a picada do escorpião. Só sei que foi o meu grande trauma de infância, o medo de morrer e assim cumprir a profecia da tia malvada.

O tempo passou, a tia foi pro Castelinho para ser professora e só deixou de ser malvada quando emprestou o livro manuscrito “Pavão misterioso” uma de minhas primeiras leituras de infância. Depois ela casou e ficou definitivamente morando por lá, vantagem pra tia Mími que continuou sendo a babá da criançada.