O radio do vovô

Uma das vantagens de de morar no casarão até meus sete anos era poder conviver com o rádio, principalmente por ver dia após dia o vovô chegando um pouco antes do almoço da serraria ou da marcenaria (oficina) para ouvir o noticiário no rádio.

Walter broda e Pinguinho, humoristas da era do rádio

Walter broda e Pinguinho, humoristas da era do rádio

Outra atividade que me chamava muito a atenção era conviver com a vizinhança que vinha, muitas vezes de longe, para escutar o Walter Broda e o Pinguinho no Rodeio Coringa, nos domingos à noite. Também tinha a música, não lembro o programa, mas lembro que era qua quarta-feira, também vinha gente para ouvir música.
Confesso que eu não entendia quase nada das piadas que o Walter Broda e o Pinguinho contavam, mas me deliciava rindo das risadas dos ouvintes, para mim era divertido ver aquele grupo de pessoas escutando uma caixa falar. Também ficava muito curioso quando o vovô sintonizava a BBC de Londres nos seus programas em português. Sempre achei muito interessante ficar ouvindo o ruído da estática enquanto se procurava a sintonia. É claro que o primeiro rádio que conheci foi o do vô, mas algum tempo mais tarde pude conhecer outros como o do seu Antônio Santi, que era a bateria.
Jamais esquecerei o dínamo que tinha ligado na transmissão do moinho para carregar baterias, muita gente vinha até o moinho só para fazer isso. Mais tarde o tio Argemiro comprou um carregador eletrodinâmico,(um transformador de 220v para 6v com um retificador) que carregava a bateria diretamente da luz, um enorme avanço pois não precisava pôr o moinho a funcionar para carregar as baterias. Era uma caixinha de lata toda furadinha que zumbia e tinha umas luzinhas vermelhas.
Cada duas ou três semanas vinha o tio Valodomiro ou o Albino trazer a bateria para carregar. Nos anos 70, quando eu já começava a aprender eletrônica, transformei o rádio do seu Antonio Santi para funcionar ligado na luz (tomada de 220v).
Para os que não viveram esta época é preciso fazer uma descrição de como funcionava o sistema de transmissão de energia do mionho. Naquela época os motores eletricos não eram estes objetos corriqueiros que temos atualmente onde algumas máquinas tem mais que um motor. Todo o moinho era movimentado por um único motor que ficava no andar térreo dele partia uma correia chata até o porão onde um grande eixo atravessava toda a extensão do prédio, uns seis metros mais ou menos, a transmissão. Neste eixo havia um grande número de pares de polias de todos os tamanhos, diferentes tamanhos davam diferentes rotações para satisfazer as necessidades de cada máquina, os pares sempre tinham uma polia chavetada e outra louca do mesmo tamanho, cada par alimentava um mecanismo ou máquina. O sistema funcionava da seguinte forma, um garfo ligado a uma alavanca posicionava a correia sobre uma polia ou outra, para ligar, a correia era posicionada sobre a polia chavetada, tracionada, e para desligar, sobre a polia louca. Assim quando se ligava o moinho pela manhã o motor era ligado e somente desligado no final da tarde. Eu ficava horas vendo tudo aquilo funcionar.
Assim, o rádio fez parte de minha infância, era a ligação com o mundo até os sete anos, depois, quando fomos para a morada nova, onde não tinha luz e nem rádio a cantoria tomou o lugar das músicas do rádio, especialmente nos dias de lua cheia, mas isso é uma outra história.

Novena de chuva

Numa comunidade religiosa como a da Vila Trentin era natural se fazer novenas com os mais diferentes fins. Hoje vou falar especificamente de uma, no verão do ano de 1962. Uma seca se arrastava por vários dias, já fechava quase um mês sem chuva e tudo começava a refletir o problema. Quem passasse estradas via lavouras e lavouras de milho com as folhas enroladas apontando o céu como a dizer – Oh! chuva vem nos salvar! Os gramados já estavam ficando acinzentados e brilhantes, característicos de grama seca. Isso para gurizada não parecia ser um problema, pois a gente aproveitava as ladeiras gramadas dos potreiros para esquiar. Isso mesmo esquiar, usando capas de cachos de coqueiro como pranchas.
O padrão básico era sentar dentro de uma destas capas segurando com as mãos no cabo que ajudava a guiar inclinando para a esquerda ou direita conforme o trajeto que se queria. Os mais hábeis deslizavam de pé quase como se faz com skate. O potreiro la de casa era bom para iniciantes pois a descida tinha uma inclinação que não permitia muita velocidade e terminava no gramado do banhadinho que não secava nunca e, portanto, freava a prancha no final da pista. O potreiro do vovô não permitia este tipo de atividade porque a parte mais mansa terminava na valeta e a outra parte era muito violenta. A decida mais emocionante era a do tio Osvaldo, nas descidas em direção as lavouras da várzea, começando perto da casa, ou a loucura das loucuras, a trilha que começava perto da fonte, onde foi feita a casa nova, e terminava logo acima da cachoeira grande da gruta.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.   PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.
PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Claro o assunto é a gruta e a novena, pois bem, como não chovia há bastante tempo o povo estava desesperado com a seca e com o calor, logo, o lugar ideal para fazer a “reza da chuva” era a gruta, um lugar onde a natureza proporcionava clima ameno, fresco e úmido. As orações se misturavam ao ruído das cachoeiras e subiam diretamente aos céus, os corações aliviados pela umidade evaporada das cachoeiras reforçavam o poder da fé dos fiéis, sem falar no sacrifício de descer e subir o caminho cansativo.
A novena já se estendia por quase duas semanas, tinha passado dos nove dias e o povo continuava a orar. Se não me engano era uma quinta-feira, o terço estava pela metade quando um barulho diferente do da água fez estremecer o vale, um trovão forte, mas de dentro do vale da gruta não se via nuvem alguma. Alguns segundos depois uma nuvem preta cobriu o céu, parecia que estava anoitecendo e o céu desabou. A chuva pedida enfim chegava e foi aquele corre corre, acho que ninguém estava com muita fé, porque ninguém tinha levado guarda chuva. Um grupo se enfiou na casa da usina, mas não cabia todo mundo, outros correram trilha acima para se abrigar na serraria e no moinho. Eu, como tinha medo de entrar na usina e não corria muito, pois era um magricelo fraquinho, acabei tomando um belo banho de chuva. E o pior de tudo acabava a moleza da lavoura, tinha que voltar a carpir, e os gramados não ofereciam mais condições de fazer “grassboard” como diriam os aficionados do inglês.

O fruto proibido

Dos tempos que morei na casa da vó, o casarão comunitário, onde vivi até meus 7 anos, tenho um bocado de lembranças que merecem uma descrição detalhada, no entanto hoje vou contar uma de três primos: Eu, a Mariazinha e o Selito. Como podem observar os mais cuidadosos com a língua portuguesa devem ter estranhado me colocar em primeiro lugar, aprendi desde pequeno que quando se conta uma coisa boa sempre se coloca os outros em primeiro lugar, mas como neste caso é uma confissão não poderia de me colocar na frente.

Foto tirada por ocasião dos 40 anos de casamento do vô Bortolo e vó Maria, bodas de rubi, sentados de preto no centro. Na fila da frente, eu sou o 5º da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha é a terceira e o Selito o 12º.

Foto tirada por ocasião dos 40 anos de casamento do vô Bortolo e vó Maria, bodas de rubi, sentados  no centro, de preto.
Na fila da frente, eu sou o 5º da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha é a terceira e o Selito o 12º. A foto foi tirada atrás do moinho, vê-se ao fundo a casa do vô.

 

O pátio do Vovô era cheio de frutas, em qualquer época do ano que se chagasse lá sempre tinha alguma para degustar, no entanto, algumas causavam maior euforia entre a criançada. Era um verdadeiro paraíso, e tinha até a árvore do fruto proibido, aliás, até acho que tinha mais que uma deste gênero. Vou começar pela parreira que a gente tinha que passar por baixo para entrar no pomar. Ficava logo depois da casa da Nona (Rosa), imaginem as crianças passando por baixo da parreira com as uvas quase maduras para ir comer pêssegos ou ameixas. É claro que era uma espécie de tortura, no entanto ninguém ousava tocar um único grãozinho de uva enquanto o Vô Bortolo não autorizasse a colheita. Assim fica declarado o fruto proibido do vô: a uva. Os moranguinhos da horta da vó Maria também eram frutos proibidos, mas a gente dava um jeitinho de roubar alguns às vezes.

Tanto os moranguinhos como as uvas depois de algum tempo de proibição, quando estivessem maduros nos os provávamos, mas o fruto proibido que ninguém jamais descobriu o sabor, não era a maçã, como podem estar pensando, era o marmelo. A horta era cercada em parte pela casa, o casarão que tinha a grande sala, os quartos, do tio Miro, o nosso e o das tias mais velhas, as mais novas dormiam no sótão, nós, as crianças raramente tínhamos acesso ao sótão. Vou ter que fazer um capítulo falando da casa, mas não aqui. Sim o casarão fazia parte da cerca da horta, depois tinha uma cerquinha e a casa do vô, composta de quarto, biblioteca, sala e cozinha, estas duas últimas eram comunitárias, Nesta época o tio Gervasio, o tio Luís e o tio Ângelo já moravam em suas próprias casas.

Depois da casa do vô tinha uma cerca com a porteira de entrada, sempre visível da cozinha, que ia até a valeta que fazia uma grande curva indo até o canto do casarão e assim fechando a horta. Eu sei! Tenho que falar do marmeleiro, além de dar umas varas excelentes para delimitar as possibilidades de atuação das crianças, (isto é uma forma politicamente correta de explicar seu uso) também dava umas frutas incrivelmente grandes, douradas com uma casca com textura de camurça, um verdadeiro sonho, com certeza a fruta mais linda que conheci na minha infância. Mas era fruto proibido, jamais alguém nos ofereceu marmelo, eles amadureciam e desapareciam de forma misteriosa, nunca ninguém chegou e nos disse:

– Aqui está um marmelo, provem.

O marmeleiro não ficava no pomar, foi plantado na horta, o reino da vó Maria, que apesar de ter fama de rigorosa com as crianças era menos temida que a autoridade do vô Bortolo, ou da Nona. A Nona é quem cuidava das crianças na hora do café, mesmo morando em suas casas as gurias do tio Ângelo e a gurizada do tio Luís vinham tomar café na casa da vó Maria. – Epa! Epa! Esta é outra história, vai ficar pra outro dia.

Naquele dia, tempo de marmelo maduro, quando estava findando o café nós três  combinamos rapidamente que seria o dia de provar o fruto proibido. Ficamos um pouco mais que os outros na mesa e ao sair a Mariazinha foi até a cozinha da vó e escondeu discretamente uma faca na roupa. O Selito e eu saímos discretamente e fomos até o fundo do engenho (serraria) e pegamos uma costaneira. Fizemos a volta por trás da valeta, passamos pelo chiqueirão dos porcos e perto do pé de araticum improvisamos uma ponte para passar a valeta. A Mariazinha ficou andando distraída pra lá e pra cá entre o galpão e a cerca da horta para dar o alerta caso algum adulto se aproximasse. Passamos a valeta e chegamos no marmeleiro, tinha um dos bem bonitos relativamente baixo e fácil de apanhar, fizemos a colheita e retornamos discretamente e fomos nos encontrar com a vigilante.

Para provar o dito fruto decidimos que íamos nos esconder atrás das pilhas de tábuas perto da caixa d’água da usina. Como já tinha movimento na serraria não podíamos arriscar andar por lá a saída era ir pelo lado de baixo da valeta e usar a ponte da caixa d’água. A valeta vinha dos fundos da olaria do tio Atílio Zanon, passava por trás da casa do tio Antônio, era a divisa natural do pomar do vô, depois da horta e finalmente alinhava pelos fundos do galpão e da serraria até findar no reservatório da usina que chamávamos de caixa d’água. Tinha cinco pontes, entre o pomar e as casas, a ponte do seu Facin (Ângelo Pio Isaias José Fassini). Logo depois da horta tinha a ponte do chiqueirão, por onde se passava para ir tratar os porcos ou colher araticuns, antes de ter o poço era a ponte de ir buscar água na fonte que hoje fornece água para a gruta. Depois do galpão tinha a ponte da gruta, que também levava ao tanque comunitário (terei que escrever também alguma história do tanque). Depois tinha o ladrão, abertura que possibilitava o escoamento do excesso de água para manter o nível. Logo mais adiante tinha a ponte da serragem, onde se passava com os carrinhos de mão e se jogava a serragem perau abaixo. Depois, quase no fim da valeta tinha a ponte da caixa d’água que saia por trás das pilhas de tábuas.

Saímos por trás do galpão atravessamos a ponte da gruta e seguimos rumo ao nosso destino. Chegando lá encontramos uma pilha de tábuas que tinha na parte de baixo, tábuas mais compridas, formando como que uma mesa, o lugar ideal. Não lembro muito bem que operações matemáticas fizemos para dividir em três o fruto dos deuses, lembro que foi uma cerimônia quase como um sacrifício divino, também pudera, aquele magnífico marmelo dourado merecia isto e muito mais. A operação de cortar não foi das mais fáceis, o fruto apresentava uma certa resistência ao ser sacrificado, mas nossa vontade foi maior. Partido o fruto cada um de nós pegou sua parte e como numa cerimônia de degustação fincamos os dentes quase ao mesmo tempo.

Os dentes ficaram grudados, a boca ficou grudenta, era um marmelo de fazer doce. Desapontados jogamos fora os pedaços e fomos brincar de outra coisa…

O sagitariano e o escorpião.

Segundo Pierre Levy, quando desenvolvemos uma tecnologia da inteligência, tecnologia que auxilia nos processos de conhecimento, raciocínio ou memória, passamos a usar as nossas capacidades para outros fins e deixamos às tecnologias o trabalho de arquivar estes dados. Por isso, atualmente é bastante difícil encontrar um jovem que tenha memórias de sua infância anterior ao quarto ou quinto ano. Tudo foi registrado em foto, vídeo ou outra tecnologia e os cérebros deixaram de se preocupar com isso. Da mesma forma a escrita, por cristalizar as histórias, que serão lidas “ad infinitum” estão acabando com os contadores de histórias. Para não deixar morrerem as histórias contadas por nossos tios e avós é que eu me proponho a escrever um pouco de minhas memórias, já bastante fragmentadas, mas que podem ser reacendidas com fragmentos de outras histórias, por isso é que eu peço que aqueles que lembram, não importa que seja de forma fragmentada, me ajudem a compor a história de nossa família, naqueles moldes que eram contadas quando éramos crianças.
Na história da Família Piovesan, relatei há pouco de como meu pai, O “Tio Lino” fazia parte da vida das crianças como eu e muitos primos, e até dos que não eram sobrinhos dele. Não muito diferente foi a participação das tias “Sila”, “Dona” e “Mími”, respectivamente Tarcila Trentin, Donatila Trentin e Ludmila Trentin, sem contar das irmãs mais velhas que não tinham apelidos exceto minha mãe, a “Tia Bides”, Basilides Carolina Trentin Piovesan. A história de hoje tem como protagonista a tia Mimi, lembro com muito carinho dela, e vocês entenderão por que em breve.
Não se precisar a data, anos mais tarde soube que eu tinha ao redor de um ano e meio, então deveria ser o ano de 1955, provavelmente na saída do inverno, pois as árvores andavam meio desfolhadas e os tachos de fazer açúcar ainda estavam instalados. A tia Mími estava fazendo carrinhos para a criançada, cortava um carretel de linha ao meio, obtendo assim duas rodas, furava uma lata de sardinhas em dois lugares na transversal e colocava um palito de madeira como eixo e as duas metades do carretel como rodas. Pronto estava feito um carrinho de transportar terra. Eu observava e esperava que saísse o meu. Só que os maiores sempre eram contemplados antes, eu estava ficando impaciente, deveria estar enchendo o saco. Quando pedi mais uma vez pelo meu carrinho ela alegou que não tinha palito para o eixo.
Como sempre fui um homem decidido, como é comum aos sagitarianos, tomei a iniciativa,

como se faz açucar

Na falta de uma foto dos tachos do tempo do vovô, resolvi ilustrar este post com o trabalho de fazer açúcar com o tio Marcelino, a mãe, o Leonidas, o Leonildo e a Leda ao fundo

peguei uma faca de mesa do “secchiaro” da vó, daquelas com cabo grosso de ferro e ponta redonda, e fui ao mundo procurar um eixo pro meu carro.
Saí entre o moinho e o galpão. Passei pelo forno dos tachos de fazer açúcar, pelo engenho de moer cana e fui até os fundos do engenho de serra, melhor entre o engenho e a valeta que levava água para a usina. Um pouco antes da ponte de passar com a serragem sobre a valeta achei uma arvoreta que, segundo meu julgamento, deveria ser da grossura ideal para fazer o dito eixo. E comecei a cortar…
Alguma coisa aconteceu que não tenho mais nenhuma lembrança depois disso, elas voltam alguns dias mais tarde. A história continua a partir de relatos de terceiros…
Um dos filhos do Tio Antônio Trentin, provavelmente o Érico ouviu gritos de criança perto do monte de serragem e foi prontamente acudir, me encontrou aos berros, ainda com a faca na mão. Imediatamente pensou que eu tivesse me cortado, mas não achou sinal nenhum de corte, foi então que percebeu uma picada de algum bicho na minha mão direita, próximo da base do polegar. Levou-me para casa e começaram os cuidados médicos do Vovô, mas precisava saber do que foi a picada. Lá foram não sei quantos tios e primos, procurar a fera que me picara. Procura daqui, procura dali e lá estava o quase assassino, um escorpião preto, relativamente comum na região, segundo alguns com capacidade de matar um animal pequeno ou uma criança. Felizmente eu tinha um avô que apesar de abstêmio sempre tinha em casa uma cachacinha com guassatonga, com guiné e outras poções mágicas, assim eu fui remediado, mas ainda correndo risco de vida.
Minhas memórias retornam alguns dias mais adiante. Meu dedo polegar direito desmesuradamente inchado, aí entra em cena outra tia, a Tia Donatila me dizendo que eu morreria se chupasse dedo inchado. Eu não usava chupeta e para dormir, chupava o dedo. Imaginem a angustia de não poder chupar o dedo por medo de morrer, e não poder dormir sem chupar o dedo. Eu não tinha ideia do que era morrer, mas imaginava que seria muito pior do que a dor da picada do escorpião, foram dias de pânico. Eu só conseguia dormir uns pingadinhos no colo da Nona Rosa, que fazia questão de ficar comigo no colo quase o dia inteiro.
Sarei, o dedo desinchou e eu fiquei sem sequelas, a não ser o medo de morrer e, por conta disso, quando me disseram que a representação da morte era o esqueleto, passei a ter pavor de esqueleto, a ponto de não querer passar para o terceiro ano na escola só porque tinha a figura de um esqueleto no livro…