Taquara furada

Muito antes de começarem as importações de bambus lisos, do Oriente, aqui no Rio Grande só tinha os da família das taquaras. Muito comum nos capões e matos do Alto Uruguai eram as Merostachys clausseni – Taquara-mansa, que era ótima para fazer flautas e cestaria por ter a parede dos tubos fina e uniforme, com pouca conicidade no tronco e a Guadua Trinii ou Guadua Tagoara – Taquara-brava, Taquaruçu ou Taquara de espinhos, esta última com as paredes dos tubos mais grossa e apresentando uma maior conicidade no tronco. Ambas têm as paredes bastante ásperas que obriga o artesão a raspar a superfície para fazer trabalhos com melhor acabamento. Outras taquaras nativas também usadas para cestaria eram as criciúmas ou taquaris que apresentam caules bem finos e praticamente maciços.
Apesar de o assunto ser taquaras não é especificamente delas que quero falar hoje, e sim da tecnologia moderna. Atualmente se encontram no mercado inúmeras opções de canos e mangueiras para condução de água, voltemos algum tempo na história e descobriremos os mais primitivos e estranhos objetos usados com a mesma finalidade, folhas de inhames e taiobas, porongos ou cabaças, sacos de couro e balde de madeira dentre algumas das tecnologias usadas desde a época das cavernas, instrumentos para carregar água de um lugar para outro em pequenas quantidades. Já na época do império Romano se destacaram os canais que desviavam verdadeiros rios seguindo curvas de nível e os aquedutos para ligar os canais em nível acima do solo. Estes sistemas permitiam disponibilizar água corrente em lugares mais altos, naturalmente sempre que estivesse disponível uma fonte mais alta. Alguns mecanismos foram desenvolvidos na China e por outros povos orientais para elevar água, em quantidades razoáveis que depois seguiam por canais e aquedutos até seus destinos. Leonardo da Vincci foi grande arquiteto de represas, túneis, canais e aquedutos para irrigação e para disponibilizar água em cidades italianas. Tudo isto eu só descobri muitos anos mais tarde.
Até meus sete anos o que eu conhecia de sistemas hídricos eram os canais (valetas) que conduziam água dos lajeados do Moinho e do Papagaio até a caixa d’água da usina, daí a água descia 40 metros num cano, quase vertical, chegando à usina com altíssima pressão gerando a força para o dínamo. Até aí tudo se comportava logicamente, a água descia pela gravidade ou era conduzida onde fosse necessário sempre seguindo um caminho, do mais alto para o mais baixo, seguido curvas de nível levemente descendentes, no entanto uma coisa me intrigava lá na casa do tio Osvaldo.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão. Em primeiro plano as casas da vila. No meio do mato a churrasqueira da gruta.

A casa ficava uns cinquenta metros abaixo da fonte, que fica atrás da casa atual. Devido à permeabilidade do solo a água da fonte não corria muito e entrava na terra de novo, o que obrigava a buscar água de balde na fonte, como acontecia lá na casa do vovô. Mas lá tinha uma vantagem, a fonte ficava num nível acima da casa, o que possibilitava o transporte por dutos impermeáveis como o cano da usina em menores proporções, é claro. O cano da usina era feito em sua maior parte de sarrafos de madeira, como são feitas as pipas e barris, amarrados por arcos de ferro aparafusados a cada metro no início, e a cada 30 centímetros no final onde a pressão era maior, finalmente um trecho era de ferro para suportar a pressão de 568 libras por polegada ou 40 Kgf por centímetro. Lá no tio Osvaldo não precisava tanta sofisticação, a solução estava nos matos que precisavam ser roçados.
Como os matos eram cheios de taquara, em especial a taquara de espinho ou taquaruçu e estes eram ocos, ficava muito fácil transformá-los em canos para a água, bastava furar os nós. Foi assim que o tio Osvaldo com um trado grande de uns três ou quatro metros de comprimento foi furando os nós das taquaras, uma a uma, para transportar o líquido precioso da fonte até o tanque de lavar roupas ao lado da casa. Funcionava que é uma beleza até a conicidade das taquaras ajudava facilitando o encaixe de uma ponta na outra.

A água e seus comportamentos não me eram estranhos, pois crescemos brincando nos canais, nas comportas de escape e nivelamento, os ladrões, onde montávamos nossos moinhos e na bica do tanque de lavar roupas. Outras vezes estávamos dentro do rio subindo cascatas ou mergulhando nos poços. Nada me era estranho a não ser quando a tia Cacildes pegava um cano, taquara furada, e encostava a ponta naquela que despejava água no tanque, e a água subia do tanque até o secchiaro¹, onde ela lavava a louça com água corrente. O que mais me impressionava não era o fato de lavar louça com água corrente e sim o fato da água subir do tanque até o secchiaro. Confesso que levei muitos anos para entender o que se passava… Acho que terei que fazer um capítulo especial sobre como construí meus conhecimentos.

Secchiaro – Nome em italiano do lugar onde se colocam os baldes, secchios. Espécie de gamela de madeira onde se lavava os pratos, em geral tinha um furo num dos cantos com um canudo de taquara que saia para fora para escoar a água usada, para fechar esta saída de água se usava um torno de madeira, um paninho ou um sabugo de milho.

5 thoughts on “Taquara furada

  1. Eu adorava estas adaptações de modernidades,pois era piázinho,e a água excedente ia diretamente para o chiqueiro dos porcos,não necessitando do meu esforço para buscar com um balde.Belas lembranças e boa história Liceo.

  2. Eu adorava estas modernidades,pois,não precisava buscar água com balde para os porcos,pois a excedente ia diretamente para o chiqueiro.Bela história…

  3. Bela historia. Que bom que tem alguém que escreve ou conta. Assim ficamos imaginando como tudo isso era feito, como o mundo era tão diferente, tudo funcionava e dava certo apesar de nossos avós e bisavós enfrentarem dificuldades

  4. Isaias! Eu gostaria de ter mais tempo para escrever tudo o que vivi naqueles tempos, pois isso faz parte, não só da minha formação como individuo, mas a de muitos primos, como teu pai, por exemplo.

  5. Sr Liceo, como vai? Estou fazendo a genealogia de minha família e gostaria do seu e-mail para lhe fazer alguns questionamentos sobre a Vila Trentin e alguns moradores que viveram por lá.
    Grata desde já,
    Mireli

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