Dos tempos que morei na casa da vó, o casarão comunitário, onde vivi até meus sete anos, tenho um bocado de lembranças que merecem uma descrição detalhada, no entanto hoje vou contar uma de três primos: Eu, a Mariazinha e o Selito. Como podem observar os mais cuidadosos com a língua portuguesa devem ter estranhado me colocar em primeiro lugar, aprendi desde pequeno que quando se conta uma coisa boa sempre se coloca os outros em primeiro lugar, mas como neste caso é uma confissão não poderia deixar de me colocar na frente.

Foto tirada por ocasião dos 40 anos de casamento do vô Bortolo e vó Maria, bodas de rubi, sentados no centro, de preto.
Na fila da frente, eu sou o 5º da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha é a terceira e o Selito o 12º. A foto foi tirada atrás do moinho, vê-se ao fundo a casa do vô.
O pátio do Vovô era cheio de frutas, em qualquer época do ano que se chagasse lá sempre tinha alguma para degustar, no entanto, algumas causavam maior euforia entre a criançada. Era um verdadeiro paraíso, e tinha até a árvore do fruto proibido, aliás, até acho que tinha mais que uma deste gênero. Vou começar pela parreira que a gente tinha que passar por baixo para entrar no pomar. Ficava logo depois da casa da Nona (Rosa), imaginem as crianças passando por baixo da parreira com as uvas quase maduras para ir comer pêssegos ou ameixas. É claro que era uma espécie de tortura, no entanto ninguém ousava tocar um único grãozinho de uva enquanto o Vô Bortolo não autorizasse a colheita. Assim fica declarado o fruto proibido do vô: a uva. Os moranguinhos da horta da vó Maria também eram frutos proibidos, mas a gente dava um jeitinho de roubar alguns às vezes.
Tanto os moranguinhos como as uvas depois de algum tempo de proibição, quando estivessem maduros nos os provávamos, mas o fruto proibido que ninguém jamais descobriu o sabor, não era a maçã, como podem estar pensando, era o marmelo. A horta era cercada em parte pela casa, o casarão que tinha a grande sala, os quartos, do tio Miro, o nosso e o das tias mais velhas, as mais novas dormiam no sótão, nós, as crianças raramente tínhamos acesso ao sótão. Vou ter que fazer um capítulo falando da casa, mas não aqui. Sim o casarão fazia parte da cerca da horta, depois tinha uma cerquinha e a casa do vô, composta de quarto, biblioteca, sala e cozinha, estas duas últimas eram comunitárias, Nesta época o tio Gervasio, o tio Luís e o tio Ângelo já moravam em suas próprias casas.
Depois da casa do vô tinha uma cerca com a porteira de entrada, sempre visível da cozinha, que ia até a valeta que fazia uma grande curva indo até o canto do casarão e assim fechando a horta. Eu sei! Tenho que falar do marmeleiro, além de dar umas varas excelentes para delimitar as possibilidades de atuação das crianças, (isto é uma forma politicamente correta de explicar seu uso) também dava umas frutas incrivelmente grandes, douradas com uma casca com textura de camurça, um verdadeiro sonho, com certeza a fruta mais linda que conheci na minha infância. Mas era fruto proibido, jamais alguém nos ofereceu marmelo, eles amadureciam e desapareciam de forma misteriosa, nunca ninguém chegou e nos disse:
– Aqui está um marmelo, provem.
O marmeleiro não ficava no pomar, foi plantado na horta, o reino da vó Maria, que apesar de ter fama de rigorosa com as crianças era menos temida que a autoridade do vô Bortolo, ou da Nona. A Nona é quem cuidava das crianças na hora do café, mesmo morando em suas casas as gurias do tio Ângelo e a gurizada do tio Luís vinham tomar café na casa da vó Maria. – Epa! Epa! Esta é outra história, vai ficar pra outro dia.
Naquele dia, tempo de marmelo maduro, quando estava findando o café nós três combinamos rapidamente que seria o dia de provar o fruto proibido. Ficamos um pouco mais que os outros na mesa e ao sair a Mariazinha foi até a cozinha da vó e escondeu discretamente uma faca na roupa. O Selito e eu saímos discretamente e fomos até o fundo do engenho (serraria) e pegamos uma costaneira. Fizemos a volta por trás da valeta, passamos pelo chiqueirão dos porcos e perto do pé de araticum improvisamos uma ponte para passar a valeta. A Mariazinha ficou andando distraída pra lá e pra cá entre o galpão e a cerca da horta para dar o alerta caso algum adulto se aproximasse. Passamos a valeta e chegamos no marmeleiro, tinha um dos bem bonitos relativamente baixo e fácil de apanhar, fizemos a colheita e retornamos discretamente e fomos nos encontrar com a vigilante.
Para provar o dito fruto decidimos que íamos nos esconder atrás das pilhas de tábuas perto da caixa d’água da usina. Como já tinha movimento na serraria não podíamos arriscar andar por lá a saída era ir pelo lado de baixo da valeta e usar a ponte da caixa d’água. A valeta vinha dos fundos da olaria do tio Atílio Zanon, passava por trás da casa do tio Antônio, era a divisa natural do pomar do vô, depois da horta e finalmente alinhava pelos fundos do galpão e da serraria até findar no reservatório da usina que chamávamos de caixa d’água. Tinha cinco pontes, entre o pomar e as casas, a ponte do seu Facin (Ângelo Pio Isaias José Fassini). Logo depois da horta tinha a ponte do chiqueirão, por onde se passava para ir tratar os porcos ou colher araticuns, antes de ter o poço era a ponte de ir buscar água na fonte que hoje fornece água para a gruta. Depois do galpão tinha a ponte da gruta, que também levava ao tanque comunitário (terei que escrever também alguma história do tanque). Depois tinha o ladrão, abertura que possibilitava o escoamento do excesso de água para manter o nível. Logo mais adiante tinha a ponte da serragem, onde se passava com os carrinhos de mão e se jogava a serragem perau abaixo. Depois, quase no fim da valeta tinha a ponte da caixa d’água que saia por trás das pilhas de tábuas.
Saímos por trás do galpão atravessamos a ponte da gruta e seguimos rumo ao nosso destino. Chegando lá encontramos uma pilha de tábuas que tinha na parte de baixo, tábuas mais compridas, formando como que uma mesa, o lugar ideal. Não lembro muito bem que operações matemáticas fizemos para dividir em três o fruto dos deuses, lembro que foi uma cerimônia quase como um sacrifício divino, também pudera, aquele magnífico marmelo dourado merecia isto e muito mais. A operação de cortar não foi das mais fáceis, o fruto apresentava uma certa resistência ao ser sacrificado, mas nossa vontade foi maior. Partido o fruto cada um de nós pegou sua parte e como numa cerimônia de degustação fincamos os dentes quase ao mesmo tempo.
Os dentes ficaram grudados, a boca ficou grudenta, era um marmelo de fazer doce. Desapontados jogamos fora os pedaços e fomos brincar de outra coisa…
Pingback: A faca e a máquina do tempo | Familia Trentin