Novena de chuva

Numa comunidade religiosa como a da Vila Trentin era natural se fazer novenas com os mais diferentes fins. Hoje vou falar especificamente de uma, no verão do ano de 1962. Uma seca se arrastava por vários dias, já fechava quase um mês sem chuva e tudo começava a refletir o problema. Quem passasse estradas via lavouras e lavouras de milho com as folhas enroladas apontando o céu como a dizer – Oh! chuva vem nos salvar! Os gramados já estavam ficando acinzentados e brilhantes, característicos de grama seca. Isso para gurizada não parecia ser um problema, pois a gente aproveitava as ladeiras gramadas dos potreiros para esquiar. Isso mesmo esquiar, usando capas de cachos de coqueiro como pranchas.
O padrão básico era sentar dentro de uma destas capas segurando com as mãos no cabo que ajudava a guiar inclinando para a esquerda ou direita conforme o trajeto que se queria. Os mais hábeis deslizavam de pé quase como se faz com skate. O potreiro la de casa era bom para iniciantes pois a descida tinha uma inclinação que não permitia muita velocidade e terminava no gramado do banhadinho que não secava nunca e, portanto, freava a prancha no final da pista. O potreiro do vovô não permitia este tipo de atividade porque a parte mais mansa terminava na valeta e a outra parte era muito violenta. A decida mais emocionante era a do tio Osvaldo, nas descidas em direção as lavouras da várzea, começando perto da casa, ou a loucura das loucuras, a trilha que começava perto da fonte, onde foi feita a casa nova, e terminava logo acima da cachoeira grande da gruta.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.   PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.
PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Claro o assunto é a gruta e a novena, pois bem, como não chovia há bastante tempo o povo estava desesperado com a seca e com o calor, logo, o lugar ideal para fazer a “reza da chuva” era a gruta, um lugar onde a natureza proporcionava clima ameno, fresco e úmido. As orações se misturavam ao ruído das cachoeiras e subiam diretamente aos céus, os corações aliviados pela umidade evaporada das cachoeiras reforçavam o poder da fé dos fiéis, sem falar no sacrifício de descer e subir o caminho cansativo.
A novena já se estendia por quase duas semanas, tinha passado dos nove dias e o povo continuava a orar. Se não me engano era uma quinta-feira, o terço estava pela metade quando um barulho diferente do da água fez estremecer o vale, um trovão forte, mas de dentro do vale da gruta não se via nuvem alguma. Alguns segundos depois uma nuvem preta cobriu o céu, parecia que estava anoitecendo e o céu desabou. A chuva pedida enfim chegava e foi aquele corre corre, acho que ninguém estava com muita fé, porque ninguém tinha levado guarda chuva. Um grupo se enfiou na casa da usina, mas não cabia todo mundo, outros correram trilha acima para se abrigar na serraria e no moinho. Eu, como tinha medo de entrar na usina e não corria muito, pois era um magricelo fraquinho, acabei tomando um belo banho de chuva. E o pior de tudo acabava a moleza da lavoura, tinha que voltar a carpir, e os gramados não ofereciam mais condições de fazer “grassboard” como diriam os aficionados do inglês.

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