O bichinho carpinteiro

O que é um bichinho carpinteiro?
– A resposta tem que ser dada em etapas. Vamos começar pela evolução histórica. Muito antigamente quem tinha habilidades diferenciadas dos demais ou agia diferentemente era classificado como um possuído. Depois começaram a se diferenciar os bons dos maus, os bons eram os que participavam do nosso grupo e os maus, os outros. Assim surgiram os santos e os do outro lado. Na idade média quem fazia algo diferente, ou pensava diferente, era queimado e olha que até muitos católicos quase foram parar na fogueira por fazerem ou dizerem coisas que não eram aceitas pela maioria.

Os tempos mudaram mas o comportamento dos humanos muito pouco. Uma leitura de “O Alienista” de Machado de Assis pode ajudar a entender estes comportamentos.
Não pretendo aqui fazer um tratado sobre o comportamento humano nem psicologia, mas na minha época de criança quando alguém fazia algo diferente se dizia que tinha o diabinho no couro ou uma versão mais politicamente correta “Tinha o bichinho carpinteiro”. Atualmente as crianças são possuídas pela hiperatividade e certamente daqui alguns anos vai surgir uma nova denominação.

Vejamos resumidamente como foi a evolução:

Quadro evolutivo do problema simplificado

Bem! Agora que vocês sabem o que é o bicho carpinteiro vou contar o que isto faz na nossa história. É que algumas das minhas tias diziam que eu tinha o bicho carpinteiro e eu acho que herdei do vovô, ou por que outra razão ele chamaria a marcenaria de carpintaria?

A carpintaria do vovô que eu lembro bem, era aquela que ele instalou numa antiga casinha ao lado do casarão dos quartos, no caminho do pomar. Lembro bem de algumas ferramenta como o banco de carpinteiro, a serra de arco, como a que aparece nas imagens de São José, os formões, que ele não deixava que pegássemos, os enxós, o goivo e o plano que ele usava para alizar o interior das pipas, o serrote de costas e a calha com ângulos para fazer molduras, o rebolo com pedal que eu roubava a correia para o Catarino fazer moinhos nas rodas d’água do ladrão da valeta, as plainas e garlopas… Enfim um universo de sonho para qualquer carpinteiro da época. Hah! Ia me esquecendo dos trados e do arco de pua, e da moderníssima furadeira com “multíplica” de rotação de 4 vezes e meia que guardo com carinho até hoje. Mais tarde tinha outra que se podia trocar a manivela de um lado par outro e obter rotações diferentes, acho que esta ficou com o tio Miro.

Furadeira de alta rotação, uma maravilha para a época

Assim a carpintaria do vovô começou bem modesta, mas nem por isso ele deixou de fazer moveis magníficos, ainda temos na família um roupeiro, que ele fez para o casamento da mãe, e uma mesinha. Feitos exclusivamente com ferramentas manuais. depois a marcenaria evoluiu, mas nesta época eu já não morava mais no casarão, tínhamos nos mudado para a antiga morada do seu Peixoto. Mesmo assim continuei a admirar o trabalho dele, principalmente as inovações que ele era capaz, como o encosto inclinado para preparar sarrafos de pipas na plaina desempenadeira elétrica, já na Carpintaria Trentin Ltda. então comandada pelo tio Argemiro, onde ele acabou se acidentando e cortando dois dedos.

Sua criatividade não tinha limites, lembro até hoje do quadro negro da Escola Roque Gonzales, onde estudei, que foi pintado com tinta feita de cascas de jabuticaba.

Quando muitos lembram dele pela construção da usina, moinho e serraria, eu gosto de lembrar os detalhes como os que escrevi hoje e daqueles como o trado de furar taquaras para encanar água como na história da “taquara furada”. E muitas outras, como o cuidado com as plantas e árvores frutíferas, a caneca de tomar chá de mate com pão torrado. Comer pão com melancia, que gosto até hoje, bem como o gosto pela leitura – gosto não – paixão.

Por estas e outras é que tenho orgulho de ter herdado o bicho carpinteiro dele.

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