Colhendo pinhão de caminhão – Perdidos

O mês de junho sempre reservava surpresas para a gurizada muitas atividades divertidas se faziam no inverno. Dentre as mais esperadas tinha a arrancação da mandioca, pelar cana e a fazeção de açúcar e chimia, a feitura da farinha de mandioca, a lavação do polvilho (temas para escrever)  e colher pinhões no mato da tia Santina, atualmente dos Dalla Nora. Naquele ano foi especial acho que foi no ano de 1959 ou 60, especial porque naquele ano veio o Tio José rato de caminhão, aproveitando as férias de junho, e trouxe o Evaldo e o Dirceu, e fomos todos juntos colher pinhões. Foram juntos também o Catarino e, se não me engano, o Tarcísio e o Narciso do tio Gervásio, o Léo e eu, é claro. Eu era o menorzinho, deixamos o caminhão na estrada em cima da lomba pois não tinha arranque e fazer pegar no frio de manivela era difícil, e lá fomos nós. Uns duzentos metros adiante de onde hoje é a casa dos Dalla Nora tinha um pinheiro com forquilha, o único que conheci, quase na borda do mato. Em poucos minutos os grandes, adultos entraram no mato e voltaram com cipós e taquaras para envarar e subir.

Esta foto do Caminhão do tio José é da época. Na cadeira o Aires, que era ainda muito pequeno e não participou da aventura.

Envarar consiste em atar uma taquara com cipó no tronco do pinheiro com ataduras a cada 60 ou 80 centímetros de forma que os cipós sirvam de apoio para um bastão que serve de degrau e a taquara fica como um corrimão único que facilita a subida. Em poucos minutos o pai já estava lá na copa derrubando pinhas com uma taquara. Não tenho nem ideia de quantas pinhas foram derrubadas mas sei que dava um monte da minha altura, provavelmente não era grande coisa pois eu era bem baixinho. Terminada a derrubada um dos tis começou a quebrar as pinhas dando uma paulada em cada uma e depois nós debulhávamos e íamos colocando os pinhões no saco. Os adultos foram mato adentro procurar outros pinheiros e nós ficamos debulhado. Apesar de pequenos tínhamos prática de debulhar milho e o trabalho terminou rapidinho, foi aí que tivemos a ideia de procurar os adultos. Eles entraram no mato e seguiram a direção leste, nós entramos no mesmo lugar mas pegamos o rumo norte, enquanto eles percorrendo uns trezentos metros atravessavam o mato nós fizemos mais de um quilometro mato afora e não os encontramos. Depois de algumas horas de caminhada achamos o outro lado do mato enquanto isso…
– Alguém busca um saco vazio que este tá carregado – foi o grito que se ouviu de cima do pinheiro.
O tio Luiz voltou e achou os pinhões ensacados, os sacos vazios mas cadê as crianças?
Voltou desesperado que as crianças tinham se perdido no mato.

Se dividiram de dois em dois e saíram a nossa procura, esqueceram os pinheiros, pinhas e pinhões, era preciso achar as crianças. E começaram a vasculhar o mato. Umas duas horas de busca e nada.

Neste meio tempo o grupo dos pequenos saia do outro lado do mato ao norte bem longe do ponto de entrada. Não muito longe tinha uma casa desconhecida dos meninos, mas era preciso criar coragem e chegar para pedir informações, e assim foi feito.
Primeiro batemos palmas em quantia logo depois apareceu uma senhora:
-Boa tarde,cosa vuto?- pediu a senhora.
– Acho que estamos perdidos – explicou o Catarino, ela não entendeu nada.
Nós não conhecíamos a senhora e estávamos muito intimidados até que saiu do galpão um senhor sorridente que veio pro nosso lado perguntando:
– Como chegaram aqui tutti soli?
Era o seu Luiz Marion, ele conhecia alguns de nós e em especial o Catarino que sempre estava la pelo moinho quando ele levava o milho para a moagem.
Tentamos explicar que a gente tinha se perdido no mato enquanto estava procurando os tios que foram derrubar pinhas. Neste meio tempo apareceu um gurizote curioso que ficou nos observando e dentro de alguns minutos a senhora voltou:
Luiiiigi mi cato que lori ga fame. (Luiz eu acho que eles estão com fome) – Pelo sim pelo não ele concordou e nos fez entrar na cozinha onde tinha uma mesa cheia com bolachas e chá de mate com leite.
Até aí tudo estava saindo melhor que a encomenda, nós nem pensávamos em um lanche e estávamos tomando um “chá das quatro” ao estilo da nona Rosa. Enquanto isso o seu Luiz mandou o Tchéo, o filho, atrelar os cavalos na carroça para nos levar de volta pra casa, ou melhor para o caminhão. Mais alguns minutos e estávamos de barriga cheia e fazendo a maior algazarra na carroça com o Tchéo. A gente ia fazendo piruetas para ver a sombra projetada no barranco da estrada.

O sol já se punha no horizonte deixando as sombras compridas e dentro de poucos instantes ia escurecer. O bando de crianças capitaneados pelo Catarino que tinha então uns 13 ou 14 anos ficaria a mercê das feras noturnas, jaguatiricas, graxains, cobras, morcegos, corujas, meu Deus será que vão sobreviver? De noite não tem como procurar, eles devem estar famintos e desarmados. Com exceção do tio Miro todos tinham filhos no grupo e o desespero começou a tomar conta dos grandes.
Mais alguns minutos e não seria mais possível procurar, a escuridão tomaria conta.

Felizmente ainda estava claro quando chegamos ao caminhão e então, capitaneados pelo Tchéo, fomos ao encontro dos adultos, primeiro encontramos o tio Miro e o tio José, que voltavam ao caminhão na esperança de fazer pegar e buzinar muito para nos atrair. Fizeram a gente ficar na carroceria do caminhão enquanto iam procurar os outros, neste meio tempo dispensaram o carroceiro para voltar pra casa e se foram aos gritos tentando atrair os demais adultos.

O sol se pôs e começou a esfriar muito, felizmente não demoraram os adultos a chegar já aliviados apesar de terem colhido uma pequena quantia de pinhões. Mas aí é que começou a verdadeira história ou pelo menos a parte que para nós foi a mais divertida.

O caminhão tinha ficado na lombinha saindo da Vila em direção a Esquina (Boa Vista) um pouco antes da casa do seu Antônio Santi. Como a partida era à manivela não dava pra arriscar depender só dela em dia frio, e assim foi feito. O tio José fez o contato e começaram um a um os adultos a dar manivela, mas o motos só fazia vru e parava. A segunda opção de arranque era fazer pegar no tranco lomba abaixo, era só dar um empurrãozinho, pular na carroceria e aguardar o tio soltar a embreagem para o motor pegar. Ai tudo mudou de figura, os adultos empurraram e pularam na carroceria, o caminhão pegou velocidade e depois de um tranco ouvimos vru, vruuuuuuuu, póf póff chegamos ao fim da ladeira e o motor não pegou. Mais umas tentativas de manivela e a decisão unanime empurrar de volta lomba acima o caminhão para nova tentativa. As crianças teriam que descer para aliviar o peso, descemos e fomos a pé lomba acima, com a certeza que desceríamos a lomba novamente. Não deu outra, embarcamos no caminhão que agora estava freado já em posição de descer sem o empurrãozinho, e na maior algazarra descemos a lomba de novo, o barulho era tanto que nem conseguimos ouvir o vrrrrruuuuuu póf póf de novo, só nos demos conta quando nos mandaram descer de novo para repetir a operação.
… E repetir a operação… … E repetir a operação… … E repetir a operação… Não sei quantas vezes até que o vrruu ficou permanente e o caminhão abriu os olhos (acendeu as luzes) pois já era noite.
Aí o tio manobrou, e voltamos pela picada, que tinha fama de mal assombrada, da qual tenho que contar algumas histórias. Finalmente chegamos em casa já na hora da polenta…

.