A capelinha visita o Seu Generoso

Atualmente recebo em meus perfis no Facebook e no Whatsapp inúmeras visitas, em vídeo ou imagens piscantes, de Santos, Anjos Milagreiros e até o próprio Deus, que vem enviados por amigos, alguns que mal conheço. Devo confessar que nenhum deles me desperta nem um milésimo da emoção despertada pela capelinha de Nossa Senhora que visitava a família na minha infância. Até que nestes dias a Inezinha, sem imagens, sem luzes, sem musiquinha, sem milagres, ligou uma lembrança na minha memória “A visita da Capelinha na casa do Seu Generoso”. Ela visitava todas as casas, mas vou trabalhar com a dele por duas razões: veio da memória da Inezinha, que era um personagem local, e não tenho tempo para descrever todas, por isso é possível que alguns detalhes sejam de outras casas.

A tarefa da capelinha era visitar as famílias e permanecer um dia em cada casa. O roteiro da visita era quase sempre o mesmo, ela chegava ao cair da tarde e logo depois da janta a gente se reunia na casa com as famílias anteriores e posteriores à visita para rezar o terço. O terço dava uns 15 minutos desde o sinal da cruz inicial até o final, com isso podemos dizer que a oração formal era insignificante, não que eu esteja a desprezar a oração formal, mas é justamente para lembrar que ninguém vai a casa do vizinho, com a família toda para rezar 15 minutos, então porque a visita da capelinha era tão importante?

Esta era a capelinha nova.

A metodologia
O processo consistia em receber a capelinha num dia e levar a capelinha na casa do vizinho no dia seguinte, na casa onde estivesse a capelinha se rezava o terço depois do jantar. Cada capelinha tinha um grupo de mais ou menos trinta famílias ou, se o número fosse muito grande tinha duas capelinhas, como era o caso da Vila Trentin, a capela dos Três Mártires Riograndenses. Assim a visita da capelinha dava mais ou menos um mês.
A prática
No dia que a capelinha chegava na casa da família que antecedia a da gente, a gente ia no terço. No outro dia o terço era na casa da gente e no dia seguinte a gente ia na casa do próximo vizinho, assim sempre tinha três famílias reunidas a cada noite. Assim se provocava a presença de Deus entre nós de acordo com Mateus 18:20 “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Isso valia para os adultos, porque para as crianças quem tinha que estar presente era o Anjo da Guarda.

A sequência próxima de casa era o Modesto Dalbianco, Seu Batistinha (Grilo), o Jango (Forquilha), a dona Leila, o Florianinho, lá em casa depois seu Luiz Moreira, o outro Jango (Mogango Branco), seu Generoso e tio Valdomiro e depois continuava. Depois que seu Luis Moreira foi embora, seu Jango saiu do grupo e nós levávamos lá no seu Generoso. PS1.: Entre parêntesis os apelidos, não havia bullying na época.
Como vários vizinhos não sabiam puxar o terço o pai e um de nós ia, muitas vezes, em muitas casas desde o Batistinha até seu Generoso. Vou relatar as minhas memórias de uma destas noites.

Os fatos e a história
Acho que era quarta-feira, sempre fica melhor um encontro no meio da semana, era janeiro ou fevereiro, tempo quente e seco e tinha lua cheia, ou melhor era o segundo ou terceiro dia da lua cheia, quando o início da noite é escuro e depois vem aquela lua maravilhosa para brincar ao luar. Eu estava no terceiro ano, aquele que tinha a caveira no livro, por isso eu não queria ir pro terceiro ano, um dia eu conto porque, então era o ano de 1961. O tio Valdomiro recém tinha se mudado para a antiga tapera da finada Balbina, aquela que assombrava os caminhantes noturnos, dela também tenho algumas história pra contar.
O caminho para ir la de casa até seu Generoso…
Primeiro um resumo da biografia do seu Generoso. Conheci ele ainda quando morávamos lá na vó, ele tinha feito uma cirurgia e precisava de cuidados então ficou uns tempos hospedado lá. Depois quando fomos morar na nossa morada ele ficou nosso vizinho, nesta época ele morava com uma senhora viúva que não lembro o nome, que tinha uma filha, a Otília, que chamávamos de “Lesma Coalhada” (nada de bullying) que tinha dois filhos o João e o Laureano. Quando a senhora faleceu, a Otília e os meninos foram embora e nunca mais soubemos deles. E o Seu Generoso ficou sozinho até que ele encontrou uma senhora viúva, lá pras bandas da Jaboticaba Velha e casou-se com ela dentro dos mais restritos ritos da Santa Madre Igreja. Trouxe para casa a esposa, a Alzira , a Delvíria e o Oscar para nossa alegria, mais crianças para brincar.
… ah! o caminho. Bem! O caminho que fazíamos para chegar lá era descer um pouco pela estrada da vila depois entravamos no potreiro do tio Luis atravessávamos a sanga e voilá, estávamos na casa dele. Para atravessar a sanga tinha uma pinguela feita com uma árvore de angico que caíra no barranco e cujos galhos foram parar do outro lado, o único inconveniente para as crianças é que o corrimão de taquara ficava meio alto, e de noite precisava uma iluminação, – Não! lanterna não tinha. Quando não tinha lua (luz do luar) o pai costumava levar um tição de lenha de angico ou camboatã bem acesso, aí quando sacudia ele o ar avivava as brasas dando uma luzinha mixuruca mas suficiente para não tropeçar e/ou para atravessar a pinguela em segurança. Os do tio Valdomiro não tinham pinguela pra atravessar mesmo assim precisavam luz para não tropeçar. O tio costumava vir com um lampiãozinho mas a gurizada vinha correndo. – Gurizada na época era o Cláudio, a Inês (Inezinha) e a Cecília, lá de casa o Léo, o Leonildo, a Luísa e eu. Naquele dia parece que foi combinado. Nós, lá de casa, resolvemos inovar na iluminação e pegamos um vidro acho que era de um remédio chamado Polyascorb, nome comercial para a vitamina C na época, e enchemos de vaga-lumes, daquelas sempre acesas, tinha os pirilampos, aqueles que ficam piscando mas não serviam para nosso propósito. Do outro lado os do tio Valdomiro fizeram a mesma coisa só não sei do que era o vidro. Os vaga-lumes até que davam uma luz interessante, só que quando ficavam parados apagavam a luz, acho que era pra não gastar energia, aí a gente sacudia o vidro e eles acendiam de novo. E assim chegamos à casa do seu Generoso.

Os adultos entraram e sentaram na sala para conversar e tomar chimarrão, as crianças, com os lampiões improvisados esperavam o despontar da lua. Começava uma lasquinha de luz no horizonte que ia brotando e crescendo, dava uns quatro minutos até ficar completa. Este era um tempo de meditação e contemplação, ficávamos todos em silencio, admirando aquela lua maravilhosa que despontava, uns minutos mais e tínhamos a luz do luar para brincar um pouco.
A brincadeira preferida era o esconde esconde que a luz do luar fica ainda mais emocionante porque qualquer sombra poderia ser um esconderijo. O ferrolho ficava bem visível, era um palanque de atar cavalo que ficava no centro do facho de luz do lampião que se projetava no gramado. Enquanto os adultos reunidos contavam causos e sorviam o chimarrão, as crianças corriam como loucos contando, se escondendo, batendo no ferrolho (ou seguro) para se salvar, tropeçando, caindo dando cabeçada, enfim sendo crianças.

Os adultos, conforme Mateus 18:20, reunidos com o intuito de rezar traziam para a sua companhia o próprio Filho de Deus, enquanto a criançada deveria ter uma centena de Anjos da guarda cuidando para não se quebrarem…

Depois a gente rezava o terço e ia para casa, e cansados dormíamos como anjinhos…

Para aqueles que gostam de relembrar como era o fim de tarde fiz uma cantiga de ninar para minha sobrinha com o tema. Foi gravada pelo Ernesto Piovesan, filho da Luisa. O link é para baixar o arquivo Dorme Isabela