A oficina e as manifestações culturais

A arte de trabalhar a madeira está no sangue da família desde muitas gerações. Desde a Itália a família Trentin teve grandes artesãos e a tradição chegou evidentemente à Vila Trentin. Assim de uma pequena oficina que o vô Bortolo tinha ao lado da casa da nona a evolução se transformou numa bela fábrica de móveis, que dentre outras coisas ainda fazia pipas e tinas nos moldes de antigamente.

Depois do falecimento do vovô a oficina ficou com o tio Argemiro nem por isso deixou de ser um centro de trabalho e arte. Mas por falar em arte…

Talvez por ter herdado uma Kodak caixote do pai não é que o Liceo começou a se interessar por fotografia, um dia destes temos que desenterrar algumas lembranças dele quando impregnava papel com água de bananeira para tentar fazer fotos. Claro que estes desejos infantis evoluíram e agora que ele estava estudando em Porto Alegre aparecia nas férias com uma Kodak Instamatic, e agora até com filme colorido. Claro! Era o fotógrafo de ocasião, por exemplo é dele a foto do Darci Corote com a família, os vinte e quatro filhos e as esposas. Da família do tio Miro carpindo o soja… na verdade cada foto rende uma história.

Não era diferente na oficina, a turma aproveitava a ausência do patrão para exercitar os dotes teatrais, se bem que, por amar a arte, acho que ele nem se importaria. Já estavam quase no fim as férias do nosso fotógrafo quando ele foi convidado a fotografar uma performance do grupo de marceneiros. Uma cena no mínimo um pouco chocante para aqueles pacatos trabalhadores.

– Mas o que não se faz por amor à arte?

O cenário foi um tanto improvisado, pois o galho do pé de ariticum não suportaria o peso do condenado – Mas arte é arte. O padre e o coroinha também não estavam caracterizados a rigor – Mas o que importa é a atuação. A metralhadora mais parece uma furadeira, mais uma vez tudo em nome da arte. E para não ficar dúvida nenhuma que a sentença seria cumprida o condenado deveria ser enforcado e fuzilado e pronto.

O resultado é uma cena digna de Oscar, um pouco atrasado, é claro, mas convenhamos, – Eles merecem o premio mesmo que reconhecido apenas alguns meses,  na verdade, apenas 517 meses mais tarde.

Saggioratto – no papel de carrasco, Noerci – no de condenado, Aires – carrasco2, Moisés – o coroinha e Daciano – o padre. Todos merecedores do prêmio de melhor ator.