O cinquilho

Um domingo típico na Vila Trentin nos anos 60 incluía um cerimonial bastante complicado, algumas rotinas e muita criatividade.

O banho era tomado no sábado ao fim da tarde. A bacia, apesar de grande, somente comportava um de cada vez o que causava por vezes atritos, gritos e varadas da parte da matriarca. Depois janta, oração da noite e ir dormir. Por vezes o sono demorava, mas era importante para estar pronto para o Domingo, que começava com um chá de mate com leite, para os que ainda não tinham feito a primeira comunhão, os outros iam em jejum para a missa.

Saltar da cama num domingo era algo muito mais emocionante do que qualquer outro dia, mesmo tendo que levantar mais cedo do que em dias de aula. Os meninos, cheirosos do banho do dia anterior, vestiam a roupa de missa e estavam prontos pra sair. Os três caminhavam mais ou menos um quilômetro até a vila. A missa não era na vila, lá somente se encontravam com os primos e primas do tio Luiz e do tio Ângelo, os do seu Artur Oliveira mais algum vizinho ou parente e o grupo fazia mais um trecho de caminhada até a encruzilhada do velho João Pegoraro, perto da figueira dos crentes, onde esperavam a carona que os levaria a missa em Jaboticaba. Quando o tempo era bom vinham os do seu Pedro e os Cargnin. A carona era, na maioria das vezes, o caminhão do Maximino Rigon, que já vinha com os Santi e os Dalla Nora na carroceria.

– Nosso ônibus, um pouco adiante, fazia nova parada onde embarcavam os Turra, os Boton e os Manfio, dali pra diante o pessoal ia a pé mesmo ou a cavalo. O Pai ia quase sempre a cavalo para cantar na segunda missa com o tio Atílio e tio Aurélio que participavam das duas missas. Na época eu era um guri, mas com certeza o caminhão tem muitas histórias de amor pra contar pois, é claro, que era também um lugar de encontro de rapazes e moças que tinham oportunidade de estarem próximos e se conhecer. Na missa ficavam separados mulheres à esquerda da igreja e homens à direita, isso até o padre Paulo vir com aquelas ideias, que trouxe da Alemanha, de juntar as famílias, aí misturou tudo, ainda assim o caminhão era o lugar onde os estranhos e estranhas conseguiam a maior proximidade. E á claro que as vezes tinha que segurar a moça para não cair num solavanco maior do caminhão. E assim tudo ia correndo naturalmente. 

Domingo à tarde a gente ia pra vila. Este costume continuou por muitos anos, aqui uns 15 anos mais tarde a Leda, a Catia, a mãe, a Sirlene e o Leo com a Leia no colo indo pra vila.

A volta era outra festa, todo mundo no caminhão mais animado e fazendo planos para o domingo à tarde, os da vila ainda tinham uns bons 15 minutos de caminhada para fazerem juntos e aí alguns casais já se arriscavam a fazer o trajeto de mãos dadas. A piazada combinava uma caçada, pescaria ou ir até algum mato que tivesse frutas maduras isso incluía cerejas nos matos dos Cargnin ou do seu Pedro Dalbianco, guabirobas na beira do arroio nos fundos das terras do seu Donato Rodrigues, ingás nos matos abaixo da gruta, goiabinha do campo e araçá rasteiro nos campos do Lalo Franco, pinhão nos matos do Dalla Nora, gravatá na tapera do finado Agenor, guaimbê nos matos do Jango e muito mais coisas que só dando corda na máquina do tempo pra me lembrar. E as pescarias, mas isso é uma outra história…

– E quando não tinha nada disso pra fazer a gente ficava na vila mesmo na sombra dos timbós da igreja vendo os mais velhos jogar “prenda” ou brincando de pegar ou esconde esconde. Outro programa muito comum eram os jogos do Ipiranga, terei que escrever algumas histórias sobre isso.

Os casados se reuniam no bar do tio Vtelio Casarin ou no do Hercules Zanon para um carteado que, em geral, durava a tarde toda. Os jogos mais populares eram pife, canastra e pontinho para os mais jovens. os de meia idade jogavam bisca e trissete e os patriarcas gostavam mesmo de um cinquilho. Isso era o programa dos italianos, que eram o seu Pedro, o seu Fassini, o tio Antônio e o Vovô Bortolo, para os atentos já puderam notar que eram só quatro e o jogo exige cinco. Para isso eles precisavam de um parceiro que nem sempre era conseguido dentre os casados mais velhos. Algumas vezes o tio Gervásio completava o quinteto outras vezes eu ocupava o lugar. Não que eu fosse velho ou casado, eu jogava com eles pois sempre saia ganhando…

Nunca fui grande jogador de futebol minha posição oficial era de marrecão, claro que isso tinha lá seu “glamour”, mas participar a tarde toda de uma mesa de cinquilho tinha suas recompensas. No começo da tarde começava o jogo com dez balas cada um, o vovô comprava as minhas e a gente ia jogando a tarde toda e eu terminava o dia sempre com cinquenta balas ou mais. – Não eu não era um jogador muito bom, mas no jogo onde não tem parceiro fixo e sempre se joga dois contra três as balas iam mudando de mão a cada rodada, quando alguém terminava as balas ou pedia emprestado para um parceiro ou comprava mais algumas. No final do dia não importava quem tinha ganhado ou perdido todas as balas acabavam no meu bolso, eu era a única criança que estava por aí.

– Eu voltava pra casa faceiro e com “i dolci in scarcella”.

Isso era a melhor parte do jogo.