O Oméga ferradura do seu Domingos

Eu gosto de ouvir histórias…

“Muitas pessoas contam histórias, nem todas são ouvidas, e muitas vezes histórias passam sem ter o devido crédito, ou por sua inverossimilhança ou por falta de dados comprobatórios. Sempre que uma história contada tem algo de extraordinário logo é taxada de mentira e não se fala mais nisso. Por isso a função do contador de histórias é buscar nos fatos ocorridos o que de mais fundamental e básico dá credibilidade a uma história e depois apresentar estes dados com coerência e propriedade.”

Na vila Trentin e arredores  havia muitos contadores de histórias nem sempre acreditados, muitas vezes injustiçados e até mesmo desprezados por aqueles que se julgavam mais sérios ou mais científicos.

Uma destas vítimas era o seu Domingos Lereno, muitas vezes ouvi senhores de respeito taxando-o de mentiroso, mesmo que suas histórias tivessem fundamento lógico. Eu mesmo ouvi algumas, sempre de terceira mão bastante difíceis de crer, mas a do relógio me deixou intrigado.

O velho Rocha e seu filho, Florinal, depois de aprontar alguma coisa que nunca descobri o que foi, foram obrigados a se exilar voluntariamente na Argentina sob pena de cumprimento de uma ameaça de morte. Passados alguns anos o Florinal voltou, e para evidenciar a prosperidade no país vizinho, voltou ostentando um belo exemplar de relógio, não um destes de bolso comuns como os Tissot que alguns fazendeiros da região tinham, mas um autêntico “Omega ferradura” de pulso. Já imaginaram que maravilha, poder olhar as horas sem levar a mão no bolso. Principalmente para um campeiro que quando ia laçar ficava com as duas mão ocupadas uma nas rédeas de cavalo e a outra no laço, bastava dar uma viradinha no pulso e podia olhar as horas sem interromper o trabalho.

Negócio vai negócio vem, o dito relógio foi parar nas mãos do seu Domingos, ou melhor no pulso. Só que tinha um probleminha, ele era canhoto e o relógio ficava justamente no pulso da mão mais usada com o laço e o roçar do laço na pulseira acabava desgastando a dita, ainda bem que pertinho dali, umas duas horas a cavalo, tinha o seu Sestilio Zandoná, que além de boas botas fazia pulseiras novas, idênticas a original.

Mas como o correr dos anos é implacável, seu Domingos, já beirando os noventa anos não tinha mais como enfrentar a cavalgada para fazer nova pulseira e o relógio ficou aposentado numa gaveta, foi nesta época que eu e o Geraldinho ouvimos uma das histórias mais incríveis de nossas vidas. Foi numas férias de junho, 1977 se não me engano, quase no final do mês quando decidimos fazer uma caçada, munidos de bodoque e de uma espingarda de pressão, saímos meio sem rumo em direção dos campos para ver se caçávamos alguma perdiz. É claro que não caçamos nada, mas no caminho encontramos o feliz proprietário do Omega ferradura.

– Boa tarde seu Domingos. – disse eu.

– Boa tarde, vejo que estão tentando caçar perdiz.

– Sim! Só que ainda não vimos nenhuma…

– Vocês estão no lugar errado meus filhos, perdiz a vontade pra caçar só tem na fazenda  do Medeiros ou na do Lalo.

– Mas e como se faz pra chegar lá? – perguntou o Geraldinho.

– Podem atravessar a minha fazenda e depois daquele capão de timbó tem um banhadinho, atravessando ele já estão nos campos do Medeiros, depois da faixa fica a do Lalo, costeando por umas duas léguas o rio Fortaleza. Mas tomem cuidado com as cobras porque nestes campos tem muitas das grandes. (Um pequeno parêntesis é necessário. Preciso esclarecer, que na região, se chama fazenda uma propriedade de umas dez ou mais quadras de campo. Nem a do seu Domingos nem a do Medeiros tinham este tamanho, mas se perdoa sempre um pequeno exagero, principalmente diante de dois estudantes da cidade.)

Já íamos tomando nosso rumo quando ele chamou: – Será que não querem tomar um chimarrão lá em casa?

Em função da solicitude dele e do respeito pelos seus cabelos brancos aceitamos e lá fomos nós. Chegamos na casa e a chaleira jé estava chiando, ele encilhou o mate ¹) e arrastou mais um banco de três pernas pra frente da casa e a nossa caçada terminou por aí. Ele tinha nos identificado por alto, sabia que eu era filho do Lino, o veterinário, mas queria saber do Geraldinho, do pai dele, e muito mais… Aí ele lembrou que gostava deveras de ouvir as histórias do meu pai, do Ernesto Lorenzetti, do seu Chico Flores, do seu Osvaldo, do Jardelino… e foi contando uma infinidade de histórias, muitas  que eu já ouvira em tom jocoso de outras pessoas, mas ouvir dele com toda a pompa de linguagem e seriedade que era devida dava outro colorido. Até que finalmente ele lembrou de uma história de doma do Florinal… e por sinal ele tinha um relógio que tinha ganho do Florinal numa carreirada, ele apostou na égua do Zeriquinho do Prado e venceu. Por sinal o relógio era uma verdadeira joia, um “Oméga ferradura” ²) – fez questão de carregar bem o “é” do Oméga – e tinha uma história bem interessante:

O Omega ferradura da história, que a partir de hoje guardo com mais carinho ainda.

“Eu sempre gostei muito do relógio, acabei dando o meu de bolso pro Florinal, pois ele ficou sem. Vocês que estão acostumados com relógios de pulso não sabem o significado que ele tem pra quem lida no campo. – Disse olhando pro meu Orient de aço inoxidável e fundo azul. – Pensem comigo, você tá na lida, digamos tem que laçar uma rês, uma mão está na rédea do cavalo e a outra no laço, não tem como ver as horas num relógio de bolso. – tivemos que concordar com ele – Pois foi exatamente numa destas campereadas que me aconteceu uma cousa muito estrambólica, quando eu tava rodando o laço ele roçou na pulseira, de couro legítimo, do relógio que se desprendeu, mas eu tinha que pegar aquele novilho taurino e pensei comigo mesmo – Deixa o relógio cair depois eu volto e pego ele – mas não perdi o tiro de laço. 

Pois e não é que eu me distrai com o rebelde e olvidei o relógio. Dali um tempo quando fui conferir as horas, pra saber se tava na hora do almoço, é que me dei conta. Aí fiquei desesperado e voltei pra campear o relógio, mas não lembrava mais do lugar, tentei triangular ³) de memória a posição, mas não pude achar, olha, me acreditem! – Dizem que homem não chora mas naquele dia quase chorei, aquela joia era quase como um filho. Fiquei desconsolado, – Não é minha véia? disse se referindo a alguém que estava dentro de casa. – Éééé… – veio uma voz lá de dentro.

A estas alturas já estávamos ficando curiosos…

Pois eu voltei umas seis ou sete vezes a procurar o relógio, esquadrinhei o campo,  e nada. Até que desisti, o campo tinha sido queimado há pouco e tinha aquela camada grossa de carvão de barba-de-bode, voltei depois de uma chuva e nada. 

Pois e não é que o melhor da história ainda estava por acontecer. Eu continuei a camperear mas não lacei mais, quando erguia o braço e não sentia o relógio me dava uma gastura e eu não conseguia soltar o laço. – Você me entende? Perguntou se dirigindo ao Geraldinho que concordou com o bloqueio psicológico. Mas como eu tava dizendo eu continuei a camperear e já fazia um ano que não laçava mais. Numa manhã bem cedinho no despontar do sol eu tava saindo tranquilito no meu baio pra ver o campo que tinha recém sido queimado, pra ver se tinha queimado parelho, você me entende? Nesta vez se dirigiu a mim. Concordei é claro! Quando vi um lampejo de um reflexo do sol distante uns trezentos metros e fui ver o que era. Pasmem! Quando cheguei perto quase morri do coração era o meu relógio, quase caí do cavalo de tanta vontade que tinha de pegar ele, mas quando cheguei mais perto dei um passo atrás, não poderia ser verdade, ele tava funcionando. 

Fiquei encafifado! Já imaginaram se eu saio por aí contando uma história destas vão me chamar de mentiroso. Fiquei em estado de choque, ali parado olhando. Pra funcionar tinha que dar corda todos os dias, eu não podia acreditar que tivesse algum fantasma ou coisa parecida que dava corda. Pelo sim pelo não fiquei aí parado olhando quando tive mais uma baita surpresa, Uma baita cobra passou pelo meio de minhas pernas e foi em direção ao relógio, quando eu ia puxar o revolver pra matar a dita percebi que ela deslizava por cima do pininho de dar corda, o relógio estava no caminho dela, e ela devia sair todo dia da toca. 

Não imaginam o meu alívio, tava explicado como o relógio ficou um ano funcionando. Pena que eu não chamei o teu pai pra bater um retrato – disse voltado pra mim – pois aí eu teria como provar o que tinha visto. O Oméga tava meio desgastado e a pulseira totalmente podre, aí como eu não tinha mais como ir até o Zandoná pra fazer outra resolvi guardar numa gaveta, mas continuo dando corda todos os dias e ele continua ainda com a hora certa. “

Nisto ele se dirigiu para om interior da casa e em seguida voltou com o relógio. O Geraldinho olhou a hora e comparou com o meu e brincou: – Tá um minuto atrasado. Quase apanhamos. Não era o dele que estava atrasado era o meu que estava adiantado. Depois das devidas desculpas falei do meu relógio que não tinha a mesma precisão certamente, mas que se dava corda sozinho com o balançar do braço. Ele ficou encantado e eu já estava de olho no Omega sugeri uma troca, já que o meu tinha até pulseira de aço. Foi uma segunda ofensa o meu não chegava aos pés do omega, e ficou por isso. Mais uma vez ele nos advertiu das cobras, grandes cobras, e fomos fazer nossa caçada.

O medo das cobras e a noite se avizinhando resolvemos voltar pra casa e mais uma vez passamos na casa de seu Domingos.

Quando nos avistou a esposa dele pediu que esperássemos pois ele queria falar conosco, ele tinha ido até a fonte buscar água. Ficamos meio assustados pois ele tinha se ofendido bastante com as nossas duas últimas intervenções sobre o relógio. Mas para nossa surpresa ele veio muito sorridente, nos convidou pra sentar e se dirigiu a mim com uma expressão muito carinhosa:

– Filho! Você é que é o seminarista?

– Sim sou eu!

– Pois olha, devo confessar uma coisa. Eu vi quando tu olhou pro meu relógio e gostou dele, e eu fiquei pensando, – dos meus filhos provavelmente nenhum vai dar o valor sentimental que ele tem pra mim, tu queres ele? Eu te dou de presente. Mas é claro que não posso ficar sem relógio, por causa das horas dos remédios da Chica, aí tu me dá o teu. Mas promete que vai cuidar com carinho e dar o valor que ele merece.

Prometi por São Jorge, São Judas Tadeu e mais uma infinidade de santos que cuidaria com muito amor aquele relíquia e fui pra casa com o relógio velho em troca do meu Orient, que tinha me custado uma grana.

Usei por uns tempos e esqueci numa gaveta…

PS.: Passados quase quarenta anos, fazendo limpeza nas tralhas pra jogar fora achei o velho relógio e a história veio a tona. Fui buscar informações: pelo numero de série o relógio foi fabricado em 1937, caixa de aço inoxidável folheado a ouro, ainda apresenta uma precisão incrível, mas precisa ser alimentado com corda a cada 30 horas. Quando ele contou a história ele disse que o relógio estava com a hora certa. Resolvi fazer alguns teste deslizando uma mangueira plástica de 1,20 metros , cheia de areia,  para ficar com o tamanho peso aproximado da cobra descrita, sobre o pino da corda e ele não chega a dar corda suficiente para um dia, neste caso a cobra deveria passar mais que uma vez sobre o relógio ou foi coincidência a hora do achado ele estar com a hora certa… Eu já tinha ouvido muita troça das histórias dele, muitos não acreditavam, mas esta me deixou encafifado, para usar uma expressão dele, pela vero semelhança.

¹): Encilhar o mate é colocar mais um pouco de erva mate num mate lavado deixando cair uma porção de erva nova para o fundo da cuia e trazendo a erva lavada para cima. Podem ver no vídeo do post Guardado do seu Chico a partir de 2min e 6seg meu pai encilhando o mate.

Encilhando o mate – pode-se ver o vídeo no post citado acima.

²): Omega ferradura vem duma leitura campeira do símbolo a letra ômega, que parece uma ferradura.

³): A triangulação é um método de buscar algumas referencias, como árvores, montanhas, pedras ou qualquer outra coisa fixa para precisar um ponto. Muito usado na determinação de enterros de dinheiro, ou melhor “guardados”.