– Bonjour!
– Bonjour – responde o coro dos alunos.
– Quelle odeur étrange? – silêncio total…
Assim começava a última aula do ano de 1967, se não me engano, e era de francês, mas a verdadeira história começou bem mais cedo logo que a turma começou a chegar. Naquela época ainda não se tinha a figura de líder de turma, mas sempre alguns tomavam iniciativas ou lideravam os movimentos dentro da sala de aula. Segundo algumas informações neste dia a liderança foi da Noeli, é claro com a ajuda da Olivia, da Madá, do Euclesio, da Olmira, do Leonildo, do Moacir, do Darci, do Flori, este em especial teve uma participação épica. Vamos começar do começo era uma aula de francês.
Provavelmente esta foi a última turma do ginásio que teve aula de francês antes dele ser abolido do ensino regular. Pensem comigo. A última aula do ano, a última aula de francês e de lambuja a última turma a ter aula na língua de Descartes. Tinha que ser comemorado!
O dia começou no seminário já um tanto estranho. Naquela segunda série onde ninguém faltava o professor Estêvão fazia a chamada seguindo uma cadência ritmada com as respostas sempre prontas até que:
– Euclésio?
– Presente!
– Flori?
-…
– Flori?
Uma voz que não era a dele respondeu acanhada. – Ele tá chegando…
– Vou descontar-te dois décimos, o certo é “está”.
– Mas isso não é justo o Darci só tava querendo ajudar…- disse uma voz feminina.
– Dois décimos de ti também.
E se fez silêncio. Quebrado alguns instantes depois com a chegada do Flori. Que segundo a Madá parecia um deus grego com aqueles cabelos loiros encaracolados, só que vermelho como um pimentão por ter subido a lomba de bicicleta.
– Como se explica o atraso? E porque subiste a lomba de bicicleta ao invés de vir pelo atalho costumeiro?
O Flori meio sem jeito apontou para o Darci que lhe fazia sinal, e teve que achar uma resposta rápida para não perder também alguns pontos. Respirou fundo e explicou:
– Como chegamos mais cedo eu fiz uma aposta com o Darci que seria capaz de ir até o Rebelatto e voltar de bicicleta e chagar até a hora da chamada.
– E perdeste. Não foi?
– Sim!
– Então paga a aposta e vai sentar antes que eu desconte dois décimos de ti também.
O Flori foi até a mesa do Darci e entregou um pacote que foi prontamente guardado e a aula começou…
Na prática, o imbróglio tinha começado muito mais cedo. Para comemorar o fim do ano a Noeli sugeriu uma comemoração, e nada mais apropriado para o evento do que abrir um champanhe, já que a última aula seria de francês. Aí graças ao trabalho dedicado da tesoureira do evento, a Olivia, juntou-se uma quantia suficiente de numerário para a aquisição da bebida. Faltava apenas dez minutos para começar a aula e o jeito seria alguém sair discretamente, como se diz “à francesa”, na hora do recreio. Neste momento chegou a turma do lado das Águas Frias dentre os quais os Schwaab e o Flori de bicicleta. Nem se fez campanha e ele foi eleito para buscar a bebida dos deuses para a comemoração, e lá se foi ele. Cerro abaixo, cerro acima a toda a velocidade. Só que não tinha champanhe no Rebelatto, sobrou como opção comprar uma garrafa de pinga mesmo. E ele voltou num zás traz. E como vimos há pouco o Darci foi o guardião do líquido precioso. No mais a aula do dia correu tranquilamente, primeiro português, depois matemática, depois intervalo…
É! Tinha uns quinze minutos de intervalo onde os professores tomavam um cafezinho e depois retomava-se as aulas. Frances depois do intervalo e depois educação física para as meninas, no campo do Gaúcho, sob a batuta do professor Ademar.
E os guris seriam dispensados. Logo se a comemoração fosse para toda a turma só poderia ser no intervalo. A líder, que dera a ideia, teve a honra de abrir a garrafa, mas como era preciso tomar alguns cuidados, o Euclésio foi o primeiro a dar uma bicada, cá entre nós, uma cortada das grandes, depois se postou em frente a porta da capela para avisar quando os professores estivessem voltando, o sinal era ele entrar na capela, aí o vigilante da porta da sala avisaria o grupo para esconder a “mardita”.
No auge da comemoração o vigia um, percebendo a aproximação do Dartagnan e os três mosqueteiros, (alguns até diziam que parecia o Zorro com aquela capa preta, mas convenhamos era aula de francês, Dartagnan fica melhor). Ah! Claro vinham os três professores, Estevão, padre José e padre Edmundo liderados pelo padre Lourenço. Vendo o passo firme do mestre que se aproximava e conhecendo sua rigidez o Cascudo entrou na capela, que era o sinal, e ficou bem escondido lá dentro, acho que de medo. A garrafa jogou-se de mão em mão indo se esconder na carteira do Darci alguns instantes do mestre adentrar a sala.
Ele entrou na sala de nariz empinado, não que fosse assim soberbo, mas porque sentiu um cheiro estranho no ar.
– shshshshsh… shshsh…
Umas duas ou três cheiradas no ar e estava ele em frente a classe do Darci.
– Qu’y a-t-il dedans?
– ??? – foi a resposta do aluno que não entendeu nada.
– Abra! – sem opção ele abriu a carteira e lá estava a garrafa com boa parte do líquido dentro ainda.
– Que bom que tua classe fica perto da janela! – pegou a garrafa, abriu e jogou todo o líquido precioso na grama e no canteiro de flores que havia em frente a janela.
– E agora toda a turma vai se explicar para o Diretor.
Mal a Turma saíra chega na sala o Euclésio vindo da capela com a maior cara de tacho, fazendo de conta que não sabia de nada.
– Ué! Onde tá a turma? – o mestre chegou mais perto cheirou e sentenciou:
– Tens o mesmo cheiro vai também ter com o diretor…
PS.: Assim terminou a última aula de francês da turma. Como consequência alguns levaram suspensão, e ficaram sem fazer recuperação de notas o que valeu algumas reprovações. Pior foi pra Noila, que quando chegou em casa a mãe dela resolveu praticar abuso de autoridade contra menor, felizmente pra ela na época ainda não vigorava o estatuto.
Ah! Eu ia me esquecendo! Tem umas histórias que depois do ocorrido foram vistos alguns alunos lambendo as gramas perto da janela, mas eu acho que não é verdade. No entanto algumas abelhas do Irmão Eugênio andaram fazendo umas maluquices depois de coletar néctar das flores do jardim.









