Il y a une odeur dans l’air …

– Bonjour!
– Bonjour – responde o coro dos alunos.
– Quelle odeur étrange? – silêncio total…

Assim começava a última aula do ano de 1967,  se não me engano, e era de francês, mas a verdadeira história começou bem mais cedo logo que a turma começou a chegar. Naquela época ainda não se tinha a figura de líder de turma, mas sempre alguns tomavam iniciativas ou lideravam os movimentos dentro da sala de aula. Segundo algumas informações neste dia a liderança foi da Noeli, é claro com a ajuda da Olivia, da Madá, do Euclesio, da Olmira, do Leonildo, do Moacir, do Darci, do Flori, este em especial teve uma participação épica. Vamos começar do começo era uma aula de francês.

Provavelmente esta foi a última turma do ginásio que teve aula de francês antes dele ser abolido do ensino regular. Pensem comigo. A última aula do ano, a última aula de francês e de lambuja a última turma a ter aula na língua de Descartes. Tinha que ser comemorado!

O dia começou no seminário já um tanto estranho. Naquela segunda série onde ninguém faltava o professor Estêvão fazia a chamada seguindo uma cadência ritmada com as respostas sempre prontas até que:
– Euclésio?
– Presente!
– Flori?
-…
– Flori?
Uma voz que não era a dele respondeu acanhada. – Ele tá chegando…
– Vou descontar-te dois décimos, o certo é “está”.
– Mas isso não é justo o Darci só tava querendo ajudar…- disse uma voz feminina.
– Dois décimos de ti também.

E se fez silêncio. Quebrado alguns instantes depois com a chegada do Flori. Que segundo a Madá parecia um deus grego com aqueles cabelos loiros encaracolados, só que vermelho como um pimentão por ter subido a lomba de bicicleta.
– Como se explica o atraso? E porque subiste a lomba de bicicleta ao invés de vir pelo atalho costumeiro?
O Flori meio sem jeito apontou para o Darci que lhe fazia sinal, e teve que achar uma resposta rápida para não perder também alguns pontos. Respirou fundo e explicou:
– Como chegamos mais cedo eu fiz uma aposta com o Darci que seria capaz de ir até o Rebelatto e voltar de bicicleta e chagar até a hora da chamada.
– E perdeste. Não foi?
– Sim!
– Então paga a aposta e vai sentar antes que eu desconte dois décimos de ti também.
O Flori foi até a mesa do Darci e entregou um pacote que foi prontamente guardado e a aula começou…

Na prática, o imbróglio tinha começado muito mais cedo. Para comemorar o fim do ano a Noeli sugeriu uma comemoração, e nada mais apropriado para o evento do que abrir um champanhe, já que a última aula seria de francês. Aí graças ao trabalho dedicado da tesoureira do evento, a Olivia, juntou-se uma quantia suficiente de numerário para a aquisição da bebida. Faltava apenas dez minutos para começar a aula e o jeito seria alguém sair discretamente, como se diz “à francesa”, na hora do recreio. Neste momento chegou a turma do lado das Águas Frias dentre os quais os Schwaab e o Flori de bicicleta. Nem se fez campanha e ele foi eleito para buscar a bebida dos deuses para a comemoração, e lá se foi ele. Cerro abaixo, cerro acima a toda a velocidade. Só que não tinha champanhe no Rebelatto, sobrou como opção comprar uma garrafa de pinga mesmo. E ele voltou num zás traz. E como vimos há pouco o Darci foi o guardião do líquido precioso. No mais a aula do dia correu tranquilamente, primeiro português, depois matemática, depois intervalo…

É! Tinha uns  quinze minutos de intervalo onde os professores tomavam um cafezinho e depois retomava-se as aulas. Frances depois do intervalo e depois educação física para as meninas, no campo do Gaúcho, sob a batuta do professor Ademar.

As meninas teriam Educação Física com o professor Ademar

E os guris seriam dispensados. Logo se a comemoração fosse para toda a turma só poderia ser no intervalo. A líder, que dera a ideia, teve a honra de abrir a garrafa, mas como era preciso tomar alguns cuidados, o Euclésio foi o primeiro a dar uma bicada, cá entre nós, uma cortada das grandes, depois se postou em frente a porta da capela para avisar quando os professores estivessem voltando, o sinal era ele entrar na capela, aí o vigilante da porta da sala avisaria o grupo para esconder a “mardita”.

No auge da comemoração o vigia um, percebendo a aproximação do Dartagnan e os três mosqueteiros, (alguns até diziam que parecia o Zorro com aquela capa preta, mas convenhamos era aula de francês, Dartagnan fica melhor). Ah! Claro vinham os três professores, Estevão, padre José e padre Edmundo liderados pelo padre Lourenço. Vendo o passo firme do mestre que se aproximava e conhecendo sua rigidez o Cascudo entrou na capela, que era o sinal, e ficou bem escondido lá dentro, acho que de medo. A garrafa jogou-se de mão em mão indo se esconder na carteira do Darci alguns instantes do mestre adentrar a sala.
Ele entrou na sala de nariz empinado, não que fosse assim soberbo, mas porque sentiu um cheiro estranho no ar.
– shshshshsh… shshsh…
Umas duas ou três cheiradas no ar e estava ele em frente a classe do Darci.
– Qu’y a-t-il dedans?
– ??? – foi a resposta do aluno que não entendeu nada.
– Abra! – sem opção ele abriu a carteira e lá estava a garrafa com boa parte do líquido dentro ainda.
– Que bom que tua classe fica perto da janela! – pegou a garrafa, abriu e jogou todo o líquido precioso na grama e no canteiro de flores que havia em frente a janela.
– E agora toda a turma vai se explicar para o Diretor.

Mal a Turma saíra chega na sala o Euclésio vindo da capela com a maior cara de tacho, fazendo de conta que não sabia de nada.
– Ué! Onde tá a turma? – o mestre chegou mais perto cheirou e sentenciou:
– Tens o mesmo cheiro vai também ter com o diretor…

PS.: Assim terminou a última aula de francês da turma. Como consequência alguns levaram suspensão, e ficaram sem fazer recuperação de notas o que valeu algumas reprovações. Pior foi pra Noila, que quando chegou em casa a mãe dela resolveu praticar abuso de autoridade contra menor, felizmente pra ela na época ainda não vigorava o estatuto.

Nosso saudoso colega Orélio Disegna fotografado em frente a janela do ocorrido

Ah! Eu ia me esquecendo! Tem umas histórias  que depois do ocorrido foram vistos alguns alunos lambendo as gramas perto da janela, mas eu acho que não é verdade. No entanto algumas abelhas do Irmão Eugênio andaram fazendo umas maluquices depois de coletar néctar das flores do jardim.

 

Fórmula Zero ou A fábrica de rodas do Zamberlan

Há pouco fora finalizada a construção da nova padaria, lavanderia, clausura, enfim o grande prédio em L que dentre outros cômodos tinha também a cantina onde se guardava o vinho de missa. O madeirame que fora usado na construção da caixaria para as vigas e lajes de concreto em grande parte foi usado para a construção do galpão da lenha no matinho ao lado da gruta. mas ainda sobrara boa parte da madeira, em especial tábuas quase todas bastante recortadas e com furos de pregos. Este material estava depositado perto da casinha das abelhas do irmão Eugênio. Foi aí que alguém teve uma ideia brilhante, quem sabe aqueles loucos que deixavam de jogar futebol para fazer trabalhos manuais não poderiam dar um destino nobre ao material?

Não pude precisar exatamente de quem foi a ideia mas alguns pedaços de tábua começaram a aparecer na sala de trabalhos manuais onde com arco de serra manual começavam a serem recortadas algumas rodas. Um seminarista habilidoso com arco manual conseguia cortar uma roda de uns 30 centímetros de diâmetro em alguns dias, claro que era somente no recreio. Começou a se desenhar a idéia de fazer carros de lomba para a diversão e em alguns dias surgiu o primeiro. Não sei se o desenho era do Luis Crespon ou do José Pavan, mas o fato é que um carro de lomba começou a circular a quadra com um dirigindo e outros impulsionando, pois ao redor da quadra era plano.

A novidade começou a provocar disputas de quem dirigiria a carruagem e quem impulsionaria, é claro que os donos sempre estavam numa ou noutra posição. Não deu uma semana e estavam até os aficionados pelo futebol na sala de trabalhos manuais, mas…

É claro alguma coisa não funcionava, a falta de habilidade, os instrumentos rudimentares, a falta de paciência entre outros começou a criar um clima de ansiedade até que…

Creio que foi o Jorge Marquetti procurou uma alternativa, procurou a marcenaria do pai do nosso colega Zmberlan para saber dele se ele podia cortar rodas e quanto cobrava por dois pares de rodas. Nem é preciso dizer o resto, o seu Zamberlan virou, da noite para o dia, uma espécie de ídolo dos seminaristas, as rodas feitas por ele eram perfeitas, nem precisava lixar e foi assim que a grande fábrica de carros de lomba do seminário começou com a fabricação terceirizada de rodas.

Mesmo assim para construção do chassi, eixos, mecanismos de direção e frenagem ainda se exigia alguma habilidade, mas já tinha um modelo, era só copiar, no entanto…

Eu ainda não tinha meu carro de lomba porque não tinha dinheiro para mandar cortar rodas e estava fazendo mais ou menos como a raposa das uvas. E foi assim que num belo dia fui procurado pelo Jorge Marqueti, com quatro rodas embaixo do braço querendo saber se poderíamos fazer um carro diferente e foi assim que começou um novo projeto.

Algumas modificações eram necessárias:

  • Sentar na tábua que era ao mesmo tempo chassi era algo impensável.
  • Encosto para as costas era indispensável.
  • Freio acionado com os pés era desejável.

Por solicitação do Jorge o carro deveria ser confortável, seguro e sofisticado, e assim foi feito. No desenho de cima o carro padrão, no de baixo a limusine.

Assim surgiu o único carro de lomba diferenciado, evidentemente mais pesado e com perfil arrojado. Evidentemente para correr ao redor da quadra não era o ideal pois exigia mais força para impulsionar, em compensação para descer a lomba da frente do seminário era uma beleza, o problema era empurrar de volta lomba acima.

Dentro de pouco tempo já tinha pista de corrida ao redor da pista de salto, da barra e da quadra,m pista com direito a curvas e pontes pequenas lombadas e tudo o que tem direito na fórmula 1. O pow pow dos chutes à bola foi gradualmente sendo substituído pelo rrrrrr crec crec dos carros em correría durante o recreio todo. Todos os carros, sem exceção tinham uma equipe o dono e o mecânico, que se revezavam entre piloto e motor ou seja lá o que for, mas era divertido, até que um dia alguém teve a ideia de fazer uma corrida, só que não podia ser na lomba porque a mecânica do carro do Liceo e do Jorge levaria vantagem e aí democraticamente a decisão foi tomada que a corrida seria na pista. A pista foi sinalizada e o Irmão Mário com apito e cronômetro dava a largada e cronometrava o tempo do circuito, e assim, no final teríamos um vencedor…

Até hoje não sei quem venceu o que sei é que ficamos em último lugar, tudo por culpa da mecânica do nosso carro que era mais pesado e como diria o Irmão João “non bon para corrida na pista”. Nem para ser empurrado lomba acima, mas excelente para descer lomba…

O vigário e as formigas

Talvez o título correto fosse melhor “O reitor e as formigas”, mas “o vigário e as formigas” soa mais agradável aos acostumados com a lenda da “cigarra e as formigas”, mas essa não é uma lenda. Baseado em informações do professor Ademar.

O terreno há pouco doado pelo benfeitor e inolvidável amigo, Santo Pazzini, estava a ser desbravado pelos destemidos padres oblatos e seus seminaristas, era o começo de um grandioso projeto de construção de um seminário, mas sobretudo de uma leva de cidadãos conscientes e engajados na causa social de São Francisco de Sales. Os três prédios iniciais estavam concluídos o dos quartos dos padres com um sótão, dormitório dos meninos; a capela, no centro e o refeitório-cozinha-lavanderia onde também ficavam a clausura e dormitório das auxiliares.  

Quando falei em desbravar era exatamente isso, na época o Braga era cercado de mato por todos os lados, o terreno do seminário tinha apenas a frente aberta o resto do terreno era mato.  Com a chegada dos seminaristas nos anos 1956 e 1957 era preciso aproveitar o terreno para produzir alguma coisa que ajudasse na economia doméstica, uma horta era, no momento, uma opção que se apresentava como educativa e econômica. Os seminaristas aprenderiam o valor do trabalho e produziriam alimentos para si próprios, diga-se de passagem dois nobres objetivos.

Padres pioneiros da província alemã. Da esquerda para a direita atras Pe. Paulo Stray, Pe.Henrique, Irmão Marcos, na frente Pe Theodoro Syberichs, Pe Guilherme Wetzel, e Irmão Eugênio. O Ir. Eugênio é do primeiro grupo de alemães que veio para o Brasil, o Ir. Marcos do terceiro, os demais do segundo grupo. na época da foto já eram falecidos os pioneiros Alfredo Engeltinger e Antonio Paul

A divisão de tarefas acontecia mais ou menos desta forma: O padre Theodoro comandava a economia da construção o padre Henrique comandava a paróquia, o padre Paulo Stray era o reitor, o Irmão Mário, ainda piazote comandava a obra, o irmão Eugenio, o das abelhas, coordenava a horta, o irmão Fernando, que tocava violão com o violão nas costas, Nossa quantas lembranças… Mas não era esta história de desbravadores que eu queria contar, é a das formigas. Vamos a ela.
Com a ajuda da gurizada a horta começava a mostrar seus primeiros frutos e isso era muito bom, significava comida de qualidade na mesa, mas, sempre tem um mas, as formigas. 

Bem já que as formigas são um personagem importante merecem pelo menos um parágrafo. Elas estavam acostumadas no mato onde as folhas caem naturalmente e ficava muito fácil para cultivar a sua horta. Claro! Formigas, em especial as saúvas, pertencentes à tribo Attini, têm hortas subterrâneas onde elas cultivam champignons, Leucoagaricus gongylophorus, o fungo que lhes fornece alimento. Para isso usam folhas poderes como adubo, mas com a derrubada dos matos elas tiveram que mudar seus hábitos e começar a procurar adubo para seus fungos por conta própria. Os matos agora ficavam um quilômetro ou mais de suas casas por isso a próxima opção era a de buscar o rico alimento cultivado pelos seminaristas na horta, disponível, macio de qualidade e por aí vai, já que a erva mate que sobrara do mato e os pinheiros não são uma boa opção. Imaginem que festa, uma dúzia de garotos e um irmão religioso cultivando uma horta só para elas… Epa! não era para elas, pelo menos este era o pensamento do reitor…

Da noite para o dia a horta fora colhida pelas formigas e o reitor entrou em pânico,
– Como estes bichinhos podem devastar tanto?
– Prrrecisamos contrrrolar estes bichinhos. Sentenciou o padre Paulo durante o jantar.
– Mas como não conhecemos nenhuma forma plausível. Retrucou o padre Henrique.

Humildemente o Irmão Mário explicou que entre seus conterrâneos de usava despejar a água da primeira fervura da mandioca, ainda quente, nos ninhos. Mas a opção se mostrou inviável pois as mandiocas que foram plantadas ainda não tinham raízes. Na época não existiam ainda os venenos e foi aí que o reitor teve uma ideia brilhante.
– Na naturreza (disse ele com aquele erre gutural característico) as forrmigas ten predadorres, temos que acharr um jeito de caçarr estes insectos.

Como a gurizada era fissurada em santinhos ele teve uma ideia. A gurizada podia caçar formigas no recreio e a cada cem formigas receberiam um santinho. Estipulado o plano e o preço, um centavo de santinho por formiga, logo a turma toda foi comunicada da decisão do reitor.

Foi assim que o terror das formigas começou: aqueles guris bonzinhos que estavam plantando comida agora revelaram a verdadeira intenção, era para fazerem as formigas prisioneiras, e pior, eles não tinham respeito nenhum, soldados, trabalhadoras, rainhas zangões, todos sem exceção começaram a ser feitos prisioneiros e em lotes de cem em cem eram vendiam para um gigante que as escravizava. Não! Não! Ele matava a todas realmente era uma guerra insana e mesmo com o exército de milhares de formigas não conseguiriam vencer aquele pequeno exército de seminaristas.

Enquanto a turma dos colegas do Ademar Andolhe, Pedro Kemmer, Wili Ferreira,João Carlos Guterres de Moura, Juvenal G. De Moura, Lennir da Rosa Gobi, Pedro Kronbauer, Jaime Kovalewki, Domingo Zandona, Abilio Kummel, Ereno Kaiser, Sergio Trentin, José M. Santi, Romeu Winkc, João Pedrotti e alguns mais que não me lembro, enchiam as páginas de seus cadernos com santinhos, a moeda de troca do padre Paulo. Quando o estoque de santinhos estava quase no fim e o reitor teria que começar a inflacionar as formigas eis que um general do exército usando uma tática especial  começa a aparecer com mais e mais formigas a ponto do preço ir para mil formigas por santinho. Foi a ruína das formigas o José Santi passou a usar a tática do tamanduá, enfiava um talo de folha de mandioca no ninho das formigas e tirava alguns instantes depois com quase uma centena de formigas das grandes, os soldados. E foi assim que a população do reino das formigas foi dizimada, os estoques de santinhos de todos os padres foi quase a zero, teve até padre tentando passar aquelas notas (que não valiam nada) que tinham a figura de Santos Dumont como santinho, e o José passou a ser uma espécie de herói da horta.

Não sei se ele pagou os direitos autorais dos tamanduás, mas guerra é guerra.

JIPP e as políticas sociais e econômicas.

Corria o ano de 1969 e o Braga ainda não tinha Mumu. Foi nesta época que a irmã Alicia, certamente movida pela situação econômica de algumas famílias e social de um bando de alunos, resolveu começar um movimento que se tornou em pouco tempo, depois da primeira reunião, a Juventude Interessada Pelo Próximo – JIPP. Mas antes de falar da JIPP é preciso fazer uma breve análise politica, econômica e social da área metropolitana do Braga-RS e arredores.

Mesmo não sendo a capital da erva mate, o Braga sempre foi um grande produtor do referido ingrediente da bebida mais popular destes pampas, o chimarrão. A erva mate crescia pelos matos naturalmente o que fazia com que estes tivessem um grande valor econômico. Hoje os ecologistas diriam que é Agro floresta, isto mesmo um mato que tem como ser explorado economicamente sem deixar de ser mato. A única exceção no município era o erval do Pazzini que ficava entre o seminário e a granja do seminário e que tinha o cemitério velho no meio, mas isto é assunto para outros causos, era o único erval cultivado. Daqui já concluímos que a erva mate estava no meio do mato e Braga também, era uma cidade cercada de mato por todos os lados, e melhor que isso um mato produtivo. O único problema é que tirar a erva do mato exigia muita mão de obra, assim com exceção do Pazzini todos os outros produtores estavam em desvantagem e para superar isso surgiu uma organização social bem interessante.
Um pouco de como se faz erva-mate a vídeo não foi feito no Braga, mas na região, mostra como era colhida a erva no mato.

1. O proprietário do mato cedia um local para o trabalhador construir sua casa e fazer uma rocinha. Mas…
2. Tinha que trabalhar exclusivamente para ele na colheita da erva na época da safra, que ia de maio a setembro mais ou menos. E…
3. A cada três ou quatro anos tinha que mudar a casa de lugar.
Eu sei vocês estão curiosos porque o item 3. Vamos analisar passo a passo. O cidadão mora na terra e tem uma rocinha para o próprio sustento, cria um porquinho, galinhas, etc. De vez em quando o dono da terra vem buscar alguma coisa que deve ser dada em troca da moradia. O cidadão trabalha para o dono da terra e é remunerado pelo seu trabalho. Mas… Sempre tem um mas, não existe contrato algum entre as partes, por isso o pagamento em porcos, galinhas, milho ou o que quer que seja não é considerado aluguel. Logo depois de cinco anos alguém poderia reivindicar o usucapião.

Espera aí! E o que isso tem a ver com a JIPP?
Bem! Pensem comigo, os cidadãos tem obrigação de trabalhar na colheita da erva mate, quando a colheita vai até muito tarde, digamos depois de setembro, a lavoura deles só pode ser plantada depois e fica tarde e produz pouco, logo se a gente ensina as esposas que ficam em casa a plantar alguma coisa tipo horta eles terão o que comer. Está aí o plano social da professora de português, o número um. A segunda parte do plano é esta: A turma vai para a escola de manhã e o que faz a tarde? Na época não tinha muita coisa pra fazer, então visitar estas famílias poderia servir para, no mínimo, três finalidades: Compartilhar conhecimento de horticultura com as famílias, ocupar os jovens no contraturno (esta palavra foi inventada muito tempo depois mas a prática já existia) e dar uma oportunidade aos seminaristas mais tímidos a se socializarem e as garotas a se encontrar com eles fora da aula e ter assunto para escrever os diários e praticar a desinibição e oratória e… Bah! Era tanta coisa boa num só movimento que não tem como descrever, por isso vou me limitar a minha experiência.

Depois da reunião de fundação do grupo, nos salões do subsolo do salão paroquial formaram-se dois grupos um para o Braguinha e outro para o Flor da Serra, a partir de agora minha experiência é com o Braguinha, a turma de quarta-feira. Neste dia logo depois do almoço a gente ia até a frente da igreja matriz onde esperava a turma toda chegar, depois a gente ia até a encruzilhada do Braguinha onde o grupo se dividia. Minhas primeiras visitas foram para o grupo de famílias da esquerda, uns 500 metros depois da estrada principal tinha a primeira casa, se é que poderia ser chamada de casa, onde chegávamos, tomávamos chimarrão e jogávamos conversa fora até achar uma brecha para falar de fazer uma horta. Na segunda casa o processo era o mesmo. A terceira casa esta era a do Lourencinho, sempre faceirinho, só estranhava que chegavam homens com moças junto. Tem cada história… É que a esposa dele era bem mais jovem que ele e recebia frequentemente visitas de homens que vinham tomar um mate ou uma caipirinha, e como ele não tinha em casa davam dinheiro para ele ir ao armazém comprar. Lá ia ele enquanto a a esposa fazia sala, quarto e tudo mais pra visita até ele voltar. Fiquei pouco tempo nesta rota depois fui para a rota rumo a Redentora, também uns 500 metros e entravamos num caminho a esquerda onde tinha mais três famílias, nesta rota fiquei um bom tempo com a Vilma. Esta foi bem produtiva, fizemos horta carpimos plantamos rabanetes, repolhos, alface, o rabanete era para conquistar a família pois em quatro ou cinco semanas já estava produzindo. De lambuja esta rota tinha muita cerejeira, pitangueira e araticum para a gente colher no caminho. Algum tempo mais tarde fiz a rota da direita da estrada com a Terezinha e a irmã da Tuti, esta rota tinha famílias mais estabilizadas e acomodadas era mais difícil de trabalhar.

Nunca fui na turma de quinta-feira rumo ao Flor da Serra, mas posso garantir que o melhor de tudo foi que esta atividade me transformou de um rato de biblioteca que mal levantava os olhos para falar num tagarela que não cala nunca. Sem contar com a aprazível companhia das meninas tanto nas visitas às famílias como nas reuniões de planejamento das quintas à noite. Mas…

Sempre tem um mas. Um belo dia a professora Alicia resolvei acabar com tudo.

Anos mais tarde descobri a razão. Vivíamos em época de regime de exceção e aquele trabalho social despertou interesse dos detentores do poder, a professorinha foi convidada, nos moldes de convites que eram feitos na época, a dar explicações, segundo os métodos usados na época para obter informações, sobre o movimento. E finalmente foi gentilmente  convidada a encerrar a atividade antipatriótica que exercíamos. Em outras palavras, fazendo um trocadilho, “A Alicia foi acusada de estar aliciando jovens para o comunismo”.

Um sacristão no vinho

Ha alguns dias alguém lembrou das hóstias, do vinho e da capela. Pois bem! Tentei juntar uma série de fragmentos de memória para compor uma história bem interessante, já que alguém, o Lotário, lembrou de comer as aparas das hóstias e o Euclésio era louco por vinho. Eu gostava de arranhar as teclas do velho harmônio que estava no fundo da capela e graças a isso consegui meu primeiro emprego de sacristão.

Como eu era péssimo de futebol e já tinha lido quase tudo o que tinha na biblioteca comecei a frequentar, por minha conta e risco, a capela no recreio de meio dia. Meu objetivo era aprender a tocar harmônio e tinha que tocar bem baixinho para não acordar os padres que dormiam no prédio ao lado. Quando ouvia o apito do fim do recreio eu saia discretamente e ia por a roupa de trabalho, acontece que o apito também acordava o padre Edmundo, que levantava e ia fazer as suas orações na capela. Assim quando ele não esbarrava em mim saindo da capela, me via saindo da capela no final do recreio. Isso valeu a sua recomendação para que eu fosse o próximo sacristão, o escolhido para limpar a capela e organizar os paramentos, galhetas e outros itens necessário para as missas da noite. Em consequência disso tinha mais um turninho de trabalho na noite que era arrumar tudo de novo para as missas da manhã.

A capela era um lugar para meditação e oração – até na hora do recreio para alguns.

O trabalho consistia em varrer, tirar o pó dos bancos da capela e depois arrumar os paramentos, galhetas de água e vinho, hóstias, etc.  para o padre Henrique, numa sacristia, para o padre Edmundo noutra e para o padre Guilherme no altar central, para a missa do grupo, que na época era rezada à tarde. Depois da janta tinha que reorganizar tudo de novo, nas sacristias para os padres José e Lourenço, nas sacristias, e no altar principal para o padre Eduardo que rezava missa bem cedinho para as irmãs. A coordenação do trabalho era da irmã Virginia, que certamente por causa da minha referência, tinha a maior confiança no novo sacristão. A ponto de confiar a chave da cantina para que eu pudesse buscar o vinho sempre que necessário.

Um dia, sempre tem um dia nestas histórias, – Antes disso tenho que relatar que sempre que servido nas galhetas o vinho deve ser consumido senão estraga, por isso a recomendação era de servir sempre mais ou menos a porção que cada padre tomava para evitar desperdício. É claro que o resto do vinho nunca ia fora, o sacristão sempre cumpria religiosamente a árdua tarefa de consumir os restos para que não fossem desperdiçados. – Convenhamos! Que pecado era jogar fora aquele vinho rosê licoroso. Inicialmente aprendi a seguir as recomendações de quantidades ditadas pela irmã, de acordo com os usos do sacristão anterior o Edemar Guerra. Aos poucos comecei a acrescentar uns mililitros a mais, assim os resíduos eram maiores, em especial nas missas do padre Lourenço e do padre Henrique, claro que como bom sacristão eu não jogava fora os restos.

Ah! Mas um dia, uma das garrafas estava pela metade e a outra tinha um restinho, pus pro fundo do armário a que tinha metade e na frente a do restinho e quando a irmã Virginia perguntou:
– Commmo tá a carrraffa de finho?
– Tem ainda um resto aí.
Ela olhou e disse:
– Isso foce pote tomar e busca duas cheia.
Era tudo o que eu estava esperando ouvir, fiz o meu trabalho na maior velocidade possível, busquei as garrafas novas de vinho e depois me sentei no banco do harmônio com o restinho de vinho e comecei a fazer as duas coisas que mais gostava na capela – além de rezar, é claro! – tocar harmônio e beber vinho.

O problema é que me entusiasmei e comecei a pedalar com vontade. O padre Guilherme ouviu e veio ver o que estava acontecendo. Entrou pé por pé na capela e meio escondido atrás da coluna ficou me observando não sei por quanto tempo, felizmente eu tocava musicas sacras pois só tinha partitura delas. Quando fiz uma pausa para procurar outra partitura ele perguntou:
– Já terminou seu serviço?
– Sim! Hoje fiz mais depressa.
Acho que ele não viu a garrafa vazia e disse então:
– Está bom, mas não vá se atrasar para o estudo.
Só aí me dei conta que já tinha passado a hora da merenda…

A prova professor!

O final dos anos 60 foi bem tumultuado no Braga, em 69 a comunidade começou a reivindicar um ginásio para a comunidade, o seminário já oferecia esta graduação acadêmica aos internos o que precisava era formalizar ou institucionalizar a abertura do seminário para estudantes externos. O processo começou com a abertura formal de uma escola da comunidade, o Ginásio Comercial Manoel Braga, que inicialmente funcionou no seminário. Depois ocupou umas salas na escola da cidade e finalmente em 1970 mudou-se para a sede própria na hoje Avenida Marechal Floriano umas duas quadras acima da igreja. Os professores eram os mesmos do seminário acrescidos de alguns de técnicas comerciais.

E foi no ano de 1970 que se resolveu dar uma cara mais científica ao currículo dos braguenses e além de português, matemática, geografia, história, moral e cívica, técnicas comerciais, ciências, inglês, artes domésticas e educação física acrescentou-se introdução á física e química, que não tinha professor.

Como cientista louco eu tinha me destacado em 69 nas aulas de química geral e inorgânica, com o padre Edmundo e em física com o padre Henrique, neste ano, após a experiência de fazer o segundo grau em Cerro Largo, os padres resolveram oferecer o cientifico no seminário. Como isso imobilizava muitos padres professores no seminário decidiu-se que estudaríamos em Três Passos no Colégio Ipiranga e os padres voltariam para as paróquias. Tem umas belas histórias pra contar deste tempo.Eu estava cursando o segundo científico em Três Passos.

Voltemos ao Braga! A recém criada disciplina de introdução á física e química precisava de um professor. Como já falei anteriormente os padres professores não estavam mais no seminário, foram para as paróquias de Santa Barbara e Palmeira, foi aí que a direção resolveu testar um novo professor, eu. Fui nomeado professor de introdução á física e química, já no final de abril. Uma de minhas primeiras atividades foi o conselho de classe do primeiro bimestre. E foi nele que ouvi dos outros professores as reclamações dos alunos, como eu ainda não conhecia todos tive que apelar para as fichas de matrícula para identificar pela foto. Três coisas me marcaram na reunião: O professor de matemática, o padre que fumava um cigarro atras do outro insistindo que não deixaria de fumar na sala de aula, mas aos alunos era proibido fumar até no recreio. A professora Alicia insistindo que era preciso dar exemplo e tentar compreender a juventude. E os outros professores reclamando que não sabiam mais o que fazer para inibir a cola nas provas. Quase fiquei traumatizado com estas informações pois na próxima semana eu aplicaria a primeira prova aos meus novos alunos.

Depois de uma noite em claro tentando achar uma resposta decidi que usaria o conceito de matriz quadrada. Tinha quatro filas de classes na sala de aula, se eu fizesse três provas diferentes e distribuísse em sequência nenhum aluno ficaria próximo de outro com prova igual aí ficaria difícil de colar, mas eu resolvi fazer melhor, datilografei três provas diferentes com aparência muito parecida, aí se alguém tentasse colar, copiaria do colega a resposta errada, se é que ele estava certo. Apliquei a prova e fiquei de olho fingindo que estava cuidando a cola mas sem muito cuidado. recolhidas as provas começou a maratona da correção, alunos que eu tinha certeza que sabiam estavam com respostas certas riscadas e assinaladas as erradas, em resumo não deu pra dar nota pra ninguém. Aí espalhei as provas no chão do quarto na posição de cada aluno e fiz um mapa de como as informações circularam. Cada um que tinha certeza de uma resposta passou para os demais colegas, só que esta era errada para a outras duas provas e só ficaria certa na terceira prova que chegasse. Anulei a prova e fiz outra, mas foi divertido ver a cara dos alunos quando descobriram que as provas eram diferentes.

Só o que não estou bem lembrado é dos nomes dos alunos, se puderem me ajudar comentem que vou acrescentando. Vou colocar alguns: Evaristo, Zezerino, Maurinho, Flori, Clovis………….

Meio round – Uma luta com estilo

Segundo a psicologia o indexador da memória são os sentimentos, talvez isto explique porque lembro de tanta coisa…

Era domingo à tarde dia 16 de outubro de 1967, eu estava no alto de um eucalipto, o terceiro da segunda fileira de cima para baixo, daqueles próximos ao campo de futebol atras do seminário. Andava de crista murcha pois a minha posição de marrecão foi assumida pelo Véio Careca e eu tinha passado a semana derrubando mato no recreio com o Jorge, o Gilberto, o Waldez, o Olívio e alguns outros que estranharam imensamente a minha companhia, pois eu era um pirralho, e eles estavam de castigo por causa dos namoros. Quando o padre José anunciou a lista dos ‘de castigo’ ninguém conseguiu imaginar porque eu estava nela, vou ter que revelar.

– Eu já estava na letra M fazia umas duas semanas que ajudava a Margarete, aquela deusa de cabelos pretos cacheados, porte alto, tez morena, a fazer os temas de matemática e esta proximidade me deu coragem de compor e mostrar a ela uma poesia, uma declaração de amor disfarçada.

– Vai te enxergar! Se eu quisesse criança tava embalando um bebê. Eu amo mesmo é o João Breitenbach que é teu melhor amigo só chego em ti pra chegar nele.

Nesta época eu era ainda baixinho, acho que estava com um metro e meio o João já deveria ter um e setenta e ela também.

– Tô me distraindo! Vamos voltar a história.

Epílogo (o que acontece no final)

Eu estava desenhando aqueles corações entrelaçados na casca do eucalipto com o meu L e o M agora da Maria Helena quando passou por baixo uma turma carregando um desacordado, sem camisa em direção à torneira da horta para molhar a cabeça. Comecei a descer e quando cheguei no chão vinha o Velho Careca com uma camisa dobrada no braço e umas abotoaduras na mão.

– O que foi primo?

Prólogo (O começo)

– Sabe como é o jogo né? o Comprido estava de fissaide (do inglês off-side, impedido em linguagem atual) e fez um gol, aí o Professor da Bossa (estávamos em pleno florescimento da Bossa Nova e por isso Bosssa e Moda eram sinônimos) se sentiu ofendido e ofendeu ele. Quando ele foi pra cima, pois é om brigão nato, o Professor fez um gesto de espera com a mão e o comprido ficou parado, como se fosse mágica. Neste momento eu estava chegando com a bola pra recomeçar o jogo e a turma me fez um sinal de pare tão forte que não consegui soltar a bola. Aí fiquei só olhando. O comprido impaciente fungava e esperava, o professor tirou as abotoaduras com todo o cuidado e depositou sobre o barranco na beira do mato, depois tirou com cuidado a camisa, dobrou e pôs junto às abotoaduras. Deu uns saltinhos de aquecimento depois uns ganchos de direita e esquerda no ar, como um lutador profissional e disse: – Venha!

– O Comprido foi com tudo num soco reto e desajeitado e o professor caiu desmaiado.

– Viu como eu também sei fazer rima – disse ele pra mim.

Felizmente o desmaio foi passageiro um pouco de água na cabeça curou o mal. Aí o Véio alcançou a camisa e as abotoaduras, ele vestiu e sentenciou com autoridade:

– Não se fala mais nisso e pronto!

 

O baile (parte um)

O dia que o reitor passou a noite em claro. Claro! (Subtítulo)

Esta história se desenrola no tempo em que o ideal de beleza masculina era ter uma vasta cabeleira e usar calça boca de sino.

Observem a calça do maestro

A vida dos seminaristas tinha uma séria de altos e baixos, tinha o futebol, paixão de alguns, os trabalhos manuais, de outros, estudar, obrigação de todos, as aventuras de caminhada e pesca, algumas já narradas aqui, mas uma coisa era determinante, a ordem de ‘ficar longe das meninas’. Por isso a vida social se resumia nas atividades como a Juventude Interessada Pelo Próximo – JIPP, iniciativa da Irmã Alicia, as aulas  e o futebol. Nas aulas os meninos tinham oportunidade de se encontrar com as meninas e no futebol elas podiam apreciar as pernas nuas daqueles deuses gregos, os atletas. Mas assim, chegar mais perto, abraçar, etc. nem pensar. Logo o Baile era a grande oportunidade para todos.  Um baile, portanto, não é um acontecimento corriqueiro, muito menos no Braga e muito menos ainda organizado por uma equipe da qual fazem parte os seminaristas. Para organizar tal evento precisa-se de uma justificativa, que deve ser relevante socialmente e aceita por todos desde o mais tímido dos seminaristas até o mais exigente reitor, assim como também deve ser aceita na comunidade desde a mais sapeca das meninas até o mais exigente pai.

A justificativa

Desde os idos dos anos sessenta a banda para os desfiles patrióticos do Sete de Setembro era composta por um bumbo, uma tarola e uma caixa. Com o progresso do sistema educacional, que já incluía nas series do ginásio os jovens da cidade além dos internos do seminário, já não se admitia mais tão singela composição instrumental para os desfiles, daí a necessidade de aquisição de novos e variados instrumentos. Mas, de onde tirar o dinheiro? Um baile beneficente certamente daria solução ao impasse, e foi o que foi decidido. Um grande baile com os Montanari, no salão paroquial com a participação de toda, senão quase toda, a população do Braga. E assim foi feito.

O baile.

A grande maioria dos seminaristas, pelo menos os maiores de 14, 15  e 16 anos trabalhou intensamente o dia todo na organização, As meninas com a ajuda das professoras se desdobrou na decoração e ao cair da tarde já estava tudo pronto. A turma se dispersou e ficaram no salão apenas alguns encarregados da bilhetagem e da segurança, que já vieram mais tarde e devidamente vestidos. Os demais rumaram para casa para tomar banho, se perfumar, botar a roupa de missa e voltar pro salão com os pais ou acompanhantes. Os seminaristas, uns trinta, tinham um acompanhante só, o reitor. Ele ocupou uma mesa no canto do mezanino e, munido de binóculo, observava o comportamento dos pupilos. Algum tempo mais tarde ele me segredou que “Os meninos pareciam uns bezerros recém desmamados quando viam um decote mais ousado de uma menina ou senhora” na hora nem liguei mais tarde me perguntei se ele também não estava observando a mesma coisa.  O que me fascinou neste baile foi exatamente aquilo que não se podia fazer nem no futebol nem na aula. Para dançar, naquela época, a menina dava a mão esquerda, que era segurada pela direita do menino, apoiava a mão direita no ombro dele e ele apoiava a mão esquerda nas costas dela, acima da cintura e… bem, aí se movimentavam pelo salão no ritmo da música. Apesar das leis da física, em especial aquelas que dizem respeito a força vezes distância, as vezes a distância começava a diminuir, e era gostoso. É claro que o reitor observava tudo, certamente isso seria o tema do sermão na missa do domingo de manhã, que ninguém podia faltar mesmo que tivesse passado a noite no baile.

O mais tímido dos seminaristas observava tudo com atenção, mas lhe faltava coragem de procurar um par, ele era apaixonado secretamente por todas as garotas, a Margarete,  a  Olivia, a Maria Helena, a Terezinha, a Marlene, a Lurdinha, a Sueli, enfim uma imensa lista que ia do A até a Zenilda. Como eu disse faltava coragem para se aproximar de alguém, mas o clima do baile convidava os casais desfilavam dançando alegremente, o clima era contagiante até que ele se aproximou da flor que cresceu em meio às gramíneas (ela vai saber, para os outros fica o mistério) e convidou-a para dançar. Ele tinha sido baixinho até pouco tempo, ela tinha a altura ideal e a partir da primeira música que dançaram nenhuma lei da física podia separá-los, somente a decretação do fim do baile pelo reitor tirou os dois do devaneio. E é claro que veio um sermão no outro dia pessoal e intransferível.

É claro que o baile não podia ir até o clarear do dia pois os seminaristas, grande parte da equipe organizadora tinham que ir tirar uma soneca para não dormir na missa do domingo de manhã. O padre também já que ficou atento durante todo o baile, Mas o bom de ser da equipe organizadora é que sempre se podia ficar mais um pouco e depois acompanhar as gurias até em casa.

 

Titanic dos pampas

Este feriadão teria um novo sabor, desta vez íamos acampar no Rincão Reúno. Como de sempre foram escolhidos os treze “capitães de barraca”, a equipe da cozinha, a equipe de segurança, a da louça e finalmente designados os ocupantes de cada barraca.
Primeiro ato era revisar a barraca, cada grupo revisava a sua e verificava tudo até os mínimos detalhes, sempre faltava uma estaca ou gancho e era preciso providenciar com antecedência o substituto pois na hora do acampar não teria mais tempo para resolver nada. As listas de coisas para checar eram revisadas exaustivamente, nunca sobrava muito espaço para o improviso, exceto para o cascudo e o cientista louco, que sempre davam um jeito de fazer alguma improvisaçãozinha.

– Não vamos fugir do assunto, vamos para o Rincão Reúno, logo ali passando Campo Novo.

As recomendações quanto a montagem das barracas, a organização dos pertences pessoais como: roupas, calçados, apetrechos de pesca, algum jogo de tabuleiro, lanterna, ferramentas pessoais e por aí vai. Acessórios para o grupo como: bolas, raquetes, boias, algum outro acessório esportivo, lampiões, lonas para a cozinha, apetrechos de cozinha, comida, ferramentas básicas, etc. Tudo certo!

A seguir vinha uma prédica sobre questões de segurança e comportamentos desejados e esperados de cada um. Ah! E as regras:

  • Não nadar em local considerado perigoso, no açude tinha um lado que tinha árvores secas, era perigoso, a margem direita dom rio. Justamente deste lado da barragem é que ficava o mato que margeava a represa,

    Uma parte do açude tinha restos de árvores…

    o lugar melhor para a cozinha, as barracas-dormitório ficavam na outra ponta da barragem, na margem esquerda do rio, uma área gramada e onde o açude era mais raso e indicado para o banho. Toda esta margem do rio tinha casas e lavouras por isso o acesso para pesca se fazia pelo outro lado.

  • Não nadar à noite.
  • Não gritar socorro por brincadeira.
  • Não sair em grupos de menos de três pessoas, caso houvesse um acidente um ficava com o acidentado e o outro sairia para chamar socorro.
  • Cuidar de seus pertences pessoais e dos acessórios de acampamento individuais.
  • Não tocar a lona da barraca por dentro em caso de chuva.
  • Não entrar na barraca com calçado.
  • e mais uma série que não me lembro…

Assim na sexta-feira chegamos ao paraíso, o rincão Reúno.

Cada grupo armou sua barraca e tudo começou como o planejado mas…

Uma senhora que morava próxima a barragem, na margem esquerda, além de excelente remadora também simpatizou com a turma e deixou a disposição o seu caíque de fabricação caseira com um remo. O dito caíque podia transportar uns quatro seminaristas de cada vez, como sempre fui bom e matemática fiz logo o cálculo isto daria uns 12 grupos mais os padres e irmãos, suponhamos que alguns não quisessem navegar digamos seriam 10 grupos o que daria uma hora aproximadamente por grupo por dia. Mas a matemática de verdade não funcionava assim, logo começaram as disputas de quem andava mais ou menos, quem ficava mais tempo, quem sabia remar, quem tinha medo e a confusão se generalizou. Como não tinha regra porque isso não fora planejado começaram a surgir uns probleminhas.

Neste ínterim, o Cascudo, aficionado da arte da pesca e o cientista louco, que também gostava de pescar, mas amava o contato com a natureza se desgarraram da tropa, depois de lavar a louça do almoço, e foram armar espinheis e caminhar pela margem direita. Foram até o fim da represa, onde o arroio deságua nela para lá armarem seus espinheis. Um problema enfrentado era que um tinha que atravessar o arroio e depois segurando uma ponta do espinhel descer rio abaixo pela outra margem até um lugar propício para a atividade. Nestas idas e vindas uma surpresa – um caíque naufragado – num lugar relativamente raso.

– Será que dá pra tirar?
– Vamos tentar!

O rio era raso mas tinha uma grande camada de lodo no fundo. A primeira tentativa de entrar para içar o Titanic começou a dar problemas, mesmo arregaçando ao máximo as calças não dava. Nenhum dos dois tinha ido com roupa de banho o jeito foi mesmo se pelar e entrar no lodo, como era mato o lugar estava razoavelmente seguro para uma loucura destas. Puxa daqui, sacode dali e o dito se mexeu, em poucos minutos estava em terra firme e o melhor com um remo dentro.
Nos lavamos vestimos as roupas e fomos analisar as causas do naufrágio. A conclusão foi obvia e imediata. Uma fissura longitudinal no fundo do casco. O mais: amurada, bico de proa, assento de proa, balizas, hastilhas, assento de meia-nau tudo perfeito, apenas o assento de popa um pouco deteriorado.

– Não vai flutuar com esta rachadura.
– Será que podemos dar um jeito?
– Vamos ver o que temos de ferramentas e material…

Não era grande coisa de ferramentas, além da sacolinha pra carregar os peixes um canivete, um gancho de arame e a latinha de minhocas, material nada. Mas é aí que o conhecimento científico da natureza nos tirou do apuro. Tinha muito capim taboa nas margens do arroio, mas nenhum aglutinante. Das aulas de geografia do professor Rota lembrei das seringueiras que quando tem a casca riscada sai uma espécie de cola o látex, mas por aqui não tem seringueira. Daí começaram as suposições que árvore pode fazer o mesmo ou parecido? Logo veio na lembrança figueira, e tinha uma próxima ao barracão da cozinha. Ela vai ser a solução, enquanto o Clésio limpava com um pauzinho apontado o podre da fissura no casco, saí mato afora da cata da figueira e não demorou muito achei uma árvore bem nova, com a casca mole, muito boa para fazer os valinhos em V como os seringueiros. Uma meia hora depois e já esgotada a paciência já tinha uns 40 mililitros de leite de figueira na latinha das minhocas, voltei ao barco. Catamos folhas secas de capim e começamos passar o leite de figueira, esperamos até ficar grudento.

Capim taboa na margem do açude

Viramos o barco para colocar a palha de baixo para cima, pois é este o sentido da força de empuxo, aí quando o barco estivesse na água esta pressionaria para firmar mais ainda o capim da fenda. Algumas horas de trabalho e a nau estava pronta para navegar. Pena que não tinha nem uma cachacinha para rebatizar o caíque antes de lançar na água.

– Flutuou! Viva!
– Vamos embarcar primeiro um depois o outro, e aguardaremos um tempo para ver se não vai fazer água.

Aguardamos uns minutos e estava tudo Ok, resolvemos partir, agora relembrando as aulas de história resolvemos praticar a navegação de cabotagem, ou seja, ir seguindo pela margem da represa evitando lugares fundos ou que fossem longe da margem caso a nau afundasse. Apesar de ter que constantemente desviar espinheiros e gravatás fomos singrando mansamente por aproximadamente 15 minutos quando avistamos um pescador compenetrado na margem, o Paulo Roberto. Ao nos ver chamou-nos para a margem, atracamos e ficamos conversando por uns minutos quando ele pediu carona e foi logo avisando.

singrando docemente próximo a margem

– Vocês quebraram uma regra, estavam somente em dois se eu falar com o padre os dois estão ferrados por isso vou junto. (Na hora nem nos damos conta que ele também havia quebrado a regra)

O grande negócio é que agora tínhamos um caíque só para nós, poderíamos ficar o dia todo navegando, e assim foi feito navegamos pelo meio do açude sem se preocupar com a hora. Só que depois de algum tempo a água começou amolecer o látex e minar lentamente para dentro do caíque. Foi aí que a latinha de minhocas do Paulo mostrou sua utilidade e a composição da tripulação ficou assim: um remava, outro tirava água com a latinha e ou outro pescava. Como já era quase hora da janta fomos em direção ao ancoradouro das barracas para buscar os pratos. Pegamos os pratos e talheres, que eram guardados nas barracas, e já retornávamos ao barco quando o padre Guilherme nos abordou. Queria saber do barco, explicamos que tínhamos encontrado abandonado um pouco acima da cozinha, (omitimos que eram quase dois quilômetros) e que estava fazendo um pouco d’água por isso temíamos deixar nas mãos dos inexperientes. Certamente ele calculou que o caíque era igual o outro e que suportaria quatro tripulantes. Exigiu que o deixássemos embarcar, embarcou e rumamos em direção à cozinha.

Com mais peso a pressão do empuxo da água começou a forçar o capim da fenda e em pouco tempo a água começou a subir descontroladamente. O Euclésio estava no turno de tirar água, o Paulo remava e eu era o felizardo do turno que não durou muito tempo pois tive que começar a tira água com o prato. A esta altura já estava quase entrando água nos sapatos do padre que estava sentado na proa. Não tivemos outro jeito que pedir a ele que também ajudasse a remover a água de lastro pois estávamos afundando. Vendo a situação ele não teve dúvidas em ajudar. Para andar mais rápido me ajoelhei no fundo e comecei a remar com o prato. Neste meio tempo o Euclésio deixou cair a latinha na água, ainda faltavam uns trinta metros para atingir a margem.

Aí foi um “Deus nos acuda”. O Pulo remava que parecia um motor, eu no prato remava do outro lado desesperadamente, o Euclésio tirava água aos punhados e o padre tirava água com o prato e rezava. Acho que foi na fé dele que nos permitiu chegar a salvo na margem.

No outro dia de manhã revisamos o caíque e calculamos que somente podia levar dois tripulantes e um passageiro. Aí passamos o dia levando de um em um nossos colegas que tinham que tirar água enquanto nos divertíamos remando ou pescando.

 

A quarta série

Cada turma tinha suas particularidades esta foi a minha. Tenho que falar um pouco da foto.

Na foto: Antonio Begnini, Paulo Roberto Dias, João Breitenbach, Padre Guilherme, Gelso Segundo Guerra, Baltazar Carboni Cremonese, Albino Libório Soder, Leoclides Dalla Nora na fila da frente os baixinhos eu, em frente ao padre Guilherme e o Afonso Venzo. Observem que o Afonso é baixinho mas eu estou um degrau acima. Isto me colocava no dormitório dos pequenos mesmo sendo mais velho.

Enquanto os maiores se dedicavam aos namoros e ao futebol eu vivia com os menores: Petry, Rubens, Dimas, Leonildo, Euclésio, entre outros de outras turmas pelos rios e matos fazendo expedições de pesca, coleta de frutas, caça ou mesmo explorando locais para banho como a cascata do Gravatá, logo abaixo de Pedro Garcia. E fazendo grande aventuras de pesca como a caminhada até a barra do Gravatá para pegar apenas um peixinho e jogar de volta no rio. (Esta história precisa de detalhes pois não lembro totalmente da composição da equipe, me ajudem, eu sei que estavam o Petri e o Rubens, quem eram os outros?)