Meio round – Uma luta com estilo

Segundo a psicologia o indexador da memória são os sentimentos, talvez isto explique porque lembro de tanta coisa…

Era domingo à tarde dia 16 de outubro de 1967, eu estava no alto de um eucalipto, o terceiro da segunda fileira de cima para baixo, daqueles próximos ao campo de futebol atras do seminário. Andava de crista murcha pois a minha posição de marrecão foi assumida pelo Véio Careca e eu tinha passado a semana derrubando mato no recreio com o Jorge, o Gilberto, o Waldez, o Olívio e alguns outros que estranharam imensamente a minha companhia, pois eu era um pirralho, e eles estavam de castigo por causa dos namoros. Quando o padre José anunciou a lista dos ‘de castigo’ ninguém conseguiu imaginar porque eu estava nela, vou ter que revelar.

– Eu já estava na letra M fazia umas duas semanas que ajudava a Margarete, aquela deusa de cabelos pretos cacheados, porte alto, tez morena, a fazer os temas de matemática e esta proximidade me deu coragem de compor e mostrar a ela uma poesia, uma declaração de amor disfarçada.

– Vai te enxergar! Se eu quisesse criança tava embalando um bebê. Eu amo mesmo é o João Breitenbach que é teu melhor amigo só chego em ti pra chegar nele.

Nesta época eu era ainda baixinho, acho que estava com um metro e meio o João já deveria ter um e setenta e ela também.

– Tô me distraindo! Vamos voltar a história.

Epílogo (o que acontece no final)

Eu estava desenhando aqueles corações entrelaçados na casca do eucalipto com o meu L e o M agora da Maria Helena quando passou por baixo uma turma carregando um desacordado, sem camisa em direção à torneira da horta para molhar a cabeça. Comecei a descer e quando cheguei no chão vinha o Velho Careca com uma camisa dobrada no braço e umas abotoaduras na mão.

– O que foi primo?

Prólogo (O começo)

– Sabe como é o jogo né? o Comprido estava de fissaide (do inglês off-side, impedido em linguagem atual) e fez um gol, aí o Professor da Bossa (estávamos em pleno florescimento da Bossa Nova e por isso Bosssa e Moda eram sinônimos) se sentiu ofendido e ofendeu ele. Quando ele foi pra cima, pois é om brigão nato, o Professor fez um gesto de espera com a mão e o comprido ficou parado, como se fosse mágica. Neste momento eu estava chegando com a bola pra recomeçar o jogo e a turma me fez um sinal de pare tão forte que não consegui soltar a bola. Aí fiquei só olhando. O comprido impaciente fungava e esperava, o professor tirou as abotoaduras com todo o cuidado e depositou sobre o barranco na beira do mato, depois tirou com cuidado a camisa, dobrou e pôs junto às abotoaduras. Deu uns saltinhos de aquecimento depois uns ganchos de direita e esquerda no ar, como um lutador profissional e disse: – Venha!

– O Comprido foi com tudo num soco reto e desajeitado e o professor caiu desmaiado.

– Viu como eu também sei fazer rima – disse ele pra mim.

Felizmente o desmaio foi passageiro um pouco de água na cabeça curou o mal. Aí o Véio alcançou a camisa e as abotoaduras, ele vestiu e sentenciou com autoridade:

– Não se fala mais nisso e pronto!

 

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