Um sacristão no vinho

Ha alguns dias alguém lembrou das hóstias, do vinho e da capela. Pois bem! Tentei juntar uma série de fragmentos de memória para compor uma história bem interessante, já que alguém, o Lotário, lembrou de comer as aparas das hóstias e o Euclésio era louco por vinho. Eu gostava de arranhar as teclas do velho harmônio que estava no fundo da capela e graças a isso consegui meu primeiro emprego de sacristão.

Como eu era péssimo de futebol e já tinha lido quase tudo o que tinha na biblioteca comecei a frequentar, por minha conta e risco, a capela no recreio de meio dia. Meu objetivo era aprender a tocar harmônio e tinha que tocar bem baixinho para não acordar os padres que dormiam no prédio ao lado. Quando ouvia o apito do fim do recreio eu saia discretamente e ia por a roupa de trabalho, acontece que o apito também acordava o padre Edmundo, que levantava e ia fazer as suas orações na capela. Assim quando ele não esbarrava em mim saindo da capela, me via saindo da capela no final do recreio. Isso valeu a sua recomendação para que eu fosse o próximo sacristão, o escolhido para limpar a capela e organizar os paramentos, galhetas e outros itens necessário para as missas da noite. Em consequência disso tinha mais um turninho de trabalho na noite que era arrumar tudo de novo para as missas da manhã.

A capela era um lugar para meditação e oração – até na hora do recreio para alguns.

O trabalho consistia em varrer, tirar o pó dos bancos da capela e depois arrumar os paramentos, galhetas de água e vinho, hóstias, etc.  para o padre Henrique, numa sacristia, para o padre Edmundo noutra e para o padre Guilherme no altar central, para a missa do grupo, que na época era rezada à tarde. Depois da janta tinha que reorganizar tudo de novo, nas sacristias para os padres José e Lourenço, nas sacristias, e no altar principal para o padre Eduardo que rezava missa bem cedinho para as irmãs. A coordenação do trabalho era da irmã Virginia, que certamente por causa da minha referência, tinha a maior confiança no novo sacristão. A ponto de confiar a chave da cantina para que eu pudesse buscar o vinho sempre que necessário.

Um dia, sempre tem um dia nestas histórias, – Antes disso tenho que relatar que sempre que servido nas galhetas o vinho deve ser consumido senão estraga, por isso a recomendação era de servir sempre mais ou menos a porção que cada padre tomava para evitar desperdício. É claro que o resto do vinho nunca ia fora, o sacristão sempre cumpria religiosamente a árdua tarefa de consumir os restos para que não fossem desperdiçados. – Convenhamos! Que pecado era jogar fora aquele vinho rosê licoroso. Inicialmente aprendi a seguir as recomendações de quantidades ditadas pela irmã, de acordo com os usos do sacristão anterior o Edemar Guerra. Aos poucos comecei a acrescentar uns mililitros a mais, assim os resíduos eram maiores, em especial nas missas do padre Lourenço e do padre Henrique, claro que como bom sacristão eu não jogava fora os restos.

Ah! Mas um dia, uma das garrafas estava pela metade e a outra tinha um restinho, pus pro fundo do armário a que tinha metade e na frente a do restinho e quando a irmã Virginia perguntou:
– Commmo tá a carrraffa de finho?
– Tem ainda um resto aí.
Ela olhou e disse:
– Isso foce pote tomar e busca duas cheia.
Era tudo o que eu estava esperando ouvir, fiz o meu trabalho na maior velocidade possível, busquei as garrafas novas de vinho e depois me sentei no banco do harmônio com o restinho de vinho e comecei a fazer as duas coisas que mais gostava na capela – além de rezar, é claro! – tocar harmônio e beber vinho.

O problema é que me entusiasmei e comecei a pedalar com vontade. O padre Guilherme ouviu e veio ver o que estava acontecendo. Entrou pé por pé na capela e meio escondido atrás da coluna ficou me observando não sei por quanto tempo, felizmente eu tocava musicas sacras pois só tinha partitura delas. Quando fiz uma pausa para procurar outra partitura ele perguntou:
– Já terminou seu serviço?
– Sim! Hoje fiz mais depressa.
Acho que ele não viu a garrafa vazia e disse então:
– Está bom, mas não vá se atrasar para o estudo.
Só aí me dei conta que já tinha passado a hora da merenda…

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