O dia que o reitor passou a noite em claro. Claro! (Subtítulo)
Esta história se desenrola no tempo em que o ideal de beleza masculina era ter uma vasta cabeleira e usar calça boca de sino.
A vida dos seminaristas tinha uma séria de altos e baixos, tinha o futebol, paixão de alguns, os trabalhos manuais, de outros, estudar, obrigação de todos, as aventuras de caminhada e pesca, algumas já narradas aqui, mas uma coisa era determinante, a ordem de ‘ficar longe das meninas’. Por isso a vida social se resumia nas atividades como a Juventude Interessada Pelo Próximo – JIPP, iniciativa da Irmã Alicia, as aulas e o futebol. Nas aulas os meninos tinham oportunidade de se encontrar com as meninas e no futebol elas podiam apreciar as pernas nuas daqueles deuses gregos, os atletas. Mas assim, chegar mais perto, abraçar, etc. nem pensar. Logo o Baile era a grande oportunidade para todos. Um baile, portanto, não é um acontecimento corriqueiro, muito menos no Braga e muito menos ainda organizado por uma equipe da qual fazem parte os seminaristas. Para organizar tal evento precisa-se de uma justificativa, que deve ser relevante socialmente e aceita por todos desde o mais tímido dos seminaristas até o mais exigente reitor, assim como também deve ser aceita na comunidade desde a mais sapeca das meninas até o mais exigente pai.
A justificativa
Desde os idos dos anos sessenta a banda para os desfiles patrióticos do Sete de Setembro era composta por um bumbo, uma tarola e uma caixa. Com o progresso do sistema educacional, que já incluía nas series do ginásio os jovens da cidade além dos internos do seminário, já não se admitia mais tão singela composição instrumental para os desfiles, daí a necessidade de aquisição de novos e variados instrumentos. Mas, de onde tirar o dinheiro? Um baile beneficente certamente daria solução ao impasse, e foi o que foi decidido. Um grande baile com os Montanari, no salão paroquial com a participação de toda, senão quase toda, a população do Braga. E assim foi feito.
O baile.
A grande maioria dos seminaristas, pelo menos os maiores de 14, 15 e 16 anos trabalhou intensamente o dia todo na organização, As meninas com a ajuda das professoras se desdobrou na decoração e ao cair da tarde já estava tudo pronto. A turma se dispersou e ficaram no salão apenas alguns encarregados da bilhetagem e da segurança, que já vieram mais tarde e devidamente vestidos. Os demais rumaram para casa para tomar banho, se perfumar, botar a roupa de missa e voltar pro salão com os pais ou acompanhantes. Os seminaristas, uns trinta, tinham um acompanhante só, o reitor. Ele ocupou uma mesa no canto do mezanino e, munido de binóculo, observava o comportamento dos pupilos. Algum tempo mais tarde ele me segredou que “Os meninos pareciam uns bezerros recém desmamados quando viam um decote mais ousado de uma menina ou senhora” na hora nem liguei mais tarde me perguntei se ele também não estava observando a mesma coisa. O que me fascinou neste baile foi exatamente aquilo que não se podia fazer nem no futebol nem na aula. Para dançar, naquela época, a menina dava a mão esquerda, que era segurada pela direita do menino, apoiava a mão direita no ombro dele e ele apoiava a mão esquerda nas costas dela, acima da cintura e… bem, aí se movimentavam pelo salão no ritmo da música. Apesar das leis da física, em especial aquelas que dizem respeito a força vezes distância, as vezes a distância começava a diminuir, e era gostoso. É claro que o reitor observava tudo, certamente isso seria o tema do sermão na missa do domingo de manhã, que ninguém podia faltar mesmo que tivesse passado a noite no baile.
O mais tímido dos seminaristas observava tudo com atenção, mas lhe faltava coragem de procurar um par, ele era apaixonado secretamente por todas as garotas, a Margarete, a Olivia, a Maria Helena, a Terezinha, a Marlene, a Lurdinha, a Sueli, enfim uma imensa lista que ia do A até a Zenilda. Como eu disse faltava coragem para se aproximar de alguém, mas o clima do baile convidava os casais desfilavam dançando alegremente, o clima era contagiante até que ele se aproximou da flor que cresceu em meio às gramíneas (ela vai saber, para os outros fica o mistério) e convidou-a para dançar. Ele tinha sido baixinho até pouco tempo, ela tinha a altura ideal e a partir da primeira música que dançaram nenhuma lei da física podia separá-los, somente a decretação do fim do baile pelo reitor tirou os dois do devaneio. E é claro que veio um sermão no outro dia pessoal e intransferível.
É claro que o baile não podia ir até o clarear do dia pois os seminaristas, grande parte da equipe organizadora tinham que ir tirar uma soneca para não dormir na missa do domingo de manhã. O padre também já que ficou atento durante todo o baile, Mas o bom de ser da equipe organizadora é que sempre se podia ficar mais um pouco e depois acompanhar as gurias até em casa.

Gostaria de saber se Braga é uma localidade ou nome da Banda de baile, pois meu pai tinha um banda dos Braga e os meninos freqüentavam o seminário em Pareci Novo
Braga é uma cidadezinha no interior do RS perto de Três Passos, Campo Novo e Redentora onde tinha um Seminário onde estudei. A época destas histórias é quando a escola, que ia até a quarta serie do ginásio na época, foi aberta aos e às jovens da cidade. Imagine a confusão com os seminaristas…