Titanic dos pampas

Este feriadão teria um novo sabor, desta vez íamos acampar no Rincão Reúno. Como de sempre foram escolhidos os treze “capitães de barraca”, a equipe da cozinha, a equipe de segurança, a da louça e finalmente designados os ocupantes de cada barraca.
Primeiro ato era revisar a barraca, cada grupo revisava a sua e verificava tudo até os mínimos detalhes, sempre faltava uma estaca ou gancho e era preciso providenciar com antecedência o substituto pois na hora do acampar não teria mais tempo para resolver nada. As listas de coisas para checar eram revisadas exaustivamente, nunca sobrava muito espaço para o improviso, exceto para o cascudo e o cientista louco, que sempre davam um jeito de fazer alguma improvisaçãozinha.

– Não vamos fugir do assunto, vamos para o Rincão Reúno, logo ali passando Campo Novo.

As recomendações quanto a montagem das barracas, a organização dos pertences pessoais como: roupas, calçados, apetrechos de pesca, algum jogo de tabuleiro, lanterna, ferramentas pessoais e por aí vai. Acessórios para o grupo como: bolas, raquetes, boias, algum outro acessório esportivo, lampiões, lonas para a cozinha, apetrechos de cozinha, comida, ferramentas básicas, etc. Tudo certo!

A seguir vinha uma prédica sobre questões de segurança e comportamentos desejados e esperados de cada um. Ah! E as regras:

  • Não nadar em local considerado perigoso, no açude tinha um lado que tinha árvores secas, era perigoso, a margem direita dom rio. Justamente deste lado da barragem é que ficava o mato que margeava a represa,

    Uma parte do açude tinha restos de árvores…

    o lugar melhor para a cozinha, as barracas-dormitório ficavam na outra ponta da barragem, na margem esquerda do rio, uma área gramada e onde o açude era mais raso e indicado para o banho. Toda esta margem do rio tinha casas e lavouras por isso o acesso para pesca se fazia pelo outro lado.

  • Não nadar à noite.
  • Não gritar socorro por brincadeira.
  • Não sair em grupos de menos de três pessoas, caso houvesse um acidente um ficava com o acidentado e o outro sairia para chamar socorro.
  • Cuidar de seus pertences pessoais e dos acessórios de acampamento individuais.
  • Não tocar a lona da barraca por dentro em caso de chuva.
  • Não entrar na barraca com calçado.
  • e mais uma série que não me lembro…

Assim na sexta-feira chegamos ao paraíso, o rincão Reúno.

Cada grupo armou sua barraca e tudo começou como o planejado mas…

Uma senhora que morava próxima a barragem, na margem esquerda, além de excelente remadora também simpatizou com a turma e deixou a disposição o seu caíque de fabricação caseira com um remo. O dito caíque podia transportar uns quatro seminaristas de cada vez, como sempre fui bom e matemática fiz logo o cálculo isto daria uns 12 grupos mais os padres e irmãos, suponhamos que alguns não quisessem navegar digamos seriam 10 grupos o que daria uma hora aproximadamente por grupo por dia. Mas a matemática de verdade não funcionava assim, logo começaram as disputas de quem andava mais ou menos, quem ficava mais tempo, quem sabia remar, quem tinha medo e a confusão se generalizou. Como não tinha regra porque isso não fora planejado começaram a surgir uns probleminhas.

Neste ínterim, o Cascudo, aficionado da arte da pesca e o cientista louco, que também gostava de pescar, mas amava o contato com a natureza se desgarraram da tropa, depois de lavar a louça do almoço, e foram armar espinheis e caminhar pela margem direita. Foram até o fim da represa, onde o arroio deságua nela para lá armarem seus espinheis. Um problema enfrentado era que um tinha que atravessar o arroio e depois segurando uma ponta do espinhel descer rio abaixo pela outra margem até um lugar propício para a atividade. Nestas idas e vindas uma surpresa – um caíque naufragado – num lugar relativamente raso.

– Será que dá pra tirar?
– Vamos tentar!

O rio era raso mas tinha uma grande camada de lodo no fundo. A primeira tentativa de entrar para içar o Titanic começou a dar problemas, mesmo arregaçando ao máximo as calças não dava. Nenhum dos dois tinha ido com roupa de banho o jeito foi mesmo se pelar e entrar no lodo, como era mato o lugar estava razoavelmente seguro para uma loucura destas. Puxa daqui, sacode dali e o dito se mexeu, em poucos minutos estava em terra firme e o melhor com um remo dentro.
Nos lavamos vestimos as roupas e fomos analisar as causas do naufrágio. A conclusão foi obvia e imediata. Uma fissura longitudinal no fundo do casco. O mais: amurada, bico de proa, assento de proa, balizas, hastilhas, assento de meia-nau tudo perfeito, apenas o assento de popa um pouco deteriorado.

– Não vai flutuar com esta rachadura.
– Será que podemos dar um jeito?
– Vamos ver o que temos de ferramentas e material…

Não era grande coisa de ferramentas, além da sacolinha pra carregar os peixes um canivete, um gancho de arame e a latinha de minhocas, material nada. Mas é aí que o conhecimento científico da natureza nos tirou do apuro. Tinha muito capim taboa nas margens do arroio, mas nenhum aglutinante. Das aulas de geografia do professor Rota lembrei das seringueiras que quando tem a casca riscada sai uma espécie de cola o látex, mas por aqui não tem seringueira. Daí começaram as suposições que árvore pode fazer o mesmo ou parecido? Logo veio na lembrança figueira, e tinha uma próxima ao barracão da cozinha. Ela vai ser a solução, enquanto o Clésio limpava com um pauzinho apontado o podre da fissura no casco, saí mato afora da cata da figueira e não demorou muito achei uma árvore bem nova, com a casca mole, muito boa para fazer os valinhos em V como os seringueiros. Uma meia hora depois e já esgotada a paciência já tinha uns 40 mililitros de leite de figueira na latinha das minhocas, voltei ao barco. Catamos folhas secas de capim e começamos passar o leite de figueira, esperamos até ficar grudento.

Capim taboa na margem do açude

Viramos o barco para colocar a palha de baixo para cima, pois é este o sentido da força de empuxo, aí quando o barco estivesse na água esta pressionaria para firmar mais ainda o capim da fenda. Algumas horas de trabalho e a nau estava pronta para navegar. Pena que não tinha nem uma cachacinha para rebatizar o caíque antes de lançar na água.

– Flutuou! Viva!
– Vamos embarcar primeiro um depois o outro, e aguardaremos um tempo para ver se não vai fazer água.

Aguardamos uns minutos e estava tudo Ok, resolvemos partir, agora relembrando as aulas de história resolvemos praticar a navegação de cabotagem, ou seja, ir seguindo pela margem da represa evitando lugares fundos ou que fossem longe da margem caso a nau afundasse. Apesar de ter que constantemente desviar espinheiros e gravatás fomos singrando mansamente por aproximadamente 15 minutos quando avistamos um pescador compenetrado na margem, o Paulo Roberto. Ao nos ver chamou-nos para a margem, atracamos e ficamos conversando por uns minutos quando ele pediu carona e foi logo avisando.

singrando docemente próximo a margem

– Vocês quebraram uma regra, estavam somente em dois se eu falar com o padre os dois estão ferrados por isso vou junto. (Na hora nem nos damos conta que ele também havia quebrado a regra)

O grande negócio é que agora tínhamos um caíque só para nós, poderíamos ficar o dia todo navegando, e assim foi feito navegamos pelo meio do açude sem se preocupar com a hora. Só que depois de algum tempo a água começou amolecer o látex e minar lentamente para dentro do caíque. Foi aí que a latinha de minhocas do Paulo mostrou sua utilidade e a composição da tripulação ficou assim: um remava, outro tirava água com a latinha e ou outro pescava. Como já era quase hora da janta fomos em direção ao ancoradouro das barracas para buscar os pratos. Pegamos os pratos e talheres, que eram guardados nas barracas, e já retornávamos ao barco quando o padre Guilherme nos abordou. Queria saber do barco, explicamos que tínhamos encontrado abandonado um pouco acima da cozinha, (omitimos que eram quase dois quilômetros) e que estava fazendo um pouco d’água por isso temíamos deixar nas mãos dos inexperientes. Certamente ele calculou que o caíque era igual o outro e que suportaria quatro tripulantes. Exigiu que o deixássemos embarcar, embarcou e rumamos em direção à cozinha.

Com mais peso a pressão do empuxo da água começou a forçar o capim da fenda e em pouco tempo a água começou a subir descontroladamente. O Euclésio estava no turno de tirar água, o Paulo remava e eu era o felizardo do turno que não durou muito tempo pois tive que começar a tira água com o prato. A esta altura já estava quase entrando água nos sapatos do padre que estava sentado na proa. Não tivemos outro jeito que pedir a ele que também ajudasse a remover a água de lastro pois estávamos afundando. Vendo a situação ele não teve dúvidas em ajudar. Para andar mais rápido me ajoelhei no fundo e comecei a remar com o prato. Neste meio tempo o Euclésio deixou cair a latinha na água, ainda faltavam uns trinta metros para atingir a margem.

Aí foi um “Deus nos acuda”. O Pulo remava que parecia um motor, eu no prato remava do outro lado desesperadamente, o Euclésio tirava água aos punhados e o padre tirava água com o prato e rezava. Acho que foi na fé dele que nos permitiu chegar a salvo na margem.

No outro dia de manhã revisamos o caíque e calculamos que somente podia levar dois tripulantes e um passageiro. Aí passamos o dia levando de um em um nossos colegas que tinham que tirar água enquanto nos divertíamos remando ou pescando.

 

Caçadores de muçum

A vida no seminário do Braga tinha suas dificuldades, mas também proporcionou experiências incríveis, principalmente as que se relacionavam ao futebol, só para os bons de bola (minha posição no time era marrecão), às pescarias, à busca de pinhões ou outras frutas do mato para os aventureiros, os banhos de rio, as caminhadas, os passeios… nossa! isso vai dar um livro. Vou começar com o que eu sei das caçadas de muçum que o Antônio mencionou.

Uma atividade comum de sábados à noite, sempre começava com uma preparação cuidadosa. É bom que se deixe claro aqui que apesar de ser um animal aquático o muçum não se pesca, se caça. Pescar o muçum significa quase sempre perder o anzol ou ter que cortar a linha e refazer o atilho ou empate porque ele engole o anzol, aí complica tudo. Então a saída é caçar, e isso se faz à noite com lanterna (foque ou fox como se dizia na época) e facão. Outro artigo indispensável para uma caçada destas é uma garrafa de cachaça.

– Não! não é para embebedar os muçuns. Segundo a tradição ela dá uma coragenzinha e espanta o frio.

Voltemos aos fatos: facão, lanterna, um saco, roupa de noite, uma garrafa ou mais de cachaça, calçados compatíveis, ah! ia me esquecendo tem que ter um banhado, que por sinal também tem rãs, que podem ser caçadas com a mesma metodologia menos o facão. Banhado ideal era o do Braguinha, o pessoal descobriu isso na época da JIPP-Juventude Interessada Pelo Próximo, o movimento organizado pela irmã Geralda (Alicia) para visitar e ajudar famílias pobres a fazer horta e melhorar de vida. Bah! Isso também vai ter que ser escrito. Até valeu um interrogatório da Alicia pelos militares para terminar com o movimento considerado comunista. Tô divagando mas o foco é a caçada de muçum e o banhado ideal é o do Braguinha. Fica meio longe, mas com lanterna e cachaça se chega lá.

Para comprar os apetrechos necessários tinha que ser um GRANDE pois o Rebelatto não vendia cachaça pra piá. Como eu era baixinho nem pensar em ir comprar os acessórios necessários. Os grandes, dados a estas aventuras, eram o Antônio, o Nordeli, o Gringo entre outros. O segundo passo era convencer o padre Lourenço ou José, dependendo de quem era reitor, que a caçada tinha fins altruístas, tinha que repartir o produto da caçada com os outros.

Parêntesis ( tem também a história dos que estudavam em Três Passos e mataram uma lebre e um cachorro e prepararam pra repartir mas as gurias da cozinha misturaram e ninguém sabe quem comeu o quê, mas esta é outra história.) Fim do parêntesis.

Tudo resolvido a turma saía depois da janta e se lançava à aventura, algumas vezes até que se caçava um bocado. Na volta tinha que limpar os muçuns e as rãs quando se pegasse alguma. A metodologia era simples riscava a barriga do bicho, cortava a cabeça e tirava o couro inteiro puxando, as rãs tinha que enfiar um palito de fosforo na espinha para que não ficassem pulando. Depois se deixava tudo numa bandeja esmaltada na geladeira e é claro, no outro dia tinha carne de caça no almoço. E tinha que repartir com os da mesa, pois não se podia comer guloseima sem oferecer ao vizinho do lado.

Os detalhes das pescarias e caçadas nem sempre eram compartilhados…