Talvez o título correto fosse melhor “O reitor e as formigas”, mas “o vigário e as formigas” soa mais agradável aos acostumados com a lenda da “cigarra e as formigas”, mas essa não é uma lenda. Baseado em informações do professor Ademar.
O terreno há pouco doado pelo benfeitor e inolvidável amigo, Santo Pazzini, estava a ser desbravado pelos destemidos padres oblatos e seus seminaristas, era o começo de um grandioso projeto de construção de um seminário, mas sobretudo de uma leva de cidadãos conscientes e engajados na causa social de São Francisco de Sales. Os três prédios iniciais estavam concluídos o dos quartos dos padres com um sótão, dormitório dos meninos; a capela, no centro e o refeitório-cozinha-lavanderia onde também ficavam a clausura e dormitório das auxiliares.
Quando falei em desbravar era exatamente isso, na época o Braga era cercado de mato por todos os lados, o terreno do seminário tinha apenas a frente aberta o resto do terreno era mato. Com a chegada dos seminaristas nos anos 1956 e 1957 era preciso aproveitar o terreno para produzir alguma coisa que ajudasse na economia doméstica, uma horta era, no momento, uma opção que se apresentava como educativa e econômica. Os seminaristas aprenderiam o valor do trabalho e produziriam alimentos para si próprios, diga-se de passagem dois nobres objetivos.

Padres pioneiros da província alemã. Da esquerda para a direita atras Pe. Paulo Stray, Pe.Henrique, Irmão Marcos, na frente Pe Theodoro Syberichs, Pe Guilherme Wetzel, e Irmão Eugênio. O Ir. Eugênio é do primeiro grupo de alemães que veio para o Brasil, o Ir. Marcos do terceiro, os demais do segundo grupo. na época da foto já eram falecidos os pioneiros Alfredo Engeltinger e Antonio Paul
A divisão de tarefas acontecia mais ou menos desta forma: O padre Theodoro comandava a economia da construção o padre Henrique comandava a paróquia, o padre Paulo Stray era o reitor, o Irmão Mário, ainda piazote comandava a obra, o irmão Eugenio, o das abelhas, coordenava a horta, o irmão Fernando, que tocava violão com o violão nas costas, Nossa quantas lembranças… Mas não era esta história de desbravadores que eu queria contar, é a das formigas. Vamos a ela.
Com a ajuda da gurizada a horta começava a mostrar seus primeiros frutos e isso era muito bom, significava comida de qualidade na mesa, mas, sempre tem um mas, as formigas.
Bem já que as formigas são um personagem importante merecem pelo menos um parágrafo. Elas estavam acostumadas no mato onde as folhas caem naturalmente e ficava muito fácil para cultivar a sua horta. Claro! Formigas, em especial as saúvas, pertencentes à tribo Attini, têm hortas subterrâneas onde elas cultivam champignons, Leucoagaricus gongylophorus, o fungo que lhes fornece alimento. Para isso usam folhas poderes como adubo, mas com a derrubada dos matos elas tiveram que mudar seus hábitos e começar a procurar adubo para seus fungos por conta própria. Os matos agora ficavam um quilômetro ou mais de suas casas por isso a próxima opção era a de buscar o rico alimento cultivado pelos seminaristas na horta, disponível, macio de qualidade e por aí vai, já que a erva mate que sobrara do mato e os pinheiros não são uma boa opção. Imaginem que festa, uma dúzia de garotos e um irmão religioso cultivando uma horta só para elas… Epa! não era para elas, pelo menos este era o pensamento do reitor…
Da noite para o dia a horta fora colhida pelas formigas e o reitor entrou em pânico,
– Como estes bichinhos podem devastar tanto?
– Prrrecisamos contrrrolar estes bichinhos. Sentenciou o padre Paulo durante o jantar.
– Mas como não conhecemos nenhuma forma plausível. Retrucou o padre Henrique.
Humildemente o Irmão Mário explicou que entre seus conterrâneos de usava despejar a água da primeira fervura da mandioca, ainda quente, nos ninhos. Mas a opção se mostrou inviável pois as mandiocas que foram plantadas ainda não tinham raízes. Na época não existiam ainda os venenos e foi aí que o reitor teve uma ideia brilhante.
– Na naturreza (disse ele com aquele erre gutural característico) as forrmigas ten predadorres, temos que acharr um jeito de caçarr estes insectos.
Como a gurizada era fissurada em santinhos ele teve uma ideia. A gurizada podia caçar formigas no recreio e a cada cem formigas receberiam um santinho. Estipulado o plano e o preço, um centavo de santinho por formiga, logo a turma toda foi comunicada da decisão do reitor.
Foi assim que o terror das formigas começou: aqueles guris bonzinhos que estavam plantando comida agora revelaram a verdadeira intenção, era para fazerem as formigas prisioneiras, e pior, eles não tinham respeito nenhum, soldados, trabalhadoras, rainhas zangões, todos sem exceção começaram a ser feitos prisioneiros e em lotes de cem em cem eram vendiam para um gigante que as escravizava. Não! Não! Ele matava a todas realmente era uma guerra insana e mesmo com o exército de milhares de formigas não conseguiriam vencer aquele pequeno exército de seminaristas.
Enquanto a turma dos colegas do Ademar Andolhe, Pedro Kemmer, Wili Ferreira,João Carlos Guterres de Moura, Juvenal G. De Moura, Lennir da Rosa Gobi, Pedro Kronbauer, Jaime Kovalewki, Domingo Zandona, Abilio Kummel, Ereno Kaiser, Sergio Trentin, José M. Santi, Romeu Winkc, João Pedrotti e alguns mais que não me lembro, enchiam as páginas de seus cadernos com santinhos, a moeda de troca do padre Paulo. Quando o estoque de santinhos estava quase no fim e o reitor teria que começar a inflacionar as formigas eis que um general do exército usando uma tática especial começa a aparecer com mais e mais formigas a ponto do preço ir para mil formigas por santinho. Foi a ruína das formigas o José Santi passou a usar a tática do tamanduá, enfiava um talo de folha de mandioca no ninho das formigas e tirava alguns instantes depois com quase uma centena de formigas das grandes, os soldados. E foi assim que a população do reino das formigas foi dizimada, os estoques de santinhos de todos os padres foi quase a zero, teve até padre tentando passar aquelas notas (que não valiam nada) que tinham a figura de Santos Dumont como santinho, e o José passou a ser uma espécie de herói da horta.
Não sei se ele pagou os direitos autorais dos tamanduás, mas guerra é guerra.
Como diz o ditado:”cada um se defende com as armas que tem”..no caso dos padres:”os santinhos”..e as pobres formigas…