Medo e mistério

Começava o ano de 1967, se não me engano era dia primeiro de fevereiro. Eu estava de férias do seminário passando uns dias em casa. Sempre a gente tinha bastante coisa pra fazer mas na quarta feira terminava tudo mais cedo para poder fazer uma atividade social. Antigamente as quartas feiras era dia de CTG história já contada mas nesta época a gente começava a fazer as primeiras reuniões de jovens na Vila. Por isso eu terminei minhas tarefas mais cedo para aproveitar ao máximo a reunião onde iria contar algumas das muitas coisas aprendidas durante o ano, e rever a primaiada.

Saí de casa pelas seis e meia e nem peguei lanterna, contava com a lua que recém tinha sido cheia, eu iria com com a luz do ocaso e voltaria com a da lua. O que eu não contava era que o por do sol, que acontecera a alguns minutos, já não iluminava muita coisa e quando peguei o “direitão do tio Luis” estava escuro pra caramba. O direitão ficava logo depois da porteira e tinha à esquerda o “matinho do tio Luis” a direita um milharal e mais abaixo o banhadinho, a estrada ficava quase como uma picada. De um lado o mato, de outro o milharal alto, nas minhas costas um restinho de luz do ocaso e na minha frente escuridão total. Bem não era tão total assim, pois pude ver uma bola luminosa que descia a “subidinha do camboatã dos Oliveira” perto da casa atual do Dimas, e vinha em minha direção.

Como meus leitores já devem ter percebido eu sempre demonstrei coragem, mesmo que me borrasse todo. E aí começou meu drama psicológico. Estava ainda bem perto de casa e a bola vinha devagar, eu poderia correr e chegar em casa antes dela me alcançar. Mas o que ia dizer? Correr de uma assombraçãozinha fajuta. E se não fosse um assombro? Também tinha a questão de virar as costas pro ser de outro mundo que vinha, isso também era perigoso, o ser poderia acelerar e me alcançar facilmente. Decidi que iria sair do trilho e ficar do lado do milharal, qualquer coisa eu me enfiava nele. Só que tinha outro problema eu já tinha visto no verão algumas vezes a cobra de fogo, que hoje não me assusta mais pois sei que é um fogo fátuo, que aparecia no banhadinho que ficava depois da roça de milho.

A bola continuava em minha direção, flutuando a um metro do chão mais ou menos, e vinha pelo trilho do lado do mato. Menos mal eu estava no do lado do milho. A distância diminuía, agora já estava a uns setenta metros e eu estava tremendo. Comecei a caminhar mais devagar e a distância ia diminuindo. Bem! Pensei, se não acontecer nada até enfrentar a bola assim que cruzar ela largo a toda a velocidade até a vila e lá acho alguém para me acompanhar de volta. Quarenta metros e eu quase parado e a bola vinha, parece que ficava maior. Já estava caminhando na ponta dos pés pra não fazer barulho e quase no barranco da estrada pra passar o mais longe possível do assombro. Trinta metros! Vinte e cinco! Meu coração quase saindo pela boca e a bola não parava. Quinze! Dez! Cinco metros, foi quando pensei comigo: -É agora! Dispara correndo. Mas as pernas não se mexeram… Agonia total e a bola flutuando compassadamente em minha direção. E de repente o encanto se quebrou.
– Boa noite Seu! Reconhecia voz da dona Balbina que ia entregar uma trouxa de roupa para seu Donato. Ela carregava na cabeça uma enorme trouxa de roupas enrolada num lençol branco.

Espero que esta me ajude a escrever outras pois sei que ela assombrava muita gente, mas era um amor de velhinha.

Esta entrada foi publicada em Geral. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário