Esta história poderia ter uns quatro ou cinco títulos diferentes como “O facão e o fumo bravo”, “A mandioca e a azedinha”, “O polvilho e o biju”, “Chegar é fácil sair nem tanto”, dependendo do ponto de vista do narrador. Vou falar do meu, e da tafona do seu Facin (Fassini) que conheci quase no final de sua atividade, depois veio a do seu Artur, esta muitos conheceram. Os métodos de trabalhar nas duas era muito semelhante só que a do seu Fassini tinha uma característica muito peculiar, para chegar com uma carroçada de mandioca lá era muito fácil, para sair com um ou dois sacos de farinha era difícil, precisava duas juntas de bois na carroça. Vocês deves estar se perguntando porque. Primeiro vou falar da localização.
Do lado esquerdo do rio, na gruta, onde os rios se juntam. Isso mesmo, bem aí onde tem os banheiros, começava a valeta que levava água para a roda d’água da tafona, a valeta seguia em nível até a direção da curva do rio e depois tinha uma calha que ia até a roda que ficava quase na embocadura do arroio que vinha de lá dos Pegoraro. A estrada de acesso passava ao lado da casa do seu Ângelo e dona Olinda Fassini e despencava uns 40 metros em menos de 200 metros de percurso. Descer era moleza, sair de lá, tinha que pedir ajuda a Deus, ao Anjo, ao Santo e umas duas juntas de bois. Por favor não interpretem mal, Deus e os bois são criador e criaturas, logo não há nada de mal colocá-los juntos, o Anjo, também conhecido como Ângelo era o ser criativo que inventou uma especie de catraca para evitar que a carroça voltasse quando os bois tinham que dar uma descansada. O artefato funcionava ao contrário da travas dos carros de lomba, apontava para o chão e impedia a carruagem de voltar. O Santo (se não me engano faleceu recentemente) é claro era um dos carroceiros que tinha uma junta de bois excelente e era atrelada na ponta para fazer uma força extra.
Nesta época eu ainda morava no casarão do vovô na vila e os mandiocais eram nas terras que mais tarde seriam do Santo Trentin e do Tio Luis, quase em frente a morada do seu Peixoto, onde fui morar depois dos sete anos. A arrancação da mandioca era algo extraordinário, os adultos iam na frente arrancando os pés de mandioca e a criançada ia atrás com uma enxadinha tirando as raízes que ficavam na terra. Como a Mandioca era de dois anos crescia no meio dela o “fumo bravo” que davam três galhos numa forquilha bem exata a uns 80 centímetros do chão. Eles eram perfeitos para uma brincadeira. A gente se pendurava, uma criança em cada galho e o tio Anjo vinha com o facão e numa faconada certeira derrubava a arvoreta para ver para que lado caía. Como eu era pequeno quase sempre caia por cima dos outros. Quem se lembra desta brincadeira? Também por ficar dois anos parada a terra dava tempo das azedinhas, que cresciam pelo meio, darem batata, uma espécie de cenourinha branca quase transparente e doce, a gente limpava a terra e comia. Mas isso é assunto pra outra história.
Daí as raízes da mandioca-brava, aquela chamada prata, que a casca das raízes era branca e que grudava pouca terra iam para a carroça e com ela até a tafona. Lá uma série de mecanismos lavavam, tiravam a casca coriácea superficial, depois ralavam transformando tudo numa pasta, aí entravam as crianças de novo. A gente enchia um saquinho de algodão com aquela pasta e ia lavar no tanque do polvilho, lavava até sair toda a água branca e devolvia a pasta pro tanque que depois ia pro forno para secar.
Mas o que tinha de bom mesmo era o carolo torradinho, o carolo era o que sobrava na peneira da farinha, quase todo formado de fibras do pavio da mandioca e de pedaços de casca quebrados maiores e torrados, normalmente era usado pra alimentar animais. Mas a gente escolhia os mais gordinhos, os pedaços de casca torrados e comia com açúcar mascavo ou até mesmo puro. Era uma espécie de sucrilhos de antigamente. E tinha também o biju, era feito da pasta de mandioca moída com um pouco de açúcar e torrado numa frigideira untada de banha. O meu problema atual é que não consigo mais lembrar o que era mais gostoso dos dois. O certo é que só de pensar me dá água na boca.
Mais tarde os Oliveira também instalaram uma tafona, com um monte de tecnologias a mais. Isto significa que daí devem vir mais uma meia duzia de histórias. E por falar em Oliveira, tem uma história da vó Balbina que assombrou o tio Neni, quando ele ia ver a namorada…