O foguinho encantado da aroeira

Depois de penar por muitos anos jogando no banhado, o Ipiranga ganhou um campo patrolado. Não! não estou falando daquele do alto do morro, mas da época que foi patrolada a praça que se transformou em campo de futebol. Que belo tempo! Os que jogavam ocupavam o campinho da praça, ao norte atrás da goleira ficava o Bar do seu Vito, ao leste bem no cantinho, o salão de baile, que depois foi a casa da tia Santina, ao sul ficava o capim e no oeste a escola, a igreja e o timbozal. Que sombra boa!

A gente rezava o terço e depois os que jogavam iam pro campo e os outros ficavam olhando o jogo da sombra. E os maiores jogando prenda ou a criançada brincando nas tábuas da copa. Foi num destes domingos que conheci a Elenir Antunes. Num destes domingos cheios de atividade também, para fazer desfeita a uma menina da vila, me armei de toda a coragem que um tímido como eu pode arranjar e fui me misturar à torcida dos visitantes, o time de Tiradentes, onde conheci e ganhei o endereço da Inês Justina Polleto. Na época não tinha internet, telefone, Whatsapp, Facebook… enfim, se morava longe o jeito era namorar por correspondência. Nem vou falar nas confusões deste namoro até porque ela tinha uma prima com o mesmo nome e as cartas foram parar na casa da outra. O meu objetivo é falar da coragem…

Então vamos lá, a gente ficava na vila té quase o anoitecer depois ia para casa, a pé é claro! A gente ficava espiando pra todos os lados de medo de qualquer barulhinho ou outro sinal, ainda mais que a região é bem conhecida pelas aparições de fantasmas. Foguinho, cavalo sem cabeça, cachorro preto, cobra de fogo no banhadinho do tio Luis, cobra com azas, isso era comum. Normalmente estas aparições eram muito rápidas que a gente não tinha tempo de ver direito, mas o foguinho da aroeira…

Só pra situar os atuais moradores, se tiverem interesse em verificar se ainda ocorre o fenômeno. O foguinho aparecia na aroeira que tinha atrás da escola, no matinho onde a gurizada ia fazer xixi no final do recreio. No fundo do terreno da escola Roque Gonzales tinha uma patente com setor masculino e feminino, só que os guris não usavam. Quase atrás da patente tinha a famosa aroeira, nem de dia a gente ia muito perto, ela ficava quase onde é hoje a casa do Gaspar. Creio que o ano era 1962, recém tinha sido construída a Brizoleta, escola com duas salas de aula, a praça tinha sido aplainada com patrola o que fez com que o barranco da rua ficasse mais alto. Como eu era baixinho ficava quase na altura dos olhos. O que possibilitou para a criançada ver o foguinho, que antes ninguém sabia de sua existência. Ao cair da tarde, quando a gente vinha da rua que hoje passa em frente ao armazém do Mauri e dobrava para o lado da igreja, tinha em frente, ao lado da escola a aroeira contra o horizonte e a gente via um foguinho que cintilava. Só que este não era destes que a gente mal vê, se a gente ficasse parado o foguinho estava lá, podia chamar outras pessoas que também viam. Claro que a primeira vez que vimos quase morremos de medo e descemos correndo até o bar do Hércules para chamar algum adulto que pudesse nos acompanhar para casa.

Não lembro quem nos acompanhou, mas quando chegamos ao local a gente via o foguinho e os adultos não, foi aí que alguém teve a ideia de se abaixar. E não é que o foguinho tava lá! Bem no pé da aroeira. O corajoso disse que ia ver de perto mas para surpresa de todos os presentes quando a gente se aproximava o foguinho sumia. Assim a árvore que já tinha fama de causar alergia passou a ter um ar de mistério. Ninguém chegava muito perto dela em especial à noite. Muita gente viu o tal sinal misterioso até que lá por setembro desapareceu de vez. Mais tarde, numa segunda-feira de lua cheia, ou melhor na terça-feita a gurizada que ia fazer xixi no matinho achou a aroeira caída no meio de um baita buraco quadrado em degraus.

Alguns anos mais tarde consultei o Florinal e o Seu Chico Flores que eram especialistas em guardados de ouro mas não obtive nenhuma explicação lógica. No entanto a resposta mais plausível me foi dada pelo seu Domingos Lereno, especialista em triangulações. Segundo ele, verificando as direções e posições poderia ser o lampião da venda do seu Donato Rodrigues, onde hoje é a Santa Rosa, que ficava visível do local no inverno, pois a grande maioria das arvores do mato que impediam a visão eram timbós, que derrubam a folha nesta época. Infelizmente não foi mais possível confirmar a hipótese já que a aroeira já tinha apodrecido.

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