A semente – Minha primeira colheita

Quem viveu na vila Trentin certamente algum dia comeu feijão cor-de-rosa, aquele que ficava com o caldo grosso e era muito gostoso. Creio que até hoje ainda há quem plante daquela espécie, no entanto talvez poucos saibam da origem, de como a espécie foi parar na vila.

Para contar a história temos que voltar ao caminhão do tio José, aquele da história dos pinhões. O tio trabalhava fazendo fretes de tudo quanto era lugar e numa destas andanças foi passar um fim de semana na casa do sogro, o vovô Bôrtolo. Aí, no domingo o povo aproveitou para ir de caminhão para a missa dominical em Jaboticaba. Até aí nada de novo, na carroceria do caminhão cabia todo mundo e na época não havia legislação que proibisse carregar gente desta forma. Mas acontece que uma das passageiras era a Bazelides, detalhista, curiosa e amante da natureza ela encontrou uma meia duzia de uns feijões desconhecidos, uns cor-de-rosa e outros rosa e branco listadinhos. Logo chegou setembro e ela com o maior zelo plantou os feijões mágicos num canteiro especialmente preparado na horta. Para surpresa de todos já em janeiro estava colhendo quase um quilograma. A tentação de comer foi grande, mas como na época as refeições eram comunitárias na casa da vó, a quantidade não daria uma cozinhada, logo era preciso multiplicar mais.

Para quem observa a natureza sabe que a multiplicação de feijões se faz por um fator de aproximadamente 60 para um no cedo e 40 para um no tarde, ou seja plantando aquela quantidade em setembro, daria quase um saco e em fevereiro, um pouco menos. Só que para os que conhecem a natureza sabem que esta multiplicação somente á possível duas vezes por ano, por isso não valia a pena esperar o fator maior. Assim os feijões foram plantados novamente em fevereiro.

O local escolhido para o plantio foi um pouco adiante do erval da tapera do compadre Orêncio, ele era compadre da mãe, pois ela foi escolhida para madrinha de uma das filhas dele, assim como o pai e a mãe eram também padrinhos do Jesuis da Matilde, irmã do seu Orêncio, do Lorêncio (Lora) e da Ambrosina esposa do Jango (Forquilha). Estas famílias já eram moradoras do local antes da chegada dos Trentin. Tudo bem um pouco de história não faz mal, mas eu queria falar dos feijões cor-de-rosa e o local escolhido foi um pouco adiante do erval, mais ou menos no local onde mais tarde o tio Osvaldo construiria a casa, a segunda casa, não a da história da taquara furada, logo abaixo de um grande umbuzeiro e acima da fonte.

N o fundo à esquerda da foto pode-se ver os pés de erva-mate jovens na tapera do seu Orêncio

Os feijões, como quase todas as sementes são mágicos e nasceram e cresceram maravilhosamente bem, claro que o tempo ajudou, mas isso é só um detalhe. Só que lá por maio, quase na época da colheita, quando parte das vagens já estavam secas e parte quase prontas, outros moradores antigos que estavam fazendo provisões para o inverno resolveram bater na roça de feijões da Bazilides. Uma grande comunidade de formigas saúvas resolveu limpar as folhas e vagens verdes, levaram até alguns feijões, mas não foi muita coisa. Elas queriam mesmo as vagens e folhas e os feijões secos ou ainda inchados (louros) ficaram abandonados no chão. Dava dó de ver!

Mas como os grãos já tinham sido catados um por um uma vez na carroceria do caminhão não custava fazer a operação de novo, só que desta vez a quantidade já era digamos umas 2.400 vezes maior, para uma pessoa isto seria um longo trabalho, mas para quem tinha irmãs, primas, filhos e sobrinhos isso era uma brincadeira. E assim foi feito.

Tudo o que eu contei até aqui, me foi contado agora passo a narrar minha experiencia. Estávamos no final do café da manhã na sala de jantar da vovó, tomando chá-de-mate com leite e comendo pão com chimia sob a supervisão da nona Rosa que dizia o tempo todo “bevi mato tosi” ela chamava o chá-de-mate de mato. (um dia vou contar as histórias do cafe da manhã). Eu disse estávamos porque o café da manhã era com toda a turma, pelo menos os da tia Rosa, os da tia Irene e nós, os da tia Bides. Não lembro que anunciou a brincadeira do dia, que era ir juntar feijões, mas lembro que um pouco depois a turma toda, acompanhada de varias tias e primas cada um com sua latinha desceu a lomba costeando o mato da caixa d’água da usina até o alto da cachoeira grande e depois subiu do outro lado até o feijoal. Curiosamente não consigo me lembrar de nenhum dos outros participantes só da Bena. Acho que é porque ela tinha uma latinha igual a minha, era uma latinha de talco para criança. Uma latinha quadrada que tinha de lata só o fundo e as laterais de papelão, acho que era azul e branca, e até, se não me engano era cortada ao meio, um com a parte de baixo e outro com a de cima.

Adultos e crianças cada um com sua lata de cocoras, caminhando que nem sapo e catando os feijões esparramados, quando se enchia a latinha se despejava numa lata maior e assim foram colhidas duas latas de feijão. Agora sim! Dava pra fazer uma cozinhada e guardar semente para o plantio na próxima safra. Esta foi a minha primeira participação ativa em colheita, antes, no máximo, tinha roubado algum moranguinho na horta da vovó. Também acho que foi a primeira vez que fui explorado com o tal “trabalho infantil”. No entanto devo confessar que foi prá lá de divertido e eu teria feito outras vezes, o problema é que os adultos da época eram muito criativos e sempre inventavam uma brincadeira nova para as crianças, como por exemplo descascar milho com o Catarino, tocar os bois no engenho de moer cana, carregar lenha, picar laranjas para a chimia… Xiii! Agora acho que fui longe demais além de trabalho infantil periculosidade…

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