A Trilha

Trilha é uma palavra que serve para muitas coisas. Na nossa infância era um jogo muito interessante que se jogava com nove grãos de milho e de feijão cada jogador. Mas também tinha o evento de trilhar o trigo ou o feijão com a trilhadeira. A primeira trilhadeira que conheci foi a de seu Pompílio Pereira, aquele do guardado, era uma Tigre com cano extrator de palha, que servia para afastar a palha do ponto de trilhagem, o que possibilitava ficar parado num lugar e trilhar muitos sacos de trigo.
Para começar tenho que descrever o que era aquela maravilha da tecnologia, a trilhadeira.

Campos de trigo


Eu ficava encantado já antes da chegada da máquina. Na frente vinha aquele monstro mecânico cheio de polias engrenagens e correias puxadas pela primeira junta de bois, logo atrás vinha o motor numa carreta de duas rodas puxado por outra junta.
Uns anos mais tarde virou moda pendurar o motor a reboque da trilhadeira o que exigia uma junta de bois muito boa, foi por isso que o pai vendeu o Bonito e o Cruzeiro, para puxar a trilhadeira do Rossetti. Voltemos a história original.
A trilhadeira chegava e era estacionada próximo a pilha de feixes de trigo. Uma outra história é como era cortado, enfeixado e empilhado. Eu acompanhava tudo nos mínimos detalhes, primeiro o operador da máquina tirava um prumo que ficava numa caixinha do lado da trilhadeira e soltava ele livremente, ele tinha que apontar para uma ponta que tinha em baixo. Aí começava o processo de nivelamento. Em geral se cavoucava do lado da roda que estivesse mais alta até ela cair, então se verificava o nível e se cavoucava noutra até que o prumo e a agulha vertical ficassem perfeitamente alinhados.
Aí era a vez do motor, a operação era mais simplificada, mas neste caso os buracos eram para segurar o carro do motor no lugar. Se colocava a correia e depois pendurava uns pesos no cabeçalho da carreta do motor para mantê-la espichada. Uma lona ou pano de eira era colocado debaixo da bica de saída do trigo, o cano extrator de palha apontado para o mais longe possível e os operadores a postos para começar o trabalho.
O cevador subia numa plataforma perto da boca da máquina, para alcançar feixes sempre tinha uns dois auxiliares. Um piá ficava operando o cano para não deixar acumular muita palha no mesmo lugar. Duas latas de querosene eram colocadas na bica de saída, que eram duas, quando uma lata estivesse cheia o trigo era desviado para outra e a cheia despejada num saco para fazer a contagem, quatro latas por saco. Ao lado um costurador fechava a boca dos sacos para pôr na carroça.
O começo da operação era sempre rodar a manivela do motor para fazer pegar. algumas vezes um puxão na correia resolvia o problema do arranque e o motor começava o tup-tup. Acelerado o motor começava o jeque-jeque da trilhadeira que tinha sua força transmitida primeiramente para o cilindro que esmagava contra os pentes a palha para soltar os grãos. Aí tudo caia numa espécie de cocho com dentes que arrastavam a palha para traz e deixavam os grãos rolarem para frente, por isso tinha que estar bem nivelada, os grãos e a palha fina caiam na peneira que tinha por baixo uma espécie de ventilador que soprava as palhas para trás e deixava cair os grãos noutra peneira que por sua vez conduzia os grãos para a saída.
Cada peneira ou dispositivo tinha sua frequência peculiar isso que tornava o jeque-jeque uma sinfonia maravilhosa. A palha e as cascas finas que eram enviadas para trás da trilhadeira caiam num grande ventilador que soprava tudo cano a fora indo cair num monte de palha.
Depois desta trilhadeira vieram as sem cano que precisavam de um operador com forcado para retirar a palha pra longe.
Pensem comigo! O que poderia ser mais divertido para uma criança do que uma trilhagem? Um monte de gente reunida, uma máquina maravilhosamente barulhenta, o trigo sendo separado da palha e ensacado, brincar na palha depois? É claro que para manter o ritmo de trabalho de vez em quando circulava uma garrafa de purinha de boca em boca, e tinha que tomar no bico da garrafa porque não era viável copo em tais circunstâncias. Mas assim como a trilhadeira atraia as crianças a garrafa de canha atraia o velho Lora que nunca faltava a uma atividade destas nem que fosse para levar a garrafa pra lá e pra cá.
Vocês devem estar se perguntando porque esta história marcou minha infância. É que uma destas trilhagens aconteceu num dia que eu estava convalescendo. Nada de palavras difíceis, eu estava de cama e ainda com febre por conta de um prego que cravei no pé, nem podia caminhar, estava com uns sete ou oito anos.
A mãe estava meio adoentada e tinha sido marcada a trilha. Vieram os vizinhos tio Valdomiro e Albino para ajudar e a tia Iria veio ajudar a fazer comida para os trabalhadores. Eu chorava desesperadamente que queria ver a trilhadeira até que um anjo, a tia Iria, me pegou no colo e levou até atrás das bananeiras de onde se via a lavoura onde o trigo estava sendo trilhado.
É por isso que eu acredito em anjos, sempre vivi cercado deles…

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