Quem ri por último… (brincando de índio)

Desde o final de setembro até meados de março, quando o clima está quente, uma soneca após o almoço é sempre bem vinda. Mesmo porque com o calorão do sol a pino não é muito saudável trabalhar. Por isso nesta época do ano nossa vida tinha uma rotina diferenciada. A gente almoçava, tirava uma sesta, tomava chimarrão, tomava o chá das quatro e depois ia para a lavoura. Bem! Pelo menos era esta a rotina do pai, a nossa era um pouco diferente. Mas antes de falar dela devem ser esclarecidos alguns pontos.

Primeiro: tomar banho de barriga cheia dá congestão, é perigoso e pode matar, esta história é para mostrar como uma pessoa pode morrer ou quase por causa de um banho depois do almoço.
Segundo: enquanto os pais sesteiam as crianças ficam por aí, aos cuidados do anjo da guarda.
Terceiro: nem sempre os pais dormem enquanto dormem…
Quarto: pais são criativos, mas crianças saudáveis também são…

O horário do meio dia, no verão é bastante quente e um banho de rio é a melhor coisa para ativar o ânimo para ir trabalhar depois do chá das quatro, um costume inglês adotado pela família Trentin-Piovesan. A rotina de verão era mais ou menos assim: De manhã aula, almoço ao meio dia depois uma sesta, enquanto isso as crianças ficam por aí, depois cimarrão na sombra, conversa, o chá das quatro e ir para a lavoura, pois nesta hora o sol já está mais brando, trabalhar até uns quatro dedos de sol… e ir para casa tratar os porcos galinhas vacas, se lavar, ler um capitulo de um livro, jantar, rezar o terço e lavar a louça e finalmente dormir.

Vamos por partes, muita coisa vocês sabem mas algumas precisam de explicação. Certamente aula, almoço, sesta, cimarrão, sombra, conversa, o chá das quatro e lavoura todos sabem o que é. Vou começar pelos quatro dedos de sol, é uma forma de calcular a hora, assim, você estende o braço para o poente e dobra a mão em ângulo reto com os quatro dedos juntos e o polegar pra cima, se como dedo mínimo no horizonte você tapa o sol com o indicador da mão são quatro dedos de sol, se fosse com o dedo médio seriam três e assim por diante ate o dedo mínimo um dedo. Assim se calcula a hora e dá certo sempre e para todos porque quando se é criança e os dedos são menores o braço é mais curto, um sistema naturalmente automático.

Tratar os porcos galinhas e vacas fica melhor explicado na música “Dorme Isabela” uma composição minha, letra e música na voz do Ernesto Piovesan, da Luísa, que também fez o arranjo musical. Tenho que contar a história.

Quando a Isabela, da Leda, era pequena ficava o dia todo na minha casa e era muito apegada ao “tio Liliquinho fofinho”, eu, e sempre queria que eu cantasse para ela dormir. Eu ia cantando todas as cantigas de ninar que conhecia e sempre ela perguntava se eu já tinha cantado esta para outras crianças. Eu inocentemente respondia, esta eu cantava pra tia Lú, esta cantava pro tio Lade, ou esta eu cantava pra tua mãe ou ainda esta eu cantava pra Ana ela ouvia e adormecia. Tudo corria normalmente até que ela começou a cobrar se não tinha nenhuma que fosse só pra ela eu não tinha. Até que um dia, já de saco cheio resolvi dar fim ao problema, contei a história de nosso dia a dia de infância em forma de cantiga de ninar. Aí vai a letra:

Dorme Isabela
Cantiga de ninar gaúcha (marchinha)

(Clicando no nome poderão ouvir o arranjo com a voz do Ernesto.)

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

1 –       Devagarinho a bicharada silencia.
A passarada se recolhe pros seus ninhos.
A criançada vai cessando a gritaria.
E pouco a pouco se achegando pro ranchinho.

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

2 –       A Chaleira chia enquanto a mãe prepara o mate
O fogo arde no braseiro do fogão
Um piá resmunga e lá fora o cusco late
É o pai que chega com os bois no carretão.

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

3 –       Depois a cuia vai passando mão em mão
Um livro conta história que nos encanta
No lusco fusco duma luz de lampião
Enquanto a mãe lá no fogão prepara a janta.

/: O sol se vai. A noite vem
Dorme Isabela, dorme meu bem. :/

4 –       Depois da janta a criançada se acomoda
Pra cerimonia de encerrar aquele dia
Ajoelhados, debruçados sobre os bancos.
Rezando o terço na hora da Ave Maria.

/: O sol se foi. E é noite já
Dorme Isabela, pra descansar. :/

Ai criei outro problema, a música era comprida e eu as vezes não tinha paciência para cantar toda e deixava alguma estrofe de fora, ela reclamava – faltou a do braseiro ou faltou a do terço – e eu me obrigava a cantar a musica completa que ela ouvia atentamente até o refrão “pra descansar” e dormia como se tivesse sido desligada.

Agora é que vem a verdadeira história é “crianças ficam por aí”. As crianças Léo, Liceo e Leonildo só esperavam a mãe terminar a louça e ir sestear para debandar rumo ao rio para um reconfortante banho depois do almoço. O poço preferido era o dos pinheiros ou o da cachoeirinha que ficava um pouco mais abaixo no meio do mato. O banho tinha que ser pelado senão o pai e a mãe poderiam ver as roupas molhadas, mas no meio do mato não tinha problema. Então, roupas pro chão e tchabum, lá iam os três para a água. um pouco antes da hora do pai e a mãe acordar, voltar para casa como uns anjinhos para eles não desconfiarem de nada. Eu acho que foram os cabelos molhados que nos traíram…

Um dia… naquele dia quando saímos do banho e subimos a barranca do rio não encontramos as roupas. Bem! Foi só juntar cré com lé que concluímos que tinha sido o pai que recolhera as roupas e não precisava ser gênio para saber que ele levara para casa e provavelmente estavam no nosso quarto. Começamos a montar uma estratégia para reaver as ditas roupas. Primeiro era preciso chegar na casa, bem isso não era muito difícil de fazer escondido, tinha uns duzentos metros de mato depois uns cinquenta metros de mandiocal, que estava com uns cinquenta centímetros de altura, dava pra ir rastejando, depois as bananeiras, o arvoredo e o terreiro. Para chegar no quarto tinha que atravessar a cozinha onde a mãe estava, o jeito era esperar que ela saísse pra horta. Ficamos escondidos atras das bananeiras a espera, só que aí aconteceu um fato complicador, a Dorva chegou pra visitar o padrinho e a madrinha. Lá ficaram ela e a mãe de conversa, a mãe na cozinha e e Dorva sentada no degrau. Explico: a divisão da sala pra cozinha era só um degrau, a cozinha era de chão batido e a sala de assoalho que ficava uns vinte centímetros mais alto e formava um degrau muito bom pra sentar.

Leo Liceo e Leonildo
Os três protagonistas na frente da casa com a mãe

A frente da casa com o “carreto” da pra distinguir bem a porta da frente, a janela da sala e a do quarto do pai e da mãe. A porta da cozinha ficava à direita na parede lateral. Pode-se ver ao fundo as árvores de erva-mate, as mais altas e as laranjeiras, as menores Atras das laranjeiras ficava o bananal onde nos escondemos.

Com a chegada da visita complicou a coisa, tínhamos que encontrar uma saída. A saída foi convencer o Leonildo a se vestir com uma tanga de folhas de bananeira, entrar discretamente na casa pegar as nossas roupas, pular a janela do nosso quarto, que ficava nos fundos, e trazer as roupas pra nós que ficamos esperando nas bananeiras. Confeccionada a tanga, o indiozinho se pôs em marcha, entrou discretamente na casa, mas para chegar no quarto tinha que passar na frente da Dorva, aí é que aconteceu a verdadeira história.

O menino todo pimpão, de tanga e sem camisa, entra na casa e a visita logo percebe o inusitado:
– Que lindinho, brincando de índio!
A mãe não diz nada porque já imagina o que aconteceu ela sabe que as roupas estão no quarto e o pai já foi pra roça. Ele nem estava aí pros apuros da piazada pelada. Mas a Dorva não se conteve.
– Que gracinha.
E pegou na tanga de bananeira. O menino se assustou e deu um pinote deixando a tanga na mão da afilhada. Foi aí que ela percebeu que ele estava nu e começou a rir sem parar daquele jeito que só ela sabe fazer. Quase morreu de rir, por isso eu disse que banho depois do almoço pode matar. Acho que está rindo até hoje.

O menino pegou as roupas dele e dos irmãos, pulou a janela, se vestiram e foram pra roça. Aí foi a vez do pai rir…

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